por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Izidor ‘Dori’ Kürschner
(1939-1940) trouxe para o Brasil as sofisticadas ideias europeias associadas ao
WM, sistema tático inovador, mas que encontrou uma enorme resistência no
panorama técnico brasileiro.
No entanto, Kürschner
acabou por ser o treinador que trouxe a inovação do ‘jogo bonito’, dando um
impulso maior à beleza do futebol brasileiro.
Em virtude do problema
linguístico do húngaro, um jovem botafoguense, João Saldanha, funcionava como seu
intérprete e dispunha de uma posição privilegiada para absorver a organização
tática e os métodos de treino de Kürschner para, 18 anos mais tarde, ser o
técnico botafoguense que inauguraria o segundo grande ciclo de conquistas do
Glorioso em 1957.
A ligação é muito
interessante, mas antes do legado de Kürschner ser levado à prática por João
Saldanha houve um técnico botafoguense que, enquanto jogador, também conviveu
com o húngaro, que também foi inspiração para realizar um trabalho técnico
extraordinário no Botafogo, 13 anos depois do tetracampeonato, conquistando um
novo título de campeão carioca em 1948 ao derrotar na final o ‘Expresso da
Vitória’, título informal dado ao então poderoso e quase invencível Vasco da
Gama – Alberto Moreira Júnior, o ‘Zezé Moreira’.
Zezé Moreira foi
atacante do Botafogo Football Club e do Botafogo de Futebol e Regatas entre 1935
e 1943. Consequentemente chegou à equipe principal no final do tetracampeonato,
viveu a fusão do Club de Regatas Botafogo e do Botafogo Football Club que
originou o Botafogo de Futebol e Regatas e praticamente encerrou a carreira de
futebolista no ano seguinte.
Entretanto, entre 1939
e 1947 o Botafogo conheceu oito mudanças de comando da equipe de futebol: Dori
Kürschner (1939-1940), Adhemar Pimenta (940-1942), Carvalho Leite (1942-1943),
Mario Fortunato (1943), Martim Silveira (1943-1944), Bengala (1944-1946) e
Ondino Vieira (1947).
Em 1948, após a Era
Heleno de Freitas, que não rendeu nenhum título de campeão carioca ao Botafogo,
Zezé Moreira foi empossado como treinador do Botafogo, substituindo o argentino
Ondino Vieira.
O Botafogo não vencia
o Carioca há 13 anos, apesar do grande ídolo Carvalho Leite ter sido
substituído por um futebolista ainda maior ídolo botafoguense: Heleno de
Freitas. Os treinadores nacionais e estrangeiros sucediam-se sem sucesso e Zezé
Moreira pegou uma equipe que na abertura do campeonato carioca de 1948 foi
goleado copiosamente pelo São Cristóvão por 4x0!
Zezé Moreira não era
totalmente inexperiente em matéria de conhecimentos específicos da profissão
porque fora jogador do Botafogo, preparador físico e treinador da equipe
reserva, mas o carrasco São Cristóvão foi implacável no seu batismo em General
Severiano como comandante técnico do Glorioso.
Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/zez-moreira-o-homem-do-ttulo-de-1948.html
Todavia, Zezé Moreira reagiu usando de toda a sua experiência anterior, sobretudo os ensinamentos que absorveu dos treinadores anteriores como jogador, especialmente alicerçados na organização tática e nos métodos de treino herdados de Dori Kürschner, mas também a experiência acumulada com os cargos de preparador físico de treinador dos reservas.
Foi essa capacidade de
aprendizagem e de colocar em prática esses saberes que permitiram ao Botafogo
não tornar a perder nenhum jogo até ao final do campeonato e reconquistar,
finalmente, o título de campeão carioca, em 1948, com uma consistente vitória
sobre o poderoso Vasco da Gama.
Essa conquista não foi
alheia, por exemplo, à enorme experiência do campeoníssimo Sylvio Pirillo, que
deixou o Flamengo para substituir Heleno de Freitas, e que apenas não jogou uma
partida durante todo o campeonato, justamente aquela que valeu a única derrota
do Botafogo na abertura da competição.
