quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Botafogo 0x1 Figueirense

Quando publiquei a crítica ao último jogo, escrevi:

Apesar da vitória, que veio em boa altura, confirmando que se o adversário se encontra em estado comatoso, o Botafogo faz reerguer o moribundo; se é clube que briga na frente da tabela, então o Botafogo ganha. Foi por isso que acreditei na vitória e decidi ver o desafio.

Em resposta a um leitor, escrevi nos comentários dessa mesma publicação o seguinte:

Uma pergunta final: o próximo jogo não é um daqueles em que o adversário do Botafogo precisa de uma ajudinha para sair do seu estado comatoso?...

Portanto, como seria de esperar que o Botafogo levantasse mais um moribundo, decidi, e bem, não assistir ao jogo, porque estou realmente farto da ruindade futebolística do nosso clube e de todos os outros do campeonato brasileiro. O Cruzeiro escapa, mas ainda assim com nota baixa. Infelizmente para o futebol.

FICHA TÉCNICA
Botafogo 0x1 Figueirense
» Gol: Clayton, aos 2'
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 20/8/2014 - 19h30 (de Brasília)
» Local: Orlando Scarpelli, Florianópolis (SC)
» Árbitro: Fabrício Neves Correa (RS); Auxiliares: Marcelo Bertanha Barison (RS) e José Antônio Filho (RS)
» Disciplina: cartão amarelo – Ramírez, Rogério (Botafogo) e Clayton (Figueirense)
» Botafogo: Jefferson; Edilson, Bolívar, André Bahia e Júnior César; Airton, Gabriel (Rogério), Ramírez (Bolatti) e Daniel; Zeballos e Ferreyra. Técnico: Vagner Mancini.
» Figueirense: Tiago Volpi; Leandro Silva, Nirley, Marquinhos e Roberto Cereceda; Luan (Dener), Rivaldo, Marco Antônio e Giovanni Augusto; Clayton (Pablo) e Marcão (Gian Carlo). Técnico: Argel Fucks.

Livro 52: 'Os 70 anos da fusão do Botafogo'

2012: Os 70 anos da fusão do Botafogo, de Rafael Casé

Ascensão e queda do Botafogo 1957-1972 (I)

Publicarei uma série de artigos para que os adeptos mais novos do Botafogo entendam o contexto em que o nosso clube se foi afastando do palco mundial que partilhava com o Santos. A entrevista que se segue foi feita a Sandro Moreyra, renomado cronista desportivo adepto do Botafogo, com o título ‘Glória e Agonia da Estrela Solitária’. Trata-se de excertos e conta a parte ‘boa’ do Botafogo: a ascensão.

GLÓRIA E AGONIA DA ESTRELA SOLITÁRIA

Nos anos 50, o Botafogo também estava em péssima situação. Como pôde crescer a partir daí?

Em 1955, o Botafogo viveu uma situação parecida com essa, quase que fica abaixo do Bonsucesso. Então, João Saldanha, Renato Estelita, João Azeredo e eu, tradicionais botafoguenses, fomos até o gabinete do presidente, Paulo Azeredo, um homem muito sério. Chegamos lá e deflagramos uma revolução, mostrando que era uma vergonha o Botafogo virar o São Cristóvão da zona sul. Então, Paulo Azeredo alarmou-se e imediatamente disse: “Não, eu vou providenciar um dinheiro”. O Botafogo comprou Didi, comprou Paulo Valentim, depois comprou Zagalo, depois Manga. Fez um timaço, ganhou o campeonato de 1957, chegou na final com o Fluminense, deu de 6x2. Em 1958, na Copa do Mundo da Suécia, o Botafogo compareceu com esses titulares todos e o Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez. E o Botafogo começou a faturar, porque a Europa queria ver Didi, queria ver Nilton Santos, queria ver, principalmente, Garrincha. Então, o Botafogo passou a viajar e a faturar dinheiro – começou a entrar dólar, entrar dólar. Aí, ele foi bicampeão carioca em 1961 e 62 e não ganhou mais campeonatos porque não quis – o Botafogo sempre foi meio malandro. Mas, em 1963, a idade pesou. Aí, todo mundo pensou: bom, acabou o Botafogo. Mas veio a geração do Jairzinho, do Roberto (Miranda), do Paulo César (Caju)…

Todos da escolinha do clube?

