sexta-feira, 19 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1970: Jairzinho, o ‘Furacão da Copa’, Pelé e Zagallo tricampeões

Cartaz da Copa do Mundo de 1970. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo FIFA de 1970 realizada no México, entre 31 de maio e 21 de junho, em condições difíceis em altitude e calor intenso, é frequentemente lembrada como uma das edições mais memoráveis da história do futebol, tendo sido a primeira disputa fora da Europa e da América do Sul, teve 16 Seleções, 32 jogos, terminou com o brilhante tricampeonato do Brasil e marcou uma virada na própria história do futebol como espetáculo global.

Pela primeira vez foi permitido efetuar, em cada equipe, duas substituições durante as partidas, tendo sido o soviético Viktor Serebryanikov, no jogo inaugural da competição, o substituto estreante em Copas do Mundo, que ao intervalo deu lugar a Anatoly Puzach.

Por outro lado, a Copa de 1970 estreou o método de amostragem de cartões vermelhos e amarelos, que passaram a ser utilizados como sistema visual de advertência e expulsão, sendo curioso, ou talvez por causa deles, que a competição ficou conhecida pela sua lisura competitiva, sem recorrência a jogadas violentas.

Também pela primeira vez os jogos do campeonato do mundo foram transmitidos ao vivo em cores para diversos países, o que ampliou enormemente o alcance do evento e ajudou a fixar na memória coletiva imagens que até hoje são revisitadas. O cenário também impôs desafios inéditos: jogos realizados em grande altitude, como na Cidade do México, exigiram preparação física diferenciada, e muitas seleções chegaram semanas antes para se adaptar.

Botafogo de 1970: da esquerda para a direita, em cima, Moreira, Ubirajara, Nei Conceição, Moisés, Leônidas e Valtencir; em baixo, Zequinha, Careca, Roberto, Jairzinho e Paulo Cézar. Fonte: revista ‘O Cruzeiro’ | foto colorizada.

Dentro de campo, o protagonismo absoluto foi da seleção brasileira, liderada por Pelé. No entanto, o caminho até aquele equipe, considerada por muitos como a melhor de todos os tempos, não foi simples.

Meses antes da realização da Copa do Mundo, o ambiente na seleção era tenso. O técnico João Saldanha havia classificado o Brasil com autoridade, mas entrou em conflito com dirigentes e até com o governo militar da época. Há relatos de que sua recusa em convocar determinados jogadores e a sua postura independente desagradaram o regime, o que culminou na sua demissão pouco antes da Copa.

Efetivamente, o presidente do regime militar, Emílio Garrastazu Médici, manifestou, através da imprensa, o seu gosto em que Dadá Maravilha fosse convocado, mas Saldanha respondeu, também via imprensa, que “nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time”.

Bastou para João Saldanha ser demitido e em seu lugar Mário Zagallo assumir a equipe, que tratou de fazer a vontade ao presidente Medici convocando Dadá Maravilha (que não atuou em nenhuma partida) e apostou em um modelo de jogo surpreendente, reunindo vários ‘camisa 10’ no mesmo time.

O resultado foi um futebol fluido e criativo, com jogadores como Jairzinho, Tostão, Rivelino e Gerson atuando de forma quase intercambiável. Jairzinho, aliás, protagonizou um feito único até aos dias de hoje: marcou gols em todos os jogos da campanha, foi o grande desequilibrar do Brasil em campo e, naturalmente, deveria ter sido eleito como ‘Bola de Ouro’, mas Pelé tinha lobby e foi um modo de coroar a sua presença em quatro Copas do Mundo, das quais três foram vencidas pelo Brasil

Jairzinho comemorando um dos seus gols. Fonte: X / Sofascore.

Pelé, por sua vez, já não era o jovem explosivo de 1958, mas atuava com muita inteligência tática e protagonizou alguns lances icônicos, mesmo não os coroando com gols.

Contra a Inglaterra, então campeã mundial, Pelé protagonizou uma cabeçada aparentemente indefensável, mas o goleiro Gordon Banks realizou aquela que ficou conhecida como “a defesa do século”. Após o jogo, Pelé teria dito: “eu já estava comemorando”. E Banks respondeu à medida, com humor: “e eu também, até conseguir defender”.

