quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Retrospecto do ‘Clássico Vovô’ (1905-2026)

Arte: Elson Souto.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

SÍNTESE DE TODOS OS JOGOS (1905-2026)

» 383 jogos, 130 vitórias, 113 empates e 140 derrotas; saldo de gols desfavorável em 532-572.

SÍNTESE DOS ÚLTIMOS 20 ANOS (2006-2026)

» 78 jogos, 31 vitórias, 22 empates e 25 derrotas, com saldo de gols favorável em 84-78.

MAIOR SÉRIE DE VITÓRIAS CONSECUTIVAS (8) ENTRE OS DOS CLUBES

Botafogo 1x0 Fluminense

Gol: Victor Sá, aos 60’

Campeonato Estadual, em 29.01.2023

Botafogo 1x0 Fluminense

Gols: Victor Cuesta, aos 74’

Campeonato Brasileiro, em 20.05.2023

Botafogo 2x0 Fluminense

Gols: Júnior Santos, aos 19’, e Tiquinho Soares, aos 21’

Campeonato Brasileiro, em 08.10.2023

Botafogo 4x2 Fluminense

Gols: Marlon Freitas, aos 2’ e 86’ (pen.), Raí, aos 14’, e Emerson Urso, aos 90+9’ (Botafogo); Lelê, aos 25’, e John Kennedy, as 82’ (Fluminense)

Campeonato Estadual, em 03.03.2024

Botafogo 1x0 Fluminense

Gols: Basto, aos 65’

Campeonato Brasileiro, em 11.06.2024

Botafogo 1x0 Fluminense – Campeonato Brasileiro

Gols: Luiz Henrique, aos 90+4’

Campeonato Brasileiro, 21.09.2024

Botafogo 2x1 Fluminense – Campeonato Estadual

Gols: Igor Jesus, aos 11’, e Savarino, aos 81’ (pen.) (Botafogo); Cano, aos 70’ (Fluminense)

Campeonato Brasileiro, em 29.01.2025

Botafogo 2x0 Fluminense – Campeonato Brasileiro

Gols: Vitinho, aos 36’, e Savarino, aos 90+4’

Campeonato Brasileiro, 26.04.2025

ÚLTIMO JOGO

Botafogo 0x1 Fluminense

» Gols: John Kennedy, aos 68’

» Competição: Campeonato Estadual

» Data: 01.02.2026

» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro (RJ)

» Público: 8.596 pagantes; 9.766 espectadores

» Renda: R$ 400.648,00

» Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães (RJ); Assistentes: Carlos Henrique Alves de Lima Filho (RJ) e Gustavo Mota Correia (RJ); Var: Carlos Eduardo Nunes Braga (RJ)

» Disciplina: cartão amarelo – Jordan Barrera, Léo Linck e Santi Rodríguez (Botafogo) e John Kennedy e Ignácio (Fluminense)

» Botafogo: Léo Linck; Mateo Ponte, Bastos e Marçal; Kadu (Vitinho), Allan (Danilo), Jordan Barrera e Nathan Fernandes (Alex Telles); Artur (Álvaro Montoro), Kadir (Santi Rodríguez) e Matheus Martins. Técnico: Martín Anselmi.

» Fluminense: Fábio, Guga, Ignácio, Freytes e Guilherme Arana; Bernal, Martinelli (Nonato) e Lima (Savarino); Santi Moreno (Serna), Canobbio (Lucho Acosta) e John Kennedy (Everaldo). Técnico: Luis Zubeldía.

MAIOR GOLEADA ABSOLUTA EM DECISÕES DO CAMPEONATO ESTADUAL NA ‘ERA AMADORA’ (1910)

Botafogo 6x1 Fluminense

» Gols: Abelardo de Lamare (3), Décio Viccari (2) e Mimi Sodré (Botafogo); Lulu Rocha (contra) (Fluminense)

» Competição: Campeonato Carioca

» Data: 25.09.1910

» Local: Rua Voluntários da Pátria, no Rio de Janeiro (RJ)

» Público: 6.000 espectadores

» Árbitro: A. H. Hassell

» Botafogo: Coggin, Edgard Pullen e Dinorah; Rolando de Lamare, Lulu Rocha e Lefèvre; Emmanuel Sodré, Abelardo de Lamare, Décio Viccari, Mimi Sodré e Lauro Sodré.

