quarta-feira, 8 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2014: colapso brasileiro e espanhol, maturidade alemã, recorde de Klose, brilho de Navas, dentada de Suárez e tecnologia na linha da meta

Cartaz da Copa do Mundo de 2014. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil, teve festa, tensão social, grandes jogos, colapsos inesperados, afirmações individuais e uma das derrotas mais traumáticas da história do futebol.

O Brasil é o país mais associado à história dos Mundiais: cinco títulos, Pelé, Garrincha, Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Maracanã, futebol de rua, identidade nacional. Porém, o país vivia forte tensão social e política na medida que em 2013 grandes manifestações tinham contestado os custos da organização da Copa, os investimentos em estádios, a qualidade dos serviços públicos, a corrupção e as prioridades do Estado.

Assim, a Copa de 2014 teve uma ambivalência clara: por um lado, celebração mundial do futebol num país apaixonado pela modalidade; por outro, desconforto social com o contraste entre espetáculo global e desigualdades internas.

Antes do Mundial havia a sombra histórica do Maracanazo de 1950, quando o Brasil perdeu a final do Mundial para o Uruguai, no Maracanã. Em 2014, muitos brasileiros viam a Copa dentro de portas como oportunidade de reparar simbolicamente essa ferida histórica, vencendo no Brasil, apagando 1950 e reconquistando o mundo.

Porém, o que aconteceu foi ainda mais traumático, porque em vez da reparação simbólica, surgiu uma nova ferida: a derrota por 7x1 contra a Alemanha, a qual ficou conhecida como ‘Mineirazo’.

A seleção de Scolari não era vista como uma das seleções brasileiras mais brilhantes da história, mas jogava em casa e tinha Neymar como grande figura que carregava o peso emocional da equipe e do país. Era o jogador mais criativo, desequilibrador e mediático, e o Brasil dependia muito da sua inspiração.

Neymar marcou gols importantes e assumiu o papel de protagonista, mas essa dependência tornar-se-ia dramática com a sua lesão nas quartas de final contra a Colômbia. O Brasil venceu por 2x1, mas saiu do jogo profundamente ferido.

Contra o Brasil Miroslav Klose bate recorde de gols em Copas. Fonte: Facebook.

Neymar sofreu uma fratura numa vértebra após uma entrada de Juan Camilo Zúñiga. Além disso, Thiago Silva, capitão e líder defensivo, recebeu cartão amarelo e ficou suspenso para a semifinal contra a Alemanha.

O Brasil perdeu, de uma só vez, o seu principal jogador ofensivo e o seu principal líder defensivo, ficando a equipe emocionalmente desprotegida antes do jogo mais difícil.

E, como consequência, o acontecimento central da Copa de 2014 antes da final foi a semifinal em que o Brasil foi estrondosamente goleado por 7x1 pela Alemanha, no Mineirão, em Belo Horizonte, numa derrota sem precedentes pela dimensão, pelo contexto e pelo impacto emocional – em menos de 30 minutos de jogo o Brasil já perdia por 5x0 e a Alemanha deu-se ao luxo de aliviar o pé do acelerador.

O 7x1 tornou-se mais do que um resultado: tornou-se expressão cultural, metáfora nacional e trauma coletivo, passando a significar o colapso de um projeto.

A Inglaterra caiu na fase de grupos, num grupo difícil com Itália, Uruguai e Costa Rica. Apesar de ter alguns jovens promissores, como Sterling, a Seleção inglesa mostrou fragilidades e saiu cedo, evidenciando, uma vez mais, a longa distância entre a Premier League, muito forte comercialmente, e os resultados da Seleção em Mundiais.

A Espanha, que era campeã mundial e bicampeã europeia, dominou o futebol internacional entre 2008 e 2012, mas contra os Países Baixos foi goleada por 5x1, com destaque para o gol de cabeça de Robin van Persie, num mergulho espetacular. Foi o fim do ciclo espanhol, cuja Seleção do ‘tiki-taka’, que parecera quase invencível, surgiu vulnerável, desgastada e previsível, sendo eliminada ainda na fase de grupos.

A Bósnia-Herzegovina estreou-se em Mundiais em 2014 e teve um simbolismo interessante, dada a história recente do país e a sua construção nacional pós-guerra. Embora não tenha passado da fase de grupos, a participação representou afirmação desportiva e identitária.

