segunda-feira, 6 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2010: festa Sul-africana, cavadinha de Loco Abreu, título espanhol e fatalismo neerlandês

Cartaz da Copa do Mundo de 2010. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2010, disputada na África do Sul, foi uma das mais simbólicas da história dos Mundiais, que pela primeira vez se realizou em solo Africano e finalmente consagrou a Espanha: o palco deste Mundial representou a expansão global do futebol aos quatro continentes e o vencedor representou o triunfo de uma ideia coletiva de jogo, paciente, técnica e sustentada.

A África do Sul recebeu a Copa como um momento de afirmação nacional e continental num país ainda marcado pela memória do apartheid e pela enorme figura política de Nelson Mandela, numa competição que teve uma dimensão que ultrapassou o futebol. Foi uma oportunidade de mostrar ao mundo uma África do Sul moderna, capaz de organizar um grande evento internacional e de celebrar a diversidade cultural do país. Toda a Copa ficou muito associado à ideia de festa popular, cor, música, dança e orgulho africano. Mesmo com críticas a alguns aspetos organizativos e sociais, o Mundial de 2010 teve um significado histórico profundo: pela primeira vez, África era palco central do futebol mundial.

Nelson Mandela foi a presença simbólica permanente, mesmo sem estar fisicamente muito presente durante a competição. A sua ligação ao desporto como instrumento de reconciliação nacional já vinha do Mundial de râguebi de 1995.

No Mundial de futebol de 2010, Mandela representava a história recente da África do Sul matizada de sofrimento, resistência, reconciliação e projeção internacional. A sua aparição antes da final, ainda que breve, teve enorme carga emocional, consolidando o desporto como linguagem comum num país complexo e desigual.

Porém, do que mais se lembram os espectadores internacionais é do som constante das vuvuzelas, as quais se tornaram a banda sonora da competição, que para muitos constituía um ruído excessivo, repetitivo e perturbador, enquanto para os torcedores sul-africanos as vuvuzelas eram expressão cultural, festa e participação popular, tornando-se símbolo perfeito daquele Mundial e sendo ao mesmo tempo autêntica, local e inesquecível.

Jabulani, a bola mais famosa de todas as Copas do Mundo. Crédito: Divulgação | Adidas.

A bola oficial, a Jabulani, também foi uma das grandes protagonistas do Mundial, que vários jogadores e goleiros criticaram pelo seu comportamento, considerando-a demasiado imprevisível, sobretudo nos remates de longe e nas trajetórias aéreas. A designação da bola significa algo próximo de “celebrar”, em idioma zulu, e tinha intenção festiva, mas acabou associada a polêmica técnica, embora tenha sido uma das bolas mais famosas da história das Copas.

Não obstante, a África do Sul tornou-se a primeira seleção anfitriã a ser eliminada na fase de grupos, embora tenha tido um momento simbólico no jogo inaugural em que Sophiwe Tshabalala marcou um grande gol contra o México, o qual foi acompanhado por uma celebração coletiva que ficou como uma das imagens mais bonitas da competição.

No entanto, a eliminação não diminuiu o orgulho nacional, porque o significado do Mundial para o país, pacificado por Nelson Mandela, ia muito além do resultado desportivo.

A França viveu um dos maiores colapsos internos da história dos Mundiais. A equipe já estava fragilizada desde a fase de qualificação e na África do Sul tudo se desmoronou, entre maus resultados, conflito de jogadores com a equipe técnica e até greve dos jogadores a um treino.

A França foi eliminada na fase de grupos, num ambiente de ‘escândalo’ nacional de país campeão em 1998 e finalista em 2006, mostrando divisão, indisciplina e perda de autoridade.

A Itália, campeã mundial em 2006, também caiu na fase de grupos: empatou com o Paraguai e a Nova Zelândia e perdeu com a Eslováquia em uma eliminação surpreendente e humilhante para uma seleção historicamente competitiva – e reforçando uma das marcas da Copa de 2010 com vários antigos campeões e favoritos chegando desgastados, envelhecidos ou sem renovação suficiente.

As vuvuzelas e a grande celebração Sul-africana. Fonte: www.threads.com.

O Brasil, treinado por Dunga, chegou ao Mundial com uma equipe mais pragmática do que exuberante (Kaká, Robinho, Luís Fabian, Maicon, Daniel Alves, Lúcio, Juan, Júlio César e Felipe Melo).

A equipe parecia forte e competitiva, mas caiu de virada nas quartas de final contra os Países Baixos. Felipe Melo foi expulso e tornou-se símbolo da desintegração emocional brasileira naquele jogo, a qual mostrou a tensão existente entre pragmatismo e identidade estética no futebol brasileiro.

