sábado, 27 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1990: bis de Beckenbauer, heroísmo de Schillaci e Milla, lágrimas de Gascoigne e apelo emocional de Maradona

Cartaz da Copa do Mundo de 1990. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1990, realizada em Itália entre 8 de junho e 8 de julho, ficou conhecida como ‘Italia 90’. Foi um Mundial menos exuberante do ponto de vista ofensivo do que 1982 ou 1986, mas muito forte em dramatismo, tensão competitiva, pênaltis, histórias improváveis e imagens que ficaram na memória. Participaram 24 Seleções, em 52 jogos, e a Alemanha Ocidental sagrou-se campeã ao vencer a Argentina por 1x0 na final, em Roma.

‘Italia 90’ teve uma identidade visual e emocional muito forte: estádios italianos remodelados, grandes transmissões televisivas, a mascote Ciao, o hino “Un’estate italiana” e um ambiente de grande teatralidade. Porém, em campo, foi uma competição associada a futebol cauteloso, jogos fechados e muita tensão defensiva, registrando a média mais baixa de gols por partida (2,21).

Foi também uma Copa de muitos prolongamentos e decisões por pênaltis, muito competitiva, mas menos fértil em futebol ofensivo, provavelmente pela Copa se realizar no país do catenaccio (*) e isso ter contagiado as demais seleções. No entanto, teve episódios históricos: a surpresa dos Camarões, a consagração de Totò Schillaci, a tristeza de Paul Gascoigne, a resistência argentina e a despedida da Alemanha Ocidental antes da reunificação alemã.

Chile, França e México foram as ausências mais notadas: a França foi afastada das eliminatórias da Copa pela Escócia; a seleções sul-americanas foram suspensas. No caso do México devido à utilização de quatro jogadores acima da idade permitida numa competição de seleções sub-20; no caso do Chile foi mais complicado.

Durante as eliminatórias para a Copa entre Brasil e Chile, os torcedores brasileiros lançaram bomba de fumo que supostamente atingiram o goleiro Roberto Rojas, que sangrou da cabeça, saiu de maca, os companheiros protestaram e queriam o Brasil fora da Copa, mas o visionamento das imagens mostrou que Rojas simulara ferimentos com uma lâmina escondida sob a luva. Rojas foi suspenso durante dez anos e a Seleção do Chile afastada dos Mundiais de 1990 e 1994.

Franz Beckenbauer, campeão como treinador (1990) e jogador (1974). Fontes: Wikipédia e Instagram.

A Alemanha Ocidental, orientada por Franz Beckenbauer, chegou à Copa com uma equipe muito forte e equilibrada, pontificando atletas como Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann, Rudi Völler, Andreas Brehme, Pierre Littbarski e Thomas Hassler.

Os alemães impressionaram desde o começo com vitórias claras sobre a Jugoslávia e os Emirados Árabes Unidos e nas fases eliminatórias venceram os Países Baixos, a Checoslováquia e a Inglaterra (nos pênaltis) antes de reencontrar a Argentina na final e alcançar o terceiro Mundial da Alemanha Ocidental.

A Argentina chegou como campeã mundial em título, depois da vitória em 1986, mas já não tinha o mesmo brilho. Maradona ainda era figura central, embora fisicamente limitado, e a equipa argentina foi pragmática, defensiva e emocionalmente resistente.

A Seleção de Camarões surpreendeu vencendo a Argentina por 1x0 de Maradona, em San Siro, no jogo de abertura da Copa, e foi uma grande surpresa associada à força física, coragem e irreverência dos seus atletas, e tendo como figura carismática Roger Milla, com 38 anos de idade. O atacante estivera presente na Copa de 1986, aposentara-se em 1988, regressou em 1990, entrando várias vezes como suplente, tornando-se um dos símbolos da Copa por ser o mais velho jogador a competir, marcando gols decisivos, dançando junto à bandeirola de escanteio e catapultando a seleção camaronesa para as quartas de final, feito inédito para uma seleção africana naquela época.