O Chile, treinado por Jorge Sampaoli, fez uma prova intensa, agressiva e muito competitiva. Nas oitavas de final, esteve muito perto de eliminar o Brasil, pois no último minuto da prorrogação Maurício Pinilla rematou à trave, num lance que poderia ter eliminado o anfitrião – perdendo apenas nos pênaltis.

Van Persie faz gol de peixinho na goleada contra a Espanha. Fonte: Reuters.

O México fez uma boa campanha, mas foi eliminado pelos Países Baixos nas oitavas de final, tendo o jogo sido marcado por uma grande penalidade assinalada sobre Robben nos minutos finais, cuja conversão de Huntelaar classificou os Países Baixos. No México, a frase “No era penal” tornou-se símbolo de frustração nacional e de contestação à decisão arbitral.

A Argélia fez um dos seus melhores Mundiais e deu enorme trabalho à Alemanha nas oitavas de final, que só conseguiu vencer na prorrogação perante um adversário corajoso, veloz e organizado, expondo fragilidades alemãs que foram corrigidas nos jogos seguintes.

Os americanos, treinados por Jürgen Klinsmann, chegaram às oitavas de final e foram eliminados pelos belgas após prorrogação. O goleiro Tim Howard fez uma exibição extraordinária e tornou-se herói mediático e símbolo da crescente popularidade do futebol na América.

A Bélgica chegou ao Mundial com uma geração muito promissora: Hazard, De Bruyne, Lukaku, Courtois, Kompany, Witsel, Fellaini, Vertonghen e Alderweireld. Chegou às quartas de final, onde perdeu com a Argentina, tendo amadurecido na Copa seguinte, em 2014, e confirmado a emergência da chamada ‘geração dourada’ belga.

Os colombianos concretizaram um bom Mundial, que viu em James Rodríguez a grande revelação individual da Copa. Na ausência de Falcão, lesionado antes do torneio, James assumiu o protagonismo, marcou em todos os jogos que disputou e terminou como artilheiro do Mundial, com seis gols. Contra o Uruguai fez um elegante gol: controlou a bola no peito e rematou de primeira, de fora da área, com a bola a bater na trave e a entrar.

James foi o selo de qualidade da Colômbia, uma das seleções mais cativantes do torneio, jogando com intensidade, talento e alegria. Chegou às quartas de final, o melhor resultado de sempre, e aí foi eliminada pelo Brasil, mas revelou-se uma Seleção vibrante técnica e emocionalmente.

Keylor Navas, goleiro sensação da surpreendente Costa Rica. Fonte: Damir Sagolj | Reuters.

A Costa Rica foi a grande surpresa da Copa, terminando invicta com 2 vitórias e 3 empates. Num grupo com Uruguai, Itália e Inglaterra, previa-se a sua eliminação, mas os costa-riquenhos venceram o Uruguai e a Itália e empataram com a Inglaterra, terminando em 1º lugar. Depois eliminaram a Grécia nos pênaltis e só caíram nas quartas de final contra os Países Baixos, também nos pênaltis.

Keylor Navas esteve em grande destaque como uma das grandes figuras da competição. As suas defesas foram decisivas para a campanha histórica da Costa Rica e pouco tempo depois chegaria ao Real Madrid para acumular grandes títulos.

Os Países Baixos fizeram uma campanha muito boa, orientados por Louis van Gaal e contando com Robben, van Persie, Sneijder, Kuyt, de Vrij, Vlaar, Blind e Depay. A Seleção começou com uma goleada histórica sobre a Espanha por 5x1, vingando a final perdida em 2010. Foi uma equipe muito pragmática, alternando sistemas e explorando a velocidade de Robben, chegou às semifinais e terminou em terceiro lugar, após vencer o Brasil por 3x0.

A Argentina conseguiu chegar à final, mas Messi, figura central da equipe, não foi tão brilhante como muitos esperavam. Na fase de grupos foi decisivo, com gols importantes contra Bósnia, Irão e Nigéria. Acabou conquistando injustamente a Bola de Ouro, uma clara ‘oferta’ da FIFA para um craque que decepcionou e cuja imagem que ficou foi a sua passagem junto à Taça do Mundo, sem a levantar.

A Argentina não foi uma equipe exuberante. Ao contrário do que se poderia esperar de uma seleção com Messi, Higuaín, Agüero, Di María e Lavezzi, tornou-se uma equipe de grande contenção, disciplina e sofrimento.