O Gana foi a grande esperança africana do torneio depois da eliminação precoce da África do Sul e de outras seleções africanas, tendo atletas como Asamoah Gyan, Kevin-Prince Boateng, André Ayew, Sulley Muntari e John Mensah. Chegar às quartas de final já era histórico, mas o modo como a eliminação aconteceu tornou tudo mais dramático.

No último minuto da prorrogação, com o jogo empatado, Luiz Suárez impediu com a mão, sobre a linha de gol, um remate que daria provavelmente a vitória ao Gana e foi expulso.

Suárez faz pênalti em cima da linha e salva o Uruguai da eliminação, reacendendo a discussão moral versus resultado. Crédito: Reuter | Kaipfaffenbach.

O Gana teve a seu favor a grande penalidade para fazer história e tornar-se a primeira seleção africana a chegar às semifinais de um Mundial. Porém, Asanoah Gyan acertou na trave, o jogo foi para pênaltis e o Uruguai venceu.

O episódio da infração de Suárez é uma das grandes questões morais do futebol: infringiu deliberadamente a regra, foi punido com expulsão e pênalti, mas a sua ação salvou a equipe. Para os uruguaios, foi sacrifício competitivo; para muitos africanos e observadores neutros, foi uma injustiça cruel.

Com isso o Uruguai fez uma campanha notável, chegando às semifinais pela primeira vez em décadas. A grande figura foi Diego Forlán, que simbolizou o renascimento do Uruguai no palco mundial, marcando gols importantes e jogando um futebol de grande qualidade técnica e de inteligência, tendo sido eleito Bola de Ouro da Copa.

No entanto vale salientar, ainda, a peripécia da última e decisiva cobrança de pênaltis do Uruguai, que coube ao botafoguense Loco Abreu, o qual assumia um papel de veterania na sua equipe e entrou em campo na reta final de partidas importantes, e foi assim que ficou consagrado no Mundial de 2010 depois de ter conquistado o Campeonato Carioca pelo Botafogo batendo um pênalti de ‘cavadinha’ e decidindo o título.

O mundo não soubera dessa Gloriosa ‘cavadinha’ e Loco Abreu repetiu-a no lance decisivo para a classificação do Uruguai às semifinais: ousado e reverente como sempre, Loco Abreu caminhou tranquilamente até à marca dos 11 metros, bateu a ‘cavadinha’ pelo alto ao centro da baliza, enquanto o goleiro pulou para o lado – e Loco Abreu alcançou a consagração absoluta!

Lugano, o goleiro uruguaio, que conhecia bem Loco Abreu, temeu que o craque repetisse a sua famosa ‘cavadinha’ e comentou mais tarde: – “Não queríamos acreditar que ele fosse jogar todo o prestígio da vida dele, da história, e o nosso, arriscando uma cavadinha, não é?”

Mas aquele era o verdadeiro Loco Abreu, ousado, corajoso, imprevisível e sabendo com clareza que são os audazes aqueles que forjam as grandes conquistas.

Loco Abreu, soberbo de audácia na cobrança do pênalti. Crédito: Cameron Spencer | Getty Images.

A Alemanha foi uma das equipes mais entusiasmantes do torneio. Tinha uma geração jovem e dinâmica, como Müller, Özil, Khedira, Schweinsteiger, Lahm, Neuer, Podolski e Klose.

Nas oitavas de final a Alemanha goleou a Inglaterra por 4x1, mas o jogo ficou marcado por um erro clamoroso de arbitragem. Com o resultado favorável aos alemães, Frank Lampard rematou à trave, a bola entrou claramente na baliza, mas o árbitro não validou o gol, reacendendo o debate sobre a necessidade de tecnologia na linha de gol.

Simbolicamente foi a inversão histórica do gol de Geoff Hurst na final de 1966 entre Inglaterra e Alemanha, que bateu na trave, não entrou na baliza e foi validado.

Embora a Alemanha tenha perdido depois com a Espanha nas semifinais, o seu futebol de transições rápidas, organização e eficácia ofensiva prenunciava a vitória que obteve na final do Mundial seguinte, em 2014.

A Argentina, que tinha jogadores como Messi, Tévez, Higuaín, Di María, Mascherando e Verón, começou bem a Copa, com entusiasmo e carisma, treinada por Diego Maradona, o que por si só constituía uma carga simbólica enorme.

