sábado, 22 de agosto de 2026

A vida torta de Mané Garrincha – I parte (1972)

Geraldo Mayrink (Facebook Geraldo Mayrink) & Garrincha (@ Dedoc Abril)

[Breve nota biográfica de Geraldo Mayrink: Geraldo Mayrink nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1942, foi jornalista, crítico de cinema, professor de técnica de redação na Universidade São Marcos, em São Paulo, e um dos grandes textos da imprensa brasileira. Começou a carreira em 1960 e ao longo de cinco décadas passou pelas principais publicações do país, como Binômio, Diário de Minas, O Globo, Jornal do Brasil, Manchete, Veja, IstoÉ, Playboy, Afinal, Correio Braziliense, Revista Goodyear, Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Época e Diário do Comércio. Tem uma dezena de artigos publicados, entre eles, “Juscelino” (biografia), Editora Nova Cultural, 1988; ”Memorando” (teatro, coautoria com Fenando Moreira Salles), Companhia das Letras, 1993; e “Escuridão ao Meio-dia” (ensaios), Editora Record, 2005. Faleceu em 2009, em São Paulo, aos 67 anos.]

A VIDA TORTA DE MANÉ GARRINCHA

por GERALDO MAYRINK, escrito e publicado em 1972 na revista Veja.

«Nenhum jogador brasileiro, salvo Pelé, mereceu mais o paraíso do que ele. Nenhum craque de sua categoria, especialmente Pelé, chegou tão perto do inferno.

Suas pernas formavam um arco. A esquerda, em que a deformação era mais notável, tinha seis centímetros mais que a outra. Já era um milagre que andasse. Inadmissível que jogasse futebol. É inacreditável que logo no segundo treino, torto e desajeitado nos seus 19 anos, desse meia dúzia de dribles “num tal de Nílton Santos”: para ele, entre a “enciclopédia do futebol”, pelo seu jogo prodigioso, e Pincel e Suingue, seus companheiros no Esporte Clube Pau Grande, a diferença era nenhuma. Essa é a história no seu começo.

A lenda nasceu junto. Cresceu na Suécia em 1958 e tornou-se infinita no Chile em 1962. Esfriou na Inglaterra em 1966. Desapareceu na poeira de campos anônimos na Colômbia, Uruguai, Argentina e Itália. E reapareceu angustiadamente no Maracanã, duas semanas atrás, para 50 mil pessoas que enfrentaram a chuva e a noite para ver um jogo que normalmente seria ouvido no radinho de pilha. Suas pernas continuavam formando um arco. Outra vez, mas por outros motivos, era um milagre que jogasse futebol. Torto e desajeitado nos seus 38 anos, Mané Garrincha ganhou palmas de um povo ávido em reencontrar sua velha alegria. Essa é a lenda no seu crepúsculo.

Entre a história e a lenda, entre o Garrincha de 19 anos do Botafogo e o de 38 do Olaria, acentuou-se dramaticamente a linha que separa a realidade da ficção. É a mesma linha que divide quase vinte anos de glórias e humilhações, de baixezas e desprendimento, de heroísmos e ingenuidade. A mesma que fez com que Nílton Santos, um dia, fosse outro jogador que não Pincel ou Suingue. É a linha que Mané, com seus dribles impossíveis e sua imaginação de criança, jamais respeitou, porque nem sequer suspeita de sua existência.

A sentença

O povo que acorreu ao Maracanã sabe, mas não quer saber, que perdeu para sempre sua alegria. Garrincha, ao longo dos anos, perdeu muito mais que o seu gênio para criar essa alegria em campo. Não está apenas mais gordo, mais lento e mais velho, mas também um pouco mais triste. Nenhum jogador brasileiro, salvo Pelé, mereceu mais o paraíso do que ele. Nenhum craque de sua categoria, especialmente Pelé, chegou tão perto do inferno. Há muitos anos – nove, no mínimo – não é mais o mesmo. Em 1962, o ano da Copa sem Pelé, em que Garrincha fez o seu papel e o do gênio ausente, um exame médico aparentemente de rotina, para apurar “umas dores muito fortes no joelho”, chegou a um laudo inquietante.