Sim. E esse time foi bicampeão em 1967 e 1968. De fora, s+o havia Gérson, que tinha vindo do Flamengo. Então, até 1972 o Botafogo foi um grande time. Depois, veio a tal operação meia-três, veio a crise do país, veio a crise do futebol. Quando Borer saiu, o Botafogo não tinha jogadores. Caso de Alemão é único, pois é uma cria da casa que deu certo. Outros juvenis foram promovidos antes do tempo e acabaram. Ou seja, mataram os jogadores promovendo-os – três, quatro ao mesmo tempo – como salvadores de um time perdido.

Algum exemplo?

Ah, vários deles. Helinho, o próprio Petróleo que está agora lá.

Mas o Botafogo tem um passado muito mais rico do que o que você contou até aqui. Conte mais.

Foi uma grande época do Botafogo [o entrevistado refere-se aos tempos de glória de Carlito Rocha, em finais da década de 1940]. Outra foi em 1957, quando o time chegou a final do campeonato comum ponto a menos que o Fluminense. O tricolor jogava pelo empate, mas o Botafogo ganhou de 6x2. Foi a melhor atuação de Garrincha no Clube. Paulo Valentim fez cinco gols, foi uma exibição notável do Botafogo no Maracanã lotado.

E o bicampeonato de 1961-62?

Em 1961, o Botafogo ganhou com muita folga, só perdendo um único jogo, por 2x1, diante do América. Em 1962, ele chegou à final com um ponto de desvantagem do Falmengo e ganhou de 3x0. Com três gols de Garrincha. E depois, veio aquela fase em que Zagalo foi técnico, em 1967 e 68, quando o Botafogo teve grandes atuações. Organizaram então um jogo da Seleção, dirigida por Zagalo, contra a Seleção Argentina. Zagalo escalou quase o time todo do Botafogo, só com um jogador do Flamengo. Houve protesto, mas o fato é que na hora esse time deu de 4x1 na Seleção Argentina. Esse mesmo time na final com o Vasco, em 1968, ganhou por 4x0. Foi o último título de campeão carioca do Botafogo. Na Taça Guanabara, ainda em 1968, ele jogou contra o Flamengo, que estav com dois pontos à frente, e foi 0x0. Aí, o Botafogo não tinha mais jogo. E o Flamengo ainda tinha um jogo atrasado, com o Bonsucesso no Maracanã, na quarta-feira seguinte, e já achava que era campeão: deu volta olímpica, jogaram camisas para os torcedores e tal. E o Botafogo, na segunda-feira, tinha ido excursionar pelo interior, porque também achava que o Flamengo ganharia do Bonsucesso ou, na pior das hipóteses, empataria e seria campeão. Mas perdeu, e o Botafogo teve de voltar às pressas. Chegou ao Rio de Janeiro na quinta-feira e, no sábado, em jogo extra deu de 4x1 no Flamengo e foi campeão.

Mas, para você, qual foi o grande momento do Botafogo?

Oi a Copa do Chile em 1962, porque o Brasil lutava pelo bicampeonato e o Botafogo tinha a metade do time titular: Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo (que entrou no lugar de Pelé no segundo jogo) e Zagalo.

Qual foi a repercussão disso no clube?

Eu vi, uma vez, na varanda da sede, uma briga entre dois empresários argentinos que disputavam o direito de levar o Botafogo à Europa. O Botafogo era uma atracão. O Botafogo e o Santos de ele andavam pelo mundo inteiro, inclusive se encontravam, às vezes, na Alemanha, na Venezuela, na Colômbia, no México. Pelo mundo.

Que relação você vê entre a queda do Botafogo e os tais problemas do futebol brasileiro?

Bem, hoje existem técnicos que dizem que futebol é 70% de força, como PLACAR até publicou. Quer dizer, não há lugar para um Garrincha, que era só habilidade. Não há lugar para aquele Botafogo de arte e glórias.

Fonte: Placar Magazine, nº 810, de 29.11.1985

Sportinguistas em êxtase!

Espero que não se venham a arrepender de tão altas expectativas. Mas como é importante saber usufruir da vida a cada momento, então que se extasiem à vontade.

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

Botafogo conquistou ouro no Desafio de Remo

Imagem: Gabriela Salles e o Coordenador Técnico Xoxô

Os clubes cariocas de remo foram convidados pela Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro a participar na prova clássica ‘Desafio de Remo’, que precedeu a realização do Campeonato Mundial de Va’a (canoa polinésia), a 17 de agosto de 2014 no Estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas.

