quarta-feira, 10 de junho de 2026

Entre o céu e o inferno (VIII): da derrocada financeira à mais brilhante campanha na Copa Libertadores (2015-2017)

Carlos Eduardo Pereira indicando a porta de saída a Maurício Assumpção. Crédito: Thiago Pinheiro.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

As eleições do Botafogo para o triênio 2015-2017 e a transição para a nova Diretoria, liderada por Carlos Eduardo Pereira, foram agitadas em face do legado de Maurício Assumpção.

As contas do ano fiscal de 2014 foram reprovadas pelo Conselho Deliberativo e o ex-presidente, que terminara a sua gestão totalmente isolado, foi posteriormente humilhado.

Em 2012, com a contratação de Clarence Seedorf, Assumpção tornou-se um popstar junto da torcida, chegando a ir às lágrimas em Macapá, durante o evento ‘Feijão do Fogão’, ao ser recepcionado como uma ‘estrela do time’, formando-se filas tão longas para autógrafos que se assemelhavam às filas de autógrafos para Túlio ‘Maravilha’ após a campanha do Brasileirão de 1995.

Em 2014, já depois das peripécias ocorridas com o Engenhão, e com a gestão de Assumpção seguindo um rumo temeroso, muito contestado pela torcida, o mandatário isolou-se, deixou de atender no seu consultório e sequer tornou a ir aos treinamentos da equipe de futebol.

Na ótica de Marcelo Guimarães, que apoiou Assumpção para o primeiro mandato e foi seu concorrente derrotado nas eleições para o segundo mandato de Assumpção, “ele se descolou da realidade. Clubes têm orçamentos e enquadram suas despesas de acordo com as receitas.” – considerou Guimarães, que acrescentou: – “O grande erro foi abrir mão de um processo de profissionalização que vinha dando certo no primeiro mandato.”

Dessa oposição nasceu um novo termo cunhado por Guimarães para caracterizar a troca da profissionalização pelo regresso ao amadorismo: a ‘Turma da Praia’, aludindo aos amigos de Assumpção no tempo em que era diretor de futebol de praia do América.

A chapa eleita para o período de 2015-2017 era composta, entre outros cargos, pelo Presidente, Carlos Eduardo Pereira, pelo Vice-presidente Geral, Nelson Mufarrej, e pelo Vice-presidente de Finanças, Bernardo Santoro, neste caso um homem que sugerira e publicara um verdadeiro programa de recuperação do Clube, ainda no tempo de Assumpção.

Equipe da Taça Guanabara. Internet | Reprodução.

No entanto, face a uma situação financeira típica de bancarrota, a equipe financeira confrontou-se com contas bloqueadas, dívidas trabalhistas e a necessidade de renegociar patrocínios para garantir a sobrevivência do Clube no primeiro ano de gestão.

Todavia, pouco mais de um ano depois de tomar posse, por entre inúmeras dificuldades financeiras, de cujo 'buraco' não se via o fundo, Santoro demitiu-se no dia 26 de abril de 2016, alegando “incompatibilidade de tempo por questões profissionais”…

Maurício Assumpção foi, entretanto, acusado de irregularidades com base num parecer apresentado pelo Departamento Jurídico com acusações de improbidade administrativa, prejuízo ao patrimônio do Clube, favorecimento a amigos e empréstimo sem destino especificado, entre outras acusações.

Em agosto de 2016, em decisão unânime, Maurício Assumpção foi expulso do quadro social do Botafogo de Futebol e Regatas, tornando-se o primeiro ex-presidente impugnado em toda a história do Clube. Faleceu em 2023.

Em 2015, apesar da instabilidade, o futebol do Botafogo, contra todas as expectativas, iniciou o campeonato estadual com o pé direto, conquistando a Taça Guanabara de pontos corridos, já sob o comando de René Simões, que substituíra o fraco Vagner Mancini.

