por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
Arlindo dos Santos Cruz
nasceu no dia 26 de abril de 1940, em Vitória, estado do Espírito Santo, filho
do pescador Manoel dos Santos Cruz e de Maria Espôsa dos Santos Cruz, foi meia
atacante e uma das grandes revelações do Botafogo de Futebol e Regatas na
década de 1960.
Aos 12 anos de idade, juntamente com o irmão,
ajudava o pai na pesca, mas depois girou por diversas profissões como aprendiz
de pedreiro, carpinteiro e sapateiro, até que se empregou numa empresa que
comercializava cacau e simultaneamente jogava em equipes de futebol de várzea.
Entretanto integrou os quadros amadores do EC
Vitória por um breve período e posteriormente tentou a sua sorte no América,
por interferência de Evergisto de Almeida, grande amigo da família, tendo então
viajado para o Rio de Janeiro, mas contraiu uma ferida no pé, não pôde treinar,
engordou e acabou perdendo a oportunidade.
Posteriormente Arlindo treinou no Bangu e no
Madureira, mas como não tinha incentivos financeiros enveredou novamente por se
empregar numa empresa comercial, continuando a jogar na várzea, pelo Villa FC, de
Honório Gurgel, do qual Roberto Fux era diretor, o qual acabou por levar
Arlindo para o Fluminense, mas o técnico Zoulo Rabelo não se interessou pelo
futuro craque botafoguense.
Foi num desses jogos amadores, num tempo em
que esses campeonatos dispunham de bastante prestígio, que Amsterdam
Cavalcanti, funcionário do jornal ‘Tribuna de Imprensa’, encaminhou Arlindo para
o Botafogo, em 1959, tornando-se parte efetiva da equipe juvenil do Glorioso e
conquistando o tricampeonato estadual da categoria em 1961-1962-1963.
Arlindo narrou assim, para a Revista do
Esporte (nº 186, de setembro de 1962), a sua chegada ao Glorioso: – “Encontrei no Botafogo o melhor ambiente de
todos os clubes em que estive treinando. Gente de fama, de cartaz
internacional, mas de uma simplicidade a toda a prova. Deixaram-me à vontade
como se eu já fosse um veterano do plantel.”
No campeonato juvenil de 1961, o Botafogo somou 16 vitórias, 6 empates e 2 derrotas, com saldo de gols favorável em 53-20. Arlindo alinhou ao lado de futuros campeões como Roberto Miranda, Dimas, Jairzinho, Othon Valentim e Mura. Os artilheiros foram Arlindo, com 17 gols, e Roberto, com 12 gols.
No bicampeonato de 1962 o Botafogo somou 20
vitórias e 2 derrotas, com saldo de gols favorável em 75-12. A equipe base era
formada por Florisval; Mura, Zé Carlos, Admilton e Adevaldo; Luís Carlos e
Arlindo; Dagoberto, Roberto Miranda, Othon e Iroldo. Técnico: Paraguaio.
Nesse mesmo ano Arlindo subiu à equipe
principal e jogou 14 partidas, estreando como profissional no dia 30 de agosto
de 1962, no Estádio de General Severiano, em vitória sobre o Canto do Rio por
2x0, gols de Quarentinha, aos 40’, e Amarildo, aos 83’ (pen.), em jogo válido
pelo Campeonato Carioca, no qual Arlindo se sagrou campeão. Sob o comando de
Marinho Peres o Botafogo formou com Manga; Joel, Zé Maria, Nilton Santos e
Rildo; Airton e Arlindo; Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo.
Nesse ano de 1962 – o chamado ‘Ano de Mané’ –
o Botafogo sagrou-se Bicampeão Carioca profissional ao vencer a decisão sobre o
Flamengo com três gols de Garrincha, mas Arlindo não disputou essa final. O
Glorioso somou 17 vitórias, 5 empates e 2 derrotas, com saldo de gols favorável
em 49-14. Os artilheiros foram Quarentinha, com 17 gols, e Amarildo, com 15
gols.
Em simultâneo com a sua presença na equipe
principal, Arlindo tornou a atuar no juvenil, sagrando-se tricampeão em 1963,
tendo o Botafogo somado 19 vitórias e 3 empates, sagrando-se campeão invicto
com 56 gols marcados e apenas 7 sofridos. Os maiores artilheiros foram Dedé, 16
gols; Othon Valentim, 11 gols; Roberto Miranda, 11 gols; Arlindo, 7 gols. Foram
utilizados Adevaldo, Arlindo, Canavieira, Carioca, Dagoberto, Dedé, Dimas,
Florisvaldo, Hélio, Jairzinho, João da Mata, Luiz Carlos, Mura, Othon Valentim,
Roberto César, Roberto Miranda, Zé Alves e Zé Carlos.
Nesse mesmo ano Arlindo participou e conquistou pelo Botafogo o Torneio Início do Campeonato Carioca (1963), mas a sua grande conquista foi a disputa do Campeonato Pan-Americano em representação da Seleção Brasileira, disputado por pontos em grupo único de todos contra todos, e o Brasil venceu o Uruguai por 3x1, os E.U. da América por 10x0, o Chile por 3x0 e no último e decisivo jogo, no dia 3 de maio de 1963, o Brasil empatou com a Argentina por 2x2, gols de Airton e Othon, sagrando-se campeão pan-americano. Comandada por Antoninho Fernandes a equipe formou com Heitor; Carlos Alberto, Zé Carlos, Adevaldo e Riva; Nenê, Íris e Arlindo; Airton Beleza, Jairzinho e Othon Valentim.
