sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Pelo Botafogo se vive, pelo Botafogo se morre - narrativa de Salim Simão

O Botafogo acima de tudo na vida de Heleno. Domínio Público | Wikipédia. Foto melhorada por IA.

[Nota preliminar: o texto reflete rigorosamente a escrita do jornalista botafoguense Salim Simão.]

por SALIM SIMÃO | Jornalista botafoguense, assistente do Editor do JB | Jornal do Brasil, 28.11.1979

«Um dia, com o prestígio que me conferia a chefia do Gabinete da Casa Civil de Negrão de Lima, procurou-me um jovem, cineasta iniciante, que almejava realizar um filme sobre a vida de Heleno de Freitas. Exibiu-me o roteiro, pediu-me subsídios, inclusive verba, e como se tratava de Heleno e do Botafogo não consultei normas e regulamentos e municiei o rapaz.

Aconselhei-o a procurar João Saldanha, que iniciara Heleno no Botafogo – os dois moraram juntos – e quem primeiro diagnosticara a tragédia que iria roer o herói, também ouvisse Carlos Niemeyer, Paulo Crespo, o saudoso Carlos Peixoto, Mariozinho de Oliveira, Sacha, o maître Luiz, Eduardo Trindade, (falecido), Carlito Rocha, Sandro Moreyra, Paulo Azerêdo, Ermelino Matarazzo – enfim um punhado de figuras que haviam privado com o genial garoto de General Severiano e de São João Nepomuceno, onde dorme o sono final há precisamente 20 anos.

O diretor da película a fez de tudo; entrevistou, dirigiu, filmou, viajou a Buenos Aires e Bogotá, foi a Minas, esgotou a pesquisa e sua arte incipiente – e meses após, gasto o dinheiro e extenuado, trouxe as latas contendo os filmes narrando o drama, a vida, a glória, a paixão, a loucura e a morte do genial atleta, (permitam-me que repita pela segunda vez a expressão genial em relação a Heleno).

A primeira cena do filme apresentava o ídolo De Freitas sendo carregado pela multidão em Bueno Aires, Gardel aplaudido em delírio (tradução: fama de Heleno igualava-se à de Gardel) e imediatamente o contraste violento: um homem desfeito, um monte humano de chumbo, gordíssimo, a barba densa do relaxamento – esse homem chutando uma bola para o enfermeiro de avental branco defender postado entre duas pedras como imaginárias balizas; o improvisado goleiro deixa a bola por ele passar propositadamente e o homem gordíssimo soltou um urro de glória. Era o gol festejado por Heleno na lucidez da demência tal como outrora na lucidez do atleta então insuperável. Confesso que meus lhos ficaram úmidos.

Perdi o gosto pelo filme, tão cruel e real ao descerrar o pano nas três cenas de apresentação quanto amargo e doce ao mesmo tempo em seu todo.

Heleno sempre elegante e socialmente apreciado. Fonte: https://terceirotempo.uol.com.br. Foto melhorada por IA.

Ontem, na casa de João Saldanha e Maria Sílvia, um grupo de veteranos botafoguenses recordava que, em novembro de 1959, na semana que corre, morria Heleno de Freitas, há 20 anos, repito, o alvinegro fanático, o admirável jogador, o rapaz delicado, falando em voz mansa, o machão ardoroso provocando tremendos sururus em campo, seus maus modos e críticas contra adversários, o carbonário ao microfone das estações de rádio (não havia televisão para eternizar toda a arquitetura fantástica de Heleno de Freita), o autor de frases plenas de misticismo e respeito (“queira Deus que a boa estrela nunca me abandone”) ou, então, eivadas de cólera e já de fundo lunático – mas nem por isso menos verdadeiras – ao responsabilizar Flávio Costa pelo desastre de 1950 em famosa entrevista a Sandro Moreyra (“o Brasil perdeu a Copa do Mundo perante os uruguaios e, sobretudo, perante Obdulio Varela, por incapacidade de Flávio Costa que transformou a Seleção Brasileira num punhado de frouxos, castrados, aparvalhados e medrosos”). Ninguém, até hoje, deu parecer tão sincero e real.

