por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1974,
disputada na então Alemanha Ocidental, foi muito diferente da de 1970. Se 1970
ficou associada ao brilho ofensivo do Brasil, 1974 ficou marcada por três
grandes ideias: a afirmação do ‘Futebol Total’ da Países Baixos, a vitória
pragmática da Alemanha Ocidental e um torneio atravessado por várias peripécias
políticas, táticas e disciplinares.
O Botafogo de Futebol e Regatas
contribuiu com três atletas para a Copa do Mundo: Marinho Chagas e Jairzinho,
que atuaram nos 7 jogos da Seleção Brasileira, e Dirceu, que atuou contra
Argentina, Países Baixos e Polônia. Marinho Chagas, grande destaque do Brasil,
foi considerado o melhor lateral-esquerdo, integrando a Seleção Oficial da
Copa.
A Alemanha Ocidental venceu a
final por 2x1 contra os Países Baixos, em Munique, no dia 7 de julho de 1974.
Foi o segundo título mundial alemão, depois do de 1954. A final opôs duas
figuras simbólicas: Franz Beckenbauer, líder alemão, e Johan Cruyff, grande
estrela neerlandesa.
A Países Baixos começou de forma impressionante: Cruyff arrancou com a bola, foi derrubado na área e Johan Neeskens marcou de pênalti antes de qualquer jogador alemão tocar na bola. Depois a Alemanha empatou com um pênalti de Paul Breitner e virou o jogo com um golo de Gerd Müller, ainda antes do intervalo.
Apesar de não ter sido campeã, a Países
Baixos de 1974 tornou-se uma das seleções mais influentes da história, tendo os
seus reflexos ainda hoje no futebol. O seu modelo de jogo ficou conhecido por
‘Laranja Mecânica’, por um lado, devido aos neerlandeses jogarem com camisas
cor de laranja, associada à cor nacional da Casa de Orange-Nassau, da família
real dos Países Baixos; por outro lado, porque apresentava um estilo de jogo
quase automático e revolucionário, conhecido por praticar um ‘futebol total’. O
modelo foi desenvolvido sobretudo no Ajax, tricampeão europeu à época
(1970/1971, 1971/1972, 1972/1973), e baseava-se numa grande mobilidade através
da qual os jogadores trocavam constantemente de posição, criando superioridade,
pressão e fluidez ofensiva. A associação entre cor e automatismo/mecanicismo,
levou os jornalistas a designarem a Seleção neerlandesa por ‘Laranja Mecânica’,
em português, inspirados no famoso filme à época intitulado de ‘Clockwork
Orange’.
A equipa neerlandesa dominou
grande parte do torneio. Na segunda fase, goleou a Argentina por 4x0, venceu a
Alemanha Oriental por 2x0 e derrotou o Brasil por 2x0, resultado que a levou à
final.
O Brasil chegou como campeão mundial em título, mas já não tinha o mesmo brilho de 1970. Na segunda fase derrotou a Alemanha Oriental por 1x0 e a Argentina por 2x1, gol da vitória marcado por Jairzinho, mas perdeu com os Países Baixos por 2x0 num jogo duro e ficou afastado da final. Depois, perdeu também com a Polónia por 1x0 no jogo do terceiro lugar, terminando em quarto.
A Polónia fez um torneio
extraordinário. Na primeira fase, venceu Argentina, Haiti e Itália, ficando em
primeiro no seu grupo. Depois, na segunda fase, só não chegou à final porque perdeu
com a Alemanha Ocidental por 1x0, gol de Gerd Müller. Acabou em terceiro lugar,
após vencer o Brasil. O artilheiro da Copa foi o polaco Grzegorz Lato, com 7
gols.
A Itália não e apurou o perdeu o
jogo decisivo com Polônia, p 2x1. O empate bastava a ambos para se
classificarem, mas ao intervalo a Polônia já vencia por 2x0. Teria surgido,
então, mais uma peripécia narrada mais tarde pelo polonês Wladyslaw Zmuda: ao
intervalo, quando a equipe entrou no túnel de acesso ao vestiário, apareceu-lhe
um indivíduo engravata com uma mala cheia de dinheiro, “maços de notas de
dólares”, afirmando que seria oferta por permitirem o empate. “Eu não queria
acreditar naquilo. Um dos nossos funcionários começou a discutir cm ele e
mandaram os jogadores entrar no vestiário” – contou Wladyslaw Zmuda.