Em 1964 Arlindo conquistou diversos torneios
amistosos, designadamente o Torneio Magalhães Pinto, o Torneio Jubileu de Ouro
da Associação de Futebol de La Paz (Bolívia) e o Torneio Quadrangular do
Suriname, mas a maior conquista desse ano foi o Torneio Rio-São Paulo. Ao final
da competição Botafogo e Santos estavam empatados e teriam que decidir o título
em dois jogos. No 1º jogo, realizado no Maracanã, no dia 10 de janeiro de 1965,
o Botafogo venceu o Santos por 3x2, formando com Manga; Mura, Zé Carlos, Paulistinha
e Rildo; Élton e Gérson; Garrincha (Zagallo), Jairzinho (Adevaldo), Arlindo e
Roberto Miranda (Hélio Dias). Técnico: Geninho.
Todavia, na medida em que o Botafogo e o
Santos tinham contratos para excursionar no final da competição, estiveram
indisponíveis para o 2º jogo e o título foi atribuído aos dois clubes.
Entretanto, Arlindo tornara-se uma grande
promessa para a Copa do Mundo de 1966, a disputar em Inglaterra, mas do México
chegou uma proposta irrecusável, vinda do Club de Fútbol América, que assegurava
ao craque um contrato por dois anos e luvas de 7.500 dólares (13 milhões de
cruzeiros). Arlindo solicitou, então, a sua saída, argumentando que poderia
melhorar substancialmente a sua qualidade de vida e adquirir casa para os seus pais.
A indignação de Conselheiros e torcedores
influentes não demoveu Arlindo, que rumou ao México após jogar ao lado de
grandes craques botafoguenses, alguns dos quais campeões mundiais em 1958, 1962
e 1970, nomeadamente Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Zagallo,
Jairzinho, Roberto Miranda, Quarentinha, Manga, Joel, Zé Carlos, Paulistinha,
Pampolini, Neivaldo, entre outros.
Em terra mexicanas Arlindo foi titular do América logo que chegou em 1965 e conquistou o campeonato mexicano da temporada 1965-1966, que fugia ao América há 37 anos, mas depois teve que realizar uma delicada cirurgia a um aneurisma cerebral, recuperando-se a tempo de se eternizar no Estádio Azteca, pelo menos enquanto o estádio existir.
Efetivamente, Arlindo entrou para a história
do futebol do país ao marcar o 1º gol no novo e belíssimo Estádio Azteca, de
arquitetura inovadora, e que viria a ser um dos únicos estádios a acolher duas
Copas do Mundo, em 1970 e 1986.
Defrontaram-se, então, o América e o Torino,
de Itália, no dia 29 de maio de 1966, empatando por 2x2, gols de Arlindo e
Zague para o América, ambos jogadores brasileiros. O 1º gol é assim narrado na
Wikipédia sobre o ‘Estadio Azteca’ (em língua espanhola): “El primer gol lo anotó el jugador brasileño del América, Arlindo dos
Santos, a los 10 minutos de juego; tras un veloz avance por la banda derecha,
al amazónico, al borde del área, tiró y el balón se coló al ángulo superior
derecho de la portería defendida por el italiano Vieri.”
GOLAÇO! (visite-o em https://www.youtube.com/watch?v=5VY4Xv8OyUo).
Arlindo tem uma placa gravada com o seu nome
em lugar nobre no Estádio Azteca, aludindo ao 1º gol, e referências históricas
no “Coloso de Santa Úrsula”, assim
também designado o estádio em virtude do bairro onde se localiza.
Após a sua vitoriosa estadia do América
(1965-1967), Arlindo seguiu para o Pachuca (1967-1968), regressou ao América
(1968-1969) e posteriormente ingressou no Deportivo Toluca (1969-1970).
Entretanto regressou ao Brasil e tornou a
jogar no Botafogo (1970), fazendo a sua despedida definitiva do Clube no dia 19
de setembro de 1970, no Estádio da Gávea, em empate por 0x0 com o América, em
partida válida pelo Campeonato Carioca. Sob o comando de Mário Zagallo, o
Botafogo formou com Ubirajara Motta; Moreira, Moisés, Osmar e Botinha; Nei
Conceição e Arlindo (Betinho); Zequinha, Nílson Dias, Ferretti e Careca.
Após o Botafogo o craque ainda atuou pelo São
Cristóvão (1972) e depois pelo Madureira (1973-1974), aposentando-se em
seguida.
Entretanto, após a sua aposentação como futebolista,
Arlindo teve uma experiência pioneira como treinador, alcançando o apogeu no
Catar. Depois regressou ao México, foi treinador de juvenis e recebeu a
nacionalidade mexicana. Mais tarde tornou-se proprietário de um restaurante na
capital do país, onde continua a viver.
Em entrevista de Arlindo ao ge.globo.com em
2008, mencionou estar muito grato ao Club de Fútbol América e definiu-se
surpreendentemente assim quanto aos seus relacionamentos clubistas: “Sou Vasco de nascimento, Botafogo de coração
e brilhei no América do México. Jamais torceria para o Flamengo. Aliás, sou
antiflamenguista.”
Recentemente (2024) foi publicado o livro ‘El
Primer Grito de Gol del Azteca’ no qual Arlindo relata a sua vida desde a
infância.
Fontes: arogeraldes.blogspot.com;
datafogo.blogspot.com;
es.wikipedia.org; en.wikipedia.org;
ge.globo.com;
tardesdepacaembu.wordpress.com;
terceirotempo.uol.com.br;
vitrinecapixaba.blogspot.com;
www.instagram.com/tesorosdeldeportemx;
www.ogol.com.br; www.youtube.com.







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