sexta-feira, 12 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1954: o duvidoso ‘Milagre de Berna’

Cartaz da Copa do Mundo de 1954. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1954, disputada na Suíça entre 16 de junho e 4 de julho, foi uma das edições mais espetaculares e estranhas da história: muitos gols, formato pouco comum, violência em campo, chuva, calor extremo, uma Hungria aparentemente imbatível e, no fim, uma das maiores surpresas de sempre – o ‘Milagre de Berna’, com a Alemanha Ocidental campeã.

A grande favorita era a Hungria, a equipa dos ‘Mágicos Magiares’, com Ferenc Puskás, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik, Zoltán Czibor e Gyula Grosics. A equipa vinha invicta há anos, era campeã olímpica e já tinha humilhado a Inglaterra em Wembley por 6x3 em 1953 e por 7x1 em Budapeste pouco antes do Mundial.

O Brasil terminou a competição em 6º lugar e estreou o uniforme da famosa camisa amarela e calção azul, substituindo o anterior uniforme branco, considerado azarado após a derrota de 1950.

No que respeita ao Botafogo, o seu único representante foi novamente Nilton Santos, mais tarde apelidado de ‘Enciclopéia’ por se considerar que sabia tudo sobre futebol. O craque participou nas oito partidas que o Brasil realizou na Copa do Mundo de 1954.

Nilton Santos em ação na Copa de 1954. Crédito: Reprodução (colorizada).

Uma das primeiras peripécias foi o formato da competição. Havia quatro grupos de quatro equipas, mas cada seleção só fazia dois jogos: os cabeças de série não se enfrentavam entre si, e os não cabeças de série também não. Além disso, jogos empatados na fase de grupos podiam ter prolongamento, e empates em pontos para a segunda vaga eram resolvidos por jogos de desempate. Isso levou a situações curiosas, como a Alemanha Ocidental ter de jogar novamente contra a Turquia, apesar de já a ter vencido na fase inicial.

Logo na primeira fase, a Hungria assustou o mundo: venceu a Coreia do Sul por 9x0 e depois goleou a Alemanha Ocidental por 8x3. Esse jogo parecia confirmar a superioridade húngara, mas teve duas consequências importantes: Puskás saiu lesionado após uma entrada de Werner Liebrich, e o treinador alemão Sepp Herberger usou uma equipa parcialmente poupada, algo que mais tarde alimentou a ideia de que ele preparava uma revanche na final.

O torneio também ficou marcado pelo número absurdo de gols. A Copa de 1954 ainda detém a maior média de gols da história dos Mundiais masculinos: 5,38 por jogo. A própria Hungria marcou 27 gols no torneio, e Sándor Kocsis terminou como artilheiro com 11 gols.

Ferenc Puskás, o grande craque húngaro do Honved e depois do Real Madrid e da Seleção de Espanha.

Uma das partidas mais loucas foi Áustria 7x5 Suíça, nas quartas-de-final, em Lausanne. É até hoje o jogo com mais gols na história das Copas masculinas. A partida ficou conhecida como a “Batalha do Calor de Lausanne”, pois foi jogada sob temperatura altíssima, perto dos 40°C. A Suíça chegou a abrir 3x0, mas a Áustria virou e venceu por 7x5.

Outra peripécia célebre foi a ‘Batalha de Berna’, entre Hungria e Brasil, também nas quartas-de-final. A Hungria venceu por 4x2, mas o jogo ficou famoso pela violência: três jogadores foram expulsos – Nílton Santos e Humberto, do Brasil, e József Bozsik, da Hungria – e a confusão continuou depois do apito final, inclusive nos corredores e vestiários. A FIFA acabou por deixar a disciplina a cargo das federações.

Nas semifinais, a Alemanha Ocidental goleou a Áustria por 6x1, enquanto a Hungria teve de sofrer muito contra o Uruguai, campeão de 1950. A Hungria venceu por 4x2 após prolongamento, num jogo importantíssimo porque foi a primeira derrota uruguaia em fases finais de Copas do Mundo.