No ano passado realizaram-se quatro provas de exibição, enquanto neste ano apenas houve compita no Single Skiff Feminino e no Oito Com, ambas as provas na distância de 500 metros, tendo a raia ficado completa com 7 barcos em cada prova.

O Botafogo conquistou a medalha de ouro na prova de 'Single Skiff Feminino', cuja classificação foi a seguinte:

1º GABRIELLA SALLES (Botafogo FR)
Caroline Corado (CR Flamengo)
3º Cássia Brito (CR Flamengo)

Competiram Botafogo, Escola Naval, Flamengo e Guanabara.

Na prova de 'Oito Com Masculino' a vitória coube ao Flamengo, tendo o Botafogo obtido a medalha de prata. Competiram Botafogo, Escola Naval, Flamengo e Vasco da Gama.

Pesquisa de Rui Moura (blogue Mundo Botafogo)

Um dia de 1968… (III)

Dia 09 de Junho de 1968. Clássico no Maracanã entre Botafogo e Vasco da Gama para a decisão do título carioca. O texto que se segue reproduz a Revista do Botafogo após a conquista do bicampeonato carioca de 1967-68, subordinado ao título Exibição de gala levou Botafogo ao bi-campeonato.

Com uma exibição primorosa de técnica, futebol-conjunto, disciplina tática e tranquilidade, o Botafogo derrotou o Vasco por 4x0 na última e decisiva partida do campeonato carioca de 1968. A vitória, além de dar o título da temporada ao clube alvinegro, valeu para a conquista do bicampeonato. O Botafogo foi o campeão carioca de 1967, tendo decidido o título com o Bangu, também na última partida. O) clássico mostrou ainda Gérson como a grande figura – defendendo, atacando e cantando o jogo com a categoria de grande craque. E estabeleceu um novo recorde de renda nacional, com uma arrecadação que ultrapassou os NCr$ 500 mil, apesar do mau tempo reinante no Rio.

O clássico que decidiu o campeonato carioca foi cercado de muita expectativa em face das incidências que marcaram os dias que o antecederam. Desde as declarações de Bianchini atacando os botafoguenses aos boatos de que o goleiro Pedro Paulo seria raptado pela torcida adversária, de passagem pelas pressões de associados do Botafogo para que o clube exigisse exame antidoping aos jogadores do Vasco até à concordância de Armando Marques em indicar os bandeirinhas – tudo colaborou para que a finalíssima da temporada de 1968 chamasse a atenção dos torcedores. No entanto, a grande decepção foi fornecida pelo time vascaíno que se mostrou diferente das outras jornadas e não chegou em momento algum a ameaçar o triunfo dos botafoguenses que acabaram vencendo tranquilamente por 4x0 com chances de alargarem mais o marcador.

O jogo foi iniciado com 21 minutos de atraso, porque ninguém queria entrar em campo à frente de ninguém por fim, houve acordo e os dois times entraram juntos debaixo de um foguetório espectacular (apesar de a polícia ter anunciado que prenderia quem soltasse bombas no Maracanã) e de uma chuva de confete e papel picado.

O Botafogo marcou dois gols em cada etapa. Na primeira, Roberto marcou aos 14’ e Rogério aos 33’. Na segunda, Jairzinho assinalou aos 17’ e Gerson aos 20’.

Renda: NCr$ 513.379,25 com 120.178 pagantes. Não pagaram 21.511 menores. Trabalho sereno e correcto de Armando Marques na arbitragem. Auxiliares: António Viug e Amílcar Ferreira.

Botafogo: Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Waltencir; Carlos Roberto e Gerson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Técnico: Mário Zagallo.

Vasco da Gama: Pedro Paulo, Jorge Luís, Brito, Ananias (Sérgio) e Ferreira; Bougleux e Danilo Meneses; Nad (Alcir), Nei, Valfrido e Silvinho. Técnico: Paulinho.

A grande figura da partida foi Gerson, que interceptou, desarmou, construiu e cantou as jogadas para os seus companheiros, defendendo e atacando com uma seriedade impressionante e um amadurecimento exemplar.”

Outros destaques botafoguenses foram Leônidas, o mais brilhante dos zagueiros, Jairzinho, Roberto e Carlos Roberto.

Os jogadores reserva do Botafogo foram expulsos por Armando Marques, porque entraram em campo sem ordem do juiz, infringindo as regras, para comemorar junto com Gerson o quarto gol. Zagalo não pôde então fazer substituições.