Nas quartas de final Camarões chegou a estar vencendo a Inglaterra por 2x1, mas Camarões foi derrotado (na prorrogação) após dois pênaltis cobrados por Gary Lineker, mostrando que o futebol africano podia competir com as grandes potências mundiais.

Roger Milla, o mais velho jogador a competir. Fonte: terceirotempo.uol.com.br

A Argentina, depois da derrota inaugural com Camarões, classificou-se facilmente e depois eliminou o Brasil nas oitavas, a Jugoslávia nas quartas e a Itália nas semifinais, ambas nos pênaltis, enquanto o goleiro Sergio Goycochea foi a grande figura da sua equipe, além de Maradona, por ter sido decisivo nos desempates por pênaltis.

A Itália, como país organizador, entrou no Mundial com grande pressão. A seleção tinha grandes nomes como Franco Baresi, Paolo Maldini, Giuseppe Bergomi, Roberto Donadoni, Gianluca Vialli, Robert Baggio e Walter Zenga.

No entanto, a grande figura acabou por ser Salvatore ‘Totò’ Schillaci, que se tornou o rosto emocional da competição: marcava, celebrava de olhos muito abertos, com uma intensidade quase dramática, e foi conquistando o país jogo após jogo, terminando como artilheiro da Copa, com seis gols, e premiado como o Craque da Copa de 1986.

A Itália chegou às semifinais sem conceder qualquer gol e o goleiro Walter Zenga estabeleceu uma longa série de invencibilidade, mas nas semifinais, em Nápoles, a Argentina empatou por 1x1 e eliminou a Itália nos pênaltis.

Essa semifinal Itália x Argentina, disputada em Nápoles, foi uma das grandes feridas emocionais da competição para os italianos pela sua dimensão simbólica. Maradona jogava no Nápoles e era idolatrado naquela cidade, apelando então, antes do jogo, à identificação dos napolitanos com ele e com a Argentina, explorando a tensão histórica entre o sul e o norte de Itália.

Em campo, Schillaci marcou para a Itália, mas Caniggia empatou para a Argentina. Foi o primeiro gol sofrido pela Itália, o suficiente para ser eliminada nos pênaltis após o empate por 1x1 no tempo regulamentar. Foi um dos momentos mais dramáticos de ‘Italia 90’: a anfitriã, que parecia destinada à final, caiu perante a Argentina de Maradona, precisamente na cidade onde Maradona era uma figura quase mítica.

Quanto ao Brasil, com jogadores como Careca, Dunga, Alemão, Branco e Müller, caiu logo nas oitavas de final para a Argentina, embora tivesse dominado grande parte do encontro e criando várias oportunidades. No entanto, o jogo foi decidido por Maradona: mesmo condicionado fisicamente, recebeu a bola, avançou pelo meio, atraiu vários adversários e fez o passe para Caniggia, que ultrapassou o goleiro Taffarel e marcou o gol com o qual a Argentina eliminou o Brasil: com pouco brilho coletivo, mas enorme capacidade de sofrimento e jogadores decisivos nos momentos certos.

Totò Schillaci. Fonte: gq.globocom.

A Inglaterra realizou a sua melhor campanha desde 1966, chegando às semifinais com figuras como Gary Lineker, Peter Shilton, David Platt, Chris Waddle, Stuart Pearce e, sobretudo, Paul Gascoigne, que se tornou uma das figuras emocionais da competição: na semifinal contra a Alemanha Ocidental recebeu cartão amarelo, que o deixaria suspenso da final, caso a Inglaterra se qualificasse, e desfez-se num mar de lágrimas.

Porém, o jogo terminou empatado por 1x1, após prolongamento e a Alemanha Ocidental venceu nos pênaltis, tornando-se  ‘Italia 90’ um trauma e, ao mesmo tempo, uma memória afetiva: a equipa ficou perto da final, Gascoigne transformou-se num ícone popular e os pênaltis tornaram-se parte da narrativa dolorosa do futebol inglês.

