sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Edmundo ‘Animal’, o juvenil botafoguense que circulava pelado

Edmundo nos juvenis do Botafogo. Crédito: Facebook ‘Botafogo, Fotos Históricas e Opinião’. Imagem melhorada por IA.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Edmundo Alves de Souza Neto, conhecido por Edmundo ‘Animal’, apelido famoso dado pelo narrador desportivo Osmar Santos, em virtude de Edmundo mesclar técnica e raça, explosão e competitividade, nasceu no dia 2 de abril de 1971, em Niterói, teve uma infância humilde e viu no futebol a oportunidade de uma vida melhor.

Edmundo começou jogando futsal, passou para o futebol e esteve nas bases do Vasco da Gama entre 1982-1986, antes de ingressar nas categorias de base do Botafogo, onde permaneceu entre 1987-1989, regressando posteriormente ao Vasco da Gama (1990-1991), onde terminou a sua formação, em virtude de ter sido expulso do Botafogo.

A história que correu sobre a dita expulsão baseou-se numa das primeiras polêmicas de Edmundo no futebol, antes de ser largamente conhecido por provocar os adversários, discutir com jogadores, técnicos, dirigentes e jornalistas, e adorar baladas.

Por onde passava Edmundo deixava a marca da sua indisciplina e excentricidade, enfileirando tantas confusões quanto perdões, porque a profissionalização do futebol brasileiro era ainda incipiente e Edmundo em campo resolvia jogos.

Não obstante, o caso mais grave do seu tempo de jogador foi quando, em 1995, bateu com a sua Cherokee no Fiat Uno dirigido por Carlos Frederico Pontes, que faleceu juntamente com duas passageiras, enquanto Edmundo foi condenado a quatro anos e meio de prisão em regime semiaberto (in https://ge.globo.com).

As confusões que entretanto foi acumulando na carreira permitem afirmar que Edmundo fez parte dos bad boys do futebol brasileiro na década de 1990, a par de Romário e de tantos outros.

Conta-se que o incidente da expulsão do Botafogo, ocorrido durante a etapa da sua formação no Alvinegro, se deveu a Edmundo andar nu nas instalações do Clube, sendo que as fontes divergem quanto a andar nu na piscina, ou na concentração, ou em outras zonas sociais, constrangendo as funcionárias.

Em virtude de tais episódios irreverentes e falta de decoro, Edmundo acabou por ser afastado do Clube e regressou ao Vasco da Gama.

O próprio Edmundo confirma tais incidentes em General Severiano, asseverando que “eu considerava aquilo lá a minha casa, então para mim fazer isso era normal”. Claro que é uma resposta descontextualizada, porque seguramente Edmundo sabia que estava provocando os preceitos sociais dos usos e costumes vigentes.

De resto, Edmundo também asseverou que não foi essa a razão pela qual foi expulso. Um provável mito urbano do futebol brasileiro assevera que Edmundo teria tido um caso amoroso com a esposa de alguém dentro do Botafogo.

Mito urbano?... Não?... Em qualquer dos casos esta dúvida ficará para sempre: se Edmundo não foi expulso por andar nu nas instalações do Clube como o próprio mencionou, então qual terá sido a razão?

Seja ela qual for, a polêmica figura de Edmundo, o ‘Animal’, ficará para sempre gravada no futebol brasileiro e o Glorioso mais uma vez não escapou à celebre frase – “Há coisas que só acontecem ao Botafogo!”

Fontes principais: https://ge.globo.com; https://www.museudapelada.com; https://www.netvasco.com.br; https://www.verminososporfutebol.com.br

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Valdir Espinosa (II): o galã de Marechal Hermes

Crédito: Marco Antônio Cavalcanti | revista Placar. Imagem melhorada por IA.

por ROSA NEPOMUCENO | O Globo, 24.06.1989

«Fabricar sonhos e deuses – e liquidificá-los e esquecê-los rapidamente é uma diversão carioca, conhecida – e temida – em todo o País. E isso assusta um pouco o mais novo personagem do Olimpo abençoado pelo Cristo de braço abertos, o gaúcho Valdir Espinoza, 41 anos, técnico que conferiu confiança ao time do Botafogo, time que foi de Garrincha, Nilton Santos, Gérson e Jairzinho, e que vinha de cabeça baixa há duas décadas. As velas do bolo da vitória foram sopradas por ele.

