por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
O Botafogo Football Club
e o Botafogo de Futebol e Regatas tiveram grandes dirigentes, desde as
presidências iniciais de Joaquim Antônio de Souza Ribeiro (presidente entre
1905-1907, 1909-1910 e 1915-1916), que faturou os dois primeiros títulos
estaduais (1907, 1910) e desempenhou um papel decisivo para que o nosso Clube
não desaparecesse quando estivemos reduzidos a 12 sócios, até às presidências renovadoras
de Paulo Antônio Azeredo (presidente em 1923-1924, 1926-1936 e 1954-1963), que
colecionou títulos estaduais na equipe de futebol Principal (1930, 1932, 1933,
1934, 1935, 1957, 1961, 1962), nos Juvenis (1935, 1961, 1962), nos Infantis
(1932, 1957), nos Aspirantes (1958, 1959) e nos Terceiros Quadros (1928, 1931),
inaugurou duas sedes e foi o mais longevo de todos os presidentes (21 anos),
além de inúmeros títulos sul-americanos, brasileiros e estaduais em múltiplas
modalidades desportivas.
Paulo Azeredo, nascido
em 1895, teve ainda como característica muito particular ter sido o primeiro
´gandula’ do Botafogo Football Club, quando ainda existiam as palmeiras do
Largo dos Leões como baliza, e só não foi fundador do Botafogo porque tinha
menos de 10 anos de idade. Mais tarde, Flávio Ramos referiu-se a Paulo Azeredo
como “menino também, desmontando do seu
‘poney’ e encostando-se a uma palmeira, para torcer, como nosso primeiro gandula”
(Castro, 1951: 14-15).
O gandula, ainda de
calções, acabou por se tornar atleta e foi campeão estadual da categoria
infantil em 1910, pelo Primeiro Quadro, marcando dois gols, tornou-se veterano
em 1916, benemérito em 1925 e grande benemérito em 1939.
Em 1923 Paulo Azeredo
ascendeu à presidência do Botafogo. Desde 1912 o Botafogo buscava uma garantia
de campo para expandir o seu patrimônio, visando aumentar a arquibancada e
construir a sede social. Foi precisamente o presidente Azeredo que iniciou a
campanha, influenciando o pai, Senador Antônio Azeredo, a interceder pelo
Botafogo, e no dia 2 de janeiro de 1925, o Presidente da República, Arthur
Bernardes, sancionou o decreto do Congresso Nacional que autorizava o
aforamento do imóvel ao Botafogo.
No ano seguinte
regressou à presidência do Glorioso, muito prestigiado pelo seu entusiasmo e
empreendedorismo, e levou uma alma nova ao Clube, renovando a administração e
revolucionando o futebol botafoguense. Alceu Castro refere-se assim ao
presidente: – “Foi eleito presidente o
vulto inconfundível de Paulo Azeredo, que assim iniciou a sua magnífica
administração […] que daria ao Botafogo as maiores glórias esportivas, morais e
materiais” (Castro, 1951: 265).
Efetivamente Azeredo
percebeu quão era fundamental regressar aos títulos e montou uma nova comissão
técnica euro-brasileira composta pelo médico Victor Guisar, pelo técnico inglês
Charles Williams e por um superintendente, o húngaro Nicolas Ladanyi. O
superintendente tinha tão grande prestígio que Williams demitiu-se para lhe dar
o lugar, passando Nilo Braga a auxiliar do húngaro.
O resultado foi o
Botafogo tornar-se tetracampeão carioca e conquistar 5 títulos em seis anos,
cujas campanhas averbaram globalmente 75 vitórias, 22 empates e 16 derrotas
(76% de aproveitamento, segundo os critérios de pontuação da época), 320 gols a
favor e 176 contra, e o artilheiro Carvalho Leite assinalou 79 gols. O Clube
ainda conquistou o título nacional de 1931, lançado embrionariamente como
campeonato brasileiro (título que deveria ter sido homologado pela CBF), mas
sem continuidade.
O Botafogo começou a
ganhar novamente após longos 18 anos e Paulo Azeredo teve um papel essencial na
crise entre o amadorismo e o profissionalismo e apoiou a Confederação
Brasileira de Desportos (CBD) na montagem da Seleção Brasileira para a Copa do
Mundo de 1934, em Itália, que incluiu 9 jogadores titulares do Botafogo.
Na presidência de Paulo
Azeredo foi construída a sede em 1928 e foi aberto, em 1931, o caminho para a
fusão do Botafogo do futebol com o Botafogo das regatas. Quer os botafoguenses
de terra, quer os botafoguenses de mar, desejavam a fusão, e foi Paulo Azeredo,
juntamente com Viveiros de Castro, que incumbiu Alceu Mendes de Oliveira Castro
de sondar o seu primo, Antônio Mendes de Oliveira Castro, apelidado de
‘Almirante’, maior figura do Club de Regatas Botafogo e legendário campeão
brasileiro de remo, em 1902, sobre a fusão dos dois clubes – que só não ocorreu
à época porque, apesar da decisão favorável do Almirante, a influência dos
tricolores no CR Botafogo ainda era muito grande.