Outro episódio curioso envolveu uma tentativa ousada de Pelé contra a Seleção Tchecoslovaca de Futebol: ele percebeu o goleiro adiantado e arriscou um chute do meio-campo. A bola passou raspando, e o lance entrou para a história como exemplo de sua visão de jogo – embora nunca tenho marcado um gol do meio-campo. Já contra o Uruguai, na semifinal, Pelé executou um drible sem tocar na bola — deixou-a passar de um lado do goleiro e correu pelo outro. O movimento desconcertou completamente a defesa, embora a finalização tenha ido para fora.

Estas e outras peripécias dos jogadores brasileiros, designadamente os arranques fulminantes e os gols de Jairzinho, bem apelidado de ‘Furacão da Copa’, encantaram as arquibancadas.

Porém, se o Brasil encantava, a semifinal entre a Itália e a Alemanha entrou para a história como o ‘Jogo do Século’. Os italianos venciam por 1x0 na reta final da partida, mas aos 90’ Schnellinger empatou. Após uma prorrogação absolutamente libertina, italianos e alemães marcaram cinco gols em 30 minutos, alternando diversas vezes no marcador até ser estabelecido o resultado final de 4x3 favorável aos italianos.

Pelé comemorando o título abraçado a Jairzinho. Divulgação / FIFA.

Uma imagem icônica desse confronto foi Franz Beckenbauer, que permaneceu em campo com o braço imobilizado após uma lesão, já que o técnico Helmut Schön efetuara as duas substituições autorizadas e o craque jogou com uma clavícula fraturada até ao fim do jogo.

A final, disputada no Estádio Azteca diante de mais de 100 mil pessoas, colocou frente a frente Brasil e Itália. O jogo terminou 4x1 para os brasileiros, mas o placar não traduz completamente o significado da partida – faltava um encantamento final.

Esse encantamento foi ‘guardado’ para o último gol da Copa, como se estrategicamente tivesse sido ensaiado, marcado por Carlos Alberto Torres. O gol nasceu de uma sequência de passes envolventes que percorreu praticamente toda a equipe — uma síntese perfeita daquele futebol coletivo. Anos depois, o próprio Carlos Alberto revelaria que nem esperava receber a bola; Pelé apenas olhou, percebeu a sua chegada e rolou no momento exato.

Fora das quatro linhas, havia também histórias menos visíveis. A seleção brasileira conviveu com forte pressão política, sendo utilizada como instrumento de propaganda pelo regime militar após a conquista. Ao mesmo tempo, muitos jogadores tentavam se manter alheios a isso, concentrados apenas no futebol. Outro detalhe curioso é que a comissão técnica levou um grande número de profissionais para a época, incluindo preparadores físicos e até estudos sobre adaptação à altitude — algo ainda pouco comum naquele período.

Terminada a Copa do Mundo, Mário Zagallo tornou-se o primeiro tricampeão mundial como jogador (1958, 1962) e técnico (1970) e o Brasil não conquistou apenas o tricampeonato, como também garantiu a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Mais do que isso, deixou uma marca estética e cultural: a ideia de um futebol bonito, ofensivo e coletivo, que até hoje serve como referência.

Mário Zagallo, tricampeão como jogador e técnico. Fonte: tntsports.com.br.

A Copa de 1970 acabou por se tornar um ponto de encontro entre talento individual, organização tática e contexto histórico — um daqueles raros momentos em que o esporte ultrapassa o jogo e se transforma em memória duradoura.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 4x1 Itália

» Gols: Pelé, aos 18’, Gérson, aos 66’, Jairzinho, aos 71’, e Carlos Alberto, aos 86’ (Brasil); Boninsegna, aos 37’ (Itália)

» Data: 21 de junho de 1970

» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)

» Público: 107.412 espectadores

» Árbitro: Rudi Glöckner

» Brasil: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Técnico: Mário Zagallo.

» Itália: Enrico Albertosi; Tarcísio Burgnich, Pierluigi Cera, Roberto Rosato e Giacinto Facchetti; Mario Bertini (Antonio Juliano) e Giancarlo De Sisti; Angelo Domenghini, Sandro Mazzola, Roberto Boninsegna (Gianni Rivera) e Luigi Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi.