“Eu levei Mané ao ortopedista Mário Jorge”, conta o jornalista Sandro Moreyra, um dos responsáveis pela divulgação da quantidade de histórias engraçadas sobre o jogador. A sentença, no entanto, veio depois de três horas e não era cômica: “Se não parar de jogar durante três meses, estará inutilizado para o futebol”. Parecia exagerado, principalmente para o Botafogo, que precisava de Mané numa excursão, sob pena de perder 50% dos lucros. A operação foi adiada. O fim da carreira, automaticamente, antecipado.

A decadência

Mané, o otimista, concordava com seu time. Ele já era campeão carioca pelo Botafogo duas vezes (em 1957 e 1961), ganhara o Torneio Rio-São Paulo em 1962, além das duas Copas. Era a época em que o Botafogo considerava “normal, da personalidade dele”, que Garrincha fosse a Pau Grande jogar pelada com amigos. Quando o joelho começou a doer, depois de 1963, o Botafogo reclamou pelos longos períodos que Garrincha passava em tratamento. Foi operado dos meniscos naquele ano e, como o médico era de fora, o clube não quis pagar.

No ano seguinte, com os jogadores “come e dorme” (os que moram no clube e treinam sem grandes esperanças de chegar a algum lugar), perdera o posto de titular e era multado em 50% do salário por se recusar a excursionar pelo interior (“Se não sou titular no Maracanã, não sou titular em nenhum outro lugar”, defendia-se ele). Já era chamado de “moleque” no próprio boletim do clube, numa nota assinada pelo diretor de propaganda. Da lenda, então, restava só a lembrança.

Garrincha já saíra das gírias esportivas para as manchetes dos jornais de escândalo, encantados com a notícia de que ele deixara a mulher e oito filhas em Pau Grande para viver com a cantora Elza Soares (com quem casou em 1966, na embaixada da Bolívia), e as notícias sobre suas dívidas cresciam como só os rumores sabem crescer. Não bastava, assim, que Garrincha não tivesse nada. Era necessário que ele, quase derrotado, ainda ficasse devendo.

Em família

A triste sorte de Garrincha, nessa época, não chegou a surpreender ninguém. João Saldanha, técnico do Botafogo em 1957, ano em que Garrincha ganhou seu primeiro campeonato pelo time, lembra o episódio do “tal de Nílton Santos” como sintoma muito claro de sua alienação e do que estava para acontecer. Garrincha, diz ele, não é um poeta: “É um primitivo, um matuto, meio índio, meio selvagem, criado num submundo de miséria e ignorância, um lugar atrasado onde nem o trem parava”.

Esse fim de mundo, Pau Grande, não tem cinema, nem cartório, nem mais nada. Quase tudo – terrenos, empregos, pessoas – pertence à fábrica América Fabril, uma tecelagem que hoje, mal se recuperando de uma concordata, não consegue reempregar todos os seus antigos funcionários.

Mané Garrincha nasceu ali, quarto filho de uma família numerosa e marcada pela tragédia. O pai, guarda, morreu de cirrose. Uma irmã, Teresa, morreu aos 14 anos de barriga-d’água. Outra, ao cair de um caminhão num dia de festa, e o filho desta, agora com 16 anos, perdeu uma perna quando caiu de um trem.

Garrincha estudou até o segundo ano primário e, como todo mundo no lugar, foi trabalhar na fábrica. Carregava carrinhos de pano enquanto sua namorada, Noir (Noir, na certidão de nascimento, e Nair, na de casamento: o escrivão corrigiu o que lhe pareceu grafia errada), já era qualificada como tecelã. Ela lhe dava cigarros, frutas, amendoim. Ele deu o troco que podia dar e os dois se casaram em 1953 (ele com 19 anos, ela com 16), já com a primeira filha encomendada. Além de Teresa, hoje com dezoito anos, viriam outras sete – para encher a casa de três quartos, sala, cozinha e banheiro, presente da fábrica quando Garrincha ganhou a primeira Copa.

Teresa já trabalha como fiandeira, mas está de licença desde que perdeu no trabalho o dedo anular direito, há dois anos, e sofreu um trauma nervoso. Garrincha está muito presente na casa de dona Noir, agora com 36 anos, quadris largos, cabelos curtos e esticados, fala fluente de quem já se acostumou a responder perguntas, acendeu velas no dia da volta do ex-marido contra o Flamengo. “Manuel”, diz ela, “era um primor de marido, uma beleza de casa, eu tinha até empregada.”