O Botafogo conquistou o título vencendo o Macaé na última rodada por 1x0 e beneficiando do empate por 0x0 entre Flamengo e Nova Iguaçu. A atribuição do título foi impressionante: Botafogo e Flamengo registraram empates por pontos, vitórias, saldo de gols e gols a favor, tendo o título sido decidido apenas pelo resultado do confronto direto entre os dois clubes, que o Botafogo vencera por 1x0.

No jogo que permitiu o título o Botafogo venceu o Macaé no Estádio Olímpico Nilton Santos, por 1x0, gol de Elvis, aos 38’. A equipe formou com Renan; Luís Ricardo (Gilberto), Renan Fonseca, Alisson e Carleto; Diego Giaretta; Willian Arão, Fernandes e Elvis; Jobson (Sassá) e Henrique (Bill). Técnico: René Simões.

Pormenores do título em https://mundobotafogo.blogspot.com/2015/04/botafogo-conquistou-taca-guanabara-2015.html

Apontado como a 4ª força do Rio de Janeiro, o Botafogo desmentiu os favoritismos dos adversários, destacando-se com a dupla Bill e Jobson em partidas decisivas.

Rodrigo Pimpão, artilheiro da Copa Libertadores igualando Jairzinho e Dirceu. Crédito: Eduardo Carmim | Photo Premium.

Nas semifinais do Estadual o Botafogo foi vencido pelo Fluminense por 2x1 e no jogo de volta venceu o Fluminense pelo mesmo resultado, tendo a disputa dramática ocorrido com 11 pênaltis para cada lado. O Botafogo venceu por 9x8 com os goleiros decidindo a classificação – Renan converteu, Diego Cavalieri desperdiçou e o Botafogo rumou para a final, na qual perdeu ambos os jogos para o Vasco da Gama.

Entretanto, iniciou-se o Campeonato Brasileiro – série B e houve troca de comando da equipe, com Ricardo Gomes a substituir René Simões. Efetuando dois turnos muito regulares, o Botafogo assegurou o regresso à série A na antepenúltima rodada e sagrou-se campeão brasileiro B antecipadamente na penúltima rodada.

No jogo do título, realizado no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, o Botafogo derrotou o ABC por 2x1, gols de Roger Carvalho, aos 8’, e Willian Arão, aos 32’. A equipe, comandada por Ricardo Gomes, formou com Jefferson; Luís Ricardo, Renan Fonseca, Roger Carvalho e Diego Giaretta; Rodrigo Lindoso, Willian Arão, Fernandes (Elvis) e Daniel Carvalho (Lulinha); Neilton e Navarro (Ronaldo).

Pormenores do título em https://mundobotafogo.blogspot.com/2022/10/2015-botafogo-campeao-brasileiro-de.html

Em 2016 o Botafogo não conquistou nenhum título de futebol na equipe principal e o seu técnico, Ricardo Gomes, após 1 ano e 21 dias ao leme do Glorioso, acabou por aceitar uma proposta para comandar o São Paulo, em virtude de a Diretoria alvinegra não cumprir compromissos verbais que estabelecera com o técnico.

Em boa hora, o jovem Jair Ventura, filho do consagrado ‘Furacão’ da Copa do Mundo de 1970, foi contratado para substituir Ricardo Gomes, não se queixando dos reforços que não chegaram e adequando o plantel à realidade do Botafogo e ao que, na sua perspectiva, seria o ‘possível’ e o ‘realizável’.

Novamente o Botafogo superou as expectativas e terminou num confortável 5º lugar, classificando-se para as eliminatórias da Copa Libertadores da América. A equipe baseou-se numa defensiva muito bem montada e em velocidade nas transições ofensivas.

A mesma estratégia foi prosseguida na Libertadores em 2017 e o Botafogo foi a sensação da mais importante competição continental, vencendo cinco ex-campeões sul-americanos que em conjunto conquistaram 13 Copas Libertadores.

Jair Ventura, comandante do Botafogo na Copa Libertadores. Fonte: Arquivo da Gazeta Esportiva.