Como hoje não correm, tão infelizmente para nós alvinegros, bons ventos sobre o Botafogo, traído e abalado na sua estrutura por administrações anteriores altamente incompetentes, foi-nos doce e necessário recordar o romance da vida de Heleno de Freitas. Porque era tão romântico quanto romântico o nosso Botafogo.

Havia, dentre os interlocutores, quem vira na Colômbia a estátua do belo atleta, quem como quase todos acompanhara a vida do magistral centroavante, que fizera esquecer Leônidas (o Diamante Negro, e por isso Heleno foi apelidado de o Diamante Branco) e que morreu jamais admitindo que chegara ao fim. “Meu lugar ainda está vago e só eu posso salvar o Botafogo”, pronunciava com voz viril na casa de saúde, em Barbacena.

O Botafogo foi a obsessão de Heleno de Freitas. Empertigado, rigorosamente bem penteado, chamava a atenção tanto nos bailes e no velho “Vogue” como no campo, envergando camisa de seda no inverno. No Botafogo, substituiu Carvalho Leite e na Seleção Leônidas. Formou com Zizinho à direita e Ademir à esquerda o então mais temível trio atacante do mundo. Enxotado por Flávio Costa, deixou de ser campeão do mundo e por uma dessas amargas ironias do destino também não foi campeão pelo Botafogo.

A fabulosa frente de ataque da Seleção Brasileira de futebol em 1945: Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Jair da Rosa Pinto e Ademir Menezes. Fonte: Instagram paulodebarroscarvalho. Foto melhorada por IA.

Valente e generoso foi Heleno de Freitas e o mais perfeito goleador de cabeça que o mundo já viu! Visto no campo era a antítese de quem o observasse no aconchego social. “O jogo tem que ser resolvido no primeiro tempo”, dizia Heleno em relação ao futebol e à vida. Esse primeiro tempo ele o viveu intensamente, jogou dinheiro a mancheias pela janela, rodava com o carro mais ambicionado (Cadillac branco, coupé de ville, conversível), tinha fome de gols, odiava – santo ódio! – o Fluminense, que se vangloriava indevidamente de tê-lo iniciado no futebol: (“por que esses cretinos repetem isso – berrava Heleno furioso – quando já cansei de dizer que comecei no Botafogo, que o meu clube sempre foi o Botafogo?”).

A guerra entre Heleno e a torcida tricolor não teve tréguas. Todo o Estado tricolor uníssono: “Gilda”! “Gilda”! Outras vezes era saudado com “Helena”! “Helena”!, Heleno de Freitas outras vezes mostrava a camisa, fazia gestos e vingava nos gols a afronta por ele jamais perdoada. Era-lhe comum fazer três, quatro gols, mas jogava como um desesperado. Sozinho, deu uma goleada no Flamengo, logo no primeiro tempo, marcando três tentos [Nota do MB: Salim Simão equivocou-se; Heleno marcou apenas dois gols, aos 20’ e 70’] e levando o time rubro-negro a abandonar o campo… Isso ocorreu em 1944. Parece que foi horas atrás.

Nada existe de mais triste na carreira do craquíssimo do que a sua saída de General Severiano. Na Casa de Saúde, recordava em prantos o episódio de sua partida para a Argentina, o que precipitou mais tarde sua fulminante doença. Ídolo cá e lá, atlético, doutor em Direito, jovem, elegante, uma coroa de louro sobre a cabeça, Botafogo acima de tudo, só João Saldanha descobriu na ocasião e recorda os primeiros sintomas após o contrato milionário com o Boca Juniors. Alguém na roda esclarece que os argentinos lhe deram um trambique: comprometeram-se a pagar-lhe 400 mil antigos, converteram-nos em pesos e uma súbita desvalorização levou a fortuna. De qualquer modo, o dinheiro lhe escorria por entre os dedos como água… O locutor Luiz Mendes, meu amigo tão doce quanto calvo, é o único dos locutores vivos dentre os representantes de numerosas estações de rádio do Rio e S. Paulo que foram transmitir o primeiro jogo de Heleno no Boca.