A final colocou novamente frente a frente Hungria e Alemanha Ocidental. Quase todos esperavam nova vitória húngara, ainda mais porque a Hungria já vencera os alemães por 8x3 no grupo. Mas a final foi disputada com chuva no Wankdorf Stadium, em Berna, e as condições ajudaram a tornar o jogo ainda mais dramático.

A Hungria começou como um furacão: Puskás marcou aos 6’ e Czibor fez 2x0 aos 9’. Parecia que a final seria uma consagração tranquila. Mas a Alemanha reagiu imediatamente: Max Morlock reduziu aos 11’ e Helmut Rahn empatou aos 18’. No fim, aos 84’, Helmut Rahn marcou o 3x2 que deu o título aos alemães.

Gol de Max Morlock na final. Crédito: Jason Coles, Golden Kicks The Shoes That Changed Sports.

Ainda houve drama no fim: Puskás marcou um gol que seria o empate húngaro, mas o lance foi anulado por impedimento. A decisão gerou discussão durante décadas, assim como outras polêmicas da final, incluindo fortes suspeitas posteriores de doping na equipa alemã, nunca resolvidas de forma plenamente conclusiva (*).

O impacto histórico foi enorme. Para a Alemanha Ocidental, o título de 1954 tornou-se um símbolo de recuperação moral e identidade nacional no pós-guerra. Para a Hungria, foi uma tragédia esportiva: a melhor equipa do mundo perdeu justamente o jogo que mais importava. O “Milagre de Berna” permanece como uma das maiores zebras e uma das finais mais famosas da história do futebol.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha Ocidental 3x2 Hungria

» Gols: Max Morlock, aos 11’, Helmut Rahn, as 18’ e 84’ (Alemanha Ocidental); Ferenc Puskás, aos 6’, e Zoltán Czibor, aos 9’ (Hungria)

» Data: 4 de julho de 1954

» Local: Wankdorf Stadium, em Berna (Suíça)

» Público: 62.500 espectadores

» Árbitro: William Ling (Inglaterra)

» Alemanha Ocidental: Toni Turek; Jupp Posipal e Werner Kohlmeyer; Horst Eckel, Werner Liebrich e Karl Mai; Helmut Rhan, Max Morlock, Ottmar Walter, Fritz Walter e Hans Schäfer. Técnico: Sepp Herberger.

» Hungria: Gyula Grosics; Jenö Buzánszky e Mihály Lantos; József Bozsik, Gyula Lóránt e József Zakariás; Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Ferenc Puskás e Nihály Tóth. Técnico: Gusztáv Sebes.

(*) A suspeita era alicerçada na súbita resistência alemã e em razão de a Hungria pertencer à designada “Cortina de Ferro”, expressão que descrevia a divisão política, militar e ideológica da Europa durante a “Guerra Fria”, usada pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill num discurso em 1946, quando afirmou que uma “cortina de ferro” descera sobre a Europa, separando o Bloco Ocidental – E.U. da América e democracias europeias – e o Bloco Oriental – dominado pela União Soviética e composto por regimes comunistas no leste europeu, incluindo a Hungria – os quais representavam censura e controlo político, limitação da circulação de pessoas e forte dispositivo militar que incluía muros, cercas e vigilância fronteiriça – cujo símbolo mais conhecido foi o “Muro de Berlim”, derrubado em 1989. Do ponto de vista político não seria conveniente uma vitória Oriental. Porém, é uma hipótese sem comprovação.

Fontes principais: gq.globo.com; maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1950: Ghiggia, ‘herói’ do Maracanazo

Cartaz da Copa do Mundo de 1950. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, foi uma das mais dramáticas da história. Foi a primeira Copa depois de 12 anos de interrupção, já que os Mundiais de 1942 e 1946 não aconteceram devido à Segunda Guerra Mundial. O torneio marcou a retomada da competição e terminou com o episódio mais famoso e trágico do futebol brasileiro: o ‘Maracanazo’, a vitória do Uruguai sobre o Brasil por 2x1 no Maracanã.