Há seis meses ancorado na cidade, desde quarta-feira Espinoza é deus, aplaudido nos lugares públicos e pode-se transformar no muso do inverno, sex-symbol grisalho, com perfil do Marlon Brando, olhos azuis de Paul Newman, pele bronzeada, sorridente, bem-humorado. Ele adora uma gravata de seda, um blazer, é soft, chique, mas não dispensa um ouro vistoso, como o relógio, Vageron Constantin, que usa no pulso.

Um técnico que poderia fazer um galã bem sucedido em alguma novela das que gosta de assistir. Como lateral direito do Grêmio, mesmo no auge de sua forma física, em 69, não conheceu glória semelhante. Nem como técnico de tantos time. Ele agora saboreia o sucesso, mas teme a virada dos ventos.

– Penso o tempo todo: isso vai passar. E rezo para a santa uruguaia Virgem dos 33, para que ela me dê calma pra que eu não me deslumbre – diz.

Isso não vai ser fácil para esse libriano que gosta de simplicidade e de fazer amigos. Quando entrou na Churrascaria Porcão – seu lugar preferido para almoçar ou jantar – na quinta-feira, foi aplaudido e pensou que as palmas eram para Lima Duarte, que também chegava ao restaurante. “É, mas o Sassá tem a Clotilde”, brinca. Que nenhuma loura de olhos verdes se anime. Espinoza é casado há 27 anos com Maria da Graça, sua primeira namorada e se orgulha de, nessa área, nunca ter trocado de camisa (já que nos últimos dez anos passou por vários clubes).

Os filhos Rivelino – uma homenagem a um dos 11 maires craques de todos os tempos na sua opinião – de 19 anos, e Alan de 11 e o cocker spaniel Ealam Ibn Marduk adoram a cidade e não pensam em voltar para Porto Alegre. O Rio seduziu a família, “com seu estilo e vida solto, alegre, divertido”, explica Espinoza, na varanda do apartamento do condomínio Pontal do Bosque, onde mora, na Barra.

– Adorei esse lugar. Minha vida hoje ainda se resume à Barra e a Marechal Hermes, onde trabalho muitas horas por dia – conta.

A caminho da sede do clube – via Jacarepaguá e Vila Valqueire – Espinoza admira as montanhas da cidade e acha isso relaxante. “Mas sofro com o trânsito, o pior defeito do Rio”, diz. Acorda às sete da manhã, vai para o clube e volta para almoçar as massas saborosas feitas por sua mulher.

– Faço questão de preservar hábitos antigos, a “siesta paraguaia”, por exemplo; um bom sono de uma hora e meia, antes de voltar aos treinos – conta.

Quando as tardes são livre, Espinoza fica pelo condomínio onde encontra parceiro para jogar tênis ou vôlei, duas paixões antigas. O futebol, como conta, foi o último esporte a entrar na sua vida, quando tava no segundo ano científico. Antes participava de torneios de vôlei e basquete. Quarto filho de um gráfico – entre cinco irmãos – de repente descobriu que gostava de jogar bola. Mas só sentiu que era “pé quente” quando virou técnico. Credita seu sucesso pessoal e profissional, num rasgo de imodéstia, ao seu alto-astral.

– Quando entro num ambiente e ele está meio baixo, consigo levantar os ânimos – confessa.

Nada melhor que a vitória do Botafogo para provar o que diz. Ele chegou manso, falando com calma – a voz é bonita – costurou o time e levou-o à vitória, sem precisar de chicote.

– Gosto de ficar no mesmo degrau dos jogadores. Não preciso comandar de cima. Converso, me divirto com eles, aceito as diferenças de temperamento. Até meus dois filhos têm gênios diferentes – conta.

Cervejeiro declarado, não dispensa várias garrafas quando vai a churrascarias. Parece conformado com a barriguinha que se impõe sob as camisas de viscose. “Não há a menor possibilidade de eu fazer uma ginástica. Abdominal nunca!”, diz.

Nas folgas vai com Maria da Graça ao Shopping da Barra, ver vitrines ou comprar alguma roupa. É ela quem a escolhe: ele se confessa incapaz de administrar seu guarda-roupa. Gosta de ternos, de blazers, de gravatas e mocassins mas, para não ferir o figurino tradicional de técnico, só veste essas roupas quando sai à noite, para ver shows de Caetano, de Ivan Lins ou de Dóris Monteiro. No seu toca-fitas, também ouve Rosane, Joana, Roberto Carlos e Chitãozinho e Chororó.