No famoso chororô flamenguista do ‘Jogo do Senta’, Heleno de Freitas abriu o placar e marcou dois gols. Crédito: Diário da Noite. Foto melhorada por IA.

De Freitas estava nos anúncios, nas emissoras, no cinema. João Saldanha conta que no Plaza do Passeo Colon havia um gigantesco painel de Heleno. Desde o bairro elegante de San Martin até à Calle Corrientes, nos bairros, boêmios e aristocráticos, só Gardel ombreava com o De Freitas – goleou nesse primeiro empate e foi sabotado depois por todos os gringos, como chamava seus companheiros em campo. Atuava sempre contra dois times. “Já era doença”, esclarece tardiamente João Saldanha.

Os milhões vieram a Heleno ainda na Colômbia, “estou exausto de paredros e cartolas”, “sou um aventureiro”. Ali era conhecido como o “Homem de Bronze” e ganhou estátua na praça pública. Será que lá está ainda?

O papo foi longe. De mim, apenas narrei os encontros com Heleno nos vestiários e nos carnavais. Trabalhava eu dia e noite e mal conhecia a orla do Atlântico, onde todos os cafajestes (era clube com esse nome e até que bom) se reuniam, inclusive o nosso herói. Depois, vi-o sem dinheiro (que humilhação para qualquer ser humano não ter dinheiro!) aspirando éter no terraço do Botafogo, contando bravatas (“matei um touro na Espanha com um murro!” “Meu murro é igual ao do velho Dempsey nos seus áureos tempos!”), evocando o passado com minúcias que comoviam a todos. A constante era a glória de ser sócio e amante do Botafogo. Nem uma palavra de censura sobre o passado, pelos contratos iniciais, pelo trato com as diretorias. Entrava em campo, treinava, treinava, treinava e, depois, o veneno volátil e a pílula adormecedora, a morte lenta, mas a lucidez perfeita.

Em verdade, concordamos todo na casa de João Saldanha – já era de madrugada –, Heleno de Freitas tem merecidamente o seu caixão coberto com uma bandeira alvinegra e seu retrato na galeria dos que honraram a Estrela Solitária. Foi filho dileto do Botafogo, vinte anos após morrer é lembrado como se tivesse viajado ontem, foi o último centroavante clássico do futebol brasileiro.

Só jogou o primeiro tempo de sua vida, mas como ninguém se empenhou. Pelo Botafogo viveu e morreu. Assim nós nos sentíamos também – vivendo e morrendo pela Estrela Solitária – no terno papo na casa do João. Heleno era um todo de cada um de nós. E eu orei para que Deus, ame o Botafogo eternamente e para que também nós assim o amemos. Amém. E mais uma vez, adeus Heleno de Freitas.»

Fonte do texto: Jornal do Brasil, 28.11.1979.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Thâmela e Vic incríveis campeãs pré-olímpicas sul-americanas

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Thâmela Coradello e Victoria Lopes, representando o Brasil e o SESC/Botafogo Praia, sagraram-se campeãs do Torneio Sul-americano de Vôlei de Praia, organizado pela Confederación Sudamericana de Voleibol, que se realizou no Busto de Tamandaré, em João Pessoa, entre os dias 3 e 6 de setembro de 2026.

A dupla realizou uma campanha simplesmente sensacional, vencendo os seis jogos e os 12 sets, obtendo 258 pontos contra 169 das adversárias e uma média de resultado por cada set de 21,5-14.

A conquista classifica a dupla Thâmela Coradello e Victoria Lopes diretamente para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.

Eis a soberba campanha das atletas da equipe SESC/Botafogo Praia:

GRUPO A

Thâmela & Vic 2x0 Edith Gonzáles & Alexandra Mendoza (Peru)

» Parciais: 21-13; 21-12

» Data: 03.09.2026

Thâmela & Vic 2x0 Karen Santander & Antonella Mori (Chile)

» Parciais: 21-09; 21-14

» Data: 04.09.2026

Thâmela & Vic 2x0 Valeria Moreno & Darlin Rodríguez (Venezuela)

» Parciais: 21-13; 21-16

» Data: 04.09.2026

O ponto indefensável que valeu o título em set final arrasador. Crédito: Confederación Sudamericana de Voleibol. Captura de tela, 06.09.2026.