Depois, porém, “viraram a cabeça dele” e desde então sua vida entrou em compasso de espera. Diz que Garrincha lhe deve 20 mil cruzeiros de pensões, que não teria pagado desde que ele foi para a Europa; tem esperança de recebê-los agora, descontados dos salários de Garrincha no Olaria, mil cruzeiros por mês. Sustenta-se e às filhas com o auxílio-doença de Teresa, 250 cruzeiros de pensão do governo da Guanabara (votada no governo Negrão de Lima), e duzentos que o Botafogo dá, numa regularidade duvidosa, como homenagem à família do maior jogador que teve em toda a sua história.

Saco sem fundo

Nem sempre a vida foi tão dura para dona Noir e suas filhas. Garrincha, como tantos personagens famosos e folclóricos, literalmente nadava em dinheiro em 1958, quando veio da Suécia campeão do mundo. Bebeu para valer (cachaça e batida de limão) em Pau Grande, jogou pelada com Suingue e Pincel e entrou no armazém de seu Joaquim com uma sacola de dinheiro, pagando em dólar todas as contas em atraso dos moradores de Pau Grande. Mais tarde, ao procurar um banco, levava a mala de lona que ganhara da companhia aérea e de dentro dela tirou pacotes de dinheiro amarrados com barbante e notas remendadas com esparadrapo.

Havia cheques de mais de um ano de idade e Garrincha contou que foram encontrados entre os brinquedos de suas filhas. Era um louco, deliciosamente irresponsável. Quando perdeu a forma, passou a ser apenas irresponsável. As histórias sobre o que Garrincha deixou que lhe roubassem formam o saco sem fundo de sua infeliz vida financeira. Não parecia preocupar-se com isso, na época. Tinha amigos, contava com eles. Em 1959, por exemplo, o Botafogo não queria pagar-lhe 80 mil cruzeiros velhos por mês porque um dos diretores do time, engenheiro, dizia que nem ele ganhava tanto, embora também não fosse um Garrincha na sua profissão. O Botafogo pagou 78 mil cruzeiros. Os dois restantes saíram dos bolsos do técnico Saldanha e de Renato Estelita, responsável pela política de profissionalismo que manteve no clube jogadores como Garrincha, Nílton Santos, Didi e Amarildo.

Nas vésperas da Copa de 1962, dirigentes do Botafogo apressaram a renovação de seu contrato, antes que ele se valorizasse. Deram a Garrincha 120 mil cruzeiros velhos de ordenados, 3 milhões em luvas e um terreno sem valor em Saquarema. Radiante, ele chegou a agradecer ao clube pelo grande negócio.

Mané, com seus dribles impossíveis e sua imaginação de criança, jamais respeitou a linha que separa a realidade da fantasia

Continua na II Parte.

A VOCAÇÃO DO ERRO...

«O Botafogo tem a vocação do erro...» Augusto Frederico Schmidt, poeta, empresário e político, ex-presidente do Clube de Regatas Botafogo, vice-presidente do Botafogo de Futebol e Regatas e idealizador da fusão entre os dois clubes em 1942, resumindo a Santhiago Dantas, jornalista, advogado, professor e político, o Glorioso Clube da Estrela Solitária.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Botafogo 1x0 Cienciano – lições a aprender

Crédito: Elaborado por IA.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Os botafoguenses estão habituados ao carrossel que faz o percurso céu-inferno e vice-versa, de tal modo que são capaz de esperar as melhores e as piores ocorrências entre a ilusão e a desilusão.

A Copa Sul-Americana confirmou a tendência.

Da melhor campanha da fase de grupos o Botafogo conseguiu a antiproeza de virar a chave para a maior goleada que já tomou nas competições continentais contra um clube pouco mais do que amador, que se encontra em 16º lugar no campeonato do seu país.

Se antes do jogo a confiança dos botafoguense era grande, após a atrocidade da goleada as Almas Gloriosas entraram em modo de depressão.

Nada fazia crer que pudéssemos nos classificar em meio a tomadas de decisão administrativas da própria SAF, instada pelo Clube Associativo que aproveitou o caso da goleada para tornar a influenciar a SAF para um padrão amador, inspirado no modesto Boavista para uma reestruturação profissional (?).