Nos oitavos de final, a Alemanha Ocidental defrontou os Países Baixos, sob grande rivalidade, com jogadores fantásticos de parte a parte: Marco van Basten, Ruud Gullit, Franck Rijkaard e Ronald Koeman, de um lado; Matthäus, Klinsmann, Rudi Völler e Brehme, do outro lado.

Franck Rijkaard e Rudi Völler foram expulsos, num episódio tenso e controverso e a Alemanha venceu por 2x1, eliminando uma seleção neerlandesa que pelo seu talento prometia muito mais do que conseguiu mostrar.

A Irlanda, orientada por Jack Charlton, fez uma campanha muito marcante, estreando-se em fases finais de Mundiais e chegando às quartas de final sem vencer qualquer jogo no tempo regulamentar: empatou os três jogos da fase de grupos, eliminou a Romênia nos pênaltis nas oitavas de final e só caiu frente à Itália nas quartas de final, realizando uma campanha baseada em organização, espírito coletivo e grande ligação emocional aos eus torcedores.

A final, disputada em 8 de julho de 1990, no Estádio Olímpico de Roma, foi uma das mais tensas e menos brilhantes da história dos Mundiais. Reeditou a final de 1986, mas com desfecho oposto: a Alemanha Ocidental venceu a Argentina.

O jogo foi duro, truncado e polêmico. A Argentina terminou com nove jogadores, após as expulsões de Pedro Monzón e Gustavo Dezotti. Monzón tornou-se o primeiro jogador expulso numa final de Mundial, aos 65’. O único gol surgiu aos 85’, em pênalti convertido por Brehme, após falta assinalada sobre Rudi Völler.

O pênalti do título foi altamente polêmico. As imagens da televisão mostram que Sensini tocou primeiro na bola antes do contacto físico, caracterizando um desarme normal. S argentinos cercaram e empurraram o árbitro, Maradona chorou em campo e declarou que o juiz agiu intencionalmente contra a Argentina. Anos mais tarde, lendas alemãs como Lothar Matthäus e o próprio autor do gol, Andreas Brehme, admitiram publicamente que o pênalti não existiu e Völler havia ‘cavado’ a falta.

Foi a primeira vez que uma seleção – a Argentina – não marcou gols numa final da Copa do Mundo.

Gascoigne. Fonte: mortaisdofutebol.com.

A Alemanha conquistou o seu terceiro título mundial e Beckenbauer tornou-se figura histórica por vencer a Copa de 1974, como jogador, e a Copa de 1990, como treinador.

Após uma Copa do Mundo meio entediante, a FIFA alterou as regras e estabeleceu que os goleiro não poderiam agarrar a bola se fosse passado por um companheiro de equipe, tendo obrigatoriamente que jogar com o pé.

Em resumo, não sido jogado um grande futebol, a Copa foi uma das mais fortes em memória emocional, tendo ‘heróis’ inesperados como Schillaci e Roger Milla; equipas sobreviventes, como a Argentina; grandes desilusões, como Brasil, Países Baixos e Itália; e momentos que ultrapassaram o resultado, como as lágrimas de Gascoigne ou a relação complexa entre Maradona, Nápoles e a seleção italiana.

Foi uma Copa de tensão, de pênaltis, de defesas, de jogos truncados e das histórias humanas. A Alemanha Ocidental sagrou-se campeã mundial, mas ‘Italia 90’ ficou na memória coletiva como uma competição de grande carga simbólica, mais dramática do que brilhante, mais emocional do que ofensiva.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha Ocidental 1x0 Argentina

» Gols: Andreas Brehme, aos 85’ (pen.)

» Data: 8 de julho de 1990

» Local: Estádio Olímpico, em Roma (Itália)

» Público: 73.603 espectadores

» Árbitro: Edgardo Codesal Méndez (México)

» Disciplina: cartão amarelo – Rudi Völler (Alemanha) e Gustavo Dezotti, Pedro Troglio e Diego Maradona (Argentina); cartão vermelho – Gustavo Dezotti e Pedro Monzón (Argentina).