Fontes principais: Bellos, A. (2014). Futebol: The Brazilian Way of Life; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; tntsports.com.br; Wilson, J. (2013). Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics; www.britannica.com; www.fifa.com.; X / Sofascore.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre o céu e o inferno (IX): da conquista do Estadual e dos títulos continentais de basquete e pólo aquático à 3ª despromoção à Série B do Brasileirão (2018-2020)

Campeões estaduais de 2018. Crédito: Vitor Silva | SSPress | Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A duração dos mandatos de gestão do Botafogo foi sendo alterada com a mudança de estatutos, e na passagem da gestão de Maurício Assumpção para Carlos Eduardo Pereira os mandatos passaram de dois anos, com possibilidade de reeleição, para mandato único de três anos, de modo a reduzir os mandatos presidenciais.

No entanto, a dupla anterior conseguiu ‘iludir’ a intenção do legislador mantendo-se nos cargos com alternância, o ex-presidente Carlos Eduardo Pereira passou a vice-presidente da chapa da ‘situação’ e o ex-vice-presidente Nelson Mufarrej passou a presidente.

E assim Nelson Mufarrej foi eleito para presidir os destinos do Botafogo no período 2018-2020 com Carlos Eduardo Pereira a vice-presidente. Coisas que só acontecem no Botafogo? Provavelmente sim…

O início do mandato começou com alguma sorte, mascarando o que viria a seguir. O regulamento do campeonato estadual mudara mais uma vez e o critério de finalistas já não foi pela conquista da Taça Guanabara e da Taça Rio, mas de um quadrangular final, que incluiu o Botafogo apesar de não ter conquistado nenhuma das taças.

Nas semifinais o Botafogo defrontou o Flamengo e venceu por 1x0, gol de Luiz Fernando, aos 38’. Foi o jogo e o gol de resposta à clássica zoação dos jogadores flamenguistas quando marcam gol ao Botafogo, imitando gestualmente o ‘chororô’. Luiz Fernando fez o gol da classificação e saiu para a comemoração apertando o nariz, clássica zoação dos torcedores aos flamenguistas quando são eliminados e ficam apenas no ‘cheirinho’ do título.

Luiz Fernando encenando o 'cheirinho' e devolvendo ao Flamengo a zoação do 'chororô'. Crédito: Reprodução.

Nas finais defrontaram-se Botafogo e Vasco da Gama no Maracanã. No dia 1 de abril de 2018, em jogo de ida, o Vasco da Gama saiu na frente vencendo por 3x2, com o gol da vitória marcado por Andrés Rios, aos 90+3’.

O jogo da volta, a 8 de janeiro de 2018, foi tenso e o Vasco da Gama segurou o 0x0, abeirando-se da conquista do campeonato estadual. Porém, o capitão Joel Carli decidiu resistir e responder ao gol de Andrés Rios aos 90+3’ no jogo de ida: o relógio cravava 90+4’ no jogo de volta quando Carli, em cabeçada de campeão, ofereceu a vitória a todos os alvinegros.

Na decisão por pênaltis, perante 64.000 espectadores, o Botafogo venceu por 4x3 e conquistou o Campeonato Estadual de 2018. Comandado por Alberto Valentim, o Botafogo formou com Gatito Fernández; Marcinho, Joel Carli, Igor Rabello e Moisés (Gilson); Matheus Fernandes, Marcelo (Kieza) e Renatinho; Valencia, Luiz Fernando (Rodrigo Pimpão) e Brenner.

Súmulas da campanha em https://mundobotafogo.blogspot.com/2018/04/botafogo-campeao-estadual-2018.html

O beijo da vitória. Crédito: Reprodução.

No Campeonato Brasileiro de 2018 o Botafogo acercou-se novamente dos lugares de acesso à pré-Libertadores, mas acabou por se classificar em 9º lugar, a 3 pontos de acesso à maior competição continental, registrando 13V, 12E, 13D e saldo negativo de 8 gols (38 a favor e 46 contra).

No que respeita às demais modalidades desportivas mais relevantes, ainda em 2018 sagrou-se hepta-campeão brasileiro de Remo, conquistando o CBI de Barcos Curtos e o CBI de Barcos longos, além do campeonato estadual.