O primeiro grande acontecimento foi o próprio contexto da competição. O Brasil queria mostrar modernidade, entusiasmo popular e capacidade de organizar um grande evento. Para isso, foi construído o Maracanã, no Rio de Janeiro, concebido como um estádio gigantesco: na época, podia receber perto de 200 mil espectadores em pé, embora a assistência oficial do jogo decisivo tenha sido de 173.850 espectadores.

A Copa também teve muitas ausências e desistências. A Alemanha e o Japão ainda estavam afastados do cenário internacional após a guerra porque pertenciam ao ‘Eixo’, derrotado pelos ‘Aliados’, e a Índia, embora classificada, acabou não participando sob o pretexto de que a FIFA não permitia que os atletas jogassem descalços, mas o verdadeiro problema foram as dificuldades financeiras de uma longa viagem de navio. Turquia e Escócia também desistiram e em seu lugar foram convidadas as seleções de Portugal, França e Irlanda, que declinaram o convite; os franceses desistiram porque teriam que percorrer três mil quilómetros para realizarem os seus jogos.

A situação mais trágica foi a dos italianos, cuja Seleção seria uma dos favoritas a conquistar a Copa, principalmente com atletas da fabulosa equipe do Torino. Porém, faleceram um ano antes na 'Tragédia de Superga' quando em maio de 1949 um avião Fiat G.212, da Avio Linee Italiane, colidiu com o muro da Basílica de Superga, morrendo 31 pessoas entre jogadores, treinadores e funcionários do Torino.

Feitas as contas, o Mundial ficou com 13 seleções apenas, como em 1930.

A II Grande Guerra interrompeu as Copas do Mundo e a sequência do Botafogo como maior fornecedor de jogadores para cada Copa, alguns dos quais, com Heleno de Freitas pontificando, seriam indiscutivelmente titulares nas suprimidas Copas de 1942 e 1946. Em 1950 apenas o então jovem Nilton Santos foi convocado, mas permaneceu na reserva durante a competição em que Barbosa foi injustamente excomungado, visto que a haver um responsável principal pela derrota na final só poderia ser o técnico Flávio Costa que cometeu o erro fatal de não saber gerir a dimensão mental da equipe brasileira.

Uma peripécia importante foi o formato incomum. Ao contrário da ideia tradicional de uma final única, a Copa de 1950 teve uma fase inicial por grupos e depois um quadrangular final com Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia. O campeão seria decidido por pontos. Por isso, tecnicamente, Brasil x Uruguai não era uma final oficial, mas na prática tornou-se uma verdadeira final porque chegou-se à última rodada com o Brasil precisando apenas empatar e o Uruguai obrigado a vencer.

O Brasil chegou ao quadrangular final em clima de euforia. Na fase decisiva, goleou a Suécia por 7x1 e a Espanha por 6x1, exibindo um futebol ofensivo que encantou a torcida. A confiança era tão grande que parte da imprensa e da população já tratava o título como praticamente conquistado antes do jogo contra o Uruguai.

O Uruguai, por outro lado, teve uma campanha menos vistosa, mas muito resiliente. A seleção uruguaia trazia a memória de sua tradição olímpica e mundial – campeã olímpica em 1924 e 1928 e campeã da Copa de 1930 – e entrou no jogo decisivo como azarão, mas não como equipe sem história. O capitão Obdulio Varela tornou-se uma figura central pela liderança emocional e pela capacidade de esfriar o jogo quando o Brasil abriu o placar.

Estádio do Maracanã, o Colosso de 1950. Reprodução.

O momento mais famoso veio em 16 de julho de 1950, no Maracanã. O Brasil saiu na frente no início do segundo tempo, com gol de Friaça. O estádio parecia caminhar para a festa esperada, porém o Uruguai empatou com Juan Alberto Schiaffino e aos 79’ Alcides Ghiggia marcou o gol da virada. O placar final, Uruguai 2x1 Brasil, produziu um silêncio histórico no Maracanã e entrou para a memória do futebol como o ‘Maracanazo’.

Uma das peripécias mais lembradas é que já havia clima de celebração brasileira antes da partida. Segundo relatos históricos, jornais e autoridades preparavam homenagens ao Brasil campeão. A derrota transformou a festa em trauma nacional. O goleiro brasileiro Barbosa acabou injustamente marcado por décadas como símbolo da derrota, embora o resultado tenha sido coletivo e o Uruguai tenha vencido por mérito.

