por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Após a demissão de
João Saldanha, a linhagem técnica dos treinadores do Botafogo não se quebrou:
em 1958, por intermédio de Saldanha e Renato Estelita, Marinho Rodrigues,
ex-jogador do Botafogo, tornou-se auxiliar de João ‘Sem Medo’ e de Paulo Amaral
como preparador dos juvenis.
Mais tarde sucedeu a
Paulo Amaral e iniciou as grandes conquistas do Botafogo na década de 1960,
após importante aprendizagem com João Saldanha.
Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2021/06/marinho-rodrigues-tricampeao-de-1948.html
Marinho aplicou à
risca os ensinamentos obtidos e foi o comandante do bicampeonato carioca de
1961 e 1962, o título do Torneio Rio-São Paulo em 1962 e ainda de um Torneio Início
e um Torneio no México. Não resistiu à goleada imposta pelo Santos ao Botafogo
por 5x0 pela Taça Brasil, em 1963, e foi demitido.
Porém, foi um técnico
que manteve a ligação da linhagem técnica entre treinadores e mostrou uma
particularidade deveras inédita – algo que é normal no Botafogo – na conquista
do bicampeonato carioca em 1962, num jogo alucinante de Garrincha que marcou os
três gols contra o Flamengo nessa final de 3x0 (contamos três porque o gol
considerado contra seria hoje atribuído a Garrincha, que fez o chute que
desviou na zaga flamenguista).
O pormenor inédito
ocorreu após o jogo: os torcedores invadiram o campo e carregaram Garrincha,
indo depois todos para General Severiano, excepto Garrincha, que apresentou
fortes dores no joelho, e Marinho Rodrigues, que declarou “estar exausto” de
tantas emoções – o treinador campeão de uma das maiores equipes da história do
futebol brasileiro, perante quase 160.000 torcedores, em vez de festejar o
título pela noite fora, foi descansar.
Entre março de 1963 a
março de 1967 o Botafogo teve seis treinadores: Danilo Alvim, Paraguaio, Zoulo
Rabello, Geninho, Daniel Pinto e Admildo Chirol. Parecia quebrada a linhagem
técnica entre treinadores no Botafogo, mas não.
Mário Zagallo, jogador
bicampeão mundial (1958 e 1962), foi treinado por João Saldanha e Marinho
Rodrigues entre os anos finais da década de 1950 e os anos iniciais a década de
1960. Encerrou a carreira em 1965 e seria normal que regressasse como treinador
após alguns anos, mas também não.
Zagallo praticamente
não saiu de General Severiano, porque quase imediatamente foi convidado para
treinador dos juvenis (atualmente juniores) do Botafogo – e em maio de 1967
tornou-se o treinador principal do Botafogo.
Aprendeu rapidamente a
função, tirando partido da sua experiência futebolística e da aprendizagem com
João Saldanha e Marinho Rodrigues.
Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/06/mario-zagallo-o-unico-tetracampeao-do.html
A responsabilidade
imputada a Mário Zagallo na sua nova função foi enorme, porque saído de uma
geração dourada de Garrincha, Didi, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo e dele
próprio, passou a dirigir a nova geração dourada do Botafogo, que contava com
Jairzinho, Gérson, Paulo César ‘Caju’, Roberto, Rogério, Carlos Roberto e
outros craques.
Zagallo foi
verdadeiramente o elo de ligação entre duas gerações de Ouro do Botafogo que
contribuíram decisivamente para o tricampeonato do Brasil em 1970, e Zagallo
não se limitou a ser bicampeão mundial como jogador, nem somente bicampeão da
Taça Guanabara e do Campeonato Carioca em 1967 e 1968 e da Taça Brasil em 1968
(terminada em 1969) pelo Botafogo, como treinador. Estávamos em vésperas da
Copa do Mundo de 1970.
Título: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/vencedor-da-taa-brasil-em-futebol-1968.html
O João ‘Sem Medo’ havia sido designado treinador da Seleção Brasileira. A frontalidade de João Saldanha, e as consequências de ser assim, assertivo e difícil de se lidar com ele, valeram-lhe, em 1969, a demissão do cargo de treinador da Seleção quando respondeu diretamente à sugestão do Presidente do Brasil, Emílio Garrastazu Médici, para que Saldanha incluísse Dadá Maravilha na lista de convocados: – “O presidente escala o seu ministério e eu escalo a Seleção.” (ou, segundo outra versão, “Nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time.”)