Nas fases a eliminar, venceu a Suíça na prorrogação, a Bélgica por margem mínima e os Países Baixos nos pênaltis. Foi uma Argentina de resistência, mais do que de espetáculo.

Na semifinal contra os Países Baixos, Mascherano tornou-se símbolo da alma argentina. Fez cortes decisivos, liderou emocionalmente a equipe e terá dito ao goleiro Sergio Romero, antes dos pênaltis: “Hoje viras herói.”

Tecnologia de linha da meta. Fonte: Agência RBS.

Romero defendeu pênaltis e a Argentina passou à final. Mascherano representou a dimensão sacrificial da Argentina: menos brilho ofensivo, mais entrega, concentração e resistência.

A Alemanha campeã de 2014 foi o resultado de um processo longo de maturação desde a renovação iniciada após o ano 2000. Tinha jogadores como Neuer, Lahm, Hummels, Boateng, Schweinsteiger, Khedira, Kroos, Özil, Klose, Götze e Schürrle.

Era uma equipe com organização, capacidade técnica, disciplina tática, transições fortes e experiência. A vitória em terras brasileiras teve ainda uma carga simbólica adicional: a Alemanha tornou-se a primeira seleção europeia a vencer um Mundial disputado na América do Sul.

Na semifinal contra o Brasil, Klose marcou e tornou-se o maior artilheiro da história dos Mundiais, ultrapassando Ronaldo Nazário e aumentando a dimensão simbólica por ocorrer em solo brasileiro. Sem ser o jogador mais exuberante da sua geração, Klose representou a persistência, a eficácia e a longevidade competitiva.

A final foi disputada no Maracanã, entre Alemanha e Argentina e terminou com a vitória alemã por 1x0, após prorrogação.

A Argentina teve oportunidades claras, sobretudo por Higuaín, Messi e Palacio, mas não conseguiu marcar. A Alemanha foi mais paciente e acabou por decidir com um gol de Mario Götze, após cruzamento de Schürrle.

A imagem de Götze a dominar a bola no peito e a rematar de pé esquerdo tornou-se a fotografia decisiva do título alemão. Götze entrou durante o jogo e marcou o gol mais importante da sua carreira.

Aquela que foi, talvez, a maior peripécia da Copa ocorreu com a dentada de Luis Suárez em Giorgia Chiellini, no jogo entre Uruguai e Itália. Suárez envolvera-se antes em episódios semelhantes na carreira e essa dentada gerou enorme polêmica mundial. Foi suspenso pela FIFA e afastado do resto da competição, marcando profundamente a imagem do Uruguai e reforçando a ambiguidade de Suárez: jogador competitivo e decisivo, mas também associado a comportamentos inaceitáveis.

Suárez morde o ombro do italiano Chiellini. Fonte: www1.folha.uol.com.br.

Em matéria de regras houve inovações na tecnologia da linha da meta e o uso da espuma na composição das barreiras. A introdução da tecnologia marcou uma nova fase na arbitragem internacional, sobretudo após erros históricos em Mundiais anteriores, e abriu caminho futuro para a introdução do VAR.

O uso da espuma, parecendo um detalhe menor, tornou-se importante para marcar a posição da bola e da barreira na cobrança de faltas, sendo rapidamente incorporada mundialmente.

Em suma, foi a Copa do colapso emocional e competitivo do Brasil e da maturidade plena da Alemanha, do fim do ciclo espanhol e da afirmação de novas narrativas vindas da América Latina, da consagração de James Rodríguez e do sofrimento argentino até à final, da dentada de Luis Suárez e da consolidação do futebol como espetáculo planetário.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha 1x0 Argentina

» Gols: Mario Götze, aos 112’

» Data: 13 de julho de 2014

» Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (Brasil)

» Público: 74.738 espectadores

» Árbitro: Nicola Rizzoli (Itália); Assistentes: Renato Faverini (Itália) e Andrea Stefani (Itália)

» Disciplina: cartão amarelo – Schweinsteiger e Howedes (Alemanha) e Mascherano e Aguera (Argentina)

» Alemanha: Manuel Neuer; Lahm, Boateng, Hummels e Howedes; Schweinsteiger e Kramer (Schürrle); Müller, Kroos e Özil (Mertesacker); Klose (Mario Götze). Técnico: Joachim Low.