Após o 4º gol, Zagallo sofreu um acidente ao bater com o nariz na máquina de um cinegrafista. O atacante Roberto quase trocou sopapos com Dimas. O 1º recebeu ordem para entrar em campo e começou a gozar o companheiro Mas Humberto não chegou a entrar por causa das expulsões dos reservas.

Nani regressa ao Sporting

Imagens: montagem com Nani festejando gols com os seus característicos saltos mortais

Bruno de Carvalho, presidente do Sporting Clube de Portugal, continua a surpreender.

Quando o anterior treinador saiu para o Mônaco, logo no dia seguinte apresentou o novo treinador, negociado em silêncio, que é nada mais, nada menos, do que a maior promessa do futebol português da atualidade em termos de técnicos.

Anteontem, após Marco Rojo se retratar e tecer os maiores elogios ao Sporting e a toda a sua equipe, os Leões reintegraram Marcos Rojo na equipa principal e o jogador treinou com os seus companheiros. Porém, silenciosamente, o Sporting afinal negociava com o Manchester United há vários dias. Hoje anuncia a venda de Marcos Rojo por 20 milhões de euros, após rescindir com justa causa o contrato com o Fundo de Investimento que detinha parte do passe do atleta, e simultaneamente anuncia que o Manchester United ainda cede Nani, provavelmente o 2º melhor jogador português da atualidade, de 27 anos, titular da Seleção de Portugal, que foi revelado pelo Sporting e que ainda em 2013 disse que “um dia voltarei ao Sporting, porque é o meu Clube e adorei representá-lo”.

Imagem: Reprodução / Portal do jornal Record

A proeza é tanto maior quanto Nani aceitou, aparentemente com facilidade, representar o Sporting nesta temporada, com salário integralmente pago pelo Manchester United.

Repatriar um jogador de topo mundial com 27 anos, a custo zero e com salário pago durante toda a temporada, é algo muito interessante. Ganha o Sporting e ganha o futebol português. Os aplausos estendem-se a torcedores adversários e os Sportinguistas estão verdadeiramente eufóricos.

Ainda hoje, BdC anunciou que destinará 9 milhões de euros para a contrução do novo Pavilhão Multidesportivo do Sporting, após ter reativado modalidades importantíssimas, entre as quais o hóquei em patins e o handebol, ampliando a grandeza de um clube de nível mundial em diversas modalidades.

Se o regresso de Nani der certo, o negócio feito por BdC é notável, tanto mais que Marcos Rojo, apesar de ser um bom homem na defesa, não sabe atacar, o que numa equipe ofensiva como a do Manchester United pode ser-lhe fatal. Veremos.

Se a rescisão com justa causa com o Fundo de Investimento estiver de acordo com a lei, se Nani alardear o seu excelente futebol e se o Pavilhão for construído, então não tenho palavras para adjetivar este presidente.

segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Livro 51: 'Passos do Campeão'

2011: Passos do Campeão, de Auriel de Almeida

Garrincha no Santa Quitéria

por JOSÉ CARLOS FERNANDES
JCFERNANDES@GAZETADOPOVO.COM.BR
08/julho/2014

Essa pequena história começa em 17 de setembro de 2006 – na redação da Gazeta do Povo. Como tinha por hábito, o cientista social Walmir Brandão me chamou à portaria e entregou mais um capítulo do livro que estava escrevendo – Santa convivência, um ensaio sobre o bairro de Santa Quitéria, no qual morava.

Além da papelada, deixou uma fotografia que acabara de receber, no portão de sua casa. Desde que começara a fuçar as origens do bairro, os vizinhos deram de bater palmas no muro para lhe contar episódios e entregar documentos. Temia não acabar nunca. Estava perto de mil laudas datilografadas – mas não poderia deixar de lado aquela informação: o retrato era do Garrincha, num campinho da região. Que diabos? Prometeu descobrir e me contar. Depois se foi.

Morreu dali a um ano e meio, sem dar o ponto final à obra. A viúva, Alina, diz que está tudo num armário, tal e qual ele deixou, incluindo, desconfio, a explicação para a visita do craque àqueles rincões. Dia desses, encontrei a foto nos meus guardados. Traz poucas pistas. Garrincha já não está tão novo. Há três guris a seu lado, em trajes de futebol. À caneta, uma anotação identifica um deles: “Filho do Amauri (CAP)”. Boiei. Foi preciso pagar uma via-sacra para descobrir do que se tratava.