Aliás, toda a comitiva brasileira, no auge da euforia, parece ter esquecido que no dia 6 de maio de 1950 o Uruguai tinha vencido o Brasil por 4x3 na Copa Rio Branco, e que apesar de o Brasil lhe ter ganho os dois jogos seguintes dessa Copa, por 3x2 e 1x0, era uma Seleção com muitas tradições e difícil de superar.

A Inglaterra participou pela primeira vez de uma Copa do Mundo e sofreu uma das maiores zebras da história: perdeu em Belo Horizonte por 1x0 para os amadores da América (E.U. da), que entre outras profissões eram carteiros e empregados de mesa – e o caso até poderia ter sido designado por ‘Belorizontazo’. O resultado foi tão inesperado que quando chegou a Londres o telegrama dando conta do placar (0x1), vária agências de informação consideraram que havia sido lapso do número 1 a menos antes do zero e anunciaram a vitória inglesa por 10x1, tornando-se uma das grandes histórias do Mundial e evidenciando que a Copa já não era apenas uma competição entre potências tradicionais.

No fim, o Uruguai conquistou o seu segundo título mundial, depois de ter vencido a primeira edição da Copa em 1930. A vitória teve dimensão quase mítica: uma Seleção pequena, enfrentando o país anfitrião, diante de uma multidão imensa, num jogo em que quase todos esperavam a consagração brasileira. Para o Brasil, a derrota teve impacto profundo e influenciou até debates posteriores sobre identidade, pressão emocional e a própria camisa da seleção.

Em suma, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a volta da Copa após a guerra, a construção do Maracanã, o formato estranho com quadrangular final, as desistências e ausências, a estreia frustrante da Inglaterra com derrota para os americanos, as goleadas brasileiras contra Suécia e Espanha, a confiança exagerada antes do último jogo, a liderança uruguaia de Obdulio Varela, os gols de Schiaffino e Ghiggia, e o trauma histórico do Maracanazo.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Uruguai 2x1 Brasil

» Gols: Friaça, aos 47’ (Brasil); Schiaffino, aos 66’, e Ghiggia, aos 79’ (Uruguai)

» Data: 16.07.1950

» Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (Brasil)

» Brasil: Barba; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Técnico: Flávio Costa.

» Uruguai: Roque Máspoli; Matías González e Eusébio Tejera; Schubert Gambetta, Obdulio Varela e Victor Rodríguez Andrade; Alcides Ghiggia, Júlio Pérez, Óscar Míguez, Juan Alberto Schiaffino e Rúben Morán. Técnico: Juan López Fontana.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Entre o céu e o inferno (VIII): da derrocada financeira à mais brilhante campanha na Copa Libertadores (2015-2017)

Carlos Eduardo Pereira indicando a porta de saída a Maurício Assumpção. Crédito: Thiago Pinheiro.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

As eleições do Botafogo para o triênio 2015-2017 e a transição para a nova Diretoria, liderada por Carlos Eduardo Pereira, foram agitadas em face do legado de Maurício Assumpção.

As contas do ano fiscal de 2014 foram reprovadas pelo Conselho Deliberativo e o ex-presidente, que terminara a sua gestão totalmente isolado, foi posteriormente humilhado.

Em 2012, com a contratação de Clarence Seedorf, Assumpção tornou-se um popstar junto da torcida, chegando a ir às lágrimas em Macapá, durante o evento ‘Feijão do Fogão’, ao ser recepcionado como uma ‘estrela do time’, formando-se filas tão longas para autógrafos que se assemelhavam às filas de autógrafos para Túlio ‘Maravilha’ após a campanha do Brasileirão de 1995.

Em 2014, já depois das peripécias ocorridas com o Engenhão, e com a gestão de Assumpção seguindo um rumo temeroso, muito contestado pela torcida, o mandatário isolou-se, deixou de atender no seu consultório e sequer tornou a ir aos treinamentos da equipe de futebol.