» Argentina: Romero; Zabaleta, Demichelis, Garay e Rojo; Mascherano, Biglia, Enzo Pérez (Gago) e Messi; Lavezzi (Aguero) e Higuaín (Palacio). Técnico: Alejandro Sabella.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www1.folha.uol.com.br; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.

terça-feira, 7 de julho de 2026

De Garrinsha a Jairson, Jairzinho e Josimar

Garrinsha, Jairzinho e Josimar 'Vozinha' | Montagem Mundo Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Garrinsha Estinphile nasceu no Haiti e o seu nome próprio é uma homenagem a Garrincha, o maior ídolo do Botafogo de Futebol e Regatas, porque opai sempre torceu pela Seleção Brasileira e, vendo os vídeos de Garrincha, tornou-se fã do ‘Alegria do Povo’ – bicampeão mundial, Bola de Ouro na Copa do Mundo de 1962 e ponta-direita da Seleção FIFA do Século XX.

Garrinsha acabou ingressando no projeto social e desportivo de raízes haitianas em 2016 (no Haiti), mudando-se para o Brasil em 2019, tendo uma forte ligação ao Rio de Janeiro. Atualmente é atacante da Academia Pérolas Negras e tem sido alvo de empréstimos estruturados para ganhar experiência em diferentes divisões regionais.

Estreou-se na equipe de Pérolas Negras e foi sucessivamente emprestado ao São Bernardo (SP), Penopolense (SP), Comercial (SP) e Aymorés (MG). Regressou ao Rio de Janeiro e integrou o Sampaio Corrêa e depois o Petrópolis, até que chegou ao Bangu no início de 2026, clube pelo qual disputou a 1ª divisão do campeonato carioca e na estreia marcou um gol espetacular que valeu a vitória sobre o Flamengo por 2x1.

Findo o campeonato carioca foi novamente emprestado ao Joinville (SC) e ao Marcílio Dias (SC).

Jairson é uma história semelhante à de Garrinsha no que respeita a homenagear um dos mais famosos futebolistas do Botafogo de Futebol e Regatas. Em São Tomé e Príncipe, no âmbito de um estudo internacional, reuni-me com um diretor de hotel que entendi chamar-se Jaílson, mas quando houve troca de cartões de visita descobri que o meu interlocutor se chamava ‘Jairson’.

Comentei, espontaneamente, que nunca conhecera um ‘Jairson’ e que era um nome bem original, acrescentando que o nome mais próximo que eu conhecia era ‘Jair’, lembrando-me, claro, do ‘Furação’ Jairzinho.

Então, o meu interlocutor explicou-me que sendo o pai apaixonado pelo futebol brasileiro e pela campanha da Copa do Mundo de 1970, decidiu batizar o seu filho juntando o nome Jair do Glorioso futebolista à expressão ‘son’ (filho em inglês). Portanto, Jairson, seu filho, em honra do famoso sucessor de Garrincha com a Camisa 7.

Algo semelhante terá ocorrido com Jairzinho Rozenstruik, kickboxer surinamês e lutador de artes marciais (MMA), que atualmente compete na categoria peso-pesado do UFC (Ultimate Fighting Championship), tendo sido campeão mundial.

O seu nome Jairzinho advém diretamente do campeão mundial Jairzinho, sendo uma homenagem ao formidável futebolista botafoguense.

‘Vozinha’, na verdade Josimar José Évora Dias, de seu nome completo, é a mais recente descoberta da mídia mundial após a Seleção de Cabo Verde ter imposto um empate por 0x0 à Espanha no Mundial de 2026, tendo Vozinha, goleiro cabo-verdiano de 40 anos de idade, sido o responsável principal por manter as suas redes invioláveis.

Vozinha foi criado pelos avós e o seu apelido surgiu na infância porque os amigos o mandavam “chorar com a avó” quando reclamava muito ou chorava durante as peladas. Porém, o seu nome próprio advém de Josimar Higino Pereira, lateral botafoguense, que se destacou pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1986, quando marcou dois gols espetaculares contra a Irlanda do Norte e a Polônia, pelo que o seu pai, Zé Pedro, o batizou como Josimar em homenagem ao grande lateral direito do Botafogo de Futebol e Regatas.

Durante a carreira Vozinha passou por Cabo Verde, Angola, Moldávia, Portugal, Chipre, Eslováquia e novamente Portugal, onde atua atualmente no Desportivo de Chaves. Após tornar-se viral com as fantásticas defesas contra a Espanha, Vozinha / Josimar passou de cinquenta mil para vários milhões de seguidores nas redes sociais.