QUARTAS DE FINAL

Thâmela & Vic 2x0 Lisbeth Allcca & Claudia Gaona (Peru)

» Parciais: 22-20; 21-14

» Data: 05.09.2026

SEMIFINAIS

Thâmela & Vic 2x0 Fiorella Núñez & Denisse Álvarez (Paraguai)

» Parciais: 21-19; 21-11

» Data: 06.09.2026

FINAL

Thâmela & Vic 2x0 Michelle Valiente & Giuliana Corrales (Paraguai)

» Parciais: 26-24; 21-07

» Data: 06.09.2026

Fonte: Youtube Confederación Sudamericana de Voleibol

Torcedor botafoguense soltando pipa imaginária!

É muito divertida a participação deste torcedor soltando pipa imaginária!

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A maior constelação jornalística desportiva de todos os tempos: cultura, protagonismo, provocação e botafoguismo

Mesa Redonda da Grande Resenha Facit encenada por IA.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A história do jornalismo desportivo carioca da segunda metade do século XX não se compreende apenas mediante percursos profissionais individuais, porquanto em torno das redações dos grandes jornais do Rio floresceram verdadeiras comunidades de jornalistas, escritores e cronistas, para os quais trabalho, amizade, rivalidades futebolísticas e vida quotidiana se misturavam.

Dentre essas comunidades a mais singular foi certamente formada por um conjunto invulgarmente numeroso de jornalistas botafoguenses, cujo lugar central era o Jornal do Brasil, localizado na Avenida Brasil, com a sua editoria de Desporto que reuniu, durante décadas, os mais importantes jornalistas da imprensa brasileira cujo convívio era diário: Fernando Calazans, João Máximo, João Saldanha, José Inácio Werneck, Márcio Guedes, Marcos de Castro, Oldemário Touguinhó, Roberto Porto, Sandro Moreyra e muitos outros.

Na expressão de um estagiário que entrou no jornal na década de 1970, havia ali jornalistas que davam para formar “três seleções”. E nessas “seleções”, ainda na 1ª metade da década de 1970, cabiam, num total de 24 elementos, 12 jornalistas botafoguenses: Antônio Maria Filho, Cláudio Dienstman, Eloir Maciel, João Jobim Alves Saldanha, Luiz Fernando ‘Gauchinho’ Lima, Mara Bentes Cardoso, Márcio Guedes, Mesquita (diagramador), Oldemário Vieira Toguinhó, Otávio Name, Roberto Porto e Sandro Luciano Moreyra.

O Botafogo era, assim, uma espécie de ‘corrente subterrânea’ dentro daquela redação. Todavia, José Inácio Werneck, que era o editor desportivo do JB e não era botafoguense, manifestou que a preferência clubística não contaminava o tratamento jornalístico dos acontecimentos, cuja cultura profissional era muito reputada, suportada pela qualidade da informação, da escrita e da capacidade crítica.

Caricatura de João Saldanha da autoria de Ique.

Dentro deste núcleo, João Saldanha ocupava uma posição quase inevitavelmente central. A relação de Saldanha com o Botafogo foi muito além da condição de tocedor: esteve ligado ao clube como jogador ocasional, dirigente e treinador, tendo conduzido a equipa ao título de Campeão Carioca de 1957. Mais tarde, tornou-se uma das figuras mais influentes da crônica desportiva brasileira. Roberto Porto, que trabalhou com ele durante anos, considerava-o um verdadeiro símbolo do clube.

João Saldanha assumia uma posição central pela sua experiência como jornalista, dirigente e treinador, organizando espontaneamente conversas principalmente com João Máximo, Oldemário Touguinhó e Sandro Moreyra, que atraíam jornalistas mais novos e foram descritas mais tarde, em evento comemorativo a João Saldanha, como mais valiosas “do que uma faculdade de jornalismo”.