Título: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/02/botafogo-campeao-carioca-de-futebol.html
É claro que a
narrativa histórica predominante não privilegia tanto o lado racional do valor
crucial de Zezé Moreira, Pirillo e demais atletas, cuja união foi
inquebrantável durante toda a competição, preferindo favorecer o lado
emocional, supersticioso e religioso de Carlito Rocha, presidente do Botafogo,
que se tornou a narrativa principal daquela conquista, quer pelas inúmeras
superstições partilhadas com o seu ‘braço direito’ Aloísio Birruma, roupeiro da
equipe, quer através das gemadas que obrigava os jogadores a comerem antes dos
jogos, quer através das cortinas amarradas no seu gabinete de General Severiano
e, principalmente, através de Biriba, a mascote do Glorioso, que Carlito Rocha
associou ter sido o sinal místico de sorte ao entrar em campo durante uma
partida de futebol.
Carlito Rocha levava o
Biriba para os jogos como talismã e antes da decisão contra o Vasco, a história
atingiu níveis quase surreais: receando que alguém envenenasse o animal, o
Botafogo manteve Biriba num hotel sob vigilância e, segundo o relato histórico
do próprio clube, o seu bife era previamente provado por outro cachorro. Biriba
entrou em campo e o Botafogo foi campeão.
Daí para a frente o
badalado e ‘principesco’ Biriba não deu mais sorte e acabou sendo lentamente
esquecido pela torcida como elemento de sorte, mas Carlito Rocha tornou-se e
tornou-o imortal entre a ‘cachorrada’ botafoguense da torcida mais sedutora,
supersticiosa e encantadora do Brasil.
Carlito Rocha venceu três campeonatos cariocas como jogador nas bases, como treinador e como presidente, e não foi o melhor jogador, o melhor treinador, nem o melhor presidente, mas o seu carisma altamente místico contagiou todos em seu redor durante décadas ao serviço do Glorioso e marcou para sempre os torcedores botafoguenses, sobretudo com as suas superstições.
De todo o clamor e
folclore em torno das superstições de Carlito Rocha e do cachorro Biriba,
resultou que o precioso trabalho de Zezé Moreira foi ofuscado pelo contexto e,
posteriormente, os jornais da época salientaram que era injusto atribuir tudo a
Carlito Rocha, porque havia ali um verdadeiro trabalho transformador da autoria
do treinador – iniciado com uma derrota de goleada e terminado com a restante
época invicta até à conquista do campeonato.
Zezé Moreira era um
perfecionista e vale a pena ilustrar essa característica de quando treinou
novamente o Botafogo (1955-1956) e não se conformava com os sucessivos dribles
de Garrincha, porque considerava que deviam obedecer a um objetivo concreto.
Então, teve a ideia de alinhar quatro cadeiras e disse para Garrincha: – “Vamos lá, Mané. Dribla as cadeiras e quando
driblar a última você cruza ou então chuta em gol.”
Garrincha obedeceu sem
questionar. Pegou a bola, driblou as quatro cadeiras e cruzou; na segunda
driblou as quatro cadeiras e chutou a gol; na terceira fez a mesma coisa; na
sexta vez driblou as cadeiras, driblou a última e, de repente, driblou de novo
e foi driblando a terceira, a segunda e a primeira, exclamando matreiramente
para Zezé Moreira: – “Desculpe, seu Zezé,
mas não aguentei! Elas nem se mexeram!”
A prova das
capacidades de Zezé Moreira foi, aliás, comprovada através de tantos títulos
que conquistou ao longo da sua restante carreira: Campeonato Sul-Americano pelo
Brasil (1952), Copa Libertadores da América (1976), Torneio Rio-São Paulo
(1966), Campeonato Uruguaio (1963, 1969), Copa Rio (1952), diversos Campeonatos
Estaduais (1948, 1951, 1959, 1970, 1975, 1978, 1979), bem como outros torneios
nacionais e internacionais importantes.
Zezé Moreira também
representou, de algum modo, a continuidade de uma linhagem técnica que passou
pelo seu contato com a equipe tetracampeã idealizada pelo Capitão Ladanyi e
pela experiência vivida com Dori Kürschner, em 1939-1940, linhagem essa que será
retomada posteriormente com João Saldanha, o intérprete de Kürschner que tornará
a dar vida à linhagem técnica em 1957.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com.