A linhagem técnica dos
treinadores do Botafogo, que se preparava para alcançar o auge com João
Saldanha na Seleção do Brasil, poderia, então, chegar ao fim. Porém, ao
ex-técnico botafoguense ‘Sem Medo’ seguiu-se o convite e a nomeação ao
treinador do Botafogo à época, o prudente Zagallo, que tratou logo de convocar
Dadá Maravilha, mas… não o fez jogar nenhum minuto de nenhuma partida da Copa
do Mundo de 1970.
E desse modo o ciclo
de conquistas adicionou à linhagem técnica botafoguense o clímax de vitórias dentro
e fora do Botafogo através da ambicionada conquista do tricampeonato mundial e
do almejado e definitivo Troféu Jules Rimet – fruto em grande parte de uma nova
geração de botafoguenses na linha de ataque e de um treinador alvinegro que se
tornou tricampeão do mundo como jogador (1958-1962) e treinador (1970).
A linhagem técnica do
Botafogo, desde Charles William, Nicolas Ladanyi e Dori Kürchner, passando por
Zezé Moreira e João Saldanha, atingiu o auge do ciclo de conquistas de jogadores
e treinadores do Botafogo quando João Saldanha assumiu a Seleção Brasileira,
preparando-a para a Copa do Mundo, e quando Mário Zagallo o substituiu e se
sagrou pela terceira vez campeão do mundo.
O fabuloso
encadeamento da linhagem técnica de 1930 a 1970 pode-se dizer que teve aqui o
seu epílogo, mas as surpresas que o Botafogo sempre apresenta quando menos se
espera, pregaram uma grande partida a tricampeão do mundo Mário Zagallo.
Em dezembro de 1970,
laureado pela grandeza das suas conquistas, Mário Zagallo saiu do Botafogo para
treinar o Fluminense (1971 e 1972) e em seguida o Flamengo (1972-1974), antes
de regressar ao Botafogo em 1975.
Sebastião Leônidas foi
zagueiro titular absoluto do Botafogo entre 1966 e 1971, tendo sido indicado
como titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, mas por infelicidade sua
lesionou-se e não pôde, também ele, sagrar-se campeão do mundo.
No Botafogo conquistou
o Torneio Rio São Paulo (1966), o Bi-Bi da Taça Guanabara e do Campeonato
Carioca (1967 e 1968) e a Taça Brasil (1968) – e consequentemente foi treinado
por Mário Zagallo durante esse período.
Logo após encerrar a
carreira em 1971, Leônidas foi empossado como técnico do Botafogo em 1972.
No dia 15 de novembro de 1972 o Flamengo comemorava o seu aniversário e ia defrontar o Botafogo. Apesar das dificuldades financeiras, o Botafogo ainda era desportivamente muito competitivo.
A goleada: https://mundobotafogo.blogspot.com/2014/11/um-dia-de-1972.html
Sebastião Leônidas era
o comandante do Glorioso; Mário Zagallo o comandante do Flamengo. O resultado dessa
partida todos sabemos: foi um dia de grande chororô por banda do Flamengo,
estrondosamente goleado pelo Botafogo por 6x0 – hat-trick do campeão do mundo Jairzinho, Fischer bisou e Ferretti
completou a goleada.
Após a goleada do
‘aprendiz’ sobre o ‘mestre’ Zagallo, tricampeão do mundo, nada mais natural do
que Leônidas chamar a si o mérito tático do jogo. Fez exatamente o contrário:
comentou que apenas montara a equipe exatamente com nos tempos de Zagallo,
acrescentando: – “Tudo o que sei, aprendi
com ele.”
O Botafogo de Futebol
e Regatas é indiscutivelmente um Clube tradicional, ético, elegante e único do
desporto brasileiro, quiçá mundial.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; ge.globo.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; https://www.botafogo.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com.