O Mundial de 1974 teve um formato
particular: depois da primeira fase de grupos, não houve quartas de final nem
semifinais tradicionais. As oito equipas apuradas foram divididas em dois novos
grupos; os vencedores desses grupos jogaram a final e os segundos classificados
disputaram o terceiro lugar. Este formato também seria usado em 1978.
Como o Brasil tinha conquistado
definitivamente a Taça Jules Rimet em 1970, a Copa do Mundo de 1974 foi a
primeira vez em que se entregou o atual troféu da Copa do Mundo FIFA, criado
pelo escultor italiano Silvio Gazzaniga.
O jogo simbolicamente mais marcante de um ponto de vista político foi o encontro entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, ainda durante a ‘Guerra Fria’ (*), politicamente opostas e tendo o ‘Muro de Berlim’ a separar a bela cidade de Berlim para um e outro lado das ‘Alemanhas’.
A Alemanha Oriental venceu por
1x0, com golo de Jürgen Sparwasser, tendo sido uma derrota embaraçosa para a
equipe anfitriã, outra versão sustenta que foi um efeito paradoxal e
‘conveniente’ para os ocidentais, porque assim evitou ficar no fortíssimo grupo
de Brasil e Holanda, permitindo que a Seleção Ocidental se reorganizasse taticamente
e emocionalmente, contribuindo decisivamente para a caminhada até ao título.
Antes da final houve um atraso
curioso: a equipa responsável pelo relvado tinha retirado as bandeirinhas de
escanteio para a cerimónia de encerramento e esqueceu-se de as recolocar. Só depois
disso o jogo pôde começar.
A final de 1974 teve pela
primeira vez dois pênaltis assinalados numa decisão de Copa do Mundo. O
primeiro favoreceu a Países Baixos, logo no início; o segundo permitiu à
Alemanha empatar. Esse detalhe aumentou ainda mais a tensão e a discussão em
torno da arbitragem.
Embora os cartões amarelo e
vermelho já tivessem sido introduzidos em 1970, só em 1974 surgiu a primeira
expulsão por cartão vermelho numa Copa do Mundo. O chileno Carlos Caszely foi o
‘presenteado’ por uma expulsão no jogo contra a Alemanha Ocidental.
Curiosamente, Caszely, que era opositor assumido do ditador chileno August
Pinochet, foi posteriormente proibido de jogar no seu país, usando-se a
expulsão como argumento – jogaria em vários clubes espanhóis.
A Escócia viveu uma situação rara, porque terminou a fase de grupos sem derrotas, mas foi eliminada pela diferença de golos. Empatou os jogos com Brasil e Jugoslávia, venceu o Zaire por 2x0, mas isso não chegou, porque Brasil e Jugoslávia tinham vencido o Zaire por margens maiores.
O Zaire foi a primeira Seleção da
África subsariana a participar de um Mundial e como recompensa o governo
ditatorial zairense premiou cada jogador com uma casa e um automóvel, mas
depois das derrotas por 2x0, 0x0 e 3x0, o governo confiscou-lhes a casas e s
automóveis. A Seleção ficou ligada a outras duas das peripécias mais conhecidas
da Copa de 1974.
No jogo entre Zaire e Iuguslávia o goleiro africano Kazadi Mwamba pediu substituição aos 20’ porque ainda não tinha tocado na bola e a sua equipe já pedia por 2x0.Entrou Tubilandi Ndimbi, que logo após agarrou a bola, mas… para buscá-la ao fundo das redes no 3º gol iuguslavo. O Zaire perdeu por 9x0!
A outra peripécia zairense foi
protagonizada por Mwepu Ilunga, do Zaire, no jogo contra o Brasil. Antes da marcação
de uma falta favorável ao Brasil, ele saiu da barreira e chutou a bola para
longe antes do apito do árbitro. Durante muito tempo, o lance foi tratado como
cômico, sugerindo que os jogadores africanos não sabiam muito bem as regras do
jogo. Porém, anos depois, soube-se que Mobutu Sese Seko, violento ditador do
Zaire, depois das derrotas da Seleção por 2x0 e 9x0, ameaçou de morte os
jogadores e as suas famílias se perdessem por mais de 3x0 com o Brasil e, por
isso, com o placar em 3x0, Mwepu Ilunga, num contexto de enorme pressão
política e psicológica, chutou a bola para longe para fazer escoar mais um
minuto precioso a fim de manter o placar em 3x0. E conseguiu assim contribuir
para se salvar, salvar os companheiros e as famílias.