Aos fatos. Já derrubado pelo alcoolismo, Garrincha ganhou um posto simbólico na Legião Brasileira de Assistência (LBA). Em 1974, quando uma associação local da LBA decidiu abrir um centro comunitário na Rua Curupaitis, não encontrou dificuldade em trazer o jogador para a inauguração. Festa. Para a ocasião, dois times de crianças foram formados – o convidado ilustre deu início à partida.

Quanto ao menino da foto, ele se chama Ewerton e é um dos filhos do veterano Amauri dos Santos, ex-Atlético Paranaense. Pimpão ao lado da “Estrela Solitária”, o menino fez carreira no basquete. A comemoração acabou com um jantar em outra Santa, a Santa Felicidade. A foto ficou em alguma gaveta, por décadas, até cair nas mãos de Walmir.

Na medida em que os caquinhos desse episódio quase trivial iam sendo juntados, vieram à tona outros – bem mais emocionantes – sobre as passagens do “pernas tortas” pelo estado. Sua primeira vez na capital teria sido em julho de 1960, num amistoso entre o Botafogo e o Ferroviário, no “Durival de Britto”.

Além de Garrincha, vieram cobras da Copa de 58, como Nilton Santos e Zagallo. Tensão. A legião que foi ao Afonso Pena recebê-los ficou amuada ao saber que a “vedete” da delegação perdera o voo,  ahã. Garrincha chegou depois, com Amarildo. No domingo da partida, choveu – 4 a 1 para o Botafogo. Garrincha logo se mandou, mas não sem antes fazer, a pedidos, uma visita à fábrica de cachaça Predileta. Saiu cheio de amostras grátis. Virou freguês, da cidade. Voltou em novembro, para outro amistoso com o Ferroviário, desta vez marcando um gol. Mais três anos e participa de uma exibição, a convite do Coritiba.

Num dos episódios mais divertidos dentre tantos, o jogador vai a Ubiratã, na Região Central, no elenco da versão tupi do time Milionários – uma invenção colombiana. Era 1977. Fuzuê no sertão. Os craques um pouco barrigudos chegam de ônibus, verdadeiros extraterrestres. O hoje advogado Áureo Zampronio Filho, então menino calçudo, “deu branco” na entrevista que lhe arrumaram com o craque. “Caí no choro”, admite. Hoje ri – com motivos a rodo: teve a vida marcada por um cara que é de Santa Quitéria, de Ubiratã, de todo mundo.

Grato às lembranças contadas por Levi Mulford, Amauri dos Santos, Carneiro Neto, Nego Pessoa, Áureo Zampronio Filho, Moisés Nascimento e Arlindo Ventura.

Cartilha para o próximo presidente do Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas

O Sporting Clube de Portugal teve uma série de presidentes seguidos que não estiveram à altura do cargo de presidente de um dos maiores clubes do mundo, que é o 3º melhor do mundo em títulos coletivos mundiais e europeus conquistados em todas as modalidades (atrás de Barcelona e Real Madrid), que possui a 2º melhor Academia do mundo e cujo enraizamento nos quatro cantos do planeta se faz através de 300 filiais.

Particularmente o último presidente, que não durou mais de dois anos e teve que se demitir por pressão dos sócios, foi quase tão pernicioso como o NÓDOA, atual presidente do Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas. Há um ano e meio, Botafogo e Sporting equivaliam-se quanto a desastres presidenciais. O Sporting obteve a sua pior classificação de sempre no campeonato nacional de futebol e não foi às competições europeias. O clube estava publicamente tão enxovalhado como o nosso Botafogo. Todos o desconsideravam, tal como desconsideram o Botafogo, ambos os casos em virtude de passados gloriosos que nenhum dos adversários brasileiros e portugueses têm.

Eis quando o candidato que perdera as eleições há dois anos – porque não inspirava confiança por ser muito jovem e prometer a entrada de capitais que não revelou as origens (o que é normal, guardando o trunfo para si no futuro) – se apresenta ao sufrágio de abril passado. Como diz o provérbio popular que “perdido por cem, perdido por mil”, eis que os associados – todos com direito a exercer os seus votos consoante a sua antiguidade – decidiram votar em Bruno de Carvalho (BdC), o jovem e enigmático presidente.

Normalmente as esposas dos vencedores asseguram à comunicação social que o clube, o país, ou outro beneficiário qualquer, ficam bem servidos de presidente. A esposa de Bruno de Carvalho – que tratou de se sumir da comunicação social, como é normal – disse apenas estas palavras aos microfones da comunicação social: “Saiu a sorte grande ao Sporting”.