Ah!... Onipresente Botafogo da Estrela Solitária!

Robson Marfa vence 2ª etapa de Sectorball

Robson Marfa, Leonardo Panza, Claudio Pinho e Hércules Oliveira. Crédito: FEFUMERJ

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo | Adaptado de CLAUDIO PINHO, Fefumerj

Robson Marfa, representando o Botafogo, conquistou a 2ª Etapa do Campeonato Estadual de Sectorball, organizado pela Federação de Futebol de Mesa do Estado do Rio de Janeiro (FEFUMERJ), que decorreu no Departamento de Futebol de Mesa do Olaria Atlético Clube, no dia 20 de junho de 2026.

Robson Marfa venceu Marcelo Coutinho (Bangu AC) por 1x0 nas quartas de final, superou Hércules Oliveira (Olaria AC) no shoot-out nas semifinais e sagrou-se campeão Contra Leonardo Panza (Olaria AC) por 1x0 na final.

Robson Marfa lidera a classificação geral e a última etapa realiza-se a 22 de agosto. O Pódio da etapa ficou assim ordenado:

1º Robson Marfa (Botafogo FR)

2º Leonardo Panza (Olaria AC)

3º Claudio Pinho (Grajaú TC)

4º Hércules Oliveira (Olaria AC)

Fonte: FEFUMERJ.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2010: festa Sul-africana, cavadinha de Loco Abreu, título espanhol e fatalismo neerlandês

Cartaz da Copa do Mundo de 2010. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2010, disputada na África do Sul, foi uma das mais simbólicas da história dos Mundiais, que pela primeira vez se realizou em solo Africano e finalmente consagrou a Espanha: o palco deste Mundial representou a expansão global do futebol aos quatro continentes e o vencedor representou o triunfo de uma ideia coletiva de jogo, paciente, técnica e sustentada.

A África do Sul recebeu a Copa como um momento de afirmação nacional e continental num país ainda marcado pela memória do apartheid e pela enorme figura política de Nelson Mandela, numa competição que teve uma dimensão que ultrapassou o futebol. Foi uma oportunidade de mostrar ao mundo uma África do Sul moderna, capaz de organizar um grande evento internacional e de celebrar a diversidade cultural do país. Toda a Copa ficou muito associado à ideia de festa popular, cor, música, dança e orgulho africano. Mesmo com críticas a alguns aspetos organizativos e sociais, o Mundial de 2010 teve um significado histórico profundo: pela primeira vez, África era palco central do futebol mundial.

Nelson Mandela foi a presença simbólica permanente, mesmo sem estar fisicamente muito presente durante a competição. A sua ligação ao desporto como instrumento de reconciliação nacional já vinha do Mundial de râguebi de 1995.

No Mundial de futebol de 2010, Mandela representava a história recente da África do Sul matizada de sofrimento, resistência, reconciliação e projeção internacional. A sua aparição antes da final, ainda que breve, teve enorme carga emocional, consolidando o desporto como linguagem comum num país complexo e desigual.

Porém, do que mais se lembram os espectadores internacionais é do som constante das vuvuzelas, as quais se tornaram a banda sonora da competição, que para muitos constituía um ruído excessivo, repetitivo e perturbador, enquanto para os torcedores sul-africanos as vuvuzelas eram expressão cultural, festa e participação popular, tornando-se símbolo perfeito daquele Mundial e sendo ao mesmo tempo autêntica, local e inesquecível.

Jabulani, a bola mais famosa de todas as Copas do Mundo. Crédito: Divulgação | Adidas.

A bola oficial, a Jabulani, também foi uma das grandes protagonistas do Mundial, que vários jogadores e goleiros criticaram pelo seu comportamento, considerando-a demasiado imprevisível, sobretudo nos remates de longe e nas trajetórias aéreas. A designação da bola significa algo próximo de “celebrar”, em idioma zulu, e tinha intenção festiva, mas acabou associada a polêmica técnica, embora tenha sido uma das bolas mais famosas da história das Copas.

Não obstante, a África do Sul tornou-se a primeira seleção anfitriã a ser eliminada na fase de grupos, embora tenha tido um momento simbólico no jogo inaugural em que Sophiwe Tshabalala marcou um grande gol contra o México, o qual foi acompanhado por uma celebração coletiva que ficou como uma das imagens mais bonitas da competição.

