por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, foi uma das mais
dramáticas da história. Foi a primeira Copa depois de 12 anos de interrupção, já
que os Mundiais de 1942 e 1946 não aconteceram devido à Segunda Guerra Mundial.
O torneio marcou a retomada da competição e terminou com o episódio mais famoso
e trágico do futebol brasileiro: o ‘Maracanazo’,
a vitória do Uruguai sobre o Brasil por 2x1
no Maracanã.
O primeiro grande acontecimento
foi o próprio contexto da competição. O Brasil queria mostrar modernidade,
entusiasmo popular e capacidade de organizar um grande evento. Para isso, foi
construído o Maracanã,
no Rio de Janeiro, concebido como um estádio gigantesco: na época, podia
receber perto de 200 mil espectadores
em pé, embora a assistência oficial do jogo decisivo tenha sido
de 173.850 espectadores.
A Copa também teve muitas
ausências e desistências. A Alemanha
e o Japão ainda
estavam afastados do cenário internacional após a guerra porque pertenciam ao
‘Eixo’, derrotado pelos ‘Aliados’, e a Índia,
embora classificada, acabou não participando sob o pretexto de que a FIFA não
permitia que os atletas jogassem descalços, mas o verdadeiro problema foram as
dificuldades financeiras de uma longa viagem de navio. Turquia e Escócia também
desistiram e em seu lugar foram convidadas as seleções de Portugal, França e
Irlanda, que declinaram o convite; os franceses desistiram porque teriam que
percorrer três mil quilómetros para realizarem os seus jogos.
Feitas as contas, o Mundial ficou
com 13 seleções apenas,
como em 1930.
A II Grande Guerra interrompeu as
Copas do Mundo e a sequência do Botafogo como maior fornecedor de jogadores
para cada Copa, alguns dos quais, com Heleno de Freitas pontificando, seriam
indiscutivelmente titulares nas suprimidas Copas de 1942 e 1946. Em 1950 apenas
o então jovem Nilton Santos foi convocado, mas permaneceu na reserva durante a
competição em que Barbosa foi injustamente excomungado, visto que a haver um
responsável principal pela derrota na final só poderia ser o técnico Flávio
Costa que cometeu o erro fatal de não saber gerir a dimensão mental da equipe
brasileira.
Uma peripécia importante foi o formato incomum. Ao contrário
da ideia tradicional de uma final única, a Copa de 1950 teve uma fase inicial
por grupos e depois um quadrangular final
com Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia. O campeão seria decidido por pontos. Por
isso, tecnicamente, Brasil x Uruguai não
era uma final oficial, mas na prática tornou-se uma verdadeira
final porque chegou-se à última rodada com o Brasil precisando apenas empatar e
o Uruguai obrigado a vencer.
O Brasil chegou ao quadrangular
final em clima de euforia. Na fase decisiva, goleou a Suécia por 7x1 e a Espanha por 6x1, exibindo um
futebol ofensivo que encantou a torcida. A confiança era tão grande que parte
da imprensa e da população já tratava o título como praticamente conquistado
antes do jogo contra o Uruguai.
O Uruguai, por outro lado, teve uma campanha menos vistosa, mas muito resiliente. A seleção uruguaia trazia a memória de sua tradição olímpica e mundial – campeã olímpica em 1924 e 1928 e campeã da Copa de 1930 – e entrou no jogo decisivo como azarão, mas não como equipe sem história. O capitão Obdulio Varela tornou-se uma figura central pela liderança emocional e pela capacidade de esfriar o jogo quando o Brasil abriu o placar.
O momento mais famoso veio em 16 de julho de 1950, no
Maracanã. O Brasil saiu na frente no início do segundo tempo, com gol de Friaça. O estádio parecia
caminhar para a festa esperada, porém o Uruguai empatou com Juan Alberto Schiaffino e aos
79’ Alcides Ghiggia
marcou o gol da virada. O placar final, Uruguai 2x1 Brasil,
produziu um silêncio histórico no Maracanã e entrou para a memória do futebol
como o ‘Maracanazo’.
Uma das peripécias mais lembradas
é que já havia clima de celebração brasileira antes da partida. Segundo relatos
históricos, jornais e autoridades preparavam homenagens ao Brasil campeão. A
derrota transformou a festa em trauma nacional. O goleiro brasileiro Barbosa acabou injustamente
marcado por décadas como símbolo da derrota, embora o resultado tenha sido
coletivo e o Uruguai tenha vencido por mérito.
Aliás, toda a comitiva
brasileira, no auge da euforia, parece ter esquecido que no dia 6 de maio de
1950 o Uruguai tinha vencido o Brasil por 4x3 na Copa Rio Branco, e que apesar
de o Brasil lhe ter ganho os dois jogos seguintes dessa Copa, por 3x2 e 1x0,
era uma Seleção com muitas tradições e difícil de superar.
A Inglaterra participou pela primeira vez de uma Copa do Mundo e sofreu uma das
maiores zebras da história: perdeu em Belo Horizonte por 1x0 para os amadores da América (E.U. da),
que entre outras profissões eram carteiros e empregados de mesa – e o caso até
poderia ter sido designado por ‘Belorizontazo’. O resultado foi tão inesperado
que quando chegou a Londres o telegrama dando conta do placar (0x1), vária
agências de informação consideraram que havia sido lapso do número 1 a menos antes
do zero e anunciaram a vitória inglesa por 10x1, tornando-se uma das grandes
histórias do Mundial e evidenciando que a Copa já não era apenas uma competição
entre potências tradicionais.
No fim, o Uruguai conquistou o seu
segundo título mundial,
depois de ter vencido a primeira edição da Copa em 1930. A vitória teve
dimensão quase mítica: uma Seleção pequena, enfrentando o país anfitrião,
diante de uma multidão imensa, num jogo em que quase todos esperavam a
consagração brasileira. Para o Brasil, a derrota teve impacto profundo e
influenciou até debates posteriores sobre identidade, pressão emocional e a
própria camisa da seleção.
Em suma, os acontecimentos e peripécias
mais importantes foram a volta da Copa após a guerra, a construção do Maracanã,
o formato estranho com quadrangular final, as desistências e ausências, a
estreia frustrante da Inglaterra com derrota para os americanos, as goleadas
brasileiras contra Suécia e Espanha, a confiança exagerada antes do último
jogo, a liderança uruguaia de Obdulio Varela, os gols de Schiaffino e Ghiggia,
e o trauma histórico do Maracanazo.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Uruguai 2x1 Brasil
» Gols: Friaça, aos 47’ (Brasil);
Schiaffino, aos 66’, e Ghiggia, aos 79’ (Uruguai)
» Data: 16.07.1950
» Local: Estádio do Maracanã, no
Rio de Janeiro (Brasil)
» Brasil: Barba; Augusto e
Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico.
Técnico: Flávio Costa.
» Uruguai: Roque Máspoli; Matías
González e Eusébio Tejera; Schubert Gambetta, Obdulio Varela e Victor Rodríguez
Andrade; Alcides Ghiggia, Júlio Pérez, Óscar Míguez, Juan Alberto Schiaffino e
Rúben Morán. Técnico: Juan López Fontana.
Fontes principais: maisfutebol.iol.pt;
pt.wikipedia.org;
www.britannica.com;
www.planetworldcup.com;
www.theguardian.com;
www.the-sun.com.