Porém, mesmo para um botafoguense, a esperança é a última que morre. E a esperança renasceu aos oito minutos de jogo quando Álvaro Montoro – o melhor jogador da atualidade botafoguense – cobrou rapidamente uma falta em modo de lançamento longo, Danilo Pereira desmarca-se, com o peito desvia a bola do goleiro e toca-a mansamente a caminho das redes adversárias. Botafogo 1x0.

Tínhamos, então, 82 minutos para faturar pelo menos quatro gols e decidir a classificação nos pênaltis – e as Almas Gloriosas passaram subitamente a acreditar.

Eu passei a acreditar! Sobretudo porque o Botafogo foi pra cima do Cienciano.

Aos 23’ a nulidade que tem sido Arthur Cabral perdeu o gol mais fácil de fazer em toda a sua carreira, cara a cara com a baliza desguarnecida e a zaga cortou em cima da linha. Cabral inaugurou, então um verdadeiro manancial de gols perdidos – pelo menos três! –, desperdiçando o recital futebolístico de Álvaro Montoro, que se firma como um grande craque no futuro próximo.

Aos 31’, novamente após passe soberbo de Montoro, Vitinho chuta a bola por cima da baliza, desta vez cara a cara com o goleiro.

Aos 36’ o árbitro anulou um gol a Danilo, na sequência de um escanteio de Alex Telles, porque inadvertidamente a mão tocou a bola nas mesmas circunstâncias em que ocorrera um gol do Cienciano no jogo de ida e seguindo o mesmo critério deveria ter sido validado – mas foi anulado, claro, pela má arbitragem e pelo péssimo VAR.

Aos 39’, na cobrança de escanteio de Alex Telles, Cabral tinha apenas o trabalho de cabecear para as redes, mas tornou a cabecear para fora, evidentemente.

Aos 43’ outra vez Cabral…

E não é que, após uma noite absurda de Cabral, Bellão não o substituiu ao intervalo e…manteve-o até final da partida!

No segundo tempo o Botafogo tornou a entrar bem e aos 49’ foi assinalado um pênalti para o Botafogo, que demorou tempos infindos para ser validado e o VAR inventou uma falta no início da jogada levando o árbitro a sonegar o pênalti, cancelando-o.

Desde o início da sua criação o Mundo Botafogo defendeu sempre que para o Botafogo ser campeão não pode jogar apenas um pouco mais do que os adversários, mas sim jogar MUITO MAIS para anular as peripécias das arbitragens, dentro e fora do país. No país porque desde há décadas tudo é feito contra o Botafogo; no continente porque as equipes brasileiras são sempre o alvo a abater.

Confirmou-se, porque tendo perdido tantas oportunidades claras na 1ª etapa, o Botafogo não jogou, consequentemente, muito mais do que o Cienciano porque desperdiçou tudo o que criou após o gol de Danilo Pereira.

E, claro, a equipe foi caindo de desempenho à medida que o tempo passava e o seu criativo – Montoro – já não se encontrava nas mesmas condições físicas para repetir o seu recital da 1ªparte.

A ‘aliança’ Cabral-perde-gols com arbitragem pró-peruana, que anulou gol, pênalti, não expulsou um peruano e evitou marcar faltas a favor do Botafogo, ‘operando’ a partida, funcionou para esvaziar o gás da equipe à medida que o tempo passava e a arbitragem escudava o Cienciano.

Seria sempre difícil anular a desvantagem trazida de Cusco, mas com a nossa caridade desperdiçando gols a favor dos peruanos e a pestilenta arbitragem, a esperança renascida aos 8’ de jogo esboroou-se.

Tendo tudo isso em conta, as dificuldades encontradas para superar a eliminação pode ser uma lição para muitos, a qual começou com o CEO da SAF a não antecipar a ida dos atletas para Cusco, fazendo-o apenas na véspera, sem hipótese de aclimatação; continuou com as ingenuidades de Franclim na abordagem a um jogo que na altitude seria sempre difícil; finalizou com a certeza que continua faltando um ‘matador’ e que Bellão não teve a coragem de substituir Cabral.