No entanto, no início de 2019, em busca de recorrer a todos os meios financeiros internos para investir no futebol, a diretoria socorreu-se dos fundos financeiros do remo e a modalidade perdeu a possibilidade de pagar os salários mais altos, verificando-se uma fuga de remadores para o nosso maior rival carioca. Desde aí, o Botafogo passou a ser vice-campeão de remo nas competições nacionais e estadual, cujos títulos têm sido arrecadados pelo rival.

Assim, o Clube caminhou para uma tendência de menorização das suas modalidades e o futebol não escapou a uma gestão fracassada: no Campeonato Brasileiro de 2019 o Botafogo classificou-se em 15º lugar, sem acesso a nenhuma das competições continentais, registrando 13V, 4E, 21D e um saldo negativo de 14 gols (31 a favor e 45 contra).

Alguns membros do Comitê Executivo de Futebol – Agostini, Mufarrej, Rotenberg e Montenegro. Crédito: Carlos Eduardo Sangenetto | FogãoNET.

No dia 9 de dezembro de 2019, visando fortalecer o futebol com uma estratégia vitoriosa, foi decidido criar o Comitê Executivo de Futebol, composto por seis membros, no qual pontificava Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente que influenciou profundamente eleições e decisões nos últimos 35 anos, e que Durcesio Mello, amigo de Montenegro desde a infância, o classificou como “o maior botafoguense da história” (sic), ignorando as dimensões maiores de formidáveis botafoguenses como Paulo Antônio Azeredo, Carlos Martins da Rocha (‘Carlito’), Adhemar Bebianno, Sergio Darcy e tantos outros dirigentes de grande nobreza.

Foi esse Comitê que montou o elenco protagonista da mais trágica participação do Botafogo no Campeonato Brasileiro de futebol no ano de 2020. Montenegro, face mais visível desse grupo, envolveu-se em várias polêmicas e conviveu com o profundo desagrado da torcida botafoguense que o considerou um dos principais responsáveis pela dramática campanha repleta de equívocos e erros de gestão desportiva.

Em outubro de 2020, em plena crise, quando já se avistava a 3ª descida do futebol à Série B, Montenegro decidiu afastar-se dos holofotes, sendo anunciado que o próprio e Manoel Renha sairiam do Comitê no dia 30 de novembro, enquanto Ricardo Rotenberg, Claudio Good e Marco Agostini (este substituíra o vice-presidente do Clube Carlos Eduardo Pereira, no início de 2020) sairiam em 31 de dezembro, mesma data do fim da presidência de Nelson Mufarrej, também pertencente ao Comitê – extinguindo-se esse órgão já depois da descida oficial do futebol botafoguense para a Série B.

A desorientação do Comitê Executivo do Futebol foi tão elevada que entre 1º de janeiro de 2020 até à despromoção para a Série B (25.02.2021) o Botafogo contratou 6 treinadores – Alberto Valentim, Paulo Autuori, Bruno Lazaroni, Ramón Díaz, Eduardo Barroca e Marcelo Chamusca (neste caso para começar de raiz na Série B).

Nesse trágico Campeonato Brasileiro de 2020 o colossal desastre do Botafogo saldou-se na classificação geral pelo 20º e último lugar com 5V, 12E, 21D, aproveitamento de 23.7%, e um saldo negativo de 30 gols (32 a favor e 62 contra).

No dia 25 de fevereiro de 2021 o Botafogo encerrou o Brasileirão de 2020 (campeonato prorrogado para 2021 devido à pandemia COVID-19) com uma triste derrota por 2x1 frente ao Ceará, na Arena Castelão, cuja equipe, comandada por Lúcio Flávio, formou com Diego Loureiro; Kevin, Marcelo Benevenuto, Sousa e Hugo; Kayque (Wendel) e Luiz Otávio (Lecaros); Warley (Davi Araújo), Cesinha (Matheus Nascimento) e Ênio; Matheus Babi (Rafael Navarro).

Os títulos continentais de 2019 no basquete e no pólo aquático, conquistados no espaço de uma semana. Fonte: Reprodução | Montagem do Mundo Botafogo.

As demais modalidades desportivas acompanharam o desastre, tendo o basquete, que se sagrara Campeão da Liga Sul-americana de Basquetebol em 2019, sido prejudicado nas suas finanças – que eram baseadas em participações exteriores especificamente orientadas para o basquete – e a equipe de basquete desmoronou-se.

