por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de
2018, disputada na Rússia, foi um Mundial de transição e afirmação de novos
craques e que teve também uma dimensão política e tecnológica com a inovação do
VAR.
A Rússia organizou o
torneio num contexto de relações tensas com vários países ocidentais, após a
anexação da Crimeia em 2014, acusações de interferência política externa e
debates sobre direitos humanos.
Apesar desse contexto,
a organização foi, em geral, considerada eficiente. Os estádios, as
cidades-sede, a segurança e a logística funcionaram melhor do que muitos
antecipavam. Para a Rússia, o torneio foi uma tentativa de projetar uma imagem
de modernidade, hospitalidade e capacidade organizativa.
Simbolicamente foi uma
Copa em que o futebol serviu também como instrumento de diplomacia, imagem
pública e afirmação geopolítica.
A grande surpresa da
Copa foi a eliminação da Alemanha, campeã em título, logo na fase de grupos,
perdendo com o México, vencendo a Suécia com um gol tardio de Kroos e sendo
eliminada com a inesperada derrota contra a Coreia do Sul por 2x0.No final da
partida a imagem dos jogadores alemães incrédulos com o resultado tornou-se uma
icônica fotografia do colapso dos campeões.
Para a Coreia, foi uma
vitória de grande prestígio; para a Alemanha, uma ‘humilhação’ histórica,
simbolizando a imprevisibilidade dos Mundiais de futebol.
Foi a primeira vez,
desde 1938, que a Alemanha não ultrapassou a primeira fase de um Mundial, tendo
representado, simbolicamente, o fim de um ciclo longo de preparação iniciado em
2006 e culminado com o título de 2014.
A Espanha viveu uma situação
invulgar quando o técnico Julen Lopetegui foi despedido na véspera do início do
Mundial, em virtude de ser anunciado como futuro treinador do Real Madrid.
A equipe ficou sob orientação de Fernando Hierro, num ambiente de instabilidade, apresentando-se lenta previsível e emocionalmente fragilizada. Os espanhóis foram eliminados nas oitavas de final pela Rússia, nos pênaltis, depois de um jogo em que teve muita posse de bola, mas pouca capacidade de criar perigo – evidenciando o esgotamento definitivo do velho modelo espanhol sem a energia de 2008-2012.
A Islândia, país com
pequena população, estreou-se em Mundiais e empatou com a Argentina no primeiro
jogo. O goleiro Hannes Halldórsson defendeu uma grande penalidade de Messi e o
resultado foi celebrado como um feito histórico, mostrando novamente que em
matéria de Copas os favoritos também são surpreendidos.
O Peru tornou a
disputar um Mundial após longa ausência e apesar de ser eliminado na fase de
grupos, a simples presença teve forte carga emocional para os torcedores peruanos,
que viajaram em grande número para a Rússia e foram entusiásticos.
Equipes como Marrocos
e Irã não foram longe, mas deixaram boa imagem competitiva. O Irão quase
eliminou Portugal na fase de grupos e Marrocos criou dificuldades a Espanha e
Portugal.
Um dos jogos mais
memoráveis da fase de grupos foi Portugal 3x3 Espanha. Cristiano Ronaldo marcou
três gols e segurou praticamente sozinho o empate português contra uma das
seleções teoricamente mais fortes da Copa. Foi uma das grandes exibições
individuais de Cristiano em Mundiais, evidenciando liderança, resistência e
capacidade de decidir.
Portugal, apesar de
ser campeão europeu em 2016, caiu nas oitavas de final frente ao Uruguai.
Cavani marcou duas vezes e Portugal não conseguiu reagir o suficiente.
A Inglaterra eliminou
a Colômbia nos pênaltis, nas oitavas de final, ultrapassando finalmente o
estigma de derrotas sucessivas na disputa por grandes penalidades através da
defesa decisiva de Pickford.
O jogo França 4x3
Argentina, nas oitavas de final, foi um dos melhores da competição. Teve gols,
ritmo, alternância emocional e a queda da Argentina de Messi, desgastada e desequilibrada.
Os argentinos tinham chegado à competição com problemas internos, indefinições
táticas e dependência extrema de Messi.
Antes da eliminação com a França, a Argentina viveu uma fase de grupos dramática: empatou com a Islândia, perdeu pesadamente com a Croácia por 3x0 e chegou ao último jogo, contra a Nigéria, em risco de eliminação, superando o adversário com o gol decisivo de Marcos Rojo perto do fim, garantindo a passagem aos oitavos.
