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domingo, 1 de março de 2015

Série: qualidade de vida... (31)


Voz de Carlos Eduardo Pereira


A foto [de Maurício Assumpção] foi tirada porque a gente viu de um dia para o outro que foi danificada, não vimos por quem. Estamos também, para fazer justiça, incluindo as fotos de Edgard de Azevedo Neto e Jorge Aurélio Domingues. Já mandamos fazer os quadrinhos. Com o do Maurício, eu não vou gastar dinheiro agora. O clube está sem dinheiro para fazer esses quadrinhos. Como cada um vai pagar o seu e o Maurício está sumido, acho que o dele vai demorar mais um pouquinho.” – Carlos Eduardo Pereira, bendito presidente do Botafogo.

Botafogo 1x0 Flamengo: comentar o quê?


Não posso comentar o jogo. Há umas semanas, em Bissau, conseguia aceder aos jogos, mas desta vez, novamente em Bissau, não foi possível. Por vezes as redes são fracas em África e o acesso ao visionamento de jogos, difícil.

Mas hoje não interessa para coisa nenhuma comentar o jogo, porque hoje foi o dia de mais um marco ganho pelo Botafogo em cima do flamengo: 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro!

A bimbalhada repugnante da Gávea, que ia preparada para esmagar, silenciou uma vez mais. 20% calaram 80%. 20% engoliram 80%. Como sempre digo: a quantidade verga-se sempre á supremacia da qualidade.

E as dores da década de 1960 retornando. Depois de Loco Abreu e Jefferson brilharem, em 2010, em cima do goleiro assassino que ‘guardava’ o arco flamenguista, hoje, a vitória cabal no aniversário da cidade.

Agora só faltam mais 50 anos para eles tomarem, talvez, uma goleada no dia dos 500 anos da Cidade do Rio de Janeiro.

Todo o mundo defendendo o flamenguinho vitorioso no apito, na federação e no tribunal. E o ‘pobre’ Botafogo, por eles desdenhado, obviamente pela mesma raiva que Zico declarou ter em relação a nós, ganhando da escumalha mil vezes embandeirada em arco na imprensa maldosa, perniciosa e canalha.

Em todas as vezes que estive no estádio do Maracanã vendo Botafogo x Flamengo, nunca me apercebi da torcida flamenguista, a maior torcida muda do mundo. Parece que não estão lá até que o clube deles marque um gol. Geralmente roubado, evidentemente. Mas é assim que a canalha sabe saborear. Vencer limpo não tem sabor para eles. Na verdade, os urubus só gostam de carne putrefata.

É no aniversário deles, é no aniversário do Zico, é no aniversário da cidade. É na bola e só na bola. É fazê-los arrecadar, envergonhados, as medalhas comemorativas do recorde de invencibilidade que estavam prontas para premiar os 'futuros' recordistas da maior série de jogos sem perder, a quem o Botafogo derrotou e lhes impediu o recorde. Ah… se não fossem irmãos gêmeos destas arbitragens despudoradas, inéticas e falaciosas, que seria deles?

E o Bassols não pôde anular um gol rematado do meio da rua, que bateu na trave e que as costas do goleiro fizeram estufar o véu da noiva para a vitória dos gloriosos.

A esta hora estará a ser consolado pela família do seu desaire em campo hoje.

Comentar o quê?

Que há um ano tínhamos um presidente canalha? Uma turma da praia destruindo o Botafogo e o patrimônio do Botafogo com o respaldo do chefe presidencial?

Que tínhamos um treinador e outro em marcha tão absurdos quanto a escolha que fizeram em serem treinadores de futebol sem a mínima qualidade, rondando o QI 50 da escala da inteligência?

Que tínhamos um gerente de futebol que em vez de governar acendia fogueiras gratuitamente devoradoras de quaisquer entendimentos?

Que tínhamos uma cambada de ordinários em campo esturricando a camisa do Botafogo, enxovalhando a camisa do Botafogo?