Caricatura de Sandro Moreyra (de braços cruzados) recriada por IA a partir da caricatura do artista Aroeira, intitulada ‘Time – Cabeça do Botafogo’, que reunia um time de 15 jornalistas e intelectuais botafoguenses.

Sandro Moreyra era uma figura complementar, apaixonado pelo Glorioso e que tinha acesso privilegiado ao Botafogo, mantendo relações próximas com os jogadores, designadamente Garrincha, Nilton Santos e outro craques, chegando a chefiar uma excursão da equipe à Europa.

Saldanha e Sandro eram amigos, mas isso não significava concordância permanente, tanto mais que Saldanha era muito cioso da sua autoridade como treinador e desfeiteava certas sugestões de Sandro Moreyra.

Roberto Porto, o último grande jornalista dessa geração botafoguense a desaparecer, que sempre difundiu a ideia de o Botafogo ser a “maior paixão imaterial” de sua vida, abandonou o curso de Direito pelo jornalismo desportivo para “estar mais próximo do Botafogo”. No Jornal do Brasil passou a ir aos jogos acompanhado por João Saldanha, Sandro Moreyra e Salim Simão. Isto é, saíam os quatro da redação e iam ao futebol, convivendo profissional e pessoalmente.

Caricatura de Salim Simão elaborada por IA a partir de foto de Salim Simão entregando um prêmio individual a Afonsinho (1969).

Salim Simão era uma figura pública menos visível, mas particularmente interessante e marcante naquele meio, lembrado pelos seus súbitos e célebres gritos. José Inácio Werneck, de quem Salim Simão era Assistente na editoria do JB, evocou Salim como uma figura emblemática daquele tempo, uma personalidade que entrava e transformava o ambiente, classificando-o de “estentórico”.

Botafoguense ‘roxo’, e em simultâneo profundamente amigo do famoso tricolor Nelson Rodrigues, quiçá o maior dramaturgo brasileiro à época, Salim e Nelson desfrutavam de uma relação íntima espantosa, que era cultural para lá do desporto, sabendo-se que ambos eram torcedores adversários, que um era marxista e o outro anticomunista, que tinham muito de radicais e se colocavam tantas vezes em polos opostos, ao mesmo tempo que aparentemente se agrediam e fruíam essa relação invulgar.

Ao recordar Nelson Rodrigues, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony recordou que do círculo íntimo de Nelson faziam parte figuras culturais como Hans Henningsen, José Lino Grünewald, Pedro do Coutto e… Salim Simão.

A amizade era tão profunda que Nelson tomou Salim Simão como personagem das suas peças de teatro mantendo o seu verdadeiro nome, sobretudo na obra ‘Anti-Nelson Rodrigues’. Foram 50 anos de amizade profunda entre redação, arquibancada, bar, televisão e literatura, atravessando a fronteira entre a vida e a ficção.

Leia aqui essa espantosa relação entre Salim Simão e Nelson Rodrigues, cuja II parte inclui excertos das peças de Nelson que ilustram Simão como figura principal:

https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/02/salim-simao-botafoguense-roxo-i.html

https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/02/salim-simao-botafoguense-roxo-ii.html

Caricatura de Armando Nogueira (de braço dado com Sandro Moreyra) recriada por IA a partir da caricatura do artista Aroeira, intitulada ‘Time – Cabeça do Botafogo’, que reunia um time de 15 jornalistas e intelectuais botafoguenses.

Outro elo fundamental era Armando Nogueira, igualmente botafoguense, jornalista de enorme importância institucional, que chegara a dirigir o jornalismo da Rede Globo, que partilhava com João Saldanha a paixão pelo Botafogo num dos programas mais importantes da história da televisão brasileira: a Grande Resenha Facit, que transformou a cultura oral das redações e das discussões de futebol numa fórmula televisiva, reunindo em torno da mesma mesa figuras representando diversas paixões clubísticas como Armando Nogueira (Botafogo), João Saldanha (Botafogo), José Maria Scassa (Flamengo), Nelson Rodrigues (Fluminense), Vitorino Vieira (Vasco da Gama), entre outros. Luiz Mendes era o ‘mediador’ do programa.