No entanto, a eliminação não diminuiu o orgulho nacional, porque o significado do Mundial para o país, pacificado por Nelson Mandela, ia muito além do resultado desportivo.

A França viveu um dos maiores colapsos internos da história dos Mundiais. A equipe já estava fragilizada desde a fase de qualificação e na África do Sul tudo se desmoronou, entre maus resultados, conflito de jogadores com a equipe técnica e até greve dos jogadores a um treino.

A França foi eliminada na fase de grupos, num ambiente de ‘escândalo’ nacional de país campeão em 1998 e finalista em 2006, mostrando divisão, indisciplina e perda de autoridade.

A Itália, campeã mundial em 2006, também caiu na fase de grupos: empatou com o Paraguai e a Nova Zelândia e perdeu com a Eslováquia em uma eliminação surpreendente e humilhante para uma seleção historicamente competitiva – e reforçando uma das marcas da Copa de 2010 com vários antigos campeões e favoritos chegando desgastados, envelhecidos ou sem renovação suficiente.

As vuvuzelas e a grande celebração Sul-africana. Fonte: www.threads.com.

O Brasil, treinado por Dunga, chegou ao Mundial com uma equipe mais pragmática do que exuberante (Kaká, Robinho, Luís Fabian, Maicon, Daniel Alves, Lúcio, Juan, Júlio César e Felipe Melo).

A equipe parecia forte e competitiva, mas caiu de virada nas quartas de final contra os Países Baixos. Felipe Melo foi expulso e tornou-se símbolo da desintegração emocional brasileira naquele jogo, a qual mostrou a tensão existente entre pragmatismo e identidade estética no futebol brasileiro.

O Gana foi a grande esperança africana do torneio depois da eliminação precoce da África do Sul e de outras seleções africanas, tendo atletas como Asamoah Gyan, Kevin-Prince Boateng, André Ayew, Sulley Muntari e John Mensah. Chegar às quartas de final já era histórico, mas o modo como a eliminação aconteceu tornou tudo mais dramático.

No último minuto da prorrogação, com o jogo empatado, Luiz Suárez impediu com a mão, sobre a linha de gol, um remate que daria provavelmente a vitória ao Gana e foi expulso.

Suárez faz pênalti em cima da linha e salva o Uruguai da eliminação, reacendendo a discussão moral versus resultado. Crédito: Reuter | Kaipfaffenbach.

O Gana teve a seu favor a grande penalidade para fazer história e tornar-se a primeira seleção africana a chegar às semifinais de um Mundial. Porém, Asanoah Gyan acertou na trave, o jogo foi para pênaltis e o Uruguai venceu.

O episódio da infração de Suárez é uma das grandes questões morais do futebol: infringiu deliberadamente a regra, foi punido com expulsão e pênalti, mas a sua ação salvou a equipe. Para os uruguaios, foi sacrifício competitivo; para muitos africanos e observadores neutros, foi uma injustiça cruel.

Com isso o Uruguai fez uma campanha notável, chegando às semifinais pela primeira vez em décadas. A grande figura foi Diego Forlán, que simbolizou o renascimento do Uruguai no palco mundial, marcando gols importantes e jogando um futebol de grande qualidade técnica e de inteligência, tendo sido eleito Bola de Ouro da Copa.

No entanto vale salientar, ainda, a peripécia da última e decisiva cobrança de pênaltis do Uruguai, que coube ao botafoguense Loco Abreu, o qual assumia um papel de veterania na sua equipe e entrou em campo na reta final de partidas importantes, e foi assim que ficou consagrado no Mundial de 2010 depois de ter conquistado o Campeonato Carioca pelo Botafogo batendo um pênalti de ‘cavadinha’ e decidindo o título.

O mundo não soubera dessa Gloriosa ‘cavadinha’ e Loco Abreu repetiu-a no lance decisivo para a classificação do Uruguai às semifinais: ousado e reverente como sempre, Loco Abreu caminhou tranquilamente até à marca dos 11 metros, bateu a ‘cavadinha’ pelo alto ao centro da baliza, enquanto o goleiro pulou para o lado – e Loco Abreu alcançou a consagração absoluta!

Lugano, o goleiro uruguaio, que conhecia bem Loco Abreu, temeu que o craque repetisse a sua famosa ‘cavadinha’ e comentou mais tarde: – “Não queríamos acreditar que ele fosse jogar todo o prestígio da vida dele, da história, e o nosso, arriscando uma cavadinha, não é?”