» Fluminense: Waterman, Félix Frias e Ernesto Paranhos; Nery, Mutzenbecher e Gallo; Millar, Oswaldo Gomes, Edwin Cox, Gilbert Hime e Alberto Borgerth.

MAIOR GOLEADA ABSOLUTA EM DECISÕES DO CAMPEONATO ESTADUAL NA ‘ERA PROFISSIONAL’ (1957)

Botafogo 6x2 Fluminense

» Gols: Paulo Valentim (5) e Garrincha (Botafogo); Escurinho e Valdo (Fluminense)

» Data: 22.12.1957

» Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ)

» Público: 89.100 espectadores

» Renda: Cr$ 3.267.639,00

» Juiz: Alberto da Gama Malcher

» Botafogo: Adalberto, Thomé e Nilton Santos; Servílio, Beto e Pampolini; Garrincha, Didi, Paulinho Valentim, Édson e Quarentinha. Técnico: João Saldanha.

» Fluminense: Castilho, Cacá e Pinheiro; Jair Santana, Clóvis e Altair; Telê, Jair Francisco, Valdo, Robson e Escurinho. Técnico: Sylvio Pirilo.

Desfile carnavalesco: eu tenho dois amores…


 

…o G.R.E.S. Botafogo Samba Clube, desde 2018.

Fonte: Botafogo Samba Clube (@botafogosambaclube).

…e o G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, desde 1965.

Fonte: Acadêmicos do Salgueiro (@salgueirooriginal).

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Salim Simão, botafoguense roxo (II): personagem de Nelson Rodrigues existiu mesmo

Fonte: Jornal do Sports, 12.069 / 1967.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A fechar esta matéria, a título de curiosidade e, de certo modo, em homenagem à amizade de dois homens opostos na maioria das ideias – políticas e outras –, transcreve-se dois excertos da peça rodrigueana “Anti-Nelson Rodrigues”, com a 1ª montagem em 1974, na qual existem 147 diálogos de Salim Simão (fonte: teatroemescala.com):

1º Excerto:

«(a luz passa para a casa de Salim Simão, em Quintino. Ele, pai de Joice, é bonito, velho, com os cabelos de um branco sedoso, bem-vestido, paletó cintado, colarinho e punhos engomados. Salim Simão está com Hele Nice, criada da casa, negra, de ventas triunfais, busto enorme. O dono da casa anda de um lado para outro, em largas e furiosas passadas)

SALIM

— E minha filha que não chega! A que horas ela telefonou, Hele Nice? Uma?

HELE NICE

— Duas.

SALIM

(começa a chorar e para) — São cinco, Hele Nice, são cinco! E ela disse: — “Volto já.” E quedê?

HELE NICE

— Dr. Salim, é a condução, dr. Salim!

SALIM

— Mas quando minha filha sai, meu Deus, penso o diabo. Quando eu era solteiro, tinha uma vizinha que era uma moreninha linda! Estava na calçada, veio um táxi, trepou no meio-fio e achatou a menina contra o muro. Morreu na hora.

HELE NICE

— Não fala assim, dr. Salim, pelo amor de Deus!

SALIM

— É, vamos mudar de assunto. Mas o que é mesmo que eu estava dizendo? Já sei. Me mandaram fazer a nota e eu escrevi. O dono do jornal começou a ler e, de repente, deu um pulo. “Quem é que escreveu entrementes? Quero saber o nome do redator que escreveu entrementes!”

HELE NICE

— Seu patrão era neurastênico!

SALIM

— Me chamaram e eu fui lá. O dono do jornal espumava. “Foi você que escreveu entrementes? No meu jornal não sai entrementes. Tira essa bosta.” Apanhei a matéria e botei lá outra palavra. Leu e picou a matéria e jogou para o alto como confete. “Riscou entrementes e pôs outrossim. No meu jornal, não sai outrossim.” E disse mais: — “Você não pode escrever sobre o brigadeiro.”

HELE NICE

— Por que é que o senhor não passou uma esculhambação no cara?

SALIM

— Hele Nice, não diz isso na casa de Joice. Esculhambação é a palavra mais feia da língua. Eu disse bosta, porque a minha filha não está em casa. Mas o dono do jornal demitia e nomeava ministro pelo telefone. Tinha uma coragem cívica formidável. E, todos os dias, apanhava uma surra da mulher. (entra Joice)»

2º Excerto:

SALIM

«— Agora eu quero saber o seguinte: o que é que teu noivo diz?

JOICE

(sem entender) — Meu noivo?