Agora temos pela frente uma sequência de jogos contra as melhores equipes do futebol brasileiro, não temos um técnico experiente e vitorioso – Bellão, com bom potencial, ainda não está preparado para assumir um clube da grandeza e exigência do Botafogo – e a SAF vai defrontar-se com o regresso do Clube Associativo que nos levou a tudo aquilo que sabemos.

Cada vez mais a torcida é essencial para que a SAF não seja subvertida aos interesses do passado.

Nota: Não há nada de ‘pessoal’ contra Arthur Cabral, que mostra ser um atleta leal, mas sim contra o seu medíocre desempenho profissional.

FICHA TÉCNICA

Botafogo 1x0 Cienciano

» Gols: Danilo Pereira, aos 8’

» Competição: Copa Sul-americana

» Data: 20.08.2026

» Local: Estádio Olímpico Nílton Santos, no Rio de Janeiro (RJ)

» Público: 20.518 pagantes | 22.408 espectadores

» Árbitro: Juan Benítez (Paraguai); Assistentes: Eduardo Cardozo (Paraguai) e Milcíades Saldívar (Paraguai); VAR: Ulises Mereles (Paraguai)

» Disciplina: cartão amarelo – Huguinho, Alex Telles, Justino e Ferraresi (Botafogo) e Santiago Arias, Amondarain, Barreto, Cabello e Horácio Melgarejo (Cienciano)

» Botafogo: Warleson (Gabriel Batista); Vitinho, Ferraresi, Justino e Alex Telles; Huguinho (Júnior Santos), Cristian Medina (Matheus Martins), Danilo (Edenílson) e Álvaro Montoro; Danilo Pereira (Kadir) e Arthur Cabral. Técnico: Rodrigo Bellão.

» Cienciano: Espinoza; Claudio Núñez, Amondarain, Becerra e Martinich; Barreto (Robles), Santiago Arias (Caparó), Romagnoli (Bandiera) e Cabello; Hohberg (Aguirre) e Garcés (Succar). Técnico: Horácio Melgarejo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Você ainda está jogando ou vive só dos melhores momentos?

por TIAGO LEITE | PhD Saúde, Master Coach | Colaborador do Mundo Botafogo

Todo botafoguense gosta de revisitar grandes momentos.

Garrincha entortando marcadores. Nilton Santos atravessando o campo. Jairzinho decidindo jogos. Túlio fazendo a arquibancada explodir. Jefferson fechando o gol. E, mais recentemente, uma geração que devolveu ao torcedor a experiência de celebrar grandes conquistas.

Faz parte.

Um clube sem memória perde parte da sua identidade.

Mas existe uma diferença enorme entre honrar a história e viver dela.

E talvez essa seja uma boa pergunta para nós, homens depois dos 40.

Quanto da sua vida ainda está acontecendo — e quanto dela você passa contando histórias de quando acontecia?

“Eu treinava muito.”

“Eu tinha um físico excelente.”

“Eu trabalhava 12 horas por dia.”

“Eu era muito mais disposto.”

“Eu jogava bola toda semana.”

“Eu tinha vários projetos.”

“Eu ganhava muito dinheiro.”

“Eu era outra pessoa.”

Perceba o tempo verbal.

Era. Fazia. Tinha. Conseguia.

Sem perceber, alguns homens chegam aos 40, 45 ou 50 anos e começam a transformar a própria vida em uma espécie de museu.

As grandes conquistas estão lá.

As fotografias estão na parede.

As histórias continuam sendo contadas.

Só está faltando uma coisa: um novo jogo acontecendo agora.

O perigo de confundir história com identidade…

Imagine se o Botafogo entrasse em campo acreditando que suas glórias passadas fossem suficientes para vencer a próxima partida.

Não seriam.

A camisa pesa.

A história inspira.

Os títulos constroem identidade.

Mas quando o árbitro apita, o placar começa novamente em 0 x 0.

Na vida também.

Seu diploma não treina por você.

O dinheiro que você ganhou dez anos atrás não organiza suas finanças atuais.

O corpo que você tinha aos 30 não protege sua saúde aos 50.

Os grandes projetos que realizou não garantem relevância profissional no futuro.

E nem mesmo tudo aquilo que você já fez pela sua família substitui a presença que ela precisa de você hoje.

O passado pode ser patrimônio.

Só não pode virar esconderijo.

Depois dos 40, alguns homens começam a recuar as linhas…

Isso acontece silenciosamente.