» Alemanha Ocidental: Bodo Illgner; Klaus Augenthaler, Guido Buchwald, Jurgen Kohler e Thomas Berthold (Stefan Reuter); Andreas Brehme, Thomas Hässler e Lothar Matthäus; Pierre Littbarski, Jürgen Klinsmann e Rudi Völler. Técnico: Franz Beckenbauer.

» Argentina: Sergio Goycochea; Juan Simón, Oscar Ruggeri (Pedro Monzón), José Serrizuela e Néstor Lorenzo; Roberto Sensini, José Basualdo e Pedro Troglio; Jorge Burruchaga (Gabriel Calderón), Diego Maradona e Gustavo Dezotti. Técnico: Carlos Bilardo.

(*) A etimologia da expressão catenaccio vem do italiano, que significa literalmente “ferrolho”, “tranca” ou “pota trancada”, derivando de catena (“corrente”, “cadeia”, por via do latim tardio catenaceum. No futebol o conceito caracteriza-se por uma linha defensiva sólida, com uma forte ênfase na organização e no controle do espaço. O sistema apresenta uma linha de quatro defensores e um líbero atuando na frente do goleiro, minimizando oportunidades de gol do adversários e priorizando a defesa e o contra-ataque. Embora associado ao futebol italiano o sistema remonta ao técnico austríaco Karl Rappan, que implementou o esquema na Suíça nas décadas de 1930-1940, sendo mais tarde aperfeiçoado e popularizado em Itália por Helenio Herrera, especialmente na Internazionale de Milão na década de 1960 (1960-1968).

Fontes: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.footballhistory.org; www.sofascore.com; www.theguardian.com.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Botafogo disputa cinco finais da Supercopa Master de Vôlei

Fonte: Federação de Voleibol Master do Rio de Janeiro,

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Botafogo participa, no próximo domingo, dia 28 de junho, em cinco finais da Supercopa Master de Vôlei, competições organizadas pela Federação de Voleibol Master do Rio de Janeiro, competindo em três categorias do feminino e duas categorias do masculino.

Eis as finais em disputa:

FEMININO 30+

Botafogo x ALP Vôlei

» Data: 28.06.2026

» Local: SESC Tijuca

FEMININO 40+

Botafogo x Mirim A Master

» Data: 28.06.2026

» Local: Clube Militar da Lagoa

FEMININO 45+

Botafogo x Açores

» Data: 28.06.2026

» Local: Sesc Tijuca

MASCULINO 59+

Botafogo x Phenix

» Data: 28.06.2026

» Local: Grajaú Country Club

MASCULINO 63+

Botafogo x Grupo Master Light

» Data: 28.06.2026

» Local: Grajaú Country Club

Botafogo vence Copa Fictor Sub-15 série prata

Fonte: Divulgação.

[Nota: O Mundo Botafogo acompanha todas as modalidades desportivas do Botafogo, além do futebol, e publica todos os resultados das conquistas do nosso amado Glorioso; porém, ocasionalmente escapam a esse acompanhamento competições menos divulgadas, de que é exemplo a 1ª Copa Fictor Sub-15, realizada em janeiro deste ano e agora resgatada desse passado recente.]

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A equipe sub-15 do Botafogo conquistou a taça referente à série prata da Copa Fictor Sub-15, cuja final correspondeu ao confronto entre 3º e 4º classificados por pontos corridos. A Copa Fictor foi organizada pela Sociedade Esportiva Palmeiras e decorreu entre 15 e 20 de janeiro de 2026.

Eis a campanha das ‘Joias do Bairro’:

FASE DE GRUPOS

Botafogo 2x1 EC Vitória

» Data: 15.01.2026

» Local: CF Laudo Natel

Botafogo 4x0 Referência FC

» Data: 16.01.2026

» Local: Arena Barueri

Botafogo 1x3 São Paulo FC

» Data: 17.01.2026

» Local: CF Laudo Natel

Botafogo 2x4 Santos FC

» Data: 18.01.2026

» Local: Arena Barueri

Botafogo 1x1 Ibrachina FC

» Data: 19.01.2026

» Local: Academia de Futebol 2

Os seis primeiros classificados no conjunto da Fase de Grupos disputaram as séries Ouro, Prata e Bronze deste modo:

Série Ouro: Palmeiras (1º) x São Paulo (2º)

Série Prata: Santos (3º) x Botafogo (4º)

Série Bronze: Bragantino (5º) x Vitória (6º)

FINAL – SÉRIE PRATA

Botafogo 1x1 Santos FC [penâltis 4x3]

» Gol do Botafogo: Callebe

» Data: 20.01.2026

» Local: Arena Barueri

Nota: O Palmeiras (1x0) venceu a série Ouro e o Bragantino (1x0) venceu a série Bronze.