Mas aquele era o verdadeiro Loco Abreu, ousado, corajoso, imprevisível e sabendo com clareza que são os audazes aqueles que forjam as grandes conquistas.

Loco Abreu, soberbo de audácia na cobrança do pênalti. Crédito: Cameron Spencer | Getty Images.

A Alemanha foi uma das equipes mais entusiasmantes do torneio. Tinha uma geração jovem e dinâmica, como Müller, Özil, Khedira, Schweinsteiger, Lahm, Neuer, Podolski e Klose.

Nas oitavas de final a Alemanha goleou a Inglaterra por 4x1, mas o jogo ficou marcado por um erro clamoroso de arbitragem. Com o resultado favorável aos alemães, Frank Lampard rematou à trave, a bola entrou claramente na baliza, mas o árbitro não validou o gol, reacendendo o debate sobre a necessidade de tecnologia na linha de gol.

Simbolicamente foi a inversão histórica do gol de Geoff Hurst na final de 1966 entre Inglaterra e Alemanha, que bateu na trave, não entrou na baliza e foi validado.

Embora a Alemanha tenha perdido depois com a Espanha nas semifinais, o seu futebol de transições rápidas, organização e eficácia ofensiva prenunciava a vitória que obteve na final do Mundial seguinte, em 2014.

A Argentina, que tinha jogadores como Messi, Tévez, Higuaín, Di María, Mascherando e Verón, começou bem a Copa, com entusiasmo e carisma, treinada por Diego Maradona, o que por si só constituía uma carga simbólica enorme.

Porém, a equipe foi goleada pela Alemanha por 4x0 nas quartas de final, evidenciando a fragilidade tática da equipe. Maradona, figura mítica como jogador, não conseguiu transformar o talento argentino num projeto coletivo suficientemente equilibrado.

Mesmo Lionel Messi, que já era uma grande figura do mundo do futebol, terminou a competição sem um único gol marcado, não tendo influência decisiva e não reproduzindo na Seleção argentina o poder que tinha no Barcelona.

A equipe espanhola conquistou o seu primeiro título mundial, vinda da conquista da Eurocopa em 2008, com uma geração fantástica composta por Casillas, Puyol, Piqué, Sergio Ramos, Xabi Alonso Busquets, Xavi, Iniesta, David Villa, Fernando Torres, e Fàbregas, entre outros.

Decisiva defesa de Casillas na final da Copa do Mundo. Crédito: AFP.

A sua identidade assentava na posse de bola, circulação curta, paciência, pressão após perda e capacidade de desgastar o adversário. Esse estilo ficou associado ao ‘tiki-taka’, através do qual a Espanha usava a posse como modo de controlar riscos, organizar a equipe e limitar o adversário.

Curiosamente, na fase de grupo, a Espanha foi derrotada pela Suíça por 1x0, constituindo um choque para os espanhóis cuja Seleção era considerada uma das favoritas. Porém, a equipe ajustou-se emocionalmente e competitivamente acabando por conquistar o título.

Nas oitavas de final a Espanha eliminou Portugal por 1x0, com gol de David Villa. Portugal tinha uma equipe defensivamente sólida, mas com dificuldades ofensivas. Cristiano Ronaldo ainda estufou as redes, mas, tal como Messi, não foi decisivo para superar as dificuldades da equipe.

Nas quartas de final a Espanha esteve perto de cair, mas venceu o Paraguai por 1x0, sofrendo muito. O jogo teve uma sequência dramática de pênaltis: o Paraguai falhou, depois a Espanha também teve um pênalti defendido. Mais tarde, David Villa marcou o gol decisivo.

David Villa marcou gols decisivos contra Honduras, Chile, Portugal e Paraguai, numa competição em que a Espanha venceu vários jogos por margem mínima e Villa foi essencial.

Na semifinal a Espanha venceu a Alemanha por 1x0, com gol de cabeça de Puyol, após escanteio. Conhecida pelo jogo curto e técnico, a Espanha decidiu a semifinal com um gol de zagueiro num lance de bola parada. Puyol representava liderança, agressividade competitiva e compromisso coletivo e o seu gol abriu a porta à primeira final mundial da Espanha.