Eis os resultados da campanha: 1ª Eliminatória, Colo-Colo (2x1, 1x1); 2ª eliminatória, Olímpia (1x0, 0[3]x1[1]); Fase de Grupos, Estudiantes (2x1, 0x1), Barcelona Guayaquil (1x1), Atlético Nacional (2x0, 1x0); Oitavas-de-final, Nacional (Uruguai) (1x0, 2x0). Nas Quartas-de-final o Botafogo foi eliminado pelo Grêmio (0x0, 0x1) com uma arbitragem muito ‘marota’.

Súmulas da campanha em https://mundobotafogo.blogspot.com/2017/09/botafogo-gloriosa-campanha-na-taca.html

No Campeonato Brasileiro de 2017 o Botafogo acercou-se da classificação para a Copa Libertadores, mas acabou por se classificar em 10º lugar, a 2 pontos das eliminatórias de acesso à maior competição continental, registrando 14V, 11E, 13D e saldo positivo de 3 gols (45 a favor e 42 contra).

Nos últimos jogos Jair Ventura tentou tirar a pressão dos seus jogadores, mas foi infeliz na sua comunicação pública e caiu em ‘desgraça’ na torcida botafoguense. O técnico falou assim:

A gente fala em obrigação. Você já escalou o Monte Everest? Não podemos ter obrigação com uma coisa que nunca aconteceu. O Botafogo nunca foi em dois anos seguidos para a Libertadores. Nunca fui à Lua. Vamos procurar essa classificação, mas sem pressão.”

E assim, 1 ano e 131 dias depois, Jair deixou o cargo de treinador do Botafogo no dia 22 de dezembro de 2017.

Neste mandato do presidente Carlos Eduardo Pereira e do vice-presidente Nelson Mufarrej iniciou-se o descarte de diversas modalidades históricas do Botafogo, começando pelo voleibol masculino, que após uma campanha espetacular na Série B do Campeonato Brasileiro ascendeu ao direito de disputar a elite do voleibol nacional em 2018, mas a equipe principal foi frustrantemente extinta.

É certo que modalidades como o Basquetebol e o Polo Aquático conseguiram crescer e ganhar protagonismo, conquistando título continentais, embora no polo aquático tenha sido muito a expensas dos próprios jogadores e suas famílias, mas esse capital desportivo foi desbaratado na diretoria.

Carlos Eduardo Pereira terminou o mandato sem cumprir a legítima aspiração dos sócios torcedores do Botafogo de terem direito a voto, reservado a uma minoria clássica de sócios-proprietários.

Fontes principais: ge.globo.com; mundobotafogo.blogspot.com; oglobo.globo.com; www.lance.com.br.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1938: Itália, a primeira seleção bicampeã

Cartaz da Copa do Mundo de 1938. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1938, realizada em França, de 4 a 19 de junho, foi a terceira edição do Mundial e a última antes da interrupção causada pela Segunda Guerra Mundial. A Itália confirmou o título de 1934 ao vencer a Hungria por 4x2 na final, tornando-se a primeira seleção a defender com sucesso o título mundial.

A competição começara marcada por tensão política. A escolha da França como sede provocou irritação na América do Sul, porque muitos esperavam uma alternância entre Europa e América depois da Copa de 1934, também europeia. Isso contribuiu para ausências importantes, como Argentina e Uruguai. A Espanha também não participou por causa da Guerra Civil Espanhola.

Uma das maiores peripécias aconteceu antes mesmo do pontapé inicial: a Áustria, que se tinha classificado e ainda era associada ao prestígio do antigo Wunderteam, deixou de existir como seleção independente após o Anschluss, a anexação pela Alemanha nazista (*) em março de 1938. Alguns jogadores austríacos foram incorporados à seleção alemã, mas a vaga austríaca ficou vazia; por isso, a Suécia avançou diretamente para as quartas-de-final sem jogar a primeira eliminatória.

