por LÚCIA SENNA | Escritora e
Cantora | Colunista do Mundo Botafogo
Há
pessoas que desafiam o destino. Don Carlito Bandoneon desafia o bom senso. Tudo
começou quando ele anunciou, com a solenidade de quem comunica um noivado real:
“Meus
queridos alunos, hoje não haverá aula de tango. A pátria me convoca.”
Perguntei
qual pátria, porque com Don Carlito nunca se sabe.
Ele
levou a mão ao peito, fechou os olhos e respondeu:
“A
Argentina, naturalmente.”
Era
noite de Copa do Mundo. Argentina em campo. O problema é que o jogo seria
assistido num bar tomado por brasileiros. Gente pintada de verde e amarelo,
usando chapéu com bandeira, camiseta da seleção, peruca, corneta e uma
confiança injustificável na tímida seleção da Inglaterra.
Eu
deveria ter desconfiado quando Don Carlito apareceu vestido como se fosse
receber uma medalha do presidente da República. Terno azul-marinho impecável.
Sapatos de verniz capazes de refletir o telão. Lenço de seda no bolso. Cachecol
azul e branco cuidadosamente dobrado sobre os ombros. E um perfume tão forte
que chegou ao bar antes dele.
Quando
a porta se abriu, o ambiente silenciou.
Foi
um daqueles silêncios históricos, semelhantes ao momento em que alguém derruba
um bolo de casamento ou anuncia aumento de condomínio.
Don
Carlito observou lentamente a multidão verde-amarela e perguntou, com absoluta
tranquilidade:
“Buenas noches... Onde fica a torcida
civilizada?”
Um
rapaz respondeu:
“Aqui
é Brasil, professor!”
Don
Carlito sorriu com piedade:
“Meu
jovem, civilização não tem nacionalidade. Tem elegância.”
Sentou-se
exatamente no centro do bar, como quem ocupa um território diplomático. Pediu
um café. O garçom perguntou se ele não preferia cerveja. Don Carlito suspirou e
alertou que cerveja antes do jogo compromete a precisão emocional do torcedor. Ninguém
compreendeu mas todos fingiram que sim.
O
jogo começou.
A
cada ataque da Argentina, Don Carlito se levantava da cadeira, como se fosse
decolar. A cada ataque do adversário fazia sinal da cruz, ajustava o cachecol e
murmurava frases em espanhol que provavelmente não existiam em nenhum
dicionário.
Foi,
então, que um brasileiro decidiu provocá-lo:
“Maradona
acabou!”
Don
Carlito virou-se lentamente, como um vilão elegante de novela mexicana:
“Meu
jovem, Pelé jogava futebol. Maradona escrevia poesia com a chuteira.”
O bar
explodiu em protestos.
Outro
rapaz gritou:
“Messi
nem é tudo isso!”
Don
Carlito levou a mão ao peito:
“Senhor,
existem blasfêmias que nem o VAR consegue revisar.”
As
mesas começaram a rir. Até quem discordava dele achava impossível não gostar
daquela figura. Mas o verdadeiro espetáculo ainda estava por vir. Descobrimos, durante
um escanteio, que Don Carlito possuía uma teoria secreta. Segundo ele, a
Argentina só vencia quando certas condições energéticas eram respeitadas:
“Este
terno é o mesmo da semifinal de 2022. Este perfume foi usado contra a Holanda.
E estes sapatos nunca testemunharam uma derrota em mata-mata.”
A
partir desse momento, o bar entrou num regime de ditadura supersticiosa. Ninguém
podia mudar de lugar. Ninguém podia cruzar as pernas. Ninguém podia levantar
durante cobrança de falta. O garçom tentou servir uma cerveja. Don Carlito
ergueu a mão como um maestro interrompendo a orquestra.
“Agora
não! A espuma interfere na circulação astral da bola!”
E quando
a televisão travava por um segundo, Don Carlito apontava para o telão:
“Viu?
O universo está recalculando a jogada.”
No
intervalo, a situação piorou. Ele resolveu explicar por que torcia pela
Argentina mesmo cercado de brasileiros. Levantou-se, ajeitou o bigode e
discursou:
“Meus
amigos, eu não torço contra o Brasil. Eu torço a favor do tango. Abandonar a
Argentina seria como um filho negar a própria mãe.”
Uma
senhora perguntou:
“E o
futebol?”
“Futebol
dura noventa minutos. O tango dura a vida inteira.”
Alguns
aplaudiram, outros vaiaram. No segundo tempo, a tensão atingiu níveis absurdos.
Don Carlito já não piscava. Segurava a xicara de café como quem segura um
artefato nuclear.
A
cada lance perigoso, agarrava o braço do desconhecido mais próximo. Em
determinado momento, abraçou um torcedor da Inglaterra sem perceber. O inglês
ficou tão emocionado que começou a torcer pela Argentina também.
Então,
aconteceu o GOOOOOLLLL!!!!
O bar
explodiu. Metade comemorava, metade lamentava.
No
meio do caos, Don Carlito levantou-se, retirou o celular do bolso, conectou uma
caixa de som e, para espanto geral, começou a tocar um tango.
Todos
pararam. Ele abriu os braços e declarou:
“Senhores,
gol se comemora de pé. Vitória se agradece dançando.”
Antes
que alguém reagisse, já havia convidado uma brasileira para dançar. Ela aceitou
por puro choque psicológico. Don Carlito a conduziu pelo corredor entre as
mesas com a elegância de quem atravessa a Avenida Corrientes.
Os
argentinos bateram palmas. Os brasileiros começaram a marcar o compasso. Em
menos de um minuto, o bar inteiro dançava. Ninguém mais discutia impedimento.
Ninguém falava de arbitragem. Ninguém lembrava da Inglaterra.
Havia
apenas um professor de tango, um salão improvisado e uma multidão descobrindo
que rivalidade fica mais difícil quando alguém nos convida pra dançar.
Quando
a música terminou, um brasileiro perguntou:
“Professor,
afinal o senhor veio aqui para ver futebol ou para dar aula?”
Don Carlito
ajeitou o cachecol, alisou o bigode e respondeu:
“Meu
rapaz, eu vim provar que existem três idiomas universais: o sorriso, o futebol
e o tango. Felizmente, eu falo os três com sotaque portenho.”
O bar
veio abaixo em gargalhadas.
Na
saída, já perto da meia-noite, encontrei Don Carlito na calçada observando a
lua como um poeta aposentado.
Perguntei
se estava feliz com o resultado. Ele sorriu daquele jeito perigosamente
charmoso que costumava preceder uma frase inesquecível.
“Minha
querida, ganhar um jogo é importante. Mas transformar um bar cheio de rivais em
um salão de dança... isso, sim, merece prorrogação.”
E
saiu caminhando pela rua com seus sapatos de verniz brilhando sob os postes,
enquanto eu concluía que Don Carlito talvez seja o único argentino capaz de
entrar em território inimigo e sair aplaudido pelos próprios adversários.






