por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
A história dos
treinadores do Botafogo de Futebol e Regatas apresenta episódios absolutamente extraordinários
e alguns deles poder-se-ia afirmar que foram inventados pelo folclore
futebolístico, mas a verdade é que estão bastante bem documentados e vale a
pena o Mundo Botafogo dedicar uma série homenageando esses comandantes, sempre
menos idolatrados pelos torcedores, mas nem por isso menos importantes do que
os jogadores.
A história não começa
desde o início, fundamentalmente porque até 1923 as equipes eram dirigidas por
comitês técnicos e somente nessa data surgiu o primeiro treinador a solo.
O Grande Paulo Antônio
Azeredo, Presidente à época (presidências em 1923, 1926-1936, 1954-1963), inaugurou um ciclo
internacional extraordinário com treinadores estrangeiros: Juan Carlos Bertone
(uruguaio), Eugênio ‘Marinetti’ Medgyessy (húngaro), Ramón Platero (uruguaio), Charles
Williams (inglês), Nicolas Ladanyi (húngaro) e, já sem Azeredo na presidência no
final da década de 1930, chegou Izidor ‘Dori’ Kürschner (húngaro), em 1939.
Ainda assim, não foi
em 1923 que começaram as grandes histórias em torno dos treinadores botafoguenses,
já que entre 1923 e 1928 houve mudanças sucessivas que resultaram em 13
treinadores, alguns deles entrando, saindo e voltando duas e três vezes
alternadamente em espaços de meses: Carlito Rocha (1925, 1926, 1927), Vadinho
(1924, 1927, 1928), Marinetti (1926, 1927), Ramón Platero (2027 no início, 2027
no final), Juan Carlos Bertone (1923), Lulu Rocha (1924) e Flávio Ramos (1928).
A primeira grande história
começou quando Paulo Antônio Azeredo, o mais titulado presidente botafoguense,
decidiu inovar radicalmente e contratar uma comissão técnica de europeus
liderada pelo inglês Charles Albert Williams, em 1929, destinada a recolocar o
Botafogo na senda dos títulos cariocas.
E foi aí que começaram
as grandes histórias em torno de treinadores.
Charles Williams era uma
figura muito relevante no futebol brasileiro daquela época, numa altura em que
contratar treinadores estrangeiros – sobretudo britânicos e centro-europeus –
era uma forma de importar conhecimentos de treino e organização do jogo. Williams
já tinha passado pelo Fluminense e pelo America antes de chegar ao Botafogo, em
1929.
Nesse contexto, Paulo
Azeredo também contratou, no início de 1930, o húngaro Nicolas J. Ladanyi,
conhecido no Brasil por ‘Capitão Ladanyi', que não era um treinador
convencional. Nascido em Budapeste em 1889, serviu militarmente no Império
Austro-Húngaro durante a I Guerra Mundial e posteriormente emigrou para a
América, dedicando-se a estudos sobre preparação física e desporto, tendo
dirigido o Aeskulap Health Institute, em Nova Iorque.
Entretanto chega ao Rio de Janeiro e leva na bagagem ideias absolutamente extraordinárias para o futebol brasileiro, razão pela qual Paulo Azeredo contrata-o como superintendente do futebol com a missão de introduzir novos métodos de preparação física.
Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/nicolas-ladanyi-o-supertreinador.html
O seu programa incluía
a dimensão psicológica, descrita à época como inspirada na psicanálise, que
atribuía grande importância à robustez mental.
E aí instalou-se o
conflito entre Ladanyi e Williams, terminando com a demissão deste último, que
entretanto seguiu para o Flamengo.
Foi assim que o
Capitão Ladanyi assumiu o comando técnico do Botafogo e conquistou o título
carioca, conquista muito significativa 20 anos após o Botafogo se tornar o
‘Glorioso’ com a conquista do campeonato de 1910.
Porém, Ladanyi não se ficou
por aí: em 1931 venceu a Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo, que punha
frente a frente os campeões de 1930 do Rio e de São Paulo, versão inicial do
Torneio Rio-São Paulo, derrotando estrondosamente o poderoso Corinthians com
uma goleada de 7x1 e 4 gols de Nilo; e ainda venceu a Taça Rio-Sul, derrotando
o Pelotas, campeão gaúcho, por 3x2, naquela que foi uma versão inicial de
campeonato brasileiro, mas cuja ideia se perdeu na bruma do tempo e o título não
foi homologado como campeonato nacional.
Ver Taça
Rio-Sul: https://mundobotafogo.blogspot.com/2013/03/1931-taca-rio-sul.html; https://mundobotafogo.blogspot.com/2015/12/paulistano-botafogo-e-atletico-mineiro.html
Ver Taça dos
Campeões Estaduais: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/1-conquista-interestadual-rio-so-paulo.html
Em 1932 o Capitão
Ladanyi idealiza e constrói a equipe que faz nascer a extraordinária conquista
do tetracampeonato carioca que hegemoniza o futebol botafoguense no Rio de
Janeiro. É, pois, uma Era extraordinária liderada por Nicolas Ladanyi, cujo
ciclo conquista Campeonato Carioca (1930), Taça dos Campeões Estaduais Rio-São
Paulo (1931), Taça Rio-Sul (1931) e Campeonato Carioca (1932).
Ladanyi saiu do
Botafogo no início de 1933 dando lugar sucessivamente a Victor Guisard (1933),
Armindo Nobs Ferreira (1933-1934) e Carlito Rocha (1935-1939), que completam o
tetracampeonato, cuja continuidade e desenvolvimento foram muito mais fruto da
equipe montada por Ladanyi e pela estrutura do Clube do que pelas figuras que sucederam o húngaro, tanto mais que Carlito Rocha foi o técnico entre 1935 e 1939 e somente
conquistou um título na sequência da equipe idealizada por Ladanyi.
O tetra: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/01/botafogo-tricampeao-carioca-de-futebol_20.html
Porém, o final da
história de Ladanyi é tão insólita como o princípio. O húngaro passou então
pelo America, trabalhou na Liga de Sports da Marinha, regressou ao Botafogo no
final da década integrando a estrutura técnica, mas depois afastou-se progressivamente
do futebol.
Eis, então, que o
‘nosso’ excêntrico Capitão acaba se ligando ao mundo dos espetáculos do Rio de
Janeiro, ocupando o cargo de diretor artístico do Cassino da Urca e mais tarde
do Hotel Quitandinha, em Petrópolis, que evidencia um personagem fascinante,
que de militar passa a emigrante, a estudioso da psicanálise, a técnico de
futebol campeão pelo Botafogo e a diretor artístico.
Em 1939 ainda é um
técnico estrangeiro que chega ao Botafogo, Izidor ‘Dori’ Kürchner, cuja
história foi importante para a evolução técnica do futebol brasileiro e
inspirou futuros técnicos do Botafogo.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com.