SALIM

— Que é que ele diz do teu emprego?

JOICE

— Nada.

SALIM

(furioso) — É teu noivo e não diz nada?

JOICE

— Quando conversamos, disse que o problema era meu.

SALIM

— Só teu? Mas ele não é o homem do casal? Ao menos, tem ciúmes de ti?

JOICE

— Confia em mim.

SALIM

(como num comício) — Então, minha filha, escuta. Eu também confiava em tua mãe. Era uma santa. E quantas vezes fui pra esquina espiar se entrava homem na minha ausência? Minha filha, isso é a natureza das coisas

Fontes: Boletim do Botafogo FR, Ano XLI – Maio de 1981 – Nº 240; Castro, Ruy (2017). Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues. Tinta-da-China. Lisboa: editora Tinta-da-China; https://blogdorobertoporto.blogspot.com; https://blogs.oglobo.globo.com; https://teatroemescala.com; https://x.com/brauneoficial; https://www1.folha.uol.com.br.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Salim Simão, botafoguense roxo (I): personagem de Nelson Rodrigues existiu mesmo

Salim Simão e Afonsinho, em 1969. Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

«Supersticioso, eu? Por quê? Só porque vou a todos os jogos de paletó e gravata?» – assim falava Salim Simão de si próprio ‘defendendo-se’ aos gritos com ironia oscilante entre bem-humorada e mal-humorada.

Supersticioso e radical: «Futebol só aceito o Botafogo, inclusive contra a camisa verde e amarela. Qualquer que seja a nacionalidade, qualquer que seja o clube, qualquer que seja a região!» – Depoimento de Salim Simão ao Canal 100.

Salim Simão foi um dos grandes jornalistas botafoguenses roxos. O saudoso jornalista Roberto Porto, que anunciava o Botafogo como o seu maior amor imaterial, escalava Salim Simão como técnico da equipe de jornalistas botafoguenses do Jornal do Brasil e falava assim do colega de profissão:

«Vez por outra, em dias seguintes às vitórias, adentrava a editoria de esportes a figura de Salim Simão, aos gritos. De Salim guardo a lembrança de uma fita cassete com os gols do Botafogo na conquista de títulos, mas principalmente, com a esmagadora vitória (a maior até hoje em decisões do Campeonato Carioca) sobre o vetusto tricolor das Laranjeiras por 6 a 2.» – In Blog do Roberto Porto, 2009.

Augusto Mello Pinto, amigo íntimo de Salim Simão, escrevendo ao filho deste, Jorge Filipe, após a morte de Salim, corroborava Roberto Porto sobre a história da gravação:

«Salim Simão morreu creio que no dia certo: Sábado de Carnaval. Mas, certamente, no ano errado. Por que não no ano 2081?

«Melhor do que eu, você deve saber que ele possuía uma alma colorida. Assim como um destaque de Escola de Samba. Seu pai, neste momento, deve estar lá em cima, em alguma esquina do Além, discutindo com seu “irmão íntimo” Nelson Rodrigues e obrigando o Nelson a ouvir, pela milésima vez, os 5 gols que o Paulo Valentim fez no Fluminense, naquela memorável decisão. Nem adianta procurar pelos armários, porque ele levou mesmo aquela famosa gravação.» – In Boletim do Botafogo FR, 1981.

Nelson Rodrigues, muito provavelmente o maior dramaturgo de todos os tempos, tinha uma relação especial com Salim Simão ao ponto de tomar a liberdade de colocar o jornalista nas suas peças teatrais – não de carne e osso, mas como personagem das suas obras interpretado por atores.

Anselmo Gois conta como Salim Simão existiu de verdade e foi ‘vítima’ de Nelson Rodrigues nas suas obras, citando como exemplo a peça “Anti-Nelson Rodrigues”, escrita pelo próprio dramaturgo:

«Tonico Pereira, o grande ator, estará no CCBB, no Rio, dia 29, com “Anti-Nelson Rodrigues”. Será Salim Simão. Entre as frases que Nelson coloca na boca de Simão estão alguns dos seus maiores clássicos como “Quando se trata de uma mulher, todo homem é um canalha” e “O sexo é uma selva de epiléticos”. Aliás, Salim Simão existiu de verdade. O jornalista, botafoguense doente, foi uma das ‘vítimas’ de Nelson, que colocava frases suas na boca dos amigos.» – In Blog do Anselmo Gois, O Globo, 2015.

Carlos Heitor Cony explica as categorias de personagens de Nelson Rodrigues, detalhando assim a primeira categoria, na qual se enquadra Salim Simão:

«Em princípio, seus personagens podem ser divididos em três categorias. A primeira é constituída por aqueles que comparecem no teatro, no romance ou na crônica rodrigueana com os próprios nomes e atributos. É o caso de Salim Simão, jornalista, botafoguense, cujo bom-dia era um comício. Ele entra no teatro e em dezenas de crônicas. Viúvo, aposentado, botafoguense roxo.» – In Folha de S. Paulo, 2001.

Porém, a amizade entre os dois homens, de gostos políticos e clubistas opostos, entre outras oposições facilmente identificáveis, evidencia, claramente, que a estima pode radicar em outras razões e não existe apenas entre quem pensa, diz e faz coisas semelhantes – os ditos populares confirmam o caso do dueto Simão / Nelson, seja porque “os opostos se atraem”, seja porque “os extremos se tocam”.

Ruy Castro, autor da obra ‘Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues’, mostra exatamente isso, um Nelson invariavelmente sarcástico, genialmente explosivo e radicalmente extremista:

«Seu anticomunismo já era quase secular e sua implicância com os marxistas brasileiros, a quem chamava de “marxistas de galinheiro”, não era de hoje. Só se alterara ultimamente para acrescentar que “Marx também era marxista de galinheiro”. […] Nelson era quase tão anticomunista quanto o folclórico almirante Pena Boto. […] Como no dia em que o repórter Ib Teixeira chegou tarde ao jornal e justificou-se: “Fui levar meu pai ao hospital.” Nelson levantou os olhos da máquina. Fingiu ignorar que seu amigo saíra publicamente do “Partidão” e disparou, entre risos da redação: “Rá-rá-rá! E desde quando comunista leva o pai ao hospital? Comunista corta a carótida do pai com um caco de garrafa da ‘Brahma Chopp!”»

Ora, «Salim Simão era quase tão fanático brizolista quanto botafoguense. […] Torcer por Brizola em 1967 [embora Leonel Brizola não fosse comunista] era algo quase tão exótico, tanto para a direita como para a esquerda, quanto torcer pelo Canto do Rio. Não para Salim, que era de uma fidelidade de pequinês aos amigos e conseguia conciliar em sua estima os piores adversários entre si. Por exemplo, algumas das suas maiores admirações eram os anti-Nelson Rodrigues por excelência: Alceu, dom Helder e Oscar Niemeyer. E a outra era o próprio Nelson.» […]

«“Ó, Nelson”, ele perguntava aos berros, “o que você tem contra o Niemeyer?”»

«“O povo tem horror às invenções plásticas de Niemeyer, meu bom Salim”, respondia Nelson. “Abomina. O povo gosta mesmo é do prédio do ‘Elixir de nogueira’, ali na Glória, perto do relógio.” E quanto às opiniões de Nelson sobre Alceu e dom Helder, nem era preciso dizer. “Dom Helder só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, dizia Nelson. Salim rugia em defesa do bispo. Mas isso servia apenas como combustível para a amizade entre os dois, igualmente loucos por uma polêmica.»

Ao inverso, «Nelson era fascinado pela “espontaneidade animal” de Salim e o chamava de “O berro” porque ele só sabia falar a plenos pulmões.»

Quem assistisse aos almoços de ambos (quase diários a partir de 1968) «acharia que eles estavam se desfeiteando. Mas se fosse ouvir a conversa, constataria que estavam discutindo o campeonato carioca de 1924, o comportamento de suas coronárias (Salim também era cardíaco) ou, literalmente, o sexo dos anjos, nos quais ambos acreditavam

E é claro que uma tal relação só poderia resultar que a personalidade de Salim Simão fosse usada por Nelson Rodrigues no teatro e em dezenas de suas peças – Nelson era um provocador nato e encontrava o eco ideal na berraria de Salim.

(continua)

Fontes: Castro, Ruy (2017). Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues. Tinta-da-China. Lisboa: editora Tinta-da-China; https://blogdorobertoporto.blogspot.com; https://blogs.oglobo.globo.com; https://teatroemescala.com; https://x.com/brauneoficial; https://www1.folha.uol.com.br.

Retrospecto do ‘Clássico Vovô’ (1905-2026)

Arte: Elson Souto. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo SÍNTESE DE TODOS OS JOGOS (1905-2026) » 383 jogos, 130 vitórias, 113 empat...