Na ótica de Marcelo Guimarães, que apoiou Assumpção para o primeiro mandato e foi seu concorrente derrotado nas eleições para o segundo mandato de Assumpção, “ele se descolou da realidade. Clubes têm orçamentos e enquadram suas despesas de acordo com as receitas.” – considerou Guimarães, que acrescentou: – “O grande erro foi abrir mão de um processo de profissionalização que vinha dando certo no primeiro mandato.”

Dessa oposição nasceu um novo termo cunhado por Guimarães para caracterizar a troca da profissionalização pelo regresso ao amadorismo: a ‘Turma da Praia’, aludindo aos amigos de Assumpção no tempo em que era diretor de futebol de praia do América.

A chapa eleita para o período de 2015-2017 era composta, entre outros cargos, pelo Presidente, Carlos Eduardo Pereira, pelo Vice-presidente Geral, Nelson Mufarrej, e pelo Vice-presidente de Finanças, Bernardo Santoro, neste caso um homem que sugerira e publicara um verdadeiro programa de recuperação do Clube, ainda no tempo de Assumpção.

Equipe da Taça Guanabara. Internet | Reprodução.

No entanto, face a uma situação financeira típica de bancarrota, a equipe financeira confrontou-se com contas bloqueadas, dívidas trabalhistas e a necessidade de renegociar patrocínios para garantir a sobrevivência do Clube no primeiro ano de gestão.

Todavia, pouco mais de um ano depois de tomar posse, por entre inúmeras dificuldades financeiras, de cujo 'buraco' não se via o fundo, Santoro demitiu-se no dia 26 de abril de 2016, alegando “incompatibilidade de tempo por questões profissionais”…

Maurício Assumpção foi, entretanto, acusado de irregularidades com base num parecer apresentado pelo Departamento Jurídico com acusações de improbidade administrativa, prejuízo ao patrimônio do Clube, favorecimento a amigos e empréstimo sem destino especificado, entre outras acusações.

Em agosto de 2016, em decisão unânime, Maurício Assumpção foi expulso do quadro social do Botafogo de Futebol e Regatas, tornando-se o primeiro ex-presidente impugnado em toda a história do Clube. Faleceu em 2023.

Em 2015, apesar da instabilidade, o futebol do Botafogo, contra todas as expectativas, iniciou o campeonato estadual com o pé direto, conquistando a Taça Guanabara de pontos corridos, já sob o comando de René Simões, que substituíra o fraco Vagner Mancini.

O Botafogo conquistou o título vencendo o Macaé na última rodada por 1x0 e beneficiando do empate por 0x0 entre Flamengo e Nova Iguaçu. A atribuição do título foi impressionante: Botafogo e Flamengo registraram empates por pontos, vitórias, saldo de gols e gols a favor, tendo o título sido decidido apenas pelo resultado do confronto direto entre os dois clubes, que o Botafogo vencera por 1x0.

No jogo que permitiu o título o Botafogo venceu o Macaé no Estádio Olímpico Nilton Santos, por 1x0, gol de Elvis, aos 38’. A equipe formou com Renan; Luís Ricardo (Gilberto), Renan Fonseca, Alisson e Carleto; Diego Giaretta; Willian Arão, Fernandes e Elvis; Jobson (Sassá) e Henrique (Bill). Técnico: René Simões.

Pormenores do título em https://mundobotafogo.blogspot.com/2015/04/botafogo-conquistou-taca-guanabara-2015.html

Apontado como a 4ª força do Rio de Janeiro, o Botafogo desmentiu os favoritismos dos adversários, destacando-se com a dupla Bill e Jobson em partidas decisivas.

Rodrigo Pimpão, artilheiro da Copa Libertadores igualando Jairzinho e Dirceu. Crédito: Eduardo Carmim | Photo Premium.

Nas semifinais do Estadual o Botafogo foi vencido pelo Fluminense por 2x1 e no jogo de volta venceu o Fluminense pelo mesmo resultado, tendo a disputa dramática ocorrido com 11 pênaltis para cada lado. O Botafogo venceu por 9x8 com os goleiros decidindo a classificação – Renan converteu, Diego Cavalieri desperdiçou e o Botafogo rumou para a final, na qual perdeu ambos os jogos para o Vasco da Gama.