Primeiro você deixa um projeto para depois.

Depois diminui os treinos.

Para de aprender alguma coisa nova.

Começa a evitar riscos.

Aceita situações que antes incomodariam.

Reduz suas ambições.

E encontra uma explicação aparentemente madura para tudo isso:

“Agora é diferente.”

É verdade.

Agora é diferente.

Mas diferente não significa necessariamente pior.

Talvez você não tenha mais a velocidade dos 25.

Em compensação, deveria possuir algo que aquele jovem ainda não tinha: leitura de jogo.

Você conhece melhor suas forças.

Conhece seus erros.

Já perdeu partidas.

Já tomou decisões ruins.

Já confiou nas pessoas erradas.

Já desperdiçou oportunidades.

Já caiu.

E, principalmente, já descobriu que consegue levantar.

Experiência deveria tornar um homem mais estratégico.

Não mais acomodado.

Aos 40+, talvez você precise mudar a maneira de jogar…

Um jogador experiente não precisa correr atrás de todas as bolas.

Ele aprende a ocupar espaços.

Antecipar movimentos.

Escolher batalhas.

Economizar energia onde não importa para utilizá-la quando o jogo exige.

Talvez maturidade seja exatamente isso.

Você não precisa provar mais nada para todo mundo.

Mas ainda precisa provar algumas coisas para você.

Que ainda consegue cuidar do próprio corpo.

Que ainda consegue aprender.

Que ainda consegue construir.

Que ainda consegue pedir desculpas.

Que ainda consegue começar um negócio.

Que ainda consegue mudar de carreira.

Que ainda consegue reconstruir um relacionamento.

Que ainda consegue abandonar hábitos que estão destruindo silenciosamente sua saúde.

Que ainda consegue estabelecer uma nova meta e persegui-la.

Aos 40+, você não precisa jogar como jogava aos 20.

Precisa continuar em campo.

Qual foi sua última grande temporada?...

Faça um exercício.

Pense nos últimos cinco anos da sua vida.

Qual foi sua maior evolução física?

Qual foi sua maior conquista profissional?

Qual foi a última habilidade realmente nova que você aprendeu?

Qual foi a última decisão que exigiu coragem?

Qual foi a última vez que você olhou para alguma coisa que havia construído e pensou: “Eu ainda sou capaz de me surpreender.”

Se todas as suas melhores respostas estiverem muito distantes no passado, talvez exista um alerta no placar.

Você pode estar vivendo mais da reputação do homem que foi do que da construção do homem que ainda pode ser.

E isso é perigoso.

Porque existe uma diferença brutal entre envelhecer e sair do jogo antes da hora.

O próximo capítulo ainda não foi escrito…

O Botafogo não apaga Garrincha quando surge um novo ídolo.

Não apaga Nilton Santos quando conquista um novo título.

Uma nova vitória não diminui a história.

Ela acrescenta mais uma página.

Faça o mesmo com a sua vida.

Você não precisa renegar o homem que foi.

Muito pelo contrário.

Honre tudo o que ele construiu.

Mas não obrigue sua versão atual a viver eternamente das conquistas dele.

A pergunta depois dos 40 não deveria ser apenas:

“O que eu já fiz da minha vida?”

Talvez exista uma pergunta muito mais importante:

“Qual será a próxima coisa da qual eu ainda vou me orgulhar?”

Escolha uma.

Pode ser recuperar sua saúde.

Construir um novo projeto.

Organizar sua vida financeira.

Melhorar seu casamento.

Voltar a estudar.

Empreender.

Viajar.

Competir novamente.

Ou simplesmente recuperar uma versão sua que foi ficando pelo caminho.

Depois transforme essa escolha em uma ação concreta.

Porque história nenhuma ganha o próximo jogo.

Quando a bola rola, é preciso jogar novamente.

E talvez você ainda tenha muito campeonato pela frente.

Não viva apenas dos seus melhores momentos. Crie os próximos.

Mude ou Aceite: não tem outra maneira.

tiagoleite40.oficial

A vida torta de Mané Garrincha – I parte (1972)

Geraldo Mayrink (Facebook Geraldo Mayrink) & Garrincha (@ Dedoc Abril) [ Breve nota biográfica de Geraldo Mayrink: Geraldo Mayrink nas...