Campanha completa do basquete em https://mundobotafogo.blogspot.com/2019/12/botafogo-e-campeao-da-liga-sul.html

O polo aquático, que era tetracampeão Sul-americano em 2016-2017-2018-2019 não competiu em 2020 por falta de verbas para deslocações.

Campanha completa do polo aquático em  https://mundobotafogo.blogspot.com/2019/12/botafogo-tetracampeao-sul-americano-de.html

O remo sobreviveu à custa do extraordinário e devotado técnico Paulinho, que juntamente com os remadores que ficaram, lutaram por todos os meios para se manterem à tona e, apesar do enormes contratempos, conseguirem segurar-se como o segundo clube mais importante do país no remo.

É bem provável que se o Remo não fosse obrigatório por estatuto também seria desmembrado, ou extinto, como viria a ocorrer com outras modalidades desportivas em 2021, já sob a presidência de Durcesio Mello, o amigo de infância de Montenegro, que em 24 de novembro de 2020 venceu as eleições do Botafogo para o quadriênio 2021-2024.

Fontes principais: interativos.ge.globo.com; mundobotafogo.blogspot.com; www.fogaonet.com.

O Brasil começou ganhando a Copa de 1958 no planejamento

Fonte: Wikipédia.

por JOÃO CARLOS GONÇALVES, Juruna | excerto da matéria “Garrincha e o futebol: o brilho da estrela” | in jornalggn.com.br

«A CBD, sob o comando do recém-eleito presidente João Havelange e de seu vice, Paulo Machado de Carvalho, traçou planos ambiciosos. Pela primeira vez, o Brasil ia para uma Copa com um planejamento milimétrico, cobrindo o período de 7 de abril (apresentação dos atletas) a 29 de junho de 1958 (a grande final). Pela primeira vez, a Seleção Brasileira adotava uma comissão técnica multidisciplinar. Junto a Feola, atuavam o supervisor Carlos Nascimento, o preparador físico Paulo Amaral, o médico Hilton Gosling, o administrador José de Almeida e o tesoureiro Adolpho Marques.

Desde a escolha do hotel na Suécia até o mapeamento das passagens aéreas para qualquer cenário de eliminação ou avanço, tudo foi friamente calculado. Os 33 jogadores pré-convocados foram submetidos a um check-up inédito na história do esporte nacional.

[…] Os atletas foram virados do avesso por clínicos, traumatologistas, neurologistas, radiologistas, cardiologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e até calistas. Os resultados laboratoriais foram assustadores.

Mesmo tratando-se da elite do futebol do país — homens que recebiam os maiores salários da profissão —, o estado físico geral era alarmante. Pareciam recém-chegados do interior profundo, carregando uma trouxa nas costas e um talo de capim entre os dentes. Os exames diagnosticaram um verdadeiro festival de vermes, lombrigas, anemias, infecções, problemas digestivos e circulatórios.

O cenário mais grave, contudo, estava na boca dos jogadores. Entre os 33 atletas, foram encontrados 470 dentes com problemas — uma média de quase 15 por jogador. O total de extrações chegou a 32 dentes, o equivalente a uma dentadura completa.

Outra inovação ousada da CBD foi incluir na delegação uma figura inusitada para a época: um psicólogo. Até então, vigorava a tese de que o jogador brasileiro “tremia nas bases” em momentos decisivos de Copas do Mundo. Como prevenção, o profissional passou a acompanhar o grupo.

O rigor da preparação estendia-se à conduta. O regulamento disciplinar, rigidamente fiscalizado por Carlos Nascimento, continha 40 itens, incluindo proibições como descer para o café da manhã sem fazer a barba ou dar declarações à imprensa sobre assuntos internos. Apesar de um certo exagero folclórico, aquela rigidez era necessária para profissionalizar o ambiente. Todo esse aparato surtiu efeito, e o título mundial, antes um sonho distante, tornou-se real

Texto completo em https://jornalggn.com.br/artigos/garrincha-e-o-futebol-o-brilho-da-estrela-por-joao-carlos-juruna/#elementor-action%3Aaction%3Dpopup%3Aopen%26settings%3DeyJpZCI6IjczMDk2OCIsInRvZ2dsZSI6ZmFsc2V9

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1966: o cachorro Pickles, Eusébio ‘Diamante Negro’ e nova final polêmica

Cartaz da Copa do Mundo de 1966. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1966, disputada em Inglaterra, ficou marcada pela primeira vitória inglesa na competição mundial, pela afirmação de Eusébio como artilheiro da Copa, pela campanha histórica de Portugal, pela surpresa da Coreia do Norte e por uma das finais mais discutidas da história do futebol. A Copa decorreu entre 11 e 30 de julho de 1966, com 16 seleções, 32 jogos e 89 golos.