O formato voltou a ser de eliminação direta, como em 1934, sem fase de grupos. Se houvesse empate, jogava-se prolongamento; se o empate continuasse, havia jogo de repetição. A edição de 1938 foi a última Copa d Mundo a usar esse sistema inteiramente eliminatório.

O Botafogo Football Club continuou sendo o Clube que mais jogadores cedeu para a Copa do Mundo de 1938: Nariz, Martim, Perácio, Zezé e Patesko (a par do Fluminense também com cinco jogadores).

Equipe do Botafogo em 1948 (colorizada): da esquerda para a direita, em cima, Zezé, Martim, Canali, Aymoré, Nariz e Lino; em baixo, Álvaro, Carvalho Leite, Paschoal, Perácio e Patesko. Foto original: Castro, Alceu Mendes de Oliveira (1951).O Futebol no Botafogo (1904-1950). Rio de Janeiro: Gráfica Milone, Ltda.

Logo na primeira fase houve jogos caóticos. A Alemanha, reforçada por jogadores austríacos, empatou com a Suíça e precisou de repetição. No segundo jogo, chegou a estar vencendo por 2x0, mas acabou derrotada por 4x2, sendo eliminada logo na estreia. Foi uma das grandes surpresas do torneio.

Outra história curiosa foi a de Cuba, estreante em Copas. Os cubanos eliminaram a Romênia após um empate e um jogo de repetição, chegando inesperadamente às quartas-de-final. A aventura acabou de forma pesada: a Suécia, que estreava só nessa fase devido à ausência austríaca, venceu Cuba por 8x0.

O Brasil teve uma das campanhas mais memoráveis. Na estreia, venceu a Polônia por 6x5 após prolongamento, num dos jogos mais espetaculares da história das Copas. Leônidas da Silva, o ‘Diamante Negro’, foi o grande nome brasileiro do jogo com um hat-trick e terminou como artilheiro do torneio, com 7 gols. A curiosidade é que Leônidas entrou para a história por ter feito um gol descalço: estava apertando a chuteira perto da área da Polônia e recebeu um ‘presente’ do goleiro, que escorregou na marcação de um tiro de meta, ele correu para a bola com a chuteira na mão e marcou o gol – que atualmente seria obviamente anulado.

Brasil e Tchecoslováquia fizeram outro jogo marcante nas quartas-de-final, conhecido pela violência e pelas lesões. O primeiro confronto terminou empatado após prolongamento e precisou ser repetido. Na repetição, o Brasil venceu por 2x1, enquanto os tchecos ficaram desfalcados por lesões importantes sofridas no jogo anterior.

A semifinal entre Itália e Brasil também entrou para a história. O Brasil não contou com Leônidas, explicando o acontecimento publicamente como uma mistura de lesão e opção de preservá-lo para uma possível final. Sem o seu maior craque, a Seleção Brasileira perdeu por 2x1 para a Itália. Do outro lado, a Hungria goleou a Suécia por 5x1 e avançou com força para a decisão.

A final foi disputada no Stade Olympique de Colombes, em Paris. A Itália abriu o placar cedo, a Hungria empatou rapidamente, mas os italianos retomaram o controle e chegaram ao intervalo vencendo por 3x1. O resultado final foi Itália 4x2 Hungria, com dois gols de Gino Colaussi e dois de Silvio Piola.

Brasil 6x5 Polônia. Pilkars – http://www.om4ever.com.

Também ficou famosa a história de que Mussolini teria enviado à Seleção Italiana, antes da final, um telegrama com a frase “Vitória ou morte!”. A Itália de Vittorio Pozzo jogava sob enorme carga simbólica e política, representando o regime fascista num ambiente europeu cada vez mais tenso. Mais tarde, o goleiro magiar Antal Szabo declarou: “Sofri quatro gols, mas salvei a vida de 11 homens.”