Isto significa que a mesa redonda televisiva brasileira nasceu, de certo modo, da transferência para o ecrã de uma sociabilidade previamente vivida nas redações desportivas, que não buscava a neutralidade, apresentando protagonistas que possuíam biografia, clube, linguagem e personalidade reconhecíveis, em ambiente de provocação entre amigos e adversários.

A relação entre Saldanha e Nelson teve momentos televisivos inesquecíveis. Por exemplo, quando o videoteipe contrariava a versão apaixonadamente clubista de Nelson, ele podia preferir a sua própria visão à prova das imagens, respondendo que se o videoteipe discordava dele, “pior para o videoteipe” – emergindo um ambiente saudável de provocação entre amigos e adversários futebolísticos.

Caricatura de Roberto Porto da autoria do artista Ique.

Quanto a Roberto Porto, destaca-se a sua amizade com José Inácio Werneck, que é muito importante para reconstituir a ‘rede’ na medida em que Porto dedicou os últimos anos da sua vida a preservar as histórias do Botafogo e da antiga imprensa. Em vários textos declara-se amigo de José Inácio e quando publicou ‘Botafogo – O Glorioso’, em 2009, confiou-lhe a escrita da orelha do livro.

Roberto Porto funcionou, assim, como uma espécie de memorialista daquela geração, narrando muitas situações vividas por esta extraordinária plêiade de jornalistas, não apenas botafoguenses, que juntos viviam situações reais: trabalhavam juntos, iam juntos aos estádios, debatiam futebol, provocavam-se uns aos outros, bebiam juntos, escreviam sobre os mesmos personagens e muitas décadas depois continuaram reconhecendo-se mutuamente.

Por isso seria redutora a tentação de chamar a essas relações uma “escola botafoguense de jornalismo”, porque embora houvesse uma fortíssima presença alvinegra, a excepcionalidade daquele meio era resultado direto de uma enorme interação entre jornalistas e escritores de outras paixões e de áreas diversas, os quais circulavam em espaços físicos concretos, designadamente na redação do Jornal do Brasil, Maracanã, General Severiano, estúdios da TV Rio e da Globo, cabina da rádio e bares do centro do Rio.

Foi um tempo em que os jornalistas não se limitavam a autoria das histórias, sendo eles próprios personagens das histórias uns dos outros.

Nelson transformava Salim numa personagem teatral; Roberto Porto transformava Saldanha, Sandro e Salim em personagens das suas memórias; Sandro construía parte significativa das suas crônicas a partir da convivência com Garrincha, Manga, Nilton Santos e os bastidores do Botafogo; Saldanha misturava a experiência de jornalista, dirigente, treinador e homem de futebol; Armando Nogueira transportava para a televisão uma escrita de forte dimensão literária; José Inácio Werneck, décadas depois, e já vivendo na América exercendo a atividade de Supervisor do Serviço Brasileiro da ESPN International, continuava a evocar o ambiente humano daquelas redações como algo praticamente desaparecido.

A memória sobreviveu porque não foi apenas uma geração de jornalistas, mas sim uma comunidade narrativa que contava histórias entre eles.

O Botafogo que emerge dos textos desta geração formidável de jornalistas não é apenas uma equipe de futebol ou um Clube, mas também um lugar de pertença, uma memória da cidade e uma linguagem mediante a qual esses jornalistas se reconheciam uns aos outros.

Fontes: blogdorobertoporto.blogspot.com; ge.globo.com ; memoriaglobo.globo.com; mundobotafogo.blogspot.com; pickscribe.com; www.abi.org.br; www.ihu.unisinos.br; www.jb.com.br; www.joseinaciowerneck.com; www.observatoriodaimprensa.com.br; https://www.researchgate.net

Pelo Botafogo se vive, pelo Botafogo se morre - narrativa de Salim Simão

O Botafogo acima de tudo na vida de Heleno. Domínio Público | Wikipédia.  Foto melhorada por IA. [Nota preliminar: o texto reflete rigoros...