Gravei a frase, mas não acreditei. Por tanto mal que os cartolas fizeram ao Sporting, a prudência aconselhava a uma postura racional, tanto quanto os adeptos do vencedor o cognominaram “Presidente do Povo”. E eu gosto pouco de popularismos que muitas vezes acabam mal.

Pois bem, meus amigos, hoje pode-se dizer que há um ano e meio saiu a sorte grande ao Sporting.

O presidente, no seu primeiro ato, reescalonou a dívida do clube junto das entidades bancárias, que pensavam ser BdC um alvo manso a enrolar como fizeram com os outros presidentes. O homem levantou-se da mesa de negociações e bateu com a porta, responsabilizando a banca por ter critérios diferentes daqueles aplicados ao Benfica e ao Porto. Botou a boca no trombone, a banca chamou-o novamente à mesa de negociações e BdC conseguiu a reestruturação financeiura que queria.

A seguir, fez uma reorganização administrativa, demitindo os amiguinhos dos cartolas anteriores e até mesmo dirigentes que há anos viviam à custa do Sporting. Depois foi buscar um novo diretor de futebol sportinguista, que já foi campeão pelo clube como jogador e treinador, e também contratou um jovem treinador sportinguista que estava treinando um clube grego.

Em seguida negociou com todos os atletas que ganhavam exorbitâncias, enxugou os custos mensais dos salários e foi contratar novos atletas aos estados Unidos da América, à Argélia, à Colômbia, ao Japão, enfim, a uma série de sítios aos quais enviou os seus colaboradores mais próximos para referenciação de atletas prometedores, fazendo aí as novas contratações e estiuopulando cláusulas de rescisão no valor de 30 a 45 milhões de euros a fim de segurar os jogadores relativamente aos ‘poderosos’ da Europa que têm dinheiro para comprar este mundo e o outro. Por exemplo, BdC vendeu um centroavante por 10 milhões de euros e comprou outro centroavante pouco conhecido, que se tornou artilheiro, por 5 milhões, com uma cláusula elevada. Sobraram cinco milhões para investir. Outro exemplo: foi buscar Marcos Rojo a um clube russo e Slimani a um clube argelino – Rojo em muito má fase de carreira e Slimani completamente desconhecido, comprados por apenas 300 mil euros. E, contudo, recusou a venda do goleiro da Seleção de Portugal por 12 milhões de euros, uma quantia absolutamente exorbitante para o passe de um goleiro. Porém, ele sabia que aquele era o Jefferson sportinguista, o goleiro que agarra tudo e defende penalties. Finalmente, fixou o orçamento para o plantel de futebol em 25 milhões de euros para a temporada e partiu para a luta. Abreviando: terminou o campeonato em 2º lugar, com seis pontos de vantagem sobre o tricampeão Porto e garantiu entrada direta para a fase de grupos da Liga dos Campeões, assegurando desde logo um prêmio da UEFA no valor de 8,6 milhões de euros, que podem ir a 12 milhões se o Sporting se classificar na fase grupos e mais ainda se conseguisse manter-se na competição.

Ao longo de um ano e meio, BdC recuperou a credibilidade do clube, levou-o novamente à elite europeia e fez os adversários respeitarem-no novamente. Foi o primeiro presidente de todos os clubes a fazer frente ao presidente do Porto, Pinto da Costa (PC), no cargo há mais de 30 anos e dinossauro do futebol português. Quando PC atacava, BdC retrucava com um ataque mais forte ainda. Quando PC quis impugnar um jogo que perdeu para o Sporting por alegada pressão pública sobre as arbitragens (altamente favoráveis ao Porto e ao Benfica), BdC sugeriu que a senilidade é uma doença que costuma atacar depois dos 70 anos. E chegou ao ponto de afirmar que depois de PC partir, ele ainda ficará por cá muitos anos…

Eis, então, que surge a Copa do Mundo. O Sporting tem cinco atletas convocados, quatro dos quais titulares: Rui Patrício e William Carvalho (ambos revelados na Academia), pela Seleção de Portugal; Marcos Rojo, pela Seleção da Argentina; Slimani, pela Seleção da Argélia.

Todos os quatro se saíram bem, mas especialmente Marcos Rojo e Slimani, porque as suas Seleções seguiram em frente, e uma das quais foi à final, destacaram-se aos olhos dos caçadores de talentos.