Que ainda tínhamos que levar com torcedores baba ovos, que não enxergam um palmo de discernimento à frente do nariz, envergonhando uma torcida genericamente de elite, bem pensante e melhor discernente?

Comentar o quê?

Que hoje temos, ao fim de seis anos, um Botafoguense de regresso à cadeira presidencial, secundado por um vice até agora irrepreensível, e ambos resolvendo todos os problemas que a corja de vigaristas lhes legou?

Que temos um treinador com carácter enquanto homem e bastante mais evoluído do que outrora no que respeita à qualidade técnica?

Que temos um gerente de futebol que, surpreendentemente, sem dinheiro, discreto e na sombra, montou um time mediano, mas muito honesto?

Que temos hoje atletas que se doam em campo? Que têm sentido coletivo? Que percebem que não são craques e que têm que trabalhar para brilharem, porque há muitos craques preguiçosos sem sucesso e muitos atletas medianos cheios de títulos fruto do seu trabalho afincado e persistente?

Que hoje já não ouvimos a voz dos torcedores babacas que desapareceram subitamente das redes sociais no fim do campeonato carioca de 2014, que anularam as suas contas em redes sociais e que se remeteram envergonhados ao anonimato total e absoluto de onde nunca deveriam ter saído?

Não, não vale a pena comentar nenhum ‘quê’ do jogo.

Vale a pena relembrar o que li hoje sobre os babacas da Gávea que, em certa rede social, diziam querer mostrar um vídeo aos botafoguenses, mas que não tinham encontrado nenhum.

Pois não. Eles estavam no Maracanã, ou em casa ligados à TV. Os flamenguistas que não estavam nas bancadas estavam compondo o trio de arbitragem, os narradores da rádio e os locutores da TV, os dirigentes federativos e os juízes do tribunal desportivo. Os demais estavam roubando as casas de gente séria, as carteiras de gente trabalhadora e em alguns casos a vida dos outros.

E todoseles perderam de um time que ‘não existe’, apoiado por uma torcida ‘imaginária’. A babaquice dói; não por eles, que merecem o vácuo, mas pela espécie, que se sente envergonhada deles.

Pois… Comentar o quê?

FICHA TÉCNICA
Botafogo 1x0 Flamengo
» Gol: Thomas, aos 82’
» Competição: Campeonato carioca
» Data: 01.03.2015
» Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
» Público: 44.329 pagantes
» Renda: R$ 2.129.865,00
» Árbitro: Péricles Bassols (RJ); Assistentes: Dibert Pedrosa Moisés (RJ) e Rodrigo Henrique Corrêa (RJ)
» Disciplina: Roger Carvalho e Gilberto (Botafogo); Bressan e Wallace (Flamengo)
» Botafogo: Jefferson; Gilberto, Renan Fonseca, Roger Carvalho (Diego Giaretta) e Carleto; Marcelo Mattos, William Arão, Thomas e Diego Jardel (Sassá); Jobson (Gegê) e Bill; Técnico René Simões.
» Flamengo: Paulo Victor; Léo Moura, Wallace, Samir (Bressan) e Pará; Jonas, Márcio Araújo e Canteros; Gabriel (Arthur Maia), Alecsandro (Eduardo da Silva) e Marcelo Cirino.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Artefatos (39)


De avô para neto ou o ‘circo’ perdido nas brumas da memória… (6)

por PEDRO ARÊAS, 25/08/2014

Por fim, meu neto, em nosso time titular, faltou o 7. O 7 em nosso Botafogo é um número repleto de misticismo, contraria a matemática ou qualquer pensamento exato, vale mais que milhares de 10. Alguns bons craques vestiram nosso 7, mas o responsável pela bagunça gerada na ciência do raciocínio lógico, pela inversão dos valores matemáticos, pela queda de elementos óbvios, foi Manuel Francisco dos Santos, ou Mané Garrincha, ou Garrincha, ou Mané, ou o Anjo das Pernas Tortas, ou a Alegria do Povo. Alegria. Povo. Digo de boca cheia, o maior palhaço de todos os tempos.