Entretanto, iniciou-se o Campeonato Brasileiro – série B e houve troca de comando da equipe, com Ricardo Gomes a substituir René Simões. Efetuando dois turnos muito regulares, o Botafogo assegurou o regresso à série A na antepenúltima rodada e sagrou-se campeão brasileiro B antecipadamente na penúltima rodada.

No jogo do título, realizado no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, o Botafogo derrotou o ABC por 2x1, gols de Roger Carvalho, aos 8’, e Willian Arão, aos 32’. A equipe, comandada por Ricardo Gomes, formou com Jefferson; Luís Ricardo, Renan Fonseca, Roger Carvalho e Diego Giaretta; Rodrigo Lindoso, Willian Arão, Fernandes (Elvis) e Daniel Carvalho (Lulinha); Neilton e Navarro (Ronaldo).

Pormenores do título em https://mundobotafogo.blogspot.com/2022/10/2015-botafogo-campeao-brasileiro-de.html

Em 2016 o Botafogo não conquistou nenhum título de futebol na equipe principal e o seu técnico, Ricardo Gomes, após 1 ano e 21 dias ao leme do Glorioso, acabou por aceitar uma proposta para comandar o São Paulo, em virtude de a Diretoria alvinegra não cumprir compromissos verbais que estabelecera com o técnico.

Em boa hora, o jovem Jair Ventura, filho do consagrado ‘Furacão’ da Copa do Mundo de 1970, foi contratado para substituir Ricardo Gomes, não se queixando dos reforços que não chegaram e adequando o plantel à realidade do Botafogo e ao que, na sua perspectiva, seria o ‘possível’ e o ‘realizável’.

Novamente o Botafogo superou as expectativas e terminou num confortável 5º lugar, classificando-se para as eliminatórias da Copa Libertadores da América. A equipe baseou-se numa defensiva muito bem montada e em velocidade nas transições ofensivas.

A mesma estratégia foi prosseguida na Libertadores em 2017 e o Botafogo foi a sensação da mais importante competição continental, vencendo cinco ex-campeões sul-americanos que em conjunto conquistaram 13 Copas Libertadores.

Jair Ventura, comandante do Botafogo na Copa Libertadores. Fonte: Arquivo da Gazeta Esportiva.

Eis os resultados da campanha: 1ª Eliminatória, Colo-Colo (2x1, 1x1); 2ª eliminatória, Olímpia (1x0, 0[3]x1[1]); Fase de Grupos, Estudiantes (2x1, 0x1), Barcelona Guayaquil (1x1), Atlético Nacional (2x0, 1x0); Oitavas-de-final, Nacional (Uruguai) (1x0, 2x0). Nas Quartas-de-final o Botafogo foi eliminado pelo Grêmio (0x0, 0x1) com uma arbitragem muito ‘marota’.

Súmulas da campanha em https://mundobotafogo.blogspot.com/2017/09/botafogo-gloriosa-campanha-na-taca.html

No Campeonato Brasileiro de 2017 o Botafogo acercou-se da classificação para a Copa Libertadores, mas acabou por se classificar em 10º lugar, a 2 pontos das eliminatórias de acesso à maior competição continental, registrando 14V, 11E, 13D e saldo positivo de 3 gols (45 a favor e 42 contra).

Nos últimos jogos Jair Ventura tentou tirar a pressão dos seus jogadores, mas foi infeliz na sua comunicação pública e caiu em ‘desgraça’ na torcida botafoguense. O técnico falou assim:

A gente fala em obrigação. Você já escalou o Monte Everest? Não podemos ter obrigação com uma coisa que nunca aconteceu. O Botafogo nunca foi em dois anos seguidos para a Libertadores. Nunca fui à Lua. Vamos procurar essa classificação, mas sem pressão.”

E assim, 1 ano e 131 dias depois, Jair deixou o cargo de treinador do Botafogo no dia 22 de dezembro de 2017.