Em resumo, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a Copa disputada às vésperas da Segunda Guerra, a ausência de várias seleções importantes, a retirada da Áustria após o Anschluss, a eliminação precoce da Alemanha, a surpresa cubana, os jogos dramáticos do Brasil, o brilho de Leônidas, a polémica ausência dele na semifinal, e o bicampeonato italiano contra a Hungria.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 4x2 Hungria

» Gols: Gino Colaussi, aos 6’ e 35’, e Silvio Piola, aos 16’ e 82’ (Itália); Pal Titkos, aos 8’, e Gyorgy Sarosi, aos 70’ (Hungria)

» Data: 19.06.1938

» Local: Stade Olympique de Colombes, em Paris (França)

» Itália: Aldo Olivieri, Alfredo Foni, Amedeo Biavati, Gino Colaussi, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Michele Andreolo, Pietro Rava, Pietro Serantoni, Silvio Piola e Ugo Locatelli. Técnico: Vittorio Pozzo.

» Hungria: Antal Szabo, Antal Szalay, Ferenc Sas, Gyorgy Sarosi, Gyorgy Szucs, Gyula Lazar, Gyula Polgar, Gyula Zsengeller, Jeno Vincze, Pal Titkos e Sandor Biro. Técnico: Karoly Dietz.

(*) A etimologia da expressão “nazismo” tem origem no alemão ‘nazismus’, que por sua vez deriva de ‘nazi’, um apelido usado para se referir aos membros do partido de Adolf Hitler. Nazi era originalmente abreviação coloquial de nomes alemães, usada às vezes de forma pejorativa para sugerir alguém simplório ou provinciano. O nazismo era um movimento ultranacionalista, autoritário e racista. Curiosamente, a suástica, símbolo adotado pelo partido, é muito mais antiga que o nazismo. Existe há milhares de anos em várias culturas da Europa, Ásia, África e Américas, associada a ideias positivas como sorte, prosperidade, eternidade, movimento ou espiritualidade. A designação vem do sânscrito ‘svastika’, que significa “bem-estar”, “boa fortuna” ou “aquilo que traz auspício”.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.om4ever.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

A embarcação imbatível da década de 1950

 
O ‘Sputnik Solitário 8’ na década de 1950. Fonte: Instagram johnnycarioca.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1934: estreia da associação entre futebol versus política

Cartaz da Copa do Mundo de 1934. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália, entre 27 de maio e 10 de junho, foi a segunda edição do torneio e terminou com a Itália campeã, vencendo a Tchecoslováquia por 2x1 após prolongamento, em Roma. Foi também a primeira Copa vencida por uma seleção europeia.

O acontecimento mais marcante fora de campo foi o uso político do torneio pelo regime fascista de Benito Mussolini (*), aliado da Alemanha de Hitler. A competição serviu como alavanca internacional para projetar uma imagem de força, organização e prestígio da Itália fascista. Por isso, a Copa de 1934 é frequentemente lembrada como um dos primeiros grandes exemplos de megaevento esportivo usado como propaganda de Estado.

Em termos esportivos, a edição também foi histórica porque tratou-se da primeira Copa com eliminatórias. Trinta e duas seleções se inscreveram, mas apenas dezesseis disputaram a fase final. Outro aspecto importante foi a ausência do Uruguai, campeão de 1930, que boicotou o torneio em resposta à baixa participação europeia na Copa anterior.

Charles Sutcliffe era um dos responsáveis pela Liga Inglesa na década de 1930 e acérrimo defensor da superioridade do futebol britânico, o qual se manteve afastado do resto do mundo. Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda jogavam entre si no International Championship desde 1883. Sutcliffe, com a arrogância clássica dos ingleses do século XIX afirmou: – “O International Championship parece-me um Campeonato do Mundo muito melhor do que o que vai acontecer em Roma.”

Porém, em 92 anos de Copas do Mundo, os ingleses apenas conquistaram a Copa que decorreu no seu país, em 1966, e com a imensa simpatia das arbitragens da semifinal e da final.

Na Copa de 1934 o Botafogo tornou-se recordista até hoje em número de convocados para a Seleção Brasileira numa só Copa, cedendo Ariel, Átilla, Canalli, Carvalho Leite, Germano, Martim, Octacílio, Pedrosa e Waldyr.