Fonte: www.sofascore.com

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1986: a ‘mão de Deus’, o ‘gol do século’ e a desdita de Zico

Cartaz da Copa do Mundo de 1986. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1986, realizada no México, ficou marcada sobretudo por uma figura: Diego Armando Maradona. Foi um Mundial de grande intensidade emocional, com jogos memoráveis, episódios polémicos e uma das campanhas individuais mais influentes da história do futebol.

A Copa decorreu entre 31 de maio e 29 de junho de 1986 e terminou com a vitória da Argentina, que derrotou a Alemanha Ocidental por 3x2 na final, no Estádio Azteca, na Cidade do México.

Inicialmente o Mundial de 1986 estava previsto para ser organizado pela Colômbia, mas o país desistiu por dificuldades económicas e organizativas devido à FIFA alargar a competição de 16 para 24 países. A FIFA convidou então para país organizador a América, depois o Brasil e em seguida o Canadá, mas todos recusaram. Chegou-se, então, a entendimento com o México para assumir a organização, tornando-se o primeiro país a receber duas fases finais da Copa do Mundo, depois de ter organizado a edição de 1970. E nem os terramotos de 1985 que afetaram o país impediram a sua realização.

O torneio ficou muito associado à altitude, ao calor e aos grandes estádios mexicanos, em particular o Estádio Azteca, palco de importantes confrontos futebolísticos.

A Argentina chegou ao México com uma equipa competitiva, mas não era unanimemente vista como a grande favorita, e o que tornou essa Seleção distinta das demais foi a dimensão extraordinária de Maradona, que assumiu um protagonismo quase absoluto através de desempenho estratosféricos.

Maradona foi capitão, organizador de jogo, desequilibrador e líder emocional da equipa, marcou gols decisivos (5), foi o jogador com mais assistências (5), criou o maior número de oportunidades (27) e em matéria de dribles efetuou 53, ficando apenas atrás de Garrincha, que em 1962 efetuou 62 dribles, conduzindo a Argentina ao título. A sua influência foi tão grande que o Mundial de 1986 é frequentemente descrito como “o Mundial de Maradona”, tal como o de 1962 é conhecido como “o Mundial de Garrincha”. Nem antes de Garrincha, nem depois de Maradona, apareceu um craque de tão grande dimensão numa Copa do Mundo.

A ‘mão de Deus’. Crédito: Bob Thomas | Getty Images.

O encontro das quartas de final entre Argentina e Inglaterra, disputado em 22 de junho de 1986, foi um dos jogos mais famosos da história do futebol porque tinha uma carga política e emocional particular devido à Guerra das Malvinas/Falklands (*) ocorrida entre a Argentina e o Reino Unido em 1982. A Argentina venceu por 2x1, com dois gols de Maradona completamente opostos entre si.

O primeiro ficou conhecido como a ‘Mão de Deus’. Maradona disputou a bola com o goleiro inglês Peter Shilton e fez gol com a mão. O árbitro validou o gol, apesar da infração, e o episódio tornou-se uma das maiores polêmicas da história dos Mundiais.

Apenas três minutos depois de ter enganado a equipe de arbitragem, Maradona marcou aquele que muitos consideram ‘o gol do século’: recebeu a bola ainda no meio-campo argentino, correu 68 metros em 10 segundos e após 12 toques na bola, sempre com o pé esquerdo, ultrapassou 6 jogadores ingleses e depois driblou o goleiro Peter Shilton, antes de finalizar. Foi um lance de extraordinária técnica, velocidade, equilíbrio e leitura de jogo.