Iniesta remata para o título aos 116’. Crédito: Ivo Gonzales | Agência O Globo

Na final contra os Países Baixos, um dos momentos decisivos foi a defesa de Iker Casillas a Arjen Robben. Robben apareceu isolado, com uma oportunidade clara para marcar, mas Casillas conseguiu desviar a bola com o pé e manteve o jogo empatado. Essa imagem ficou como uma das grandes fotografias invisíveis do título: antes do gol de Iniesta, houve a intervenção decisiva de Casillas.

Os Países Baixos chegavam à sua terceira final mundial, depois das derrotas de 1974 e 1978. Procuravam finalmente conquistar o título que escapara à geração do ‘futebol total’. Porém, a final foi tensa, dura e muito física. A entrada de Nigel de Jong sobre Xabi Alonso, com o pé no peito, tornou-se uma das imagens mais fortes do jogo e os Países Baixos foram muito criticados pela agressividade.

A Espanha resistiu, manteve a sua identidade e acabou por vencer na prorrogação, com gol de Andrés Iniesta aos 116 minutos, constituindo o momento clímax da Copa: Iniesta despiu a camisa e mostrou uma mensagem em homenagem a Dani Jarque, antigo capitão do Espanyol, falecido em 2009.

Esse gesto deu ao gol uma dimensão humana e emocional. Não foi apenas o gol do título mundial espanhol; foi também um momento de memória, amizade e respeito. Iniesta, discreto, técnico e elegante, tornou-se o símbolo perfeito daquela Espanha: talento sem exuberância excessiva, inteligência, serenidade e decisão no momento crítico.

Os Países Baixos fizeram uma campanha forte, vencendo todos os jogos até à final, tendo jogadores como Sneijder, Robben, Van Persie, Kuyt, Van Bommel, De Jong e Stekelenburg. Porém, a imagem final foi ambígua, contrariando o futebol criativo historicamente associado ao país e ficando na memória uma equipe mais física, pragmática e, em alguns momentos, demasiado dura.

O Polvo Paul determinando a vitória da Espanha sobre a Alemanha. Crédito: The Irish Sun.

A derrota reforçou uma das maiores simbologias que perduram até hoje no futebol mundial: é o país de grandes equipes como a ‘Laranja Mecânica’, de magníficos jogadores como Cruyjff e Sneijder e de finais perdidas.

Uma das peripécias mais curiosas da Copa de 2010 foi o polvo Paul, o qual ficou famoso por ‘prever’ corretamente vários resultados, sobretudo os jogos da Alemanha. Antes dos jogos eram colocadas duas caixas com comida e bandeiras das seleções. O polvo escolhia uma delas, e essa escolha era interpretada como previsão. Embora evidentemente sem valor científico, o polvo Paul simbolizou o lado lúdico, supersticioso e pop da Copa do Mundo.

Em suma, foi o primeiro Mundial realizado em África, marcou o primeiro título da Espanha na competição, consagrou a geração do ‘tiki-taka’, ficou associada ao som das vuvuzelas, à bola Jabulani, ao polvo Paul, ao drama do Gana contra o Uruguai, à queda precoce de várias potências e à imagem inesquecível de Iniesta a marcar o gol do título na final contra os Países Baixos.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Espanha 1x0 Países Baixos

» Gols: Iniesta, aos 116’

» Data: 11 de julho de 2010

» Local: Estádio Soccer City, Joanesburgo (África do Sul)

» Público: 84.490

» Árbitro: Howard Webb (Inglaterra)

» Disciplina: cartão amarelo – Puyol, Sergio Ramos, Capdevila, Iniesta e Xavi (Espanha) e van Persie, van Bommel, de Jong, van Bronckhorst, Heitinga, Robben, van der Wiel e Mathijsen (Países Baixos); cartão vermelho – Heitinga (Países Baixos)

» Espanha: Iker Casillas; Sergio Ramos, Gerard Piqué, Carles Puyol e Joan Capdevila; Sergio Busquets, Xabi Alonso (Fàbregas), Xavi e Iniesta; Pedro (Jesús Navas) e David Villa (Fernando Torres). Técnico: Vicente del Bosque.

» Países Baixos: Maarten Stekelenburg; Gregory van der Wiel, John Heitinga, Joris Mathijsen e Giovanni van Bronckhorst (Braafheid); Mark van Bommel, Nigel de Jong (Van der Vaart) e Wesley Sneijder; Arjen Tobben, Dirk Kuyt (Elia) e Robin van Persie. Técnico: Bert van Marwijk.

Fontes principais: en.wikipedia.org; football-italia.net; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.

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