O grande acontecimento foi indiscutivelmente a vitória da Inglaterra, orientada por Alf Ramsey, que derrotou a Alemanha Ocidental por 4x2 após prolongamento, no Estádio de Wembley. Foi o primeiro título mundial inglês e continua a ser o único da sua história.

A final teve enorme carga simbólica porque se jogava em Wembley, perante cerca de 97 mil espectadores, com a entrega da Taça Jules Rimet pela Rainha Isabel II. A Inglaterra transformou esse jogo num momento fundador da sua memória futebolística.

A final começou com golo alemão de Helmut Haller, mas Geoff Hurst empatou ainda na primeira parte. Já perto do fim, Martin Peters colocou a Inglaterra em vantagem, mas Wolfgang Weber fez o 2x2 no último minuto, levando o jogo para prorrogação.

Na prorrogação surgiu a grande controvérsia: um remate de Geoff Hurst bateu no travessão, ressaltou em cima da linha da meta, não a ultrapassando totalmente, e o árbitro apitou para escanteio. Todavia, perante os festejos de gol dos ingleses, o árbitro suíço Gottfried Dienst foi consultar o assistente soviético Tofiq Bahramov e o gol foi validado. A fortíssima dúvida sobre se a bola ultrapassou totalmente a linha tornou-se uma das discussões mais persistentes da história dos Mundiais, mas… a final disputava-se em Inglaterra...

Hurst ainda marcou o quarto gol inglês, completando um feito raríssimo: tornou-se o primeiro jogador a marcar um hat-trick numa final da Copa do Mundo.

Para Portugal, 1966 foi uma edição absolutamente histórica. Na sua primeira participação num Mundial, a Seleção Portuguesa terminou em 3º lugar, a melhor classificação de sempre do país na competição. O grande protagonista foi Eusébio, apelidado de ‘Diamante Negro’, que terminou como artilheiro do torneio, com 9 gols.

Eusébio marcou golos decisivos, liderou a equipa nos momentos mais difíceis e tornou-se uma das figuras centrais do futebol mundial. A prestação em Inglaterra consolidou a sua dimensão internacional e fez da seleção portuguesa uma das equipas mais marcantes da competição.

Gol de Eusébio contra a Coreia do Norte (colorizado). Fonte: https://maisfutebol.iol.pt

Uma das grandes peripécias do Mundial aconteceu nos quartas-de-final, em Goodison Park, na cidade de Liverpool: Portugal venceu a Coreia do Norte por 5x3, depois de estar perdendo por 3x0.

A Coreia do Norte surpreendeu tudo e todos ao marcar três golos a Portugal com apenas 25’ de jogo. Depois, Eusébio assumiu o jogo e marcou quatro gols, conduzindo Portugal a uma reviravolta extraordinária; José Augusto marcou o quinto. Este jogo ficou como uma das recuperações mais célebres da história de Copas do Mundo.

Antes desse jogo com Portugal, a Coreia do Norte já tinha protagonizado uma das maiores surpresas da competição ao vencer a Itália por 1x0 na fase de grupos, resultado que eliminou os italianos e colocou os norte-coreanos nos quartas de final.

Foi um choque para o futebol europeu. A Itália, uma potência histórica, caiu perante uma seleção quase desconhecida no cenário internacional. Esse resultado continua a ser recordado como uma das maiores surpresas da história dos Mundiais.

Portugal encontrou a Inglaterra nas semifinais, em Wembley. A equipa portuguesa perdeu por 2x1, com dois golos de Bobby Charlton para os ingleses e um golo de Eusébio, de grande penalidade, para Portugal. Apesar da derrota, Portugal ainda venceu a União Soviética por 2x1 no jogo do terceiro lugar e terminou no pódio.