Maradona reuniu, assim, dois momentos extremos do futebol: a astúcia transgressora e a genialidade pura.

O ‘gol do século’. Crédito: France Press | AFP PHOTO.

Veja aqui o ‘gol do século’: https://www.youtube.com/watch?v=RnAHSO57W_w

Razão teve Diego Maradona quando um dia disse: “Imaginem o que teria ido a minha carreira sem as drogas…”.

A Bélgica realizou uma das melhores campanhas da sua história até então, tendo crescido durante a competição, após uma fase inicial discreta e chegou às semifinais, tendo vencido antes a União Soviética nas oitavas de final num jogo espetacular que venceu por 4x3 após prolongamento e afastado a Espanha nos pênaltis nas quartas de final, afastou a Espanha nos pênaltis. Porém, nas semifinais não foi suficiente para vencer o esquadrão de Maradona, que marcou os dois gols da vitória argentina.

O jogo entre França e Brasil, nas quartas de final, foi outro momento particular da Copa da Mundo de 1986,o qual terminou empatado em 1x1 após prolongamento, e a França venceu nos pênaltis.

O Brasil ainda tinha Sócrates, Zico e Júnior do futebol criativo de 1982,embora sem o fulgor coletivo de outrora, e a França dispunha de uma geração fortíssima, liderada por Michel Platini na companhia de jogadores como Tigana, Giresse e Fernández.

O jogo foi tecnicamente rico, equilibrado e dramático, tendo Zico entrado aos 71’ e pouco depois dispôs de um pênalti a favor do Brasil. Zico teve nos pés a passagem do Brasil às quartas de final, mas o chute saiu fraco, a meia altura, e o goleiro Bats salvou a França. No desempate por pênaltis a França foi melhor e seguiu para as semifinais. Para o Brasil, foi mais uma eliminação dolorosa de uma geração admirada pelo seu futebol técnico, mas que terminou sem conquistar o Mundial.

Por seu lado, a Alemanha Ocidental tornou a evidenciar uma grande capacidade competitiva, mostrando-se muito eficaz nas fases decisivas, tendo eliminado Marrocos nos oitavos de final, México nas quartas de final, nos pênaltis, e a França nas semifinais, por 2x0 – e tal como em 1982 chegou à final cm o seu futebol físico, organizado e competitivo, contrastando com a inspiração de Maradona e a criatividade da Argentina.

A grande surpresa da competição foi Marrocos, que venceu o seu grupo deixando atrás de si Inglaterra, Polónia e Portugal e tornou-se a primeira seleção africana a passar a fase de grupos numa Copa do Mundo. Todavia, soçobrou perante a Alemanha Ocidental nos oitavos de final, por 1x0, com um gol tardio de Lothar Matthäus.

Inversamente, Portugal foi a grande desilusão no regresso a uma Copa do Mundo depois de vinte anos. A equipe qualificara-se ‘milagrosamente’ para a Copa do Mundo ao vencer a Alemanha por 1x0 e começou bem vencendo a Inglaterra por 1x0, mas o chamado ‘caso Saltillo’, designação associada à cidade mexicana onde os portugueses se concentravam, destruiu completamente a campanha em meio a conflitos entre jogadores, dirigentes e equipa técnica, relacionados com prêmios, condições de preparação, organização interna e disciplina – e Portugal terminou em último lugar no grupo após perder para a Polônia e Marrocos.

Futebol de ‘encher o olho’ foi o da Dinamarca, que entusiasmou a arquibancada com jogadores como Michael Laudrup, Preben Elkjær e Jesper Olen, vencendo os três jogos do grupo, incluindo uma expressiva vitória sobre o Uruguai por 6x1. Esperava-se, então, que a Dinamarca fosse uma Seleção seriamente candidata a prosseguir, mas nas oitavas-de-final caiu estrondosamente perante a Espanha por 5x1, com 4 gols de Emilio Butragueño – uma das maiores figuras da competição.