– Gosto de todo tipo de música brasileira. Mas adoro bolero – confessa.

A culpa é certamente do seu nome, Valdir Ataualpa Ramírez. Por conta do último sobrenome – o mesmo de Spinoza, filósofo holandês do século XVII –, ele gosta mesmo é de filosofar sobre a melhor forma de colocar uma bola na rede do time adversário. Melhor para nós, que amamos samba, feijão e futebol.»

Fonte: O Globo, 24.06.1989.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Valdir Espinosa (I): os ‘segredos’ de um técnico premonitório

Crédito: Marco Antônio Cavalcanti | revista Placar. Imagem melhorada por IA.

Entrevista de MARTHA ESTEVES | revista Placar, 30.06.1989

PLACAR – Como é quebrar um jejum de títulos tão longo?

ESPINOSA – Uma verdadeira glória. Uma valorização enorme em todos os sentidos. Pelo lado profissional, consegui minha afirmação no difícil mercado do Rio de Janeiro.

PLACAR – O Botafogo poderia perder o campeonato, caso não vencesse o jogo da quarta-feira passada?

ESPINOSA – Estávamos preparados para isso. Avisei os jogadores que não tínhamos a obrigação de ganhar o título naquela partida especialmente. De qualquer jeito, tinha certeza de que seríamos campeões em qualquer dia.

PLACAR – O que determinou a vitória?

ESPINOSA – Sem dúvida a saída de Zico. Coincidência ou não, o Botafogo fez seu gol 1 minuto depois que ele deixou o campo. O Flamengo sentiu a falta de sua liderança e acabou se perdendo.

PLACAR – Por que, ao contrário da primeira partida, você não armou uma marcação especial para Zico?

ESPINOSA – Começamos o jogo tentando marcá-lo em cima, mas espertamente ele se movimentou muito, trocando de posição com outros jogadores. A solução foi vigiá-lo por zona, o que acabou dando certo.

PLACAR – Até que ponto a invencibilidade do time mexeu com os jogadores?

ESPINOSA – Minha maior preocupação foi não passar tensão para os jogadores. A cada jogo me sentia como um castelo de areia pronto a desmoronar.

PLACAR – Qual foi o jogo mais difícil do campeonato?

ESPINOSA – O último com o Bangu (na Rodada Final da Taça Rio). Foi o jogo em que fiquei mais nervoso porque poderíamos não passar para a decisão e isso não passava pela minha cabeça. Sem medo de arriscar, foi o mais tenso de minha carreira.

PLACAR – O que foi melhor: ser campeão mundial com o Grêmio em 1983 ou campeão carioca pelo Botafogo?

ESPINOSA – Sem dúvida, fiquei muito mais feliz com o Campeonato Carioca. Ganhar um título tão esperado junto da torcida é muito melhor que vencer em Tóquio.

PLACAR – Três outros técnicos (Pinheiro, Zé Carlos e Jair Pereira) fracassaram com esse mesmo time. Qual seu segredo?

ESPINOSA – Acho que minha arma foi não despertar ansiedade de ganhar nada. Desde que cheguei ao Botafogo, ensinei aos jogadores que o medo de perder tira a vontade de ganhar. Resolvemos enfrentar tudo sem pensar no futuro, lutando naturalmente, sem forçar nada.

PLACAR – Em que momento você sentiu que poderia ser campeão?

ESPINOSA – Quando disse que a única equipe que me despertava esse desafio era o Botafogo. Nesse momento, eu sabia que seria campeão. Tinha saído do Coritiba e tomado a decisão de parar um tempo porque não via um time que me interessasse. Foi assim com o Cerro Porteño, o Grêmio e o próprio Botafogo. Deve ser premonição ou intuição.

PLACAR – Por isso também você resolveu ficar no Brasil depois de tudo acertado para dirigir a Seleção do Kuwait?

ESPINOSA – Sou muito intuitivo e desde o começo senti algo estranho em relação a essa mudança.

PLACAR – O quê?

ESPINOSA – Não sei explicar, mas acho que até que posso morrer no Kuwait. Vejo muita coisa ruim. Nada em relação a um possível fracasso profissional, porque isso eu não temo. Corro esse risco mesmo ficando no Botafogo.

PLACAR – E você vai continuar no Botafogo?

ESPINOSA – Entreguei uma proposta para o vice-presidente Emil Pinheiro antes mesmo de classificar o time para as finais. Fiz isso para não dizerem que me aproveitei da situação.