Essa campanha teve enorme importância histórica: Portugal passou de estreante a uma das seleções mais admiradas da competição, com um futebol tecnicamente forte e com Eusébio como referência maior.

A Copa não foi isenta de peripécias curiosas. O argentino Antonio Rattín foi o primeiro atleta a ser expulso num jogo de seleções em Wembley porque o árbitro alemão Rudolf Kreitlein não gostou da forma como ele o olhou nos olhos. Rattín sentou-se junto à linha lateral e levou 10 minutos a sair de campo, escoltado pela polícia. Este incidente levou a FIFA a instaurar os cartões amarelo e vermelho, que começariam em 1970, para facilitar a comunicação entre árbitros e jogadores que falassem idiomas diferentes.

A Copa de 1966 também teve a primeira mascote da competição, o leão Willie, mas a peripécia mais curiosa ocorreu antes do início da competição. A Taça Jules Rimet foi roubada em Londres, em março de 1966, durante uma exposição filatélica. Dias depois foi encontrada embrulhada em jornal, por um cão chamado Pickles, durante um passeio com o seu dono, em South London.

Pickles, o cachorro que achou a Taça Jules Rimet. Fonte: Facebook Sports Directory.

O episódio tornou-se lendário: antes de a bola começar a rolar, o Mundial já tinha uma história de mistério, polícia, imprensa e um cão transformado em herói nacional.

Pickles virou celebridade, ganhou prêmios monetários, programas de televisão e comida gratuita por um ano. Morreu tragicamente no ano seguinte estrangulado acidentalmente pela coleira quando perseguia um gato. A coleira que usava quando encontrou o troféu está em exposição no National Football Museum, em Manchester.

Tal como em 1962, a Copa do Mundo de 1966 teve 89 gols em 32 jogos, o que revela uma competição relativamente equilibrada e menos aberta do que outras edições mais ofensivas. A Inglaterra de Alf Ramsey ficou associada a uma organização tática forte, com uma equipa compacta, disciplinada e muito eficaz,além de arbitragens 'amigas'.

Foi também um Mundial de afirmação do futebol moderno: maior atenção à preparação física, ao controlo tático do jogo e à gestão estratégica das diferentes fases da competição.

Em resumo, a Copa do Mundo de 1966 ficou na história pela vitória da Inglaterra em Wembley, pelo golo polémico de Geoff Hurst na final, pela extraordinária campanha de Portugal, pelos 9 golos de Eusébio, pela surpresa da Coreia do Norte contra a Itália, pela reviravolta portuguesa de 0x3 aos 25’ para 5x3 no final da partida e pelo episódio quase cinematográfico do roubo e recuperação da Taça Jules Rimet pelo cão Pickles. Foi um Mundial de forte carga simbólica, polémica e desportivamente decisivo para a memória do futebol europeu.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Inglaterra 4x2 Alemanha Ocidental

» Gols: Geoff Hurst, aos 18’, 101’ e 120’, e Martin Peters, aos 78’ (Inglaterra); Helmut Haller, aos 12’, e Wolfgang Weber, aos 90’ (Alemanha Ocidental)

» Data: 30.07.1966

» Local: Estádio de Wembley, em Londres (Inglaterra)

» Público: 96.924 espectadores

» Árbitro: Gottfried Dienst (Suíça); Assistentes: Tofiq Bahramov (União Soviética) e  Karol Galba (Tchecoslováquia)

» Inglaterra: Gordon Banks; George Cohen, Jack Charlton, Bobby Moore, Ray Wilson; Nobby Stiles, Alan Ball, Bobby Charlton, Martin Peters; Geoff Hurst, Roger Hunt. Técnico: Alf Ramsey.

» Alemanha Ocidental: Hans Tilkowski; Horst-Dieter Höttges, Willi Schulz, Wolfgang Weber, Karl-Heinz Schnellinger; Franz Beckenbauer, Wolfgang Overath; Helmut Haller, Uwe Seeler, Sigfried Held, Lothar Emmerich. Técnico: Helmut Schön.

Fontes principais: en.wikipedia.org; Facebook Sports Directory; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com.

Copa do Mundo de 1970: Jairzinho, o ‘Furacão da Copa’, Pelé e Zagallo tricampeões

Cartaz da Copa do Mundo de 1970. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo FIFA de 1970 realizada n...