Ele não foi apenas um ser, foi vários Manés ao mesmo tempo, multiplicava-se, encarava sozinho 4, 5 ou até 6 adversários em uma jogada, como se fosse um dançarino, entortava os tontos Joões enfileirados, que elaboravam minuciosas estratégias de coberturas para tomar-lhe a bola e, invariavelmente, acabavam deitados na grama aturdidos, como quem leva uma torta na cara. Por consequência de uma poliomelite, correu o risco de não se tornar palhaço, teve suas pernas deformadas pela doença e quase não subiu aos picadeiros. Que piada sem propósito, hein, destino? Palhaçada ao avesso. Mas sejamos justos, o destino amadureceu, tomou vergonha na cara e se recompôs, deu tempo ao menino, que pouco mais tarde driblou o próprio destino, quanta ironia! Driblou o preconceito. Driblou médicos e fisioterapeutas. Driblou tudo e todos. Foi vetado em vários clubes até ser aprovado pelo Nilton Santos em nosso circo alvinegro, que tantos astros heterogêneos sempre abraçou.

Foi motivo de risadas pejorativas pelos quatro cantos. Com talento, fez essas risadas sem graça tornarem-se alegres. E aí foi só deboche. Zombava dos Joões com maestria, driblava adversários na ida e na volta, entortava marcadores, enganava narradores, gozava a vida feito uma criança levada, lotava estádios, fazia estripulias, arrancava gargalhadas e suspiros. Enlouquecia até o técnico do próprio Botafogo, que gritava em certo momento, Garrincha, faz o gol logo, chega de brincadeira... justamente quando Mané conduzia a bola até a linha do gol adversário, dava meia volta e reiniciava os dribles e as piruetas. Palhaço. Mágico. E.T.

Adversários de seleções de outros países o chamaram de Extra Terrestre em 1962. E era realmente. Atuando ao lado de Pelé, jamais foi derrotado vestindo a camiseta da seleção brasileira. E assumindo a responsabilidade na ausência do mesmo, contundido, colocou um mundialito no bolso. Aprontou no Chile. E perguntou após o apito final da grande final, se não haveria segundo turno, como no campeonato carioca. Que coisa sem graça, né Mané? Acabar a brincadeira assim, com tantos turistas querendo ainda admirar suas palhaçadas.

Que porre! Gostava mais de brincar descalço em seu preferido picadeiro de terra batida em Pau Grande rodeado por amigos do que nos luxuosos gramados europeus. Foi tema de livros, filmes, contos, lendas, histórias, etc. Para entender bem sobre o Mané seria necessário mais que um curso de graduação, seria necessário mestrado, doutorado, etc. Mas como a hora do seu almoço está chegando, necessito sintetizar minha narrativa meu Neto. Peço licença à poesia, cito uns dos maiores escritores desta nossa desmemoriada pátria amada, Carlos Drummond de Andrade:

Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.

Fantástico! Fantástico! Fantástico! Fantástico! Fantástico! Fantástico! Sete vezes, Fantástico!

Nesse caso, não posso fazer nenhuma analogia com outros artistas de circo, porque o Garrincha era o próprio palhaço, o maior deles. Garrincha é Botafogo e Botafogo é Garrincha. E, meu Neto, isso sem citar outros três ou quatro times de selecionáveis palhaços que poderiam entrar nesta lista, mas como tive que escolher 11 titulares, infelizmente fui injusto com uma outra centena de artistas alvinegros. O diretor deste espetáculo? Ahhhhh… João Alves Jobin Saldanha, ou João Saldanha, ou João Sem Medo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Artefatos 38


De avô para neto ou o ‘circo’ perdido nas brumas da memória… (5)

por PEDRO ARÊAS, 25/08/2014

Número 7: Bom, meu Neto, esse vou pular por enquanto, porque é demasiado complexo te explicar que um 7 vale mais do que milhares de 10. Mas calma, chegaremos lá.