Neste mandato do presidente Carlos Eduardo Pereira e do vice-presidente Nelson Mufarrej iniciou-se o descarte de diversas modalidades históricas do Botafogo, começando pelo voleibol masculino, que após uma campanha espetacular na Série B do Campeonato Brasileiro ascendeu ao direito de disputar a elite do voleibol nacional em 2018, mas a equipe principal foi frustrantemente extinta.

É certo que modalidades como o Basquetebol e o Polo Aquático conseguiram crescer e ganhar protagonismo, conquistando título continentais, embora no polo aquático tenha sido muito a expensas dos próprios jogadores e suas famílias, mas esse capital desportivo foi desbaratado na diretoria.

Carlos Eduardo Pereira terminou o mandato sem cumprir a legítima aspiração dos sócios torcedores do Botafogo de terem direito a voto, reservado a uma minoria clássica de sócios-proprietários.

Fontes principais: ge.globo.com; mundobotafogo.blogspot.com; oglobo.globo.com; www.lance.com.br.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1938: Itália, a primeira seleção bicampeã

Cartaz da Copa do Mundo de 1938. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1938, realizada em França, de 4 a 19 de junho, foi a terceira edição do Mundial e a última antes da interrupção causada pela Segunda Guerra Mundial. A Itália confirmou o título de 1934 ao vencer a Hungria por 4x2 na final, tornando-se a primeira seleção a defender com sucesso o título mundial.

A competição começara marcada por tensão política. A escolha da França como sede provocou irritação na América do Sul, porque muitos esperavam uma alternância entre Europa e América depois da Copa de 1934, também europeia. Isso contribuiu para ausências importantes, como Argentina e Uruguai. A Espanha também não participou por causa da Guerra Civil Espanhola.

Uma das maiores peripécias aconteceu antes mesmo do pontapé inicial: a Áustria, que se tinha classificado e ainda era associada ao prestígio do antigo Wunderteam, deixou de existir como seleção independente após o Anschluss, a anexação pela Alemanha nazista (*) em março de 1938. Alguns jogadores austríacos foram incorporados à seleção alemã, mas a vaga austríaca ficou vazia; por isso, a Suécia avançou diretamente para as quartas-de-final sem jogar a primeira eliminatória.

O formato voltou a ser de eliminação direta, como em 1934, sem fase de grupos. Se houvesse empate, jogava-se prolongamento; se o empate continuasse, havia jogo de repetição. A edição de 1938 foi a última Copa d Mundo a usar esse sistema inteiramente eliminatório.

O Botafogo Football Club continuou sendo o Clube que mais jogadores cedeu para a Copa do Mundo de 1938: Nariz, Martim, Perácio, Zezé e Patesko (a par do Fluminense também com cinco jogadores).

Equipe do Botafogo em 1948 (colorizada): da esquerda para a direita, em cima, Zezé, Martim, Canali, Aymoré, Nariz e Lino; em baixo, Álvaro, Carvalho Leite, Paschoal, Perácio e Patesko. Foto original: Castro, Alceu Mendes de Oliveira (1951).O Futebol no Botafogo (1904-1950). Rio de Janeiro: Gráfica Milone, Ltda.

Logo na primeira fase houve jogos caóticos. A Alemanha, reforçada por jogadores austríacos, empatou com a Suíça e precisou de repetição. No segundo jogo, chegou a estar vencendo por 2x0, mas acabou derrotada por 4x2, sendo eliminada logo na estreia. Foi uma das grandes surpresas do torneio.

Outra história curiosa foi a de Cuba, estreante em Copas. Os cubanos eliminaram a Romênia após um empate e um jogo de repetição, chegando inesperadamente às quartas-de-final. A aventura acabou de forma pesada: a Suécia, que estreava só nessa fase devido à ausência austríaca, venceu Cuba por 8x0.