Porém, a equipe foi goleada pela Alemanha por 4x0 nas quartas de final, evidenciando a fragilidade tática da equipe. Maradona, figura mítica como jogador, não conseguiu transformar o talento argentino num projeto coletivo suficientemente equilibrado.

Mesmo Lionel Messi, que já era uma grande figura do mundo do futebol, terminou a competição sem um único gol marcado, não tendo influência decisiva e não reproduzindo na Seleção argentina o poder que tinha no Barcelona.

A equipe espanhola conquistou o seu primeiro título mundial, vinda da conquista da Eurocopa em 2008, com uma geração fantástica composta por Casillas, Puyol, Piqué, Sergio Ramos, Xabi Alonso Busquets, Xavi, Iniesta, David Villa, Fernando Torres, e Fàbregas, entre outros.

Decisiva defesa de Casillas na final da Copa do Mundo. Crédito: AFP.

A sua identidade assentava na posse de bola, circulação curta, paciência, pressão após perda e capacidade de desgastar o adversário. Esse estilo ficou associado ao ‘tiki-taka’, através do qual a Espanha usava a posse como modo de controlar riscos, organizar a equipe e limitar o adversário.

Curiosamente, na fase de grupo, a Espanha foi derrotada pela Suíça por 1x0, constituindo um choque para os espanhóis cuja Seleção era considerada uma das favoritas. Porém, a equipe ajustou-se emocionalmente e competitivamente acabando por conquistar o título.

Nas oitavas de final a Espanha eliminou Portugal por 1x0, com gol de David Villa. Portugal tinha uma equipe defensivamente sólida, mas com dificuldades ofensivas. Cristiano Ronaldo ainda estufou as redes, mas, tal como Messi, não foi decisivo para superar as dificuldades da equipe.

Nas quartas de final a Espanha esteve perto de cair, mas venceu o Paraguai por 1x0, sofrendo muito. O jogo teve uma sequência dramática de pênaltis: o Paraguai falhou, depois a Espanha também teve um pênalti defendido. Mais tarde, David Villa marcou o gol decisivo.

David Villa marcou gols decisivos contra Honduras, Chile, Portugal e Paraguai, numa competição em que a Espanha venceu vários jogos por margem mínima e Villa foi essencial.

Na semifinal a Espanha venceu a Alemanha por 1x0, com gol de cabeça de Puyol, após escanteio. Conhecida pelo jogo curto e técnico, a Espanha decidiu a semifinal com um gol de zagueiro num lance de bola parada. Puyol representava liderança, agressividade competitiva e compromisso coletivo e o seu gol abriu a porta à primeira final mundial da Espanha.

Iniesta remata para o título aos 116’. Crédito: Ivo Gonzales | Agência O Globo

Na final contra os Países Baixos, um dos momentos decisivos foi a defesa de Iker Casillas a Arjen Robben. Robben apareceu isolado, com uma oportunidade clara para marcar, mas Casillas conseguiu desviar a bola com o pé e manteve o jogo empatado. Essa imagem ficou como uma das grandes fotografias invisíveis do título: antes do gol de Iniesta, houve a intervenção decisiva de Casillas.

Os Países Baixos chegavam à sua terceira final mundial, depois das derrotas de 1974 e 1978. Procuravam finalmente conquistar o título que escapara à geração do ‘futebol total’. Porém, a final foi tensa, dura e muito física. A entrada de Nigel de Jong sobre Xabi Alonso, com o pé no peito, tornou-se uma das imagens mais fortes do jogo e os Países Baixos foram muito criticados pela agressividade.

A Espanha resistiu, manteve a sua identidade e acabou por vencer na prorrogação, com gol de Andrés Iniesta aos 116 minutos, constituindo o momento clímax da Copa: Iniesta despiu a camisa e mostrou uma mensagem em homenagem a Dani Jarque, antigo capitão do Espanyol, falecido em 2009.

Esse gesto deu ao gol uma dimensão humana e emocional. Não foi apenas o gol do título mundial espanhol; foi também um momento de memória, amizade e respeito. Iniesta, discreto, técnico e elegante, tornou-se o símbolo perfeito daquela Espanha: talento sem exuberância excessiva, inteligência, serenidade e decisão no momento crítico.

Os Países Baixos fizeram uma campanha forte, vencendo todos os jogos até à final, tendo jogadores como Sneijder, Robben, Van Persie, Kuyt, Van Bommel, De Jong e Stekelenburg. Porém, a imagem final foi ambígua, contrariando o futebol criativo historicamente associado ao país e ficando na memória uma equipe mais física, pragmática e, em alguns momentos, demasiado dura.