Número 8: Gérson de Oliveira Nunes, ou Gérson. Canhotinha de Ouro, fazia lançamentos de longas distâncias com precisões cirúrgicas, como o mágico que arremessa o homem bala dentro de seu alvo sem titubear. Cadenciava o jogo como poucos, corria pouco e fazia a bola rodar com qualidade. Jogava muito! Também chamado de Papagaio pelos amigos, porque dentro de campo era uma espécie de técnico, falava pelos cotovelos o rapaz. E fumava também o rapaz, e como fumava, inclusive nos intervalos dos shows. Fez uma propaganda para uma marca de cigarros que lhe rendeu muita dor de cabeça. Uma espécie de Carequinha. Fantástico!

Número 9: Túlio Humberto Pereira Costa, ou Túlio Maravilha. Um dos mais engraçados palhaços deste planeta. Era para ser nosso 7, mas a concorrência histórica é desleal. Esse caçoava dos adversários, mas caçoava mesmo. Provocador. Irreverente. Sem papas na língua. Dizia que ia fazer um número X de gols em uma partida e fazia, a bola batia em sua canela, em sua mão, em seu peito, em seu joelho, na trave, no travessão e aos 44 do segundo tempo cumpria a promessa. Que maravilha! Fez graça de todas as possíveis formas. De pé direito, pé esquerdo, cabeça, ombro, coxa, canela, joelho, calcanhar e bicicleta. Foi artilheiro do Brasil em três edições. Rodou o Brasil fazendo à alegria das plateias, porque era desengonçado, desajeitado, mas metia muito gol. Fez mais de mil piruetas em sua carreira, sem ligar se eram feias ou bonitas, pura arte. Uma espécie de Arrelia.

Fantástico! Número 10: Heleno de Freitas, craque! Advogado formado na UFRJ, boêmio toda vida, mulherengo, brigão, lutador, raçudo, galã de novela, Gilda. Gilda, apelido dado pelos amigos do Clube dos Cafajestes fazendo analogia à atriz norte-americana Rita Hayworth por conta de seu temperamento e fisionomia no filme homônimo. Jogava tanto quanto arrumava confusões, era manchete de jornal tanto pelas atuações em seus espetáculos quanto pelas incursões pelas madrugadas. Atacante finalizador, 209 gols em 235 partidas pelo Botafogo e 19 gols em 18 jogos pela seleção brasileira, tá bom ou quer mais? Uma espécie de Pierrot Elitizado. Fantástico!

Número 11: Jair Ventura Filho, ou Jairzinho. Furacão da Copa de 70. Furacão?!... Porque bagunçou times adversários, devastou telhados, arrancou árvores, entortou alicerces, envergou colunas, abalou sólidas estruturas, desarrumou palácios. Fez gol em todos os sete jogos do mundial até levantar a taça. Único na história. Único. Era para ser nosso 7, mas a concorrência histórica é desleal. Chegou ao nosso Glorioso na Era de Ouro, foi gandula nos treinos dos profissionais, viu desfilar alguns craques que estou a citar neste texto. Prestou bastante atenção. E aprendeu. Aprendeu bem. Intrometeu-se aos poucos nos profissionais e foi um dos melhores de todos os tempos. Brincava com sua explosão, era o próprio homem bala. Gérson lançava e ele concluía o número com maestria. Fantástico!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Artefatos (37)


De avô para neto ou o ‘circo’ perdido nas brumas da memória… (4)

por PEDRO ARÊAS, 25/08/2014

Número 6: ELE, um dos palhaços mais fascinantes que já pisou nos picadeiros mais distintos desse planeta. Nílton dos Santos, ou Nílton Santos. Fidelidade. Só Fogão e Seleção.