Outra figura importante, apesar da eliminação frente à Argentina, foi o inglês Gary Lineker, artilheiro da competição com 6 gols, tendo feito um hat-trick frente à Polónia, assim como o gol inglês na derrota com a Argentina e quase chegando a empate nos minutos finais.

Gol do artilheiro Gary Lineker contra a Argentina. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1lAO0uq6gps

A final foi disputada no dia 29 de junho de 1986, no Estádio Azteca, e a Argentina arrancou com dois gols de José Luis Brown e Jorge Valdano. Porém, a Alemanha Ocidental reagiu e empatou com gols de Karl-Heinz Rummenigge e Rudi Völler, fazendo acreditar os espectadores que a virada estaria chegando.

Ledo engano quando, pouco depois, Maradona encontrou espaço para o passe decisivo dirigido a Jorge Burruchaga que estufou as redes alemãs e decretou o segundo título mundial da Argentina.

Em resumo, foi a Copa do Mundo que consagrou Diego Maradona ao mais alto nível, com a sua ‘Mão de Deus’ e o seu ‘gol do século’; conheceu a afirmação de Marrocos e a queda de Portugal com o ‘caso Saltillo’; viu desfilar o futebol atrativo da Dinamarca e a grande surpresa da Bélgica chegada às semifinais; e ainda a ‘zica’ de Zico frente à França e a resiliente Seleção Alemã disputando a segunda final seguida.

Talento e polémica, beleza e pragmatismo, foram ingredientes de uma das mais históricas Copas do Mundo de futebol.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Argentina 3x2 Alemanha Ocidental

» Gols: José Luis Brown, aos 23’, Jorge Valdano, aos 56’, e Jorge Burruchaga, aos 84’ (Argentina); Karl-Heinz Rummenigge, aos 74’, e Rudi Völler, aos 81’ (Alemanha Ocidental)

» Data: 29 de junho de 1986

» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)

» Público: 114.600 espectadores

» Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil)

» Disciplina: cartão amarelo – Diego Maradona, Julio Olarticoechea, Héctor Enrique e Nery Pumpido (Argentina) e Lothar Matthäus e Hans-Peter Briegel (Alemanha Ocidental)

» Argentina: Nery Pumpido; José Luis Brown, Oscar Ruggeri e José Cuciuffo; Ricardo Giusti, Sergio Batista, Héctor Henrique, Diego Maradona e Julio Olarticoechea; Jorge Burruchaga (Marcelo Trobianni) e Jorge Valdano. Técnico: Carlos Bilardo.

» Alemanha Ocidental: Harald Schumacher; Thomas Berthold; Norbert Eder, Ditmar Jakobs, Karl-Heinz Förster e Hans-Peter Briegel; Lothar Matthäus, Andreas Brehme e Felix Magath (Dieter Hoeness); Karl-Heinz Rummenigge e Klaus Allofs (Rudi Völler). Técnico: Franz Beckenbauer.

(*) A Guerra das Malvinas/Falklands foi um conflito armado de 74 dias que opôs a Argentina e o Reino Unido, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, tendo começado quando a ditadura militar argentina invadiu as ilhas. O arquipélago é alvo de reivindicações históricas, considerado pela Argentina extensão do seu território herdado da colonização espanhola, enquanto os britânicos possuem a administração efetiva desde 1883. À época a junta militar argentina, liderada por Leopoldo Galtieri, enfrentava uma forte rejeição interna associada a uma grave crise econômica e usou a invasão, respaldada pela disputa histórica, como estratégia nacionalista para desviar a atenção dos problemas do país e unir a população. Porém, Margaret Tatcher enviou uma poderosa força naval, aérea e terrestre ao Atlântico Sul e as tropas britânicas retomaram a capital Port Stanley levando à rendição argentina ao 74º dia do conflito e mantiveram o território sob sua administração.

Fontes principais: businessreport.co.za; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.youtube.com.

Copa do Mundo de 1990: bis de Beckenbauer, heroísmo de Schillaci e Milla, lágrimas de Gascoigne e apelo emocional de Maradona

Cartaz da Copa do Mundo de 1990. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo de 1990, realizada em Itá...