O Polvo Paul determinando a vitória da Espanha sobre a Alemanha. Crédito: The Irish Sun.

A derrota reforçou uma das maiores simbologias que perduram até hoje no futebol mundial: é o país de grandes equipes como a ‘Laranja Mecânica’, de magníficos jogadores como Cruyjff e Sneijder e de finais perdidas.

Uma das peripécias mais curiosas da Copa de 2010 foi o polvo Paul, o qual ficou famoso por ‘prever’ corretamente vários resultados, sobretudo os jogos da Alemanha. Antes dos jogos eram colocadas duas caixas com comida e bandeiras das seleções. O polvo escolhia uma delas, e essa escolha era interpretada como previsão. Embora evidentemente sem valor científico, o polvo Paul simbolizou o lado lúdico, supersticioso e pop da Copa do Mundo.

Em suma, foi o primeiro Mundial realizado em África, marcou o primeiro título da Espanha na competição, consagrou a geração do ‘tiki-taka’, ficou associada ao som das vuvuzelas, à bola Jabulani, ao polvo Paul, ao drama do Gana contra o Uruguai, à queda precoce de várias potências e à imagem inesquecível de Iniesta a marcar o gol do título na final contra os Países Baixos.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Espanha 1x0 Países Baixos

» Gols: Iniesta, aos 116’

» Data: 11 de julho de 2010

» Local: Estádio Soccer City, Joanesburgo (África do Sul)

» Público: 84.490

» Árbitro: Howard Webb (Inglaterra)

» Disciplina: cartão amarelo – Puyol, Sergio Ramos, Capdevila, Iniesta e Xavi (Espanha) e van Persie, van Bommel, de Jong, van Bronckhorst, Heitinga, Robben, van der Wiel e Mathijsen (Países Baixos); cartão vermelho – Heitinga (Países Baixos)

» Espanha: Iker Casillas; Sergio Ramos, Gerard Piqué, Carles Puyol e Joan Capdevila; Sergio Busquets, Xabi Alonso (Fàbregas), Xavi e Iniesta; Pedro (Jesús Navas) e David Villa (Fernando Torres). Técnico: Vicente del Bosque.

» Países Baixos: Maarten Stekelenburg; Gregory van der Wiel, John Heitinga, Joris Mathijsen e Giovanni van Bronckhorst (Braafheid); Mark van Bommel, Nigel de Jong (Van der Vaart) e Wesley Sneijder; Arjen Tobben, Dirk Kuyt (Elia) e Robin van Persie. Técnico: Bert van Marwijk.

Fontes principais: en.wikipedia.org; football-italia.net; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.

Top 10 de clubes com mais gols de seus jogadores na Seleção

1º BOTAFOGO DE FUTEBOL E REGATAS, 247

2º Santos Futebol Clube, 235

3º Clube de Regatas do Flamengo, 230

4º Sport Club Corinthians Paulista, 161

5º Club de Regatas Vasco da Gama, 159

6º FC Barcelona, 134

7º São Paulo Futebol Clube, 120

8º Sociedade Esportiva Palmeiras, 118

9º Fluminense Football Club, 107

10º Cruzeiro Esporte Clube, 98

domingo, 5 de julho de 2026

Botafogo bicampeão carioca Dente de Leite

Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Botafogo conquistou pela segunda vez consecutiva o Campeonato Carioca Dente de Leite (Sub-6), que decorreu entre 14 e 28 de junho, com 9 clubes divididos em 3 grupos, tendo cada jogo 3 tempos de 8 minutos cada, superando o Fluminense FC na semifinal e o CR Flamengo na final.

Raul Alves, goleiraço do Botafogo. Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

Vinicius Araújo, artilheiro do campeonato. Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

___ CAMPANHA ___

Fase de Grupos: Botafogo 2x0 Arouca. Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

Fase de Grupos: Botafogo 3x0 Sete de Abril. Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

Semifinal: Botafogo 2x2 Fluminense (vitória nos pênaltis). Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

Final: Botafogo 0x0 Flamengo (3x2 pênaltis). Crédito: Instagram cariocadentedeleite2026.

PARABÉNS AOS PEQUENOS ‘GRANDES’ ATLETAS E À ORGANIZAÇÃO!

Botafogo, gols em 5 Copas consecutivas

 
Crédito: Instagram Botafogo.

Copa do Mundo de 2010: festa Sul-africana, cavadinha de Loco Abreu, título espanhol e fatalismo neerlandês

Cartaz da Copa do Mundo de 2010. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo de 2010, disputada na Áfr...