Entendia tanto da arte, possuía tanto conhecimento acerca do entretenimento, que fora apelidado de ‘Enciclopédia do Futebol’. Uma espécie de sigam o mestre. Pessoa versada em muitos ramos do saber. Frases sensacionais marcaram sua obra, sua trajetória:

Seja bem-vindo, mas não fale mal do Botafogo.
Tem gente que gosta de complicar, mas o futebol é simples, quem não sabe jogar vai para o gol, e o dono da bola é o centroavante.
Não invejo os laterais de hoje pelo dinheiro que ganham, mas pela liberdade que tem para atacar.
Na minha época os dirigentes entravam no vestiário e diziam: já sei que vocês vão ganhar, eu só quero saber de quanto.
Minha única cirurgia na vida foi de amígdalas, nunca machuquei os meniscos porque nunca dei carrinho.
Eu não bico à bola.
Era hilariante o desmanche que o Mané fazia por ali, coitados dos russos.

E inspirou muitos escritores, como Armando Nogueira, jornalista e amigo: Tu, em campo, parecia tantos, e no entanto, que encanto! Eras um só, Nílton Santos. Didi, craque citado anteriormente: Se eu e Nílton estivéssemos no Mundial da Inglaterra, não haveria aquele fiasco. Aquela gente ia ver quem tinha gasolina no tanque.

E o Rei do Futebol, grande Pelé, ajoelhou-se: Eu tenho uma lembrança que jamais esquecerei: quando fui convocado para a Copa Roca em 1957, eu tinha 16 anos. Depois dos conselhos do meu pai Dondinho, o Nílton Santos foi o jogador que, com mais experiência, antes do treino me chamou e me encorajou para que eu não tivesse medo e jogasse o meu futebol. Depois estivemos juntos por vários anos na seleção brasileira, e ele continuou dando conselhos e eu no próximo ano acabei me tornando o mais jovem campeão do mundo. Além dele ter sido um craque ele foi um grande exemplo e eu serei eternamente agradecido pelo que ele fez por mim.

Foi eleito o maior lateral esquerdo de todos os tempos por quem entende um bocado desta arte. Lateral esquerdo. Esse inovou de verdade. Em 1958 diante da Áustria, pelo mundial, pegou uma bola em sua defesa e saiu driblando albinos adversários zonzos, contrariando inclusive seu treinador Feola.

Os laterais não passavam do meio de campo na época, faziam uma linha de 4 fixa em sua defesa, e esse gênio da bola surpreendeu a todos até estufar o filó austríaco e os europeus ficarem se olhando com o lábio inferior caído, com ar de demência, com cara de ‘valeu esse gol? Isso pode na regra do futebol?’. Pode sim, o Nílton acabou de inventar esse truque. E que truque!

Outra passagem fabulosa foi na copa de 1962 em um jogo duríssimo contra a Espanha em que ele atinge um atacante espanhol dentro da área cometendo uma penalidade máxima, repara o árbitro a quilômetros de distância, não reclama nem levanta os braços acusando-se o autor do crime, apenas dá um passo discreto e fugaz para frente e mostra que foi fora da área. Até os espanhóis quando chegaram perto botaram fé que o lance aconteceu do outro lado da linha, que foi apenas uma falta distante. Ludibriou a plateia e os artistas em campo como em um passe de mágica. Ilusionista. Contava que ficava muito triste quando via um companheiro de profissão tratar à bola por senhora, madame, vossa senhoria, vossa excelência, ela tinha que ser tratada carinhosamente por meu amor, minha vida, minha amada, meu chuchu, deve-se ter sensibilidade e intimidade com a redonda! Também foi o responsável pela contratação de um Mané pelo Botafogo, treinou uma vez contra o jovem e sentenciou para a diretoria: Ele me deu um baile, escalem-no como titular do nosso time, não quero enfrentá-lo de novo.