A Rússia chegou às
quartas de final, superando expectativas: goleou a Arábia Saudita e eliminou a
Espanha nos pênaltis, com grande exibição do goleiro Igor Akinfeev. Mesmo sem
chegar às semifinais, a campanha da equipe permitiu ao público russo criar uma
narrativa desportiva positiva.
O Uruguai realizou o
Mundial com a sua identidade habitual: organização defensiva, intensidade,
experiência e ataque perigoso. A dupla Suárez-Cavani contra Portugal, mas a
lesão de Cavani condicionou o Uruguai nas quartas de final contra a França, que
a equipe perdeu por 2x0.
Nas semifinais, a
Croácia venceu a Inglaterra por 2x1, após prorrogação. A Inglaterra marcou
cedo, por Kieran Trippier, num livre direto. Mas a Croácia reagiu, empatou por
Perišić e decidiu com gol de Mandžukić na prorrogação.
A equipe de Gareth
Suthgate era jovem, disciplinada e emocionalmente mais serena do que várias
seleções inglesas anteriores. A frase “It’s coming home” tornou-se o lema
popular da campanha, misturando ironia, esperança e identidade futebolística.
Apesar da derrota com
a Croácia, a Inglaterra voltou a acreditar após tantos anos afastada das
semifinais. Harry Kane terminou como artilheiro da competição com 6 gols,
embora parte desses gols tenham origem em pênaltis e bolas paradas, o que
também refletia a identidade da Inglaterra de 2018: forte em lances estudados,
escanteios, livres e organização.
A Bélgica teve um
excelente Mundial, terminando em terceiro lugar. Com Hazard, de Bruyne, Lukaku,
Courtois, Kompany, Vertonghen, Alderweireld e Witsel, a equipe confirmou o
valor da sua geração dourada.
Nas oitavas de final a Bélgica esteve a perder por 2x0 contra o Japão, mas venceu por 3x2. O gol decisivo surgiu no último lance, numa transição rápida concluída por Chadli. Foi uma das jogadas mais dramáticas do Mundial.
Para o Japão, foi uma
derrota cruel; para a Bélgica, um sinal de maturidade competitiva. A imagem dos
jogadores japoneses devastados contrastou com o reconhecimento internacional
pela qualidade e coragem da sua exibição, e mesmo após a eliminação os
jogadores deixaram o balneário limpo e uma mensagem de agradecimento –
evidenciando civismo, respeito e ética coletiva.
Porém, o ponto alto
foi a vitória contra o Brasil nas quartas de final, por 2x1. A Bélgica foi
taticamente inteligente, explorou transições rápidas e teve em Courtois um
goleiro decisivo.
O Brasil, treinado por
Tite, chegou ao Mundial com expectativas elevadas. Tinha uma equipe
equilibrada, com Neymar, Coutinho, Gabriel Jesus, Willian, Casemiro, Marcelo,
Thiago Silva, Miranda e Alisson.
Neymar, teoricamente o
maior trunfo brasileiro, teve momentos de qualidade, mas ficou também marcado
pelas quedas, protestos e dramatização de contatos, fixando-se a imagem do
craque rolando no gramado teatralmente e sendo alvo de inúmeros memes – e a
Seleção Canarinha reforçou a ideia de continuar longe da aura de domínio
mundial de outrora.
A França venceu o
Mundial pela segunda vez, vinte anos depois do título de 1998.
A equipe de Didier
Deschamps não foi uma seleção de futebol permanentemente exuberante, mas foi
extremamente equilibrada, física, rápida, madura e eficaz. Tinha talento em
todos os setores Lloris, Varane, Umtiti, Pavard, Lucas Hernández, Kanté, Pogba,
Matuidi, Griezmann, Mbappé e Giroud.
Sobretudo, foi menos
dependente da posse prolongada, mais orientada para a transição, para a
velocidade e para a eficácia. A França de Didier Deschamps foi criticada por
vezes por não jogar de forma mais estética, mas o percurso mostrou enorme
competência competitiva.
A grande revelação foi Kylian Mbappé, que com apenas 19 anos assumiu protagonismo ao mais alto nível. O jogo contra a Argentina, nas oitavas de final, foi o seu momento de consagração: arrancadas em velocidade, capacidade de desequilíbrio e dois gols numa vitória francesa por 4x3.
Na final, marcou
contra a Croácia e tornou-se o primeiro adolescente a marcar numa final de
Mundial desde Pelé, em 1958. Mbappé simbolizou juventude, velocidade, mudança
geracional e futuro. Em 2018, o futebol mundial percebeu que estava perante uma
nova estrela global.