PLACAR – Mas você sempre trabalhou em times grandes e organizados. Como foi enfrentar um sem estrutura alguma?

ESPINOSA – Cheguei em Marechal Hermes preparado porque o Cerro Porteño era muito pior. Então, avisei todos: “O Botafogo durante a semana é um time pequeno, mas no domingo se torna grande”.

PLACAR – A torcida alvinegra é muito exigente e, depois de ser campeã, pode cobrar ainda mais do time. Você não acha que pode fazer um mau negócio trocando os dólares por muita dor de cabeça?

ESPINOSA – Não tenho medo de perder e sei bem o que pode acontecer se a equipe não mantiver o nível. Depois de ganhar o Mundial pelo Grêmio, fui várias vezes vaiado. O importante é a consciência de ter realizado um excelente trabalho.

PLACAR – Como conseguiu um ótimo relacionamento com todos os jogadores?

ESPINOSA – Eles me respeitam porque estou no mesmo degrau, apesar de ser chefe. Consegui induzi-los a andar no caminho sem precisar de chicote na mão. Trabalhamos com unidade de pensamento. Ninguém é mais do que ninguém.

PLACAR – Esta é a razão de o Botafogo não ter estrelas?

ESPINOSA – Exatamente. Bons exemplos são Mauro Galvão, que tem um destaque técnico, e Paulinho Criciúma, com seu forte carisma junto à torcida. Eles não se consideram estrelas.

PLACAR – E de que forma você resolveu a divisão do time entre s que pertenciam a Emil Pinheiro (Paulinho Criciúma, Mauro Galvão, Wílson Gotardo, Mazolinha…) e os demais?

ESPINOSA – Mostrei para todos que precisávamos trabalhar unidos de verdade. Sem divisões ou panelinhas, montei um time competitivo e unificado pelo mesmo objetivo.

PLACAR – Como se explica a invencibilidade de 28 jogos?

ESPINOSA – Simplesmente valorizei a principal qualidade do time: a força de marcação. Assim como Vítor, os meias Carlos Alberto e Luisinho também marcam com eficiência e disciplina. Eu só dei alma a isso.

PLACAR – O Botafogo pode dar algum exemplo à Seleção Brasileira?

ESPINOSA – Ele provou que, independentemente da qualidade técnica, o time deve ser competitivo sempre. Um grupo unido, buscando só a vitória. Na Seleção, os jogadores pensam em aparecer para jogar na Europa. O resultado é que cada um quer mostrar o seu e ninguém consegue mostrar nada.

PLACAR – Você é um homem predestinado?

ESPINOSA – A grande maioria das coisas que previ para minha vida aconteceram e muitas ainda estão por acontecer.

PLACAR – Ser técnico da Seleção, por exemplo?

ESPINOSA – Digamos que eu sonhei com isso. Se um dia acontecer, direi se estava marcado nomeu destino ou não.

Fonte: Revista Placar, 30.06.1989.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Depoimento de Mendonça – uma paixão imensa

Crédito: Revista Placar, 1980.

"Não sou jogador do Botafogo, sou torcedor do Botafogo."  Mendonça.

por MENDONÇA | Entrevista de MARCELO REZENDE | Revista Placar, 1980

«Em 75, quando Zagalo me fez titular, isto aqui era uma merda. Foi quando me dei conta da concorrência desleal que impera no profissionalismo. No juvenil todos são amigos, um ajuda ao outro. Nos profissionais, cada um se vira sozinho. Meu pai mesmo diz: ‘Cuida de você e deixa a vida dos outros’.

Já como titular, começando a cair no gosto da torcida, sofri um golpe profundo: a mudança do Botafogo de General Severiano, que eu amava tanto, para Marechal Hermes. Eu adoro o Botafogo. Aprendi a gostar daqui porque nasci aqui dentro. Conheço todos os funcionários, nunca tive nenhum problema e sempre fui respeitado pelos dirigentes. Por isso, só deixo o clube por muito dinheiro.

Como dizia, saímos de General Severiano e foi como se roubassem um pedaço da minha vida, justamente da minha infância. Naquele momento, enterraram meus piqueniques debaixo da arquibancada, meu sonho de herói. Sepultaram, friamente, a tradição, o carisma, o respeito que meu clube impunha. Confesso que chorei. Creio que eu, a quem todos apontam como um dos bons jogadores, vou ser conhecido daqui a alguns anos como “esse craque de Marechal”. E eu queria ser de General.