E foi atendido, claro! Fantástico! Nílton Santos é Botafogo e Botafogo é Nílton Santos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

De avô para neto ou o ‘circo’ perdido nas brumas da memória… (3)

por PEDRO ARÊAS, 25/08/2014

Número 2: Josimar Higino Pereira, ou Josimar, sim, sim, ele mesmo, negão beiçudo que era uma comédia, amava os espetáculos noturnos mais que os diurnos ou vespertinos. E como admirava uma marvada e um perigoso talco branco pra passar no rosto, no nariz, etc. Fazia de moradia seu Escort XR3 conversível amarelo, endereço sem CEP fixo, como os caminhões circo, que invadem cidades pelo interior trazendo esperança. Colocou Carlos Alberto Torres no banco por conta de sua hilária e conturbada trajetória, era muito mais engraçado, fez dois gols antológicos em 1986. Estava sempre em noticiários esportivos ou não, sorridente ou não. Uma espécie de Antônio Carlos, ou Mussum. Fantástico!

Na zaga, equilibristas e domadores da maior qualidade, tinham a finalidade de desarmar outros artistas, mas o faziam de forma elegante e alegre, como Dedé Santana e Sargento Pincel. Números 3 e 4: Três, Sebastião Leônidas, ou Leônidas, um dos primeiros a fazer a linha de impedimento, inovação para sua época, zagueiraço! Classudo. Esteve no jogo em que a seleção brasileira, foi representada pela nossa trupe em 1968 e sapecou um 4 a 1 na Argentina. SELEFOGO. Apesar de toda melancolia contida nos tangos, deu para divertir brasileiros e até argentinos nesse dourado espetáculo. Fantástico!

Nosso quatro foi Mauro Geraldo Galvão, ou Mauro Galvão, se equilibrava em qualquer corda ou fita, e pela sua liderança natural, equilibrava o restante do elenco sem auxílio de varas de bambu, canos, madeiras ou porretes. Categoria, muita categoria em suas atuações. Fantástico! Número 5: Valdir Pereira, ou Didi. Um dos maiores e mais elegantes meio campistas da história. Quase perdeu a perna aos 14 anos por conta de uma infecção, imagina, que piada sem propósito, hein, destino? Palhaçada ao avesso. Mas sejamos justos, o destino amadureceu, tomou vergonha na cara e se recompôs, deu tempo ao menino, que pouco mais tarde criou a Folha Seca, técnica que consistia em bater na bola de forma diferenciada em cobranças de falta. Utilizava o lado externo do pé para fazer a pelota girar sobre si mesma, alterando sua trajetória natural. A bola ganhava altura e descaía de maneira ligeira próxima ao alvo, surpreendendo adversários. O efeito final era de uma folha caindo de uma árvore, alternando sua direção num vai e vem descompassado. Dentro da rede, claro! Tentaram copiá-lo, em vão. Houve um episódio clássico na final do mundial de 62, quando o Brasil levou, aos 15 minutos, um a zero da fria Tchecoslováquia. Segunda vez que o escrete brasileiro saía atrás do placar no torneio. Mas final é final. Desespero? Nada, pegou a bola dentro do gol e tranquilamente a conduziu ao círculo central caminhando vagarosamente.

Amarildo, o possesso, menino ainda, desesperado pediu pressa, gesticulou, e ele retrucou: calma garoto, nosso time continua sendo melhor que o deles. Olha em volta, você tá jogando no Botafogo, só mudou a cor da camiseta. Fica tranquilo que a gente já vira esse jogo. Final de partida: 3 a 1 Brasil. Inclusive com gol de Amarildo logo em seguida empatando a peleja. Segundo título mundial. Reclamou baixinho no fim da vida para parentes: meu sonho é ensinar meninos a fazer a Folha Seca, ninguém mais está fazendo isso. Infelizmente Didi, realmente não estão mais jogando folhas secas pelos gramados, e sim, esburacando-os com bombas, granadas, mísseis e dinamites. Foi uma espécie de Renato Aragão, nosso eterno Didi.