Griezmann foi outro
elemento decisivo que participou na organização ofensiva e foi fundamental nas
bolas paradas, funcionando como jogador de ligação, interpretando espaços,
acelerando quando necessário e dando equilíbrio à equipe.
Na final, esteve
envolvido em momentos decisivos: o livre que originou o gol contra de Mandžukić
e o pênalti convertido após decisão do VAR.
O meio-campo francês
foi uma das chaves do título: N´Gol Kanté fez trabalho invisível, cobertura
defensiva e equilíbrio; Pogba, muitas vezes criticado pela irregularidade, fez
um grande Mundial e na final marcou o terceiro gol da França que consolidou a
vantagem.
A Croácia, país com
pouco mais de quatro milhões de habitantes, chegou à final do Mundial pela
primeira vez através da sua qualidade técnica, experiência e uma enorme
capacidade de sofrimento. Contando com Modrić, Rakitić, Perišić, Mandžukić,
Brozović, Lovren, Vida e Subašić, a Croácia superou três prorrogações
consecutivas nas fases a eliminar contra Dinamarca, Rússia e Inglaterra.
A final foi disputada
em Moscovo, no Estádio Luzhniki, e a França venceu a Croácia por 4x2. Foi uma
final invulgar: aconteceu o primeiro gol contra numa final, da autoria de
Mandžukić, empate de Ivan Perišić, pênalti assinalado com recurso ao VAR, gols
de Griezmann, Pogba e Mbappé, e ainda um erro de Hugo Lloris que permitiu a
Mandžukić reduzir.
A Croácia teve mais bola, mas começou a final perdendo através do lance infeliz de Mandžukić, enquanto a França foi mais eficaz e mais forte nos momentos decisivos. Curiosamente, Mandžukić viria depois a marcar também na baliza certa, após erro de Lloris, e como prêmio de consolação Luka Modrić foi eleito o melhor jogador da competição.
A Copa de 2018 foi o primeiro
Mundial com utilização do VAR, tecnologia que teve grande impacto, sobretudo em
grandes penalidades, revisões de contato e lances dentro da área. Na final, o
VAR foi decisivo no pênalti assinalado por mão de Perišić.
Simbolicamente, 2018
marcou uma viragem na arbitragem internacional, porque a partir daí o Mundial
deixou de depender apenas da percepção imediata do árbitro em campo. Ainda por
aprimorar, o VAR trouxe, contudo, mais correção em certos lances.
Outra curiosidade foi
a qualificação do Japão para os oitavos de final através do critério de fair play, por ter recebido menos
cartões do que o Senegal.
Foi a primeira vez que
esse critério teve impacto tão visível num Mundial, podendo decidir a
classificação numa competição tão equilibrada.
Em termos simbólicos,
2018 foi a Copa da transição geracional e tecnológica: marcou o segundo título
mundial da França, a consagração de uma geração jovem liderada por Mbappé,
Griezmann, Pogba, Kanté e Varane, a chegada da Croácia à primeira final da sua
história, a despedida amarga de várias gerações, a eliminação precoce da
Alemanha campeã em título e a consolidação do VAR como elemento central do
futebol moderno.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
França 4x2
Croácia
» Gols: Mandžukić, aos
18’ (contra), Griezmann, aos 38’ (pen.), Pogba, aos 59’, e Mbappé, aos 65’
(França); Perišić, aos 28’, e Mandžukić, aos 69’ (Croácia)
» Data: 15 de julho de
2018
» Local: Estádio
Lujniki, em Moscou (Rússia)
» Público: 78.011
espectadores
» Árbitro: Néstor
Pitana (Argentina)
» Disciplina: cartão
amarelo – Kanté e Lucas Hernández (França)
» França: Lloris;
Pavard, Varane, Umtiti e Lucas Hernández; Kanté (N’Zonzi) e Pogba; Mbappé,
Griezmann, Matuidi (Tolisso); Giroud (Fekir). Técnico: Didier Deschamps.
» Croácia: Subašić;
Vrsaljko, Lovren, Vida, Strinić (Pjaca); Brozović; Rebić (Kramarić), Modrić,
Rakitić, Perišić; Mandžukić. Técnico: Zlatko Dalić.
Fontes
principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt;
www1.folha.uol.com.br; www.britannica.com;
www.espn.com.br; www.fifa.com;
www.rsssf.org; www.theguardian.com.

