No entanto, embora tenha
solicitado a sua dispensa da presidência em 1936, por razões profissionais, Paulo
Azeredo esteve presente na fusão e a sua influência era enorme. A ele se deve a
atual designação do nosso Clube: a designação que foi proposta, por via de
‘antiguidade, era de ‘Botafogo de Regatas e Futebol’, o que gramaticalmente não
soava bem, e foi Paulo Azeredo que acabou por inverter as modalidades e fazer
valer o ‘Futebol e Regatas’.
O ‘homem providencial’ saiu
da presidência deixando títulos e uma sede nova para o Clube. Durante os 13
anos seguintes não foram conquistados mais campeonatos cariocas, o que só
aconteceu novamente em 1948.
Entretanto regressou à
presidência, novamente em tempo de crise, para conduzir o Botafogo entre 1954 a
1963, tornou a imprimir o seu dinamismo e capacidade empreendedora, formando um
novo plantel repleto de futuros campeões que, após 9 anos sem títulos cariocas,
se viriam a sagrar campeões estaduais em 1957, 1961 e 1962, e campeões
interestaduais do Rio-São Paulo em 1962 – e mundiais pela Seleção Brasileira em
1958 e 1962 com linhas atacantes predominantemente tituladas por botafoguenses.
No ano de 1962 o
Botafogo alcançou a magna relevância de potência nacional multiesportiva
conquistando 80 campeonatos e 40 vice-campeonatos coletivos, nacionais e
estaduais, em múltiplas modalidades, que ocorreram na sequência de mais uma
inovação de enorme craveira – a criação das Olimpíadas Botafoguenses iniciadas
em 1957 e realizadas anualmente até à saída de Paulo Azeredo da presidência.
Nesse fabuloso ano de
1962 – também o ‘Ano de Mané’ – o Botafogo conquistou o título simbólico de
‘Campeão de Terra, Mar e Ar’ e de ‘Campeão da Cabeça aos Pés’, vencendo no
aeromodelismo, futebol, remo, voleibol e xadrez.
O presidente Azeredo
solicitou outra vez a sua dispensa da presidência, desta vez por razões de
saúde, em 1963, deixando novamente o Botafogo com muitos títulos no futebol e
em inúmeras modalidades desportivas, assim como uma segunda sede, o Mourisco-Pasteur,
em finais da década de 1950 e início da década de 1960. Foi ele o presidente
dos anos gloriosos do Botafogo, tanto na ‘Era Amadora’ como na ‘Era
Profissional’ – anos que projetaram o Botafogo Football Club e o Botafogo de
Futebol e Regatas em todo o Brasil, em todo o continente sul-americano e em
todo o Mundo.
Dotado de um raciocínio
soberbo, a sua condução desportiva era pautada pela racionalidade, pela
assertividade dos seus argumentos e pela capacidade de realização; era um homem
do mundo, gestor de negócios e com faro político/diplomático notável, seja em
momentos de grande relevância, seja em momentos de menor relevância. Por
exemplo, em uma reunião com os grandes clubes do Rio de Janeiro envolveu também
o América e o Bangu. Após a reunião um dos diretores mencionou o caso desses
dois clubes não serem ‘grandes’, mas ‘médios’, e o presidente Azeredo respondeu
que não ganhava nada com essa distinção e tal ‘promoção’ os traria para o seu
lado.
Foi esse o homem que
comandou a ‘barcaça’ durante 21 anos intercalados: profissionalmente racional,
socialmente politizado e sagazmente assertivo, zelando desse modo pelos
interesses e pelas glórias do Botafogo.
Um verdadeiro símbolo da
vontade de vencer!
De permeio com as duas
figuras presidenciais mencionadas (presidentes Souza Ribeiro e Paulo Azeredo) surgiu
um rapaz que atravessaria toda a vida do Botafogo durante quase 7 décadas (1913-1981)
como atleta, técnico, dirigente e presidente: Carlos Martins da Rocha, o
‘Carlito Rocha’, personagem multifuncional e destacado dirigente do Glorioso.
O impacto da sua vida e obra desportivas será publicada na II Parte desta publicação.
Fontes: [1] Blogue Mundo
Botafogo (publicações sobre Paulo Azeredo, Carlito Rocha, sortilégios e
superstições). [2] Boletins Oficiais do Botafogo de Futebol e Regatas. [3] Castro,
Alceu Mendes de Oliveira (1951).O Futebol no Botafogo (1904-1950). Rio de Janeiro:
Gráfica Milone. [4] www.otempo.com.br.