O Brasil teve uma das campanhas mais memoráveis. Na estreia, venceu a Polônia por 6x5 após prolongamento, num dos jogos mais espetaculares da história das Copas. Leônidas da Silva, o ‘Diamante Negro’, foi o grande nome brasileiro do jogo com um hat-trick e terminou como artilheiro do torneio, com 7 gols. A curiosidade é que Leônidas entrou para a história por ter feito um gol descalço: estava apertando a chuteira perto da área da Polônia e recebeu um ‘presente’ do goleiro, que escorregou na marcação de um tiro de meta, ele correu para a bola com a chuteira na mão e marcou o gol – que atualmente seria obviamente anulado.

Brasil e Tchecoslováquia fizeram outro jogo marcante nas quartas-de-final, conhecido pela violência e pelas lesões. O primeiro confronto terminou empatado após prolongamento e precisou ser repetido. Na repetição, o Brasil venceu por 2x1, enquanto os tchecos ficaram desfalcados por lesões importantes sofridas no jogo anterior.

A semifinal entre Itália e Brasil também entrou para a história. O Brasil não contou com Leônidas, explicando o acontecimento publicamente como uma mistura de lesão e opção de preservá-lo para uma possível final. Sem o seu maior craque, a Seleção Brasileira perdeu por 2x1 para a Itália. Do outro lado, a Hungria goleou a Suécia por 5x1 e avançou com força para a decisão.

A final foi disputada no Stade Olympique de Colombes, em Paris. A Itália abriu o placar cedo, a Hungria empatou rapidamente, mas os italianos retomaram o controle e chegaram ao intervalo vencendo por 3x1. O resultado final foi Itália 4x2 Hungria, com dois gols de Gino Colaussi e dois de Silvio Piola.

Brasil 6x5 Polônia. Pilkars – http://www.om4ever.com.

Também ficou famosa a história de que Mussolini teria enviado à Seleção Italiana, antes da final, um telegrama com a frase “Vitória ou morte!”. A Itália de Vittorio Pozzo jogava sob enorme carga simbólica e política, representando o regime fascista num ambiente europeu cada vez mais tenso. Mais tarde, o goleiro magiar Antal Szabo declarou: “Sofri quatro gols, mas salvei a vida de 11 homens.”

Em resumo, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a Copa disputada às vésperas da Segunda Guerra, a ausência de várias seleções importantes, a retirada da Áustria após o Anschluss, a eliminação precoce da Alemanha, a surpresa cubana, os jogos dramáticos do Brasil, o brilho de Leônidas, a polémica ausência dele na semifinal, e o bicampeonato italiano contra a Hungria.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 4x2 Hungria

» Gols: Gino Colaussi, aos 6’ e 35’, e Silvio Piola, aos 16’ e 82’ (Itália); Pal Titkos, aos 8’, e Gyorgy Sarosi, aos 70’ (Hungria)

» Data: 19.06.1938

» Local: Stade Olympique de Colombes, em Paris (França)

» Itália: Aldo Olivieri, Alfredo Foni, Amedeo Biavati, Gino Colaussi, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Michele Andreolo, Pietro Rava, Pietro Serantoni, Silvio Piola e Ugo Locatelli. Técnico: Vittorio Pozzo.

» Hungria: Antal Szabo, Antal Szalay, Ferenc Sas, Gyorgy Sarosi, Gyorgy Szucs, Gyula Lazar, Gyula Polgar, Gyula Zsengeller, Jeno Vincze, Pal Titkos e Sandor Biro. Técnico: Karoly Dietz.

(*) A etimologia da expressão “nazismo” tem origem no alemão ‘nazismus’, que por sua vez deriva de ‘nazi’, um apelido usado para se referir aos membros do partido de Adolf Hitler. Nazi era originalmente abreviação coloquial de nomes alemães, usada às vezes de forma pejorativa para sugerir alguém simplório ou provinciano. O nazismo era um movimento ultranacionalista, autoritário e racista. Curiosamente, a suástica, símbolo adotado pelo partido, é muito mais antiga que o nazismo. Existe há milhares de anos em várias culturas da Europa, Ásia, África e Américas, associada a ideias positivas como sorte, prosperidade, eternidade, movimento ou espiritualidade. A designação vem do sânscrito ‘svastika’, que significa “bem-estar”, “boa fortuna” ou “aquilo que traz auspício”.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.om4ever.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

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