BdC não queria vender nenhum desses jogadores. Rui Patrício (o nosso Jefferson) estava fora de questão; Marcos Rojo e Slimani seriam para aguentar pelo menos por um ano; William Carvalho, o melhor de todos, seria muito assediado, mas a sua cláusula de multa é de 45 milhões – e dificilmente alguém se arriscaria a comprar o atleta.

BdC rejeitou as propostas de venda de William Carvalho, e as propaladas propostas por Marcos Rojo e Slimani não apareceram. Eis senão quando Slimani se recusa a jogar sem aumento de salário e Marcos Rojo falta a um treino após o Manchester United anunciar que o compraria por 20 milhões de euros. Estávamos a uma semana da abertura do campeonato nacional e toda a estratégia contava com Marcos Rojo na zaga e Slimani em centroavante.

Que faria o presidente do Botafogo? – Todos sabemos que ele não soletra o verbo “fazer”, mas sim o verbo “não fazer”. E quanto a BdC, que fez?

BdC reuniu a cúpula Sportinguista nesse mesmo dia, suspendeu preventivamente ambos os jogadores e instaurou dois processos disciplinares aos atletas.

No caso de Marcos Rojo, deve-se dizer que o membro de um Fundo que detém parte do passe de Marcos Rojo, chegou a Alvalade falando inglês e anunciando-se como delegado do Manchester United e, simultaneamente, o empresário do argentino ameaçava, através de mensagens de celular, que se o Sporting não vendesse, Rojo iria criar ‘problemas’ na Academia.

Tudo bem montado para dar a volta à cabeça de Marcos Rojo, já que jogar no Manchester United é o sonho de quase todos os atletas. Porém…

Porém, existe BdC. No ano passado, Bruma, uma revelação da Academia, fez braço de ferro com BdC alegando que os dois anos de contrato haviam chegado ao fim e queria sair a CUSTO ZERO (!) para um clube russo. O empresário fez declarações televisivas em várias frentes (apoiado pela imprensa benfiquista) e fez um ultimato ao Sporting. BdC respondeu assim: (a) colocou Bruma a treinar com a equipa B; (b) antes desse contrato caducar, Bruma havia assinado outro que estava em vigor, e então BdC apelou ao Tribunal. Bruma apercebeu-se que iria ficar sem jogar e entregue a treinos na equipe B, o que se agravou quando o tribunal favoreceu as pretensões do Sporting por unanimidade. Então, Bruma dispensou o empresário e decidiu que já não queria sair a custo zero, mas após negociações. E saiu pelo valor que BdC entendeu adequado.

Depois foi o brasileiro Elias – cathartiforme do clube carioca e cathartiforme do clube paulista – cujo paizinho pensava que o Sporting ainda era a Casa da Joana. Novo Braço de Ferro porque BdC só vendia Elias por 8 milhões. O paizinho de Elias andou minando toda a imprensa portuguesa e brasileira, fazendo de Elias um mártir às temíveis mãos de um carrasco impiedoso. A imprensa brasileira embarcou na conversa do paizinho de Elias, e cheguei a ler que o Sporting estava falido e que era absurdo não aceitar a venda de Elias por 5 milhões. BdC manteve-se sereno e Elias perdendo oportunidaes de jogar e de render, afigurando-se um horizonte em que não conseguiria sair do Sporting e não conseguiria jogar – arruinando a carreira. O Corinthians acabou por comprá-lo por 8 milhões…

Voltemos a Rojo e Slimani. Ambos suspensos. Ambos sem serem sequer integrados na equipe B. Ambos com contratos ainda de três anos. Ambos com cláusulas rescisórias de 30 milhões de euros.

BdC deu uma entrevista à TV Sporting da qual destaco as seguintes palavras (citações; negrito da responsabilidade do Mundo Botafogo):

“O meu discurso não mudou. O Sporting não advoga nenhum gênero de vedetismo. O Sporting age da mesma maneira com um jogador que foi ao Mundial, que não foi ao Mundial, ou que tenha propostas de milhões ou que não tenha proposta nenhuma. Mais importante que ter um grupo de jogadores é ter um grupo de trabalho que se sinta preparado. Há dois jogadores que não compreenderam as alterações que foram feitas no Sporting.

“Rojo e Slimani estão sob a alçada disciplinar do Sporting. A ambos falta cumprir três anos de contrato. Têm contrato. O Sporting não cede a chantagens, pressões, interesses de agentes e muito menos de fundos. Não cede a atitudes de interesses que desrespeitam o clube.”