Outra situação de realce ocorreu com o Haiti, que perdeu todos os jogos, mas teve um momento histórico contra a Itália quando Emmanuel Sanon marcou e quebrou uma sequência de 1.142 minutos do goleiro Dino Zoff sem sofrer gols. A Itália acabou por vencer 3x1, mas o golo haitiano ficou como uma das histórias simbólicas do torneio.
A Copa do Mundo de 1974 foi
importante porque marcou a passagem de uma ideia mais artística do futebol,
simbolizada por 1970, para uma fase mais tática, física e coletiva. Os Países
Baixos de Cruyff não ganharam, mas mudou-se a forma de pensar o futebol, e Cruyff
foi eleito o Craque do Mundial, tendo sido o jogador com mais dribles (34), com
mais oportunidades criadas (36 e 5,1 em média por jogo) e com passes mais
certos no último terço do campo (136).
A Alemanha Ocidental, ao vencer a
Copa do Mundo, permitiu a cinco dos seus jogadores terem sido os primeiros a
conquistar as medalhas de Ouro (1974), Prata (1966) e Bronze (1970): foram eles
Franz Beckenbauer, Sepp Maier, Wolfgang Overtah, Jurgen Graboeski e
Horst-Dieter Hottges.
Em resumo, a Alemanha Ocidental
venceu com organização, competitividade e liderança, e a competição ficou
repleta de episódios memoráveis, entre os quais se contam o duelo das duas
Alemanhas, a primeira expulsão por cartão vermelho, a eliminação invicta da
Escócia, o golo do Haiti à Itália, o episódio do Zaire e uma final dramática
decidida por Beckenbauer, Müller e companhia.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Alemanha
Ocidental 2x1 Países Baixos
» Gols: Paul Breitner, aos 25’ (pênalti), e Gerd Müller, aos 43’
(Alemanha Ocidental): Johan Neeskens, aos 2’ (pênalti)
» Data: 7 de julho de 1974
» Local: Estádio Olympiastadion, em Munique (Alemanha)
» Público: 78.200 espectadores
» Árbitro: Jack Taylor (Inglaterra)
» Disciplina: cartão amarelo – Berti Vogts (Alemanha Ocidental) e
Willem van Hanegem, Johan Neeskens e Johan Cruyff (Países Baixos)
» Alemanha: Sepp Maier; Berti Vogts, Franz Beckenbauer, Hans-Georg
Schwarzenbeck e Breitner; Rainer Bonhof, Wolfgang Overath e Uli Hoeneß; Jürgen
Grabowski, Bernd Hölzenbein e Gerd Müller. Técnico: Helmut Schön.
» Países Baixos: Jan Jongbloed; Wim Suurbier, Wim Rijsbergen (Theo
de Jong), Arie Haan e Ruud Krol; Wim Jansen, Johan Neeskens e Willem van
Hanegem; Johnny Rep, Rob Resenbrink (René van de Kerkhof) e Johan Cruyff.
Técnico: Rinus Michels.
(*) A ‘Guerra Fria’ foi um período de tensão geopolítica e
ideológica (1947-1991) entre o bloco capitalista (liderado pela América) e o
bloco comunista (liderado pela União Soviética). O conflito foi ‘frio’ porque
nunca houve combate militar direto entre os oponentes devido ao temor de uma
destruição nuclear maciça. A rivalidade manifestou-se através da corrida
armamentista (acumulação de arsenais nucleares) e da corrida espacial em que
ambas as partes competiam para demonstrar superioridade tecnológica. Sem se
confrontarem diretamente, as potências apoiaram lados opostos em conflitos
regionais por todo o planeta, por exemplo, a União Soviética na Guerra da
Coreia e a América na Guerra do Vietnã. O período encerrou-se com a queda do ‘Muro
de Berlim’ em 1989 e a dissolução oficial da União Soviética.
Fontes
principais: en.wikipedia.org; enciclopediadascopas.com.br; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com; www.theguardian.com.

















