por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A vitória do Botafogo sobre a Chapecoense, nesta fase do campeonato,
foi crucial para o afastamento da zona de despromoção, mas ainda não permite sossegar
as hostes botafoguenses no que concerne a uma identidade coletiva bem definida
e eficaz.
O Botafogo foi muito superior ao adversário e mereceu vencer por
uma margem mais confortável, mas revelou limitações na eficácia ofensiva, sendo
incapaz de ‘matar’ o jogo, apesar das oportunidades criadas.
Efetivamente o Botafogo teve 52% de posse de bola, rematou 20
vezes à baliza – mais do dobro da Chapecoense – e acertou 11 remates enquadrados
com a baliza contra nenhum da Chapecoense.
O Botafogo não monopolizou a partida. Aliás, teve mais posse de bola
até metade da 1ª parte e depois cedeu domínio à Chapecoense, retomando uma
maior posse de bola já no final da 1ª parte. Porém, houve uma diferença
significativa ao nível da criação, porque o Botafogo criou praticamente todas
as oportunidades de gol e a Chapecoense limitou-se a períodos de circulação de bola
sem qualquer remate enquadrado à baliza nos 90 minutos de jogo.
É certo que o goleiro Anderson efetuou algumas grandes defesas,
mas 11 remates enquadrados para apenas um gol é manifestamente pouco e evidenciou,
uma vez mais, que apesar de uma linha avançada com qualidade aceitável, a
equipe converteu apenas uma oportunidade e realçou novamente a dificuldade na
definição para gol.
A defesa foi o setor mais eficiente, embora se tenha que
considerar que o jogo foi contra a equipe última classificada, tendo Tite
ensaiado a alternância da saída de bola com três elementos, garantindo melhor
segurança na saída e permitindo que os laterais avancem mais no terreno.
No entanto, tal como em outras ocasiões, em vantagem no marcador, a
equipe recuou as suas linhas em determinados períodos e optou por apostar nas transições
e nas bolas longas, o que faz pouco sentido jogando em casa contra o último classificado,
que apresentou dificuldades em segurar ataques organizados.
O sistema 4-2-3-1 aplicado por Tite travou de alguma forma a
vulnerabilidade da equipe em matéria de transições adversárias, anulou as investidas
do adversário e limitou a capacidade de finalização, mas resta saber se essa
segurança garante melhor progressão e se é capaz de atrair os adversários de
modo a criar superioridades e permitir que a bola chegue aos nossos criativos
em condições favoráveis.
Aliás, é na ligação entre meio-campo e ataque que se encontram os
maiores problemas a resolver. Allan fez boa cobertura defensiva, mas tem
dificuldades nos momentos de decisão; Ziyech tem falta de ritmo e provavelmente
de preparação física, desiludindo novamente; Danilo esteve muito recuado
sabendo-se que é necessário um homem mais adiantado próximo de Tiquinho Soares,
e que ele é o principal elemento ofensivo de meio-campo; Montoro perde
capacidade de influência quando o Botafogo recua – e isso produziu
desequilíbrios que impediram sequências de circulação envolvendo os elementos
mais ofensivos da equipe. Cristian Medina e Kauan Toledo entraram razoavelmente
bem, contribuíram para maior intensidade e mobilidade e podem sempre ser
alternativas.
No ataque deve-se realçar o papel de Tiquinho Soares, que vindo de
períodos longos de inatividade, fez muitíssimo mais do que Arthur Cabral, cujo
regresso à equipe deve ser vedado. Efetivamente Tiquinho Soares sabe
interpretar a trajetória da bola e ocupar os espaços certos entre os defesas,
além de recuar para fora da área e participar na construção ofensiva. Além,
evidentemente, de ter sido o autor do gol vitorioso.
Do ponto de vista do modelo de jogo, Tite valorizou a consistência
defensiva e no domínio ofensivo a equipe criou oportunidades para uma vitória
mais ampla e tranquila, mas importa destacar que a circulação de bola não
equivale a controlar e ganhar um jogo, faltando claramente à nossa equipe provocar
desequilíbrios, desorganizar o adversário e marcar gols.
Enfim, Tite – acreditando-se que ainda é um técnico válido para
grandes equipes – tem diversos desafios pela frente, tais como melhorar a fase
de construção reduzindo as perdas de bola; integrar Montoro e Ziyech coletivamente
para a equipe depender menos de iniciativas individuais; manter a pressão
ofensiva após marcar, mas sem comprometer a segurança defensiva; aproximar
Danilo de Tiquinho Sares de modo a que mais jogadores cheguem à zona de finalização
em condições de marcar.
É absolutamente necessário que a equipe mantenha uma atitude mental forte e possa vencer os dois jogos que se seguem contra equipes que se situam na zona de rebaixamento.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 1x0 Chapecoense
» Gols: Tiquinho Soares, aos 7'
» Data: 17.10.2026
» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro
» Público: 21.020 pagantes; 23.306 espectadores
» Renda: R$ 579.140,00
» Árbitro: Raphael Claus (SP); Asssitentes: Danilo Ricardo Simon Manis (SP) e Izabele de Oliveira (SP); VAR: Thiago Duarte Peixoto (SP)
» Disciplina: cartão amarelo – Kauan Faria (Chapecoense)
» Botafogo: Gabriel Batista; Vitinho, Ferraresi, Marçal e Alex Telles; Allan (Domingos Andrade) e Danilo; Matheus Martins (Júnior Santos), Álvaro Montoro (Kauan Toledo) e Ziyech (Cristian Medina); Tiquinho Soares (Danilo Pereira). Técnico: Tite.
» Chapecoense: Andersson; Bruno Tubarão (Dudu), Kauan Faria, Eduardo Doma e Bruno Pacheco; Camilo (Franco Rossi), Fernando (Bolasie), Yago Felipe e Giovanni Augusto (Max Alves); Garcez e Túlio Eduardo (Rodrigo Êndrio). Técnico: Rafael Lacerda.