“Em primeiro lugar, o clube; em segundo lugar, os seus associados e adeptos; em terceiro lugar os grupos de trabalho. Eu não troco a honra do clube, a história do clube, a honra dos nossos associados e do nosso grupo de trabalho por qualquer tipo de atitude de vedetismo seja de quem for.”

“E não jogam no sábado. Garantidamente não jogam. Nem na equipe A, nem na B, nem na C, nem na D, nem na E. Ambos os jogadores tomaram decisões que lhes provocaram uma situação de indisciplina acentuada dentro do Sporting. Deixo um recado à navegação: todo o jogador que não siga as regras do clube, esses dois ou outros, podem ter as pretensões e as vontades todas, mas com esta direção a situação complica-se. Não usem a imprensa, sejam profissionais. Vamos ver quanto é que este processo vai demorar. Pode demorar pouco, pode durar muito, mas sábado não está resolvido. O processo pode acabar com a saída dos jogadores ou pode acabar por terem de cumprir três anos de contrato.”

Alguns comentários de internautas após a entrevista de BdC e antes da retratação de Marcos Rojo:

“Curto e grosso! Muito bem!”

“Que saudades que eu já tinha de ter um presidente assim!”

“Grande presidente! Por mim, até Dezembro ficavam encostados. Depois, logo se via e caso existisse mudança na atitude, ponderar-se-ia a questão. Mas até lá querem jogar? Haja quem pague a cláusula.”

“Mais do que os que lá estão, temos que lançar um aviso aos jogadores que no futuro venham a assinar contrato com o Sporting: juízo que esta m…. não é o da Joana e os contratos são para cumprir.”

 “Temos um presidente e uma direção, que serve o clube, logo este tipo de jogadas de bastidores estão lixadas, nem que tenham de ficar os três anos que lhes resta de contrato sem jogar... Ah pois é, querem brincar? Então aguentem. É melhor retratarem-se enquanto têm tempo porque a coisa não vai ser fácil, aliás, para os adeptos eram queridos e agora têm tolerância ZERO.”

“Viva o Sporting! O jogo de sábado vale muito mais do que três pontos…”

Entretanto, o Sporting rescindiu, alegando justa causa, o contrato que tinha com o Fundo de Investimento que detém parte dos direitos sobre Marcos Rojo. BdC liquidou mais um empresário / Fundo metido a espertalhão.

O caso Slimani está por resolver. O caso de Marco Rojo foi fácil, fácil. Ante a visão de poder arriscar não jogar até o Sporting decidir o contrário, ou alguém bater a cláusula dos 30 milhões, Rojo conversou com o presidente do Sporting, na sexta-feira, e no sábado foi entrevistado pela TV Sporting. Eis o teor das suas declarações (citações):

“Foi tudo um mal-entendido, eu estava de cabeça quente, não pensei no que estava a fazer. Estou arrependido, sinto que não fui profissional. Agora vou corrigir a situação.”

[Leia-se: o meu empresário pressionou-me, agi sem profissionalismo e agora vejo que se não corrijo a situação estarei em ‘maus lençóis’]

“Na última sexta-feira conversei com o presidente. Já nos entendemos, voltei a treinar na Academia. Confio no Sporting. O Sporting contratou-me quando eu não estava no meu melhor momento, deu-me a oportunidade de jogar numa grande equipa da Europa. Agradeço ao Sporting e a quem trabalha no clube.”

[Leia-se: o presidente deu uma lição de ética a Marcos Rojo, deixou bem clara a grandeza do Sporting e disse-lhe – certamente – que teria que ir a público retratar-se se quisesse treinar e voltar à titularidade do time principal ou até mesmo negociado noutras condições.]

“Quero dizer a todos que não procedi bem, mas gosto muito do clube. O que será da minha carreira depende do clube, do Sporting. Queria deixar bem claro que estou muito feliz no clube, que gosto muito da forma como me tratam e do carinho que me transmitem no Sporting.”

[Leia-se: o futuro imediato de Rojo ao Sporting pertence, e se quer sair para um clube europeu ricaço, tem que ser como o Sporting quer, sem prejuízo de nenhum dos lados.]

Hoje, Marcos Rojo foi reintegrado no plantel e já treina com os seus companheiros.

Em suma, meus amigos, a decisão de BdC não se pauta pelo imediatismo, pela resolução a qualquer custo de um problema, pela cedência ao vedetismo e à chantagem; BdC decide em função do futuro. De agora em diante, qualquer jogador e qualquer empresário que quiser jogar fora das regras, já sabe com o que conta.

Que grande presidente!