Seleção Brasileira embarcando com 9 titulares do Botafogo FC. Fonte: Arquivo Nacional.

Dentro de campo, a campanha italiana foi intensa e controversa. Nas quartas-de-final a Itália enfrentou a Espanha num duelo duríssimo: o primeiro jogo terminou 1x1 após prolongamento, exigindo o primeiro jogo de desempate da história das Copas. A Itália venceu a repetição por 1x0, mas a eliminatória ficou marcada por violência e lesões, inclusive a do goleiro espanhol Ricardo Zamora, que não pôde jogar o desempate.

Na semifinal a Itália derrotou a Áustria por 1x0. Essa vitória também foi significativa porque a Áustria possuía uma das equipes mais admiradas da época, o chamado Wunderteam. Do outro lado da chave a Tchecoslováquia chegou à final ao bater a Alemanha por 3x1.

A final, em 10 de junho de 1934, foi disputada no Stadio Nazionale, em Roma. A Tchecoslováquia saiu na frente com gol de Antonín Puč, mas a Itália empatou perto do fim com Raimundo Orsi. No prolongamento Angelo Schiavio marcou o gol do título italiano. A partida foi jogada sob calor extremo, com relatos de temperatura próxima dos 40°C.

Também houve controvérsias sobre arbitragem e favorecimento à Itália. Ao longo dos anos, historiadores e jornalistas apontaram suspeitas de interferência política, pressão sobre árbitros e ambiente hostil para adversários, embora a vitória italiana também tenha sido defendida posteriormente por diversos analistas devido aquela geração ter vencido o ouro olímpico em 1936 e a Copa seguinte de 1938.

Em suma, os acontecimentos mais importantes foram a consolidação da Copa como torneio mundial com eliminatórias, o boicote uruguaio, a transformação do evento em propaganda fascista, a campanha física e controversa da Itália, a eliminação da forte Áustria, e a final dramática em que a Itália virou sobre a Tchecoslováquia para conquistar o seu primeiro título mundial.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 2x1 Tchecoslováquia (ap)

» Gols: Raimundo Orsi, aos 81’, e Angelo Schiavio, aos 95’ (Itália); Antonin Puč, aos 71’ (Tchecoslováquia)

» Data: 10.06.1934

» Local: Stadio Nazionale, em Roma (Itália)

» Itália: Giampiero Combi, Angelo Schiavio, Attilio Ferraris, Enrique Guaita, Eraldo Monzeglio, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Luigi Allemandi, Luigi Bertolini, Luis Monti e Raimundo Orsi. Técnico: Vittorio Pozzo.

» Tchecoslováquia: Frantisek Planicka, Antonin Puč, Frantisek Junek, Frantisek Svoboda, Jiri Sobotka, Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Ladislav Zenisek, Oldrich Nejedly, Rudolf Krcil e Stefan Cambal. Técnico: Karel Petru.

(*) A etimologia da expressão ‘fascismo’ tem por origem fascio (feixe) que era um símbolo romano de autoridade e unidade. O fascismo foi criado pelo líder nacionalista Benito Mussolini, em Itália, oficializado em movimento como Partido Nacional Fascista (1921). Defendia a supremacia do Estado, o corporativismo e a exaltação da guerra, tendo Mussolini declarado em 1925: – “Somos um estado totalitário”. Entretanto a expressão ‘fascista’ passou a aplicar-se generalizadamente aos regimes de extrema-direita, independentemente de serem corporativistas ou não, enquanto os regimes de extrema-esquerda (designadamente os comunistas) também foram apelidados com a expressão ‘social-fascista’ por defenderem o Estado de partido único.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.


Entre o céu e o inferno (VIII): da derrocada financeira à mais brilhante campanha na Copa Libertadores (2015-2017)

Carlos Eduardo Pereira indicando a porta de saída a Maurício Assumpção. Crédito: Thiago Pinheiro. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo...