terça-feira, 30 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1998: consagração de Zidane, destaques de Šuker e Bergkamp, desditas de Beckham e Ronaldo – e a França “black-blanc-beur”

Cartaz da Copa do Mundo de 1998. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1998 ocorreu em França, entre 10 de junho e 12 de julho, e constituiu uma das mais simbólicas da história recente: marcou o primeiro título mundial da seleção francesa, a afirmação de Zinedine Zidane como figura nacional e mundial e uma forte dimensão política, social e identitária em torno da ideia de uma França multicultural, segundo o lema simbólico da seleção francesa: black-blanc-beur (preto-branco-árabe).

Essa leitura ganhou enorme força com Zidane, filho de família argelina, a marcar dois gols na final e a tornar-se ‘herói’ nacional.

A Copa foi a primeira com 32 seleções, alargando o formato competitivo e permitindo uma grande diversidade e estreias de seleções como as da Croácia, Jamaica, Japão e África do Sul. A Jamaica acresceu uma dimensão festiva e mediática muito própria, com os “Reggae Boyz” a tornarem-se uma das equipas mais carismáticas, e o Japão assinalou uma etapa importante na afirmação do futebol asiático.

O favorito Brasil entrou na Copa de 1998 como campeão mundial de 1994 e com uma seleção fortíssima. Tinha nomes como Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Cafu, Carlos Roberto, Dunga, Taffarel, Leonardo, Denílson e César Sampaio.

A expectativa era enorme porque Ronaldo Nazário estava em grande forma: tinha velocidade, potência, técnica e uma capacidade invulgar de desequilibrar. Porém, o grande acontecimento foi o episódio envolvendo Ronaldo antes da final, o qual terá tido um problema de saúde, descrito como convulsão ou episódio neurológico. Não apareceu na primeira ficha de jogo, mas logo depois tornou a constar como titular.

Houve muitas versões sobre o assunto, suspeitas, explicações médicas incompletas, especulações sobre pressão comercial e dúvidas sobre a condição real do jogador.

Na final, Ronaldo esteve claramente abaixo do normal: pouco explosivo, pouco interventivo, sem a energia habitual. Essa imagem tornou-se marcante: a figura que devia liderar o Brasil acabou por simbolizar a vulnerabilidade humana em um momento de maior pressão.

Ronaldo. Fonte: Instagram @abrindooplacaryt.

A final foi disputada no Stade de France, em Saint-Denis. A França venceu o Brasil por um robusto 3x0. Foi surpresa o resultado e sobretudo o modo como aconteceu: a equipe parecia emocionalmente abalada, desconcentrada e incapaz de travar a intensidade, a organização e a superioridade francesa.

Zinedine Zidane marcou dois gol de cabeça, ambos após escanteios, ainda na primeira parte. No final, Emmanuel Petit marcou o terceiro gol, fechando uma vitória histórica.

A imagem simbólica da final é dupla: de um lado, Zidane elevado a herói nacional; do outro, Ronaldo apagado, quase ausente, no jogo mais importante da sua carreira até então.

Zidane já era um grande jogador, mas 1998 transformou-o numa figura quase mítica em França, embora o seu desempenho não tenha sido linear: foi expulso contra a Arábia Saudita na fase de grupos por pisar um adversário, foi suspenso, mas no derradeiro jogo logrou consagrar-se a marcar dois gols inesperados de cabeça, deixando de ser apenas um grande meio-campista ofensivo para assumir o rosto da França campeã do mundo. A sua projeção na fachada do Arco do Triunfo, com a frase “Merci Zizou”, tornou-se uma das imagens simbólicas da vitória.

O título francês feito com jogadores de grande diversidade multicultural, que incluía atletas como Zidane, Thuram, Desailly, Vieira, Henry, Djorkaeff, Karembeu, Lizarazu e outros, representaram a diversidade de origens familiares, regionais e culturais.

Zidane e Roberto Carlos. Fonte: www.reddit.com.

A França celebrou por algum tempo essa ideia claramente política de um país de diversidade, unido e bem-sucedido, mas poucos anos após contatou-se que o sucesso desportivo não havia resolvido tensões sociais profundas.

A França beneficiou, ainda, de outro acontecimento inesperado antes da final: na semifinal contra a Croácia Davor Šuker colocou os croatas na frente do placar, mas então aconteceu o improvável com Lilian Thuram, defesa direito conhecido pela sua solidez defensiva, que marcou dois gols para virar o placar, tendo sido os dois únicos gols assinalados pelo atleta na seleção francesa – tornando lendário o episódio de um defensor discreto que no momento decisivo disse ‘presente’.

A Croácia, na sua primeira participação como estado independente, terminou no pódio, em 3º lugar, dispondo de grandes jogadores como Davor Šuker, Zvonimir Boban, Robert Prodinečki, Robert Jarni e Slaven Bilić. Šuker foi o artilheiro da Copa e a vitória soberba sobre a Alemanha por 3x0 nas quartas de final foi um dos resultados mais marcantes da competição.

Os Países Baixos também realizaram uma boa Copa, tendo jogadores como Dennis Bergkamp, Patrick Kluivert, Edgar Davids, Frank de Boer, Ronald de Boer, Seedorf, Overmars e Cocu. O momento mais memorável foi o gol de Dennis Bergkamp contra a Argentina, nas quartas de final, recebendo um passe longo de Frank de Boer, dominando a bola com enorme classe e marcando depois de se livrar de um defensor. Todavia, nas semifinais perdeu para o Brasil nos pênaltis e o seu brilhantismo ficou uma vez mais associado à ideia de talento sem conquista.

O gol de Bergkamp. Crédito: AFP | Getty Images.

A semifinal entre Brasil e Países Baixos foi um dos grandes jogos da Copa: Ronaldo marcou para os brasileiros, Kluivert empatou para o neerlandeses e a decisão foi para os penáltis, na qual Taffarel defendeu pênaltis decisivos e colocou o Brasil na final – Taffarel mostrou-se um goleiro para os grandes momentos!

Essa vitória reforçou a imagem de Taffarel como grande goleiro, que já tinha sido importante em 1994 e voltou a ser decisivo em 1998.

Outro jogo carregado de simbologia foi o Inglaterra x Argentina, nas oitavas de final. A rivalidade entre os dois países já vinha de longe, tanto pelo contexto político da Guerra das Malvinas/Falklands como pelos episódios futebolísticos de 1986, sobretudo a “Mão de Deus” de Maradona.

Nesse jogo o jovem Michael Owen marcou um gol extraordinário, arrancando em velocidade e finalizando com classe, apresentando-se ao mundo. Em contrapartida David Beckham foi expulso depois de uma reação sobre Diego Simeone e os ingleses acabaram eliminados nos pênaltis; Beckham tornou-se alvo de enorme crítica em Inglaterra, quase como bode expiatório nacional, fruto da sua juventude, imaturidade, pressão mediática e consequente punição pública pelo ato.

A Argentina tinha uma equipa forte: Gabriel Batistuta, Ariel Ortega, Juan Sebastián Verón, Diego Simeone, Claudio López e Zanetti. Batistuta marcou vários gols e confirmou-se como um dos grandes avançados da década, mas, em contrapartida, Ortega teve um momento negativo nas quartas de final ao ser expulso após cabecear Edwin van der Sar, contribuindo para a eliminação argentina e repetindo, de certo modo, o clássico debate sobre grandes talentos condicionados por episódios emocionais.

A expulsão de Beckham. Fonte: Instagram @abrindooplacaryt.

Também vale lembrar, ainda na fase de grupos, que a Noruega venceu o Brasil por 2x1, num jogo que teve impacto simbólico, embora o Brasil já estivesse praticamente apurado. A Noruega mostrou uma equipa disciplinada, física e eficaz, fazendo recordar que o Brasil, apesar de favorito, tinha fragilidades.

Por seu lado, a Dinamarca teve uma campanha muito interessante, com Michael Laudrup e Brian Laudrup como figuras técnicas. Nas oitavas de final venceu a Nigéria por 4x1, surpreendendo uma seleção nigeriana que tinha impressionado na fase de grupos e nas quartas de final, a Dinamarca ainda fez um grande jogo contra o Brasil, perdendo por 3x2.

A Nigéria começou muito bem, vencendo a Espanha por 3x2 num dos jogos mais emocionantes da fase de grupos, mas a derrota pesada contra a Dinamarca nas oitavas de final quebrou essa expectativa. A Nigéria simbolizou, em 1998, a diferença entre potencial versus consistência competitiva.

Davor Šuker, ‘Chuteira de Ouro’. Fonte: X / El Heraldo Deportes MX.

A Espanha foi uma das grandes desilusões. Apesar de ter bons jogadores, foi eliminada ainda na fase de grupos. O jogo contra a Nigéria foi decisivo para a Espanha, que perdeu por 3x2 de virada, reforçando a imagem de uma Espanha frequentemente forte em nomes, mas incapaz de corresponder nas grandes competições – algo que só mudaria mais tarde, com a geração campeã de 2008-2012.

Um dos jogos mais simbólicos foi Irã x América, na fase de grupos, porque o contexto político entre os dois países dava ao jogo uma carga diplomática evidente. Antes do encontro, houve gestos de cordialidade entre os jogadores, incluindo troca de flores e fotografias conjuntas. O Irã venceu por 2x1, naquela que foi a sua primeira vitória em Copa do Mundo, mas a imagem que ficou, embora meramente limitada e simbólica, como se comprova pelo atual conflito entre ambos os países, é que o futebol – quiçá o desporto em geral – pode contribuir para abrir caminhos de paz.

Nas oitavas de final, a França teve muitas dificuldades para superar o Paraguai. O jogo foi para prorrogação em 0x0 e Laurent Blanc marcou o primeiro ‘gol de ouro’ da história dos Mundiais, segundo a regra que determinava que quem marcasse o gol de desempate ganhava automaticamente a partida e o jogo terminava. O gol de Blanc tornou-se um momento-chave do percurso até ao título, mas, curiosamente, Blanc foi expulso na semifinal contra a Croácia e falhou a final, acrescentou outra peripécia à narrativa francesa.

Em resumo, a Copa de 1998 caracterizou-se pela vitória da França multicultural “black-blanc-beur”, os dois gols de Zidane na final, o episódio neurológico de Ronaldo na final, a força francesa e a fragilidade emocional brasileira; a afirmação da Croácia recém-independente e a desilusão espanhola; o brilho de Bergkamp e Owen, a queda de Beckham e a conquista da ‘Chuteira de Ouro’ por Davor Šuker; a Copa onde o futebol se misturou intensamente com memória, integração, diplomacia, drama e mito.

FICHA TÉCNICA

França 3x0 Brasil

» Gols: Zidane, aos 27’ e 45+1’, e Emmanuel Petit, aos 90’

» Data: 12 de julho de 1998

» Local: Stade de France, Saint-Denis (França)

» Público: ~75.000 espectadores

» Árbitro: Said Belqola (Marrocos)

» Disciplina: cartão amarelo – Didier Deschamps, Christian Karembeu e Marcel Desailly (França) e Júnior Baiano (Brasil); cartão vermelho – Marcel Desailly (França)

» França: Fabien Barthez; Lilian Thuram, Marcel Desailly, Frank Lebeuf e Bixente Lizarazu; Didier Deschamps, Emmanuel Petit, Christian Karembeu (Alain Boghossian) e Zinédine Zidane; Youri Djorkaeff (Patrick Vieira) e Stéphane Guivarch (Christophe Dugarry). Técnico: Aimé Jacquet.

» Brasil: Taffarel; Cafu, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos; César Sampaio (Edmundo), Dunga, Leonardo (Denílson) e Rivaldo; Bebeto e Ronaldo. Técnico: Mário Zagallo.

Fonte principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.lemonde.fr; www.rsssf.org; www.theguardian.com; X / El Heraldo Deportes MX.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Copa Libertadores da América – todos os jogos do Botafogo

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

TODOS OS JOGOS

1963: Botafogo 1x0 Alianza (Peru), em Lima, Peru

1963: Botafogo 2x0 Millonarios (Colômbia), em Bogotá, Colômbia

1963: Botafogo WOx0 Millonarios (Colômbia), no Rio de Janeiro, Brasil

1963: Botafogo 2x1 Alianza (Peru), no Rio de Janeiro, Brasil

1963: Botafogo 1x1 Santos (Brasil), em São Paulo, Brasil

1963: Botafogo 0x4 Santos (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

1973: Botafogo 2x3 Palmeiras (Brasil), em São Paulo, Brasil

1973: Botafogo 3x2 Nacional (Uruguai), no Rio de Janeiro, Brasil

1973: Botafogo 4x1 Peñarol (Uruguai), no Rio de Janeiro, Brasil

1973: Botafogo 2x0 Palmeiras (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

1973: Botafogo 2x2 Peñarol (Uruguai), em Montevidéu, Uruguai

1973: Botafogo 2x1 Nacional (Uruguai), em Montevidéu, Uruguai

1973: Botafogo 1x2 Colo-Colo (Chile), no Rio de Janeiro

1973: Botafogo 2x3 Cerro Porteño (Paraguai), no Rio de Janeiro

1973: Botafogo 3x3 Colo-Colo (Chile), em Santiago, Chile

1973: Botafogo 2x0 Cerro Porteño (Paraguai), no Rio de Janeiro, Brasil

1996: Botafogo 0x3 Corinthians (Brasil), em São Paulo, Brasil

1996: Botafogo 4x1 Universidad Católica (Chile), no Rio de Janeiro, Brasil

1996: Botafogo 1x1 Corinthians (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

1996: Botafogo 1x2 Universidad Católica (Chile), em Santiago, Chile

1996: Botafogo 1x2 Universidad de Chile (Chile), em Santiago, Chile

1996: Botafogo 3x1 Universidad de Chile (Chile), no Rio de Janeiro, Brasil

1996: Botafogo 1x1 Grêmio (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

1996: Botafogo 0x2 Grêmio (Brasil), em Porto Alegre, Brasil

2014: Botafogo 1x0 Deportivo Quito (Equador), em Quito, Equador

2014: Botafogo 4x0 Deportivo Quito (Equador), no Rio de Janeiro, Brasil

2014: Botafogo 2x0 San Lorenzo (Argentina), no Rio de Janeiro, Brasil

2014: Botafogo 1x1 Unión Española (Chile), em Santiago, Chile

2014: Botafogo 1x2 Independiente José Terán (Equador), em Sangolquí, Equador

2014: Botafogo 1x0 Independiente José Terán (Equador), no Rio de Janeiro, Brasil

2014: Botafogo 0x1 Unión Española (Chile), no Rio de Janeiro, Brasil

2014: Botafogo 0x3 San Lorenzo (Argentina), em Buenos Aires, Argentina

2017: Botafogo 2x1 Colo-Colo (Chile), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 1x1 Colo-Colo (Chile), em Santiago, Chile

2017: Botafogo 1x0 Olimpia (Paraguai), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 0(3)x1(1) Olimpia (Paraguai), em Assunção, Paraguai

2017: Botafogo 2x1 Estudiantes (Argentina), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 2x0 Nacional (Colômbia), em Medellín, Colômbia

2017: Botafogo 1x1 Barcelona (Equador), em Guaiaquil, Equador

2017: Botafogo 0x2 Barcelona (Equador), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 1x0 Nacional (Colômbia), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 0x1 Estudiantes (Argentina), em La Plata, Argentina

2017: Botafogo 1x0 Nacional (Uruguai), em Montevidéu, Uruguai

2017: Botafogo 2x0 Nacional (Uruguai), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 0x0 Grêmio (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

2017: Botafogo 0x1 Grêmio (Brasil), em Porto Alegre, Brasil

2024: Botafogo 1x1 Aurora (Bolívia), em Cochabamba, Bolívia

2024: Botafogo 6x0 Aurora (Bolívia), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 2x1 Bragantino (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 1x1 Bragantino (Brasil), em Bragança Paulista, Brasil

2024: Botafogo 1x3 Atlético Júnior (Colômbia), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 0x1 LDU de Quito (Equador), em Quito, Equador

2024: Botafogo 3x1 Universitario (Peru), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 2x1 LDU de Quito (Equador), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 1x0 Universitario (Peru), em Lima, Peru

2024: Botafogo 0x0 Atlético Júnior (Colômbia), em Barranquilla, Colômbia

2024: Botafogo 2x1 Palmeiras (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 2x2 Palmeiras (Brasil), em São Paulo, Brasil

2024: Botafogo 0x0 São Paulo (Brasil), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 1(5)x1(4) São Paulo (Brasil), em São Paulo, Brasil

2024: Botafogo 5x0 Peñarol (Uruguai), no Rio de Janeiro, Brasil

2024: Botafogo 1x3 Peñarol (Uruguai), em Montevidéu, Uruguai

2024: Botafogo 3x1 Atlético Mineiro (Brasil), em Buenos Aires, Argentina

2025: Botafogo 0x1 Universidad de Chile (Chile), em Santiago, Chile

2025: Botafogo 2x0 Carabobo (Venezuela), no Rio de Janeiro, Brasil

2025: Botafogo 0x1 Estudiantes (Argentina), em La Plata, Argentina

2025: Botafogo 2x1 Carabobo (Venezuela), em Valencia, Venezuela

2025: Botafogo 3x2 Estudiantes (Argentina), no Rio de Janeiro, Brasil

2025: Botafogo 1x0 Universidad de Chile (Chile), no Rio de Janeiro, Brasil

2025: Botafogo 1x0 LDU de Quito (Equador), no Rio de Janeiro, Brasil

2025: Botafogo 0x2 LDU de Quito (Equador), em Quito, Equador

2026: Botafogo 0x1 Nacional de Potosí (Bolívia), em Potosí, Bolívia

2026: Botafogo 2x0 Nacional de Potosí (Bolívia), no Rio de Janeiro, Brasil

2026: Botafogo 1x1 Barcelona (Equador), em Guayaquil, Equador

2026: Botafogo 0x1 Barcelona (Equador), no Rio de Janeiro, Brasil

» Nota: Botafogo campeão da Copa Libertadores da América 2024.

SÍNTESE: 75 jogos, 36 vitórias, 16 empates, 23 derrotas; saldo de gols favorável por 106-79.

CONFRONTOS POR PAÍSES

Argentinos: 3 vitórias e 3 derrotas

Bolivianos: 2 vitórias, 1 empate e 1 derrota

Brasileiros: 4 vitórias, 8 empates e 5 derrotas

Chilenos: 4 vitórias, 3 empates e 5 derrotas

Colombianos: 4 vitórias, 1 empate e 1 derrota

Equatorianos: 5 vitórias 2 empates e 5 derrotas

Paraguaios: 2 vitórias e 2 derrotas

Peruanos: 4 vitórias

Uruguaios: 6 vitórias, 1 empate e 1 derrota

Venezuelanos: 2 vitórias

domingo, 28 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1994: consagração de Romário, doping de Maradona, infortúnio de Baggio e tragédia de Escobar

Cartaz da Copa do Mundo de 1994. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1994, que decorreu na América (Estados Unidos da), teve uma carga simbólica enorme, sobretudo para o Brasil. Foi o torneio do tetracampeonato, da consagração de Romário, da liderança de Dunga, da memória de Ayrton Senna e também de uma final historicamente tensa, decidida pela primeira vez nos pênaltis.

A escolha da América como país organizador foi, por si só, simbólica. O Mundial foi levado para um país onde o futebol não era o principal desporto, numa tentativa clara de internacionalizar ainda mais a modalidade e abrir mercado. Os estádios eram enormes, muitos deles de futebol americano, e as assistências foram muito elevadas.

A imagem da competição misturava espetáculo, marketing, grandes multidões e calor intenso. Muitos jogos foram disputados sob temperaturas difíceis, precisamente para acomodar horários televisivos internacionais, promovendo assim um futebol mais físico, pausado, com muito desgaste.

Entretanto a FIFA introduziu a regra de 3 pontos por vitória para incrementar o futebol de ataque, os árbitros passaram a envergar uniformes coloridos em vez da cor preta obrigatória e as camisas dos jogadores passaram a dispor os seus nomes nas costas.

O Brasil chegava ao Mundial com uma pressão enorme, porque 24 anos após Jairzinho, Pelé, Tostão, Rivelino e companhia não tornara a ser campeão do mundo. O estilo clássico brasileiro ficara para trás e esta nova equipe era mais pragmática, organizada, defensiva e competitiva, gerando muitas críticas.

A grande figura era Romário, porque provavelmente o Brasil não teria chegado à Copa do Mundo sem o seu desempenho decisivo na fase de qualificação, especialmente no jogo contra o Uruguai, no Maracanã, formando uma dupla muito eficaz com Bebeto.

Romário. Crédito: Neal Simpson | Getty Images.

A Seleção vivia um momento emocional muito forte, porque Ayrton Senna tinha falecido em maio desse ano, pouco antes do Mundial, e todo o país estava em comoção.

Senna era uma figura nacional, quase mítica, e a Seleção Brasileira entrou na Copa com essa memória muito presente. Após a conquista, os jogadores exibiram uma faixa com a dedicatória: “Senna… aceleramos juntos. O tetra é nosso.” E o tetra passou a representar, mais do que a vitória futebolística, um momento de catarse coletiva para o Brasil.

Romário, a grande figura brasileira, não era atacante para grande profundidade, mas dispunha de uma capacidade invulgar de decidir jogos em espaços mínimos, sendo determinante contra Rússia, Camarões, Suécia e Países Baixos. Genial e irreverente, criticado por vezes pela sua postura, foi contudo indispensável e terminou eleito o Craque da Copa do Mundo.

Como curiosidade deve-se realçar a famosa imagem de celebração de Bebeto contra os Países Baixos, nas quartas de final, quando fez o gesto de embalar um bebê, em homenagem ao filho que tinha nascido pouco antes. Romário e Mazinho juntaram-se ao gesto e a imagem tornou-se icônica, simbolizando família, alegria, afeto e espontaneidade, contrastando com a dura disputa competitiva.

Acontecimento também relevante ocorreu com Mário Zagallo, Coordenador Técnico da Seleção e consequentemente o único tetracampeão brasileiro com jogador (1958 e 1962), como técnico (1970) e como coordenador técnico (1994).

Mário Zagallo, coordenador técnico. Fonte: www.lance.com.br.

Num dos melhores jogos da Copa, o Brasil venceu os Países Baixos por 3x2 nas quartas de final; Romário e Bebeto fizeram 2x0, o oponente empatou por Dennis Bergkamp e Aron Winter, e depois Branco converteu uma falta com poderoso remate que estabeleceu a vantagem final de 3x2 para o Brasil, num jogo de muita emoção, coragem neerlandesa, tensão e um gol decisivo de um atleta muito criticado.

Dunga também tinha sido muito criticado após a Copa de 1990, quando se falou da ‘Era Dunga’ como sinônimo de um futebol menos criativo e mais físico, mas em 1994 foi o capitão do tetracampeonato e tornou-se símbolo de liderança, disciplina e superação.

Quando levantou a taça, havia uma carga simbólica muito forte: o Brasil ganhou não com o futebol fantasia do passado, mas com organização, equilíbrio e resistência emocional.

A final entre Brasil e Itália foi disputada no Rose Bowl, em jogo muito truncado, fastidioso e tático, terminando 0x0 após prolongamento, sendo a primeira final de um Mundial decidida no pênaltis.

A imagem mais famosa é de Roberto Baggio, estrela italiana, a falhar o último pênalti ao rematar por cima da baliza. Baggio tinha carregado a Itália até à final, embora menorizado fisicamente, marcando gols fundamentais como contra Nigéria, Espanha e Bulgária e o seu falhanço tornou-se um dos momentos mais dramáticos da história do futebol italiano, simbolizando a beleza e a crueldade do futebol – o gênio que carregou a equipe às costas tornou a imagem da derrota.

Do lado brasileiro a decisão nos penáltis teve uma forte carga emocional, e o título chegou não com goleada ou uma exibição brilhante, mas pela resistência psicológica.

Roberto Baggio desalentado. Fonte: trivela.com.br.

Porém, outros momentos se destacaram pela positiva, designadamente o desempenho da Nigéria, que se apresentou com qualidade física e técnica, dispondo de jogadores como Rashidi Yekini, Jay-Jay Okocha, Finidi George, Daniel Amokachi e Emmanuel Amunike, que desenvolveram um futebol vibrante, estiveram à beira de eliminar a Itália nas oitavas de final e consolidaram o futebol africano no mais importante palco internacional.

A Bulgária, liderada por Hristo Stoichkov, constituiu uma grande surpresa, porque nas suas seis anteriores participações nunca vencera e nesta Copa ficou em 2º lugar à frente da Argentina (vitória por 2x0) na fase de grupos e colocou a Alemanha em estado de choque quando nas quartas de final os búlgaros passaram às semifinais. Stoichkov foi o astro decisivo: competitivo, explosivo, tecnicamente brilhante, e a Bulgária terminou em quarto lugar, o melhor resultado histórico do país em Copas do Mundo.

A Romênia também fez boa campanha jogando futebol ofesivo e espetacular, sob a batuta do talentoo Gheorghe Hagi. A Equipe classificou-se para as oitavas de final  surpreendeu eliminando a Argentina por 3x2. Nas quartas de final perdeu para a Suécia nos pênaltis, após empate por 2x2, e concluiu a Copa em sexto lugar.

A Suécia fez ainda melhor, batendo a Bulgária nas semifinais e terminando num notável terceiro lugar, dispondo de uma equipe muito bem organizada, forte fisicamente e com jogadores como Tomas Brolin, Kennet Andersson e Martin Dahlin.

Esta Copa viu nascer o ‘Maradona do Deserto’, Saeed Al-Owairan, que marcou contra a Bélgica no jogo que levou a Arábia Saudita às oitavas de final na sua estreia em Mundiais: aos 5’ de jogo ganhou a bola a uma distância de 70 metros da baliza adversária, foi por ali afora, driblou três adversários, beneficiou da péssima abordagem do defensor Rudi Smidts, isolou-se frente a Michel Preud’Homme e finalizou com classe para o fundo das redes. Infelizmente para o mundo do futebol cumpriu toda a carreira no seu país, porque a Arábia audita impedia que sauditas representassem clubes estrangeiros.

O camaronês Roger Milla, com 42 anos de idade, teve a sua última participação em Mundiais e foi coroado com recorde histórico. O jogo Rússia 6x1 Camarões ficou na história por duas razões: por um lado, o russo Oleg Salenk marcou 5 gols, sendo até hoje o único atleta a marcar 5 gols numa só partida em Copas do Mundo – o que lhe valeu a artilharia da competição com 6 gols, tantos quantos os que marcou Stoichkov; por outro lado, o solitário gol de Camarões foi marcado por Roger Milla, valendo mais do que um simples gol: permitiu ao atleta estabelecer o recorde mundial de jogador mais velho a marcar em Copas do Mundo.

A enfermeira Sue Carpenter leva Maradona ao controlo antidoping. Montagem | Reprodução.

Porém, outras peripécias foram menos felizes. A Argentina começou bem a competição e Maradona ainda era influente na equipe, mas testou positivo para efedrina, substância estimulante e proibida, sendo suspenso da competição. A imagem de Maradona levado para o controlo antidoping após o jogo contra a Nigéria teve um grande impacto simbólico, marcando o declínio derradeiro de uma das mais icônicas figuras da história do futebol e das Copas do mundo. Todavia, mais tarde, verificou-se que Maradona foi vítima de um gigantesco embuste numa época em que ninguém usava efedrina porque havia estimulantes muito mais eficazes e ‘invisíveis’.

Sobre o assunto ver a matéria https://esportes.r7.com/prisma/silvio-lancellotti/memorias-da-copa-14-nao-diego-maradona-nao-se-dopou-em-1994-09072022/

Se antes da Copa do Mundo ocorrera a tragédia de Ayrton Senna, depois da Copa do Mundo outra tragédia se tornou a página mais sombria da Copa de 1994: a morte do jogador colombiano Andrés Escobar, assassinado depois do Mundial. A Colômbia tinha conseguido grandes resultados na qualificação (p.ex., bateu a Argentina por 5x0) e havia grandes expectativas, pelo que os barões da droga apostaram fortunas numa boa campanha da Colômbia. Porém, a Copa foi um desastre e ficaram furiosos pelas grandes perdas financeiras.

Contra a equipe americana Escobar foi autor de um gol contra e contribuiu para a eliminação da Colômbia, sendo assassinado dias depois em Medellín com ei balas e cada uma levando gravada a palavra ‘gol’. Humberto Muñoz, do cartel Gallón, autor do crime, foi condenado a 43 anos de prisão, cumprindo apenas 11 anos. O caso que chocou o mundo e tornou-se símbolo da violência, da pressão extrema sobre os jogadores e da ligação perigosa entre futebol, crime e expectativas nacionais.

Em resumo, a Copa foi marcada, sobretudo, pelo inédito tetracampeonato brasileiro, não propriamente artístico, mas competitivo e eficiente, mostrando que o Brasil podia vencer tanto pela sua capacidade de improviso e beleza, como pela organização, preparação física, disciplina tática e controlo emocional.

Andrés Escobar. Crédito: AFP.

Porém, também se destacaram a homenagem a Ayrton Senna, a consagração de Romário, a liderança de Dunga, a celebração de Bebeto a embalar o bebê, a final decidida ineditamente nos pênaltis, a surpresa da Bulgária, a afirmação da Nigéria, o drama de Roberto Baggio, o doping de Maradona e a tragédia de Escobar.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 0x0 Itália [pênaltis: 3x2]

» Gols: –

» Pênaltis: Brasil – Márcio Santos, perdeu; Romário, gol; Branco, gol; e Dunga (gol); Itália – Franco Baresi, perdeu; Albertini, gol; Evani, gol; Daniele Massaro, perdeu; e Roberto Baggio, perdeu.

» Data: 17 de julho de 1994

» Local: Rose Bowl, em Pasadena, Los Angeles (América)

» Público: 94.194 espectadores

» Árbitro: Sándor Puhl (Hungria)

» Disciplina: cartão amarelo – Mazinho e Cafu (Brasil) e Luigi Apolloni e Dmetrio Albertini (Itália)

» Brasil: Taffarel; Jorginho (Cafu), Aldair, Márcio Santos e Branco; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho (Viola); Bebeto e Romário. Técnico: Carlos Alberto Parreira.

» Itália: Pagliuca; Mussi (Luigi Apolloni), Franco Baresi, Maldini e Benarrivo; Dino Baggio (Evani), Demetrio Albertini, Berti e Donadoni; Roberto Baggio e Daniele Massaro. Técnico: Arrigo Sacchi.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.sofascore.com; www.theguardian.com.

sábado, 27 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1990: bis de Beckenbauer, heroísmo de Schillaci e Milla, lágrimas de Gascoigne e apelo emocional de Maradona

Cartaz da Copa do Mundo de 1990. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1990, realizada em Itália entre 8 de junho e 8 de julho, ficou conhecida como ‘Italia 90’. Foi um Mundial menos exuberante do ponto de vista ofensivo do que 1982 ou 1986, mas muito forte em dramatismo, tensão competitiva, pênaltis, histórias improváveis e imagens que ficaram na memória. Participaram 24 Seleções, em 52 jogos, e a Alemanha Ocidental sagrou-se campeã ao vencer a Argentina por 1x0 na final, em Roma.

‘Italia 90’ teve uma identidade visual e emocional muito forte: estádios italianos remodelados, grandes transmissões televisivas, a mascote Ciao, o hino “Un’estate italiana” e um ambiente de grande teatralidade. Porém, em campo, foi uma competição associada a futebol cauteloso, jogos fechados e muita tensão defensiva, registrando a média mais baixa de gols por partida (2,21).

Foi também uma Copa de muitos prolongamentos e decisões por pênaltis, muito competitiva, mas menos fértil em futebol ofensivo, provavelmente pela Copa se realizar no país do catenaccio (*) e isso ter contagiado as demais seleções. No entanto, teve episódios históricos: a surpresa dos Camarões, a consagração de Totò Schillaci, a tristeza de Paul Gascoigne, a resistência argentina e a despedida da Alemanha Ocidental antes da reunificação alemã.

Chile, França e México foram as ausências mais notadas: a França foi afastada das eliminatórias da Copa pela Escócia; a seleções sul-americanas foram suspensas. No caso do México devido à utilização de quatro jogadores acima da idade permitida numa competição de seleções sub-20; no caso do Chile foi mais complicado.

Durante as eliminatórias para a Copa entre Brasil e Chile, os torcedores brasileiros lançaram bomba de fumo que supostamente atingiram o goleiro Roberto Rojas, que sangrou da cabeça, saiu de maca, os companheiros protestaram e queriam o Brasil fora da Copa, mas o visionamento das imagens mostrou que Rojas simulara ferimentos com uma lâmina escondida sob a luva. Rojas foi suspenso durante dez anos e a Seleção do Chile afastada dos Mundiais de 1990 e 1994.

Franz Beckenbauer, campeão como treinador (1990) e jogador (1974). Fontes: Wikipédia e Instagram.

A Alemanha Ocidental, orientada por Franz Beckenbauer, chegou à Copa com uma equipe muito forte e equilibrada, pontificando atletas como Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann, Rudi Völler, Andreas Brehme, Pierre Littbarski e Thomas Hassler.

Os alemães impressionaram desde o começo com vitórias claras sobre a Jugoslávia e os Emirados Árabes Unidos e nas fases eliminatórias venceram os Países Baixos, a Checoslováquia e a Inglaterra (nos pênaltis) antes de reencontrar a Argentina na final e alcançar o terceiro Mundial da Alemanha Ocidental.

A Argentina chegou como campeã mundial em título, depois da vitória em 1986, mas já não tinha o mesmo brilho. Maradona ainda era figura central, embora fisicamente limitado, e a equipa argentina foi pragmática, defensiva e emocionalmente resistente.

A Seleção de Camarões surpreendeu vencendo a Argentina por 1x0 de Maradona, em San Siro, no jogo de abertura da Copa, e foi uma grande surpresa associada à força física, coragem e irreverência dos seus atletas, e tendo como figura carismática Roger Milla, com 38 anos de idade. O atacante estivera presente na Copa de 1986, aposentara-se em 1988, regressou em 1990, entrando várias vezes como suplente, tornando-se um dos símbolos da Copa por ser o mais velho jogador a competir, marcando gols decisivos, dançando junto à bandeirola de escanteio e catapultando a seleção camaronesa para as quartas de final, feito inédito para uma seleção africana naquela época.

Nas quartas de final Camarões chegou a estar vencendo a Inglaterra por 2x1, mas Camarões foi derrotado (na prorrogação) após dois pênaltis cobrados por Gary Lineker, mostrando que o futebol africano podia competir com as grandes potências mundiais.

Roger Milla, o mais velho jogador a competir. Fonte: terceirotempo.uol.com.br

A Argentina, depois da derrota inaugural com Camarões, classificou-se facilmente e depois eliminou o Brasil nas oitavas, a Jugoslávia nas quartas e a Itália nas semifinais, ambas nos pênaltis, enquanto o goleiro Sergio Goycochea foi a grande figura da sua equipe, além de Maradona, por ter sido decisivo nos desempates por pênaltis.

A Itália, como país organizador, entrou no Mundial com grande pressão. A seleção tinha grandes nomes como Franco Baresi, Paolo Maldini, Giuseppe Bergomi, Roberto Donadoni, Gianluca Vialli, Robert Baggio e Walter Zenga.

No entanto, a grande figura acabou por ser Salvatore ‘Totò’ Schillaci, que se tornou o rosto emocional da competição: marcava, celebrava de olhos muito abertos, com uma intensidade quase dramática, e foi conquistando o país jogo após jogo, terminando como artilheiro da Copa, com seis gols, e premiado como o Craque da Copa de 1986.

A Itália chegou às semifinais sem conceder qualquer gol e o goleiro Walter Zenga estabeleceu uma longa série de invencibilidade, mas nas semifinais, em Nápoles, a Argentina empatou por 1x1 e eliminou a Itália nos pênaltis.

Essa semifinal Itália x Argentina, disputada em Nápoles, foi uma das grandes feridas emocionais da competição para os italianos pela sua dimensão simbólica. Maradona jogava no Nápoles e era idolatrado naquela cidade, apelando então, antes do jogo, à identificação dos napolitanos com ele e com a Argentina, explorando a tensão histórica entre o sul e o norte de Itália.

Em campo, Schillaci marcou para a Itália, mas Caniggia empatou para a Argentina. Foi o primeiro gol sofrido pela Itália, o suficiente para ser eliminada nos pênaltis após o empate por 1x1 no tempo regulamentar. Foi um dos momentos mais dramáticos de ‘Italia 90’: a anfitriã, que parecia destinada à final, caiu perante a Argentina de Maradona, precisamente na cidade onde Maradona era uma figura quase mítica.

Quanto ao Brasil, com jogadores como Careca, Dunga, Alemão, Branco e Müller, caiu logo nas oitavas de final para a Argentina, embora tivesse dominado grande parte do encontro e criando várias oportunidades. No entanto, o jogo foi decidido por Maradona: mesmo condicionado fisicamente, recebeu a bola, avançou pelo meio, atraiu vários adversários e fez o passe para Caniggia, que ultrapassou o goleiro Taffarel e marcou o gol com o qual a Argentina eliminou o Brasil: com pouco brilho coletivo, mas enorme capacidade de sofrimento e jogadores decisivos nos momentos certos.

Totò Schillaci. Fonte: gq.globocom.

A Inglaterra realizou a sua melhor campanha desde 1966, chegando às semifinais com figuras como Gary Lineker, Peter Shilton, David Platt, Chris Waddle, Stuart Pearce e, sobretudo, Paul Gascoigne, que se tornou uma das figuras emocionais da competição: na semifinal contra a Alemanha Ocidental recebeu cartão amarelo, que o deixaria suspenso da final, caso a Inglaterra se qualificasse, e desfez-se num mar de lágrimas.

Porém, o jogo terminou empatado por 1x1, após prolongamento e a Alemanha Ocidental venceu nos pênaltis, tornando-se  ‘Italia 90’ um trauma e, ao mesmo tempo, uma memória afetiva: a equipa ficou perto da final, Gascoigne transformou-se num ícone popular e os pênaltis tornaram-se parte da narrativa dolorosa do futebol inglês.

Nos oitavos de final, a Alemanha Ocidental defrontou os Países Baixos, sob grande rivalidade, com jogadores fantásticos de parte a parte: Marco van Basten, Ruud Gullit, Franck Rijkaard e Ronald Koeman, de um lado; Matthäus, Klinsmann, Rudi Völler e Brehme, do outro lado.

Franck Rijkaard e Rudi Völler foram expulsos, num episódio tenso e controverso e a Alemanha venceu por 2x1, eliminando uma seleção neerlandesa que pelo seu talento prometia muito mais do que conseguiu mostrar.

A Irlanda, orientada por Jack Charlton, fez uma campanha muito marcante, estreando-se em fases finais de Mundiais e chegando às quartas de final sem vencer qualquer jogo no tempo regulamentar: empatou os três jogos da fase de grupos, eliminou a Romênia nos pênaltis nas oitavas de final e só caiu frente à Itália nas quartas de final, realizando uma campanha baseada em organização, espírito coletivo e grande ligação emocional aos eus torcedores.

A final, disputada em 8 de julho de 1990, no Estádio Olímpico de Roma, foi uma das mais tensas e menos brilhantes da história dos Mundiais. Reeditou a final de 1986, mas com desfecho oposto: a Alemanha Ocidental venceu a Argentina.

O jogo foi duro, truncado e polêmico. A Argentina terminou com nove jogadores, após as expulsões de Pedro Monzón e Gustavo Dezotti. Monzón tornou-se o primeiro jogador expulso numa final de Mundial, aos 65’. O único gol surgiu aos 85’, em pênalti convertido por Brehme, após falta assinalada sobre Rudi Völler.

O pênalti do título foi altamente polêmico. As imagens da televisão mostram que Sensini tocou primeiro na bola antes do contacto físico, caracterizando um desarme normal. S argentinos cercaram e empurraram o árbitro, Maradona chorou em campo e declarou que o juiz agiu intencionalmente contra a Argentina. Anos mais tarde, lendas alemãs como Lothar Matthäus e o próprio autor do gol, Andreas Brehme, admitiram publicamente que o pênalti não existiu e Völler havia ‘cavado’ a falta.

Foi a primeira vez que uma seleção – a Argentina – não marcou gols numa final da Copa do Mundo.

Gascoigne. Fonte: mortaisdofutebol.com.

A Alemanha conquistou o seu terceiro título mundial e Beckenbauer tornou-se figura histórica por vencer a Copa de 1974, como jogador, e a Copa de 1990, como treinador.

Após uma Copa do Mundo meio entediante, a FIFA alterou as regras e estabeleceu que os goleiro não poderiam agarrar a bola se fosse passado por um companheiro de equipe, tendo obrigatoriamente que jogar com o pé.

Em resumo, não sido jogado um grande futebol, a Copa foi uma das mais fortes em memória emocional, tendo ‘heróis’ inesperados como Schillaci e Roger Milla; equipas sobreviventes, como a Argentina; grandes desilusões, como Brasil, Países Baixos e Itália; e momentos que ultrapassaram o resultado, como as lágrimas de Gascoigne ou a relação complexa entre Maradona, Nápoles e a seleção italiana.

Foi uma Copa de tensão, de pênaltis, de defesas, de jogos truncados e das histórias humanas. A Alemanha Ocidental sagrou-se campeã mundial, mas ‘Italia 90’ ficou na memória coletiva como uma competição de grande carga simbólica, mais dramática do que brilhante, mais emocional do que ofensiva.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha Ocidental 1x0 Argentina

» Gols: Andreas Brehme, aos 85’ (pen.)

» Data: 8 de julho de 1990

» Local: Estádio Olímpico, em Roma (Itália)

» Público: 73.603 espectadores

» Árbitro: Edgardo Codesal Méndez (México)

» Disciplina: cartão amarelo – Rudi Völler (Alemanha) e Gustavo Dezotti, Pedro Troglio e Diego Maradona (Argentina); cartão vermelho – Gustavo Dezotti e Pedro Monzón (Argentina).

» Alemanha Ocidental: Bodo Illgner; Klaus Augenthaler, Guido Buchwald, Jurgen Kohler e Thomas Berthold (Stefan Reuter); Andreas Brehme, Thomas Hässler e Lothar Matthäus; Pierre Littbarski, Jürgen Klinsmann e Rudi Völler. Técnico: Franz Beckenbauer.

» Argentina: Sergio Goycochea; Juan Simón, Oscar Ruggeri (Pedro Monzón), José Serrizuela e Néstor Lorenzo; Roberto Sensini, José Basualdo e Pedro Troglio; Jorge Burruchaga (Gabriel Calderón), Diego Maradona e Gustavo Dezotti. Técnico: Carlos Bilardo.

(*) A etimologia da expressão catenaccio vem do italiano, que significa literalmente “ferrolho”, “tranca” ou “pota trancada”, derivando de catena (“corrente”, “cadeia”, por via do latim tardio catenaceum. No futebol o conceito caracteriza-se por uma linha defensiva sólida, com uma forte ênfase na organização e no controle do espaço. O sistema apresenta uma linha de quatro defensores e um líbero atuando na frente do goleiro, minimizando oportunidades de gol do adversários e priorizando a defesa e o contra-ataque. Embora associado ao futebol italiano o sistema remonta ao técnico austríaco Karl Rappan, que implementou o esquema na Suíça nas décadas de 1930-1940, sendo mais tarde aperfeiçoado e popularizado em Itália por Helenio Herrera, especialmente na Internazionale de Milão na década de 1960 (1960-1968).

Fontes: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.footballhistory.org; www.sofascore.com; www.theguardian.com.

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