Ser grande estrela tem um lado bom e outro rum. O bom é ser solicitado para autógrafos, tirar fotos com torcedores, chegar aos lugares e ser tratado com carinho, ser reconhecido na rua, ouvir o estádio gritar seu nome. Em compensação, no erro você é o único culpado. Na última partida com o Fluminense pela Taça Guanabara, eu estava errando todos os passes. A vaia invadia minha cabeça, os companheiros diziam: ‘Finge que não escuta, Mendonça’. Não escutar como? Eu não escuto os aplausos, porra? Então, vou ouvir também as vaias. Elas são pra mm, sou eu que tenho de ouvi-las!

A bola só saía errada, me traía. Até que, aos 45 minutos do segundo tempo, empate com um gol de cabeça: 1 a 1. Não comemorei. Saí correndo em direção à torcida e xinguei, fiz gestos obscenos. Eu queria até tirar o calção, só não tirei porque a televisão estava lá e não pegava bem.

No vestiário, entrei chorando, atirei a camisa com violência ao chão, pisei em cima e comecei a gritar: ‘Não jogo mais nessa merda desse clube! Não jogo mais pra essa torcida!’ Sou caladão, um jeito meu indolente, mas por dentro estou sempre em convulsão.

Horas depois, entendi: era a reação natural de uma torcida que não vence desde 68. Só esquecem que eu também estou nessa – 12 anos sem título. Pensa que não sofro? Sofro mais que a maioria dos torcedores e conselheiros que se dizem botafoguenses. Porque eu, mesmo profissionalmente, sou Botafogo sem interesse – porque amo.

Um clube não pode estar tanto tempo sem ganhar. Ser jogador do Botafogo, hoje, é se sentir achatado, espremido, pesado pelos outros. Uma inferioridade crônica.

Os jogadores têm a sua culpa. Você já chegou aqui antes do treino e sabe como é, tem gente rindo, brincando, a maior descontração. Um mergulha em cima do outro, os apelidos correm soltos. Eu, jogador e torcedor, fico espantado: como pode haver tanto riso, tanta satisfação, tanta alegria entre nós jogadores, se não conseguimos ganhar nada? Isto aqui deveria ser mais sério, um ambiente em que as pessoas fossem seguras, consciente, mas sem essas brincadeiras que na verdade não são de descontração e sim de fuga. Cadê a nossa vergonha na cara? E o sujeito que paga, que é fanático? Quando chega aqui, na certa deve pensar: ‘Não ganham nada e ainda ficam rindo como tarados mentais’.

Já conversei com alguns, disse no vestiário: ‘Quer dizer que todo mundo aqui está cheio de apartamentos, nadando em dinheiro? O silêncio foi total. Você pensa que adiantou alguma coisa? Recentemente falei: ‘Vocês já pensaram na conta bancária dos jogadores do Flamengo?’ Claro, o Flamengo tem de ser o exemplo pra tudo. Lá está o bom exemplo – jogadores dedicados, aplicados.

Eu mesmo organizei alguns churrascos, tentei reunir todos os jogadores numa grande família – só assim chegaríamos a algum lugar. Não deu resultado, ninguém se importou. Não será um presidente ou outro cartola que devolverá o título ao Bota, mas s jogadores.

O que ninguém entende é isso: você dorme ídolo, acorda joão-ninguém. Dorme ídolo, acorda um mortal qualquer. Esta é a profissão mais ilusória do mundo, que te dá alguns poucos momentos de dinheiro e satisfação. Tenho em casa o exemplo do meu pai, inutilizado para o futebol no melhor momento de sua carreira. Ele me ensina todas as malandragens, mas ninguém enxerga isso.

Já sou um homem. Ganhei algum dinheiro (salário atual de 100 mil cruzeiros), comprei um bom apartamento (em Jacarepaguá, com 250 m2 de construção), tenho carro, minha família. Dentro de mim, entretanto, carrego uma frustração, talvez a única que tenho hoje: jamais ter sido campeão.

Como se disse, só saio daqui por muito, muitíssimo dinheiro ou depois de conquistar um título. Aí me sentirei mais homem, aí sim não estarei traindo meu sonho de menino.»

Edmundo ‘Animal’, o juvenil botafoguense que circulava pelado

Edmundo nos juvenis do Botafogo. Crédito: Facebook ‘Botafogo, Fotos Históricas e Opinião’. Imagem melhorada por IA. por RUY MOURA | Editor...