segunda-feira, 15 de março de 2021

Entrevista a João Saldanha: como se tornou botafoguense

Crédito: Boletim Oficial do Botafogo.

Acervo de ANGELO ANTONIO SERAPHINI

Boletim Oficial do Botafogo, nº 140, de 1958

ASSIM SOU

– João Alves Saldanha é o meu nome completo. Sou gaúcho, de Porto Alegre, nascido a 3 de julho de 1917. Estou, portanto, com 41 anos de idade, mas dos quais apenas um terço passei em meu Estado. Já por questões políticas, já por minha conta própria, tendência e gôsto, realizei inúmeras viagens, podendo, inclusive, dizer que conheço 32 países diferentes, pois já estive desde a Argentina até à China. Posso, também, dizer que poucos conhecem tão bem o Brasil como eu. E não preciso dizer o quanto o exporte me atrai e empolga. Tanto que já o pratiquei em várias modalidades. Aliás há um detalhe curioso. Eu jogava basquete. E como o Botafogo não disputava êsse esporte, fui com meus companheiros, jogar no Flamengo. E aconteceu que fomos campeões. Como Garrincha respondeu a um jornalista, também ainda não senti maior decepção em esporte. Nem mesmo em 50, pois estava preparado para aquilo. Como grande alegria tive, naturalmente, os 6x2 com que vencemos o campeonato de 57 e, como maior emoção, a vitória brasileira sôbre os tchecos, no campeonato do mundo de 38.

COMO SE TORNOU BOTAFOGUENSE

– Que foi que lhe levou, aqui no Rio, a se tornar botafoguense?

– Aqui, no Rio? – indaga por sua vez João e, sorrindo divertido, responde:

– Aqui, no Rio, nada. Já vim botafoguense. Já o era desde o Rio Grande. Talvez porque, na época, o Botafogo, com Martim Silveira, Otacílio e outros, era considerado o clube dos gaúchos. E, assim, eu já recortava as fotografias que a “Revista da Semana” e a “Careta” publicavam dos times e jogadores do Botafogo.

– Tanto – acentua João- que tendo chegado ao Rio, já no dia 3 de fevereiro dava o meu primeiro treino em General Severiano, que era como então se designava o campo do Botafogo. Passei a jogar no infantil e daí por diante não parei mais, até 39, quando sofri grave lesão no músculo da coxa direita.

– Sofreu essa lesão jogando futebol?

– Sim. Mas não foi o futebol o maior responsável. A verdadeira culpa esteve nas precárias condições físicas em que me encontrava. Eu estava em São Paulo integrando a delegação carioca participante do I Campeonato Brasileiro Universitário e, como não havia gente para tudo fui disputar diversos esportes, como futebol, basquete, volley e, até, atletismo, correndo 800metros. O resultado foi que sem condições para êsse excesso, acabei sofrendo rutura total do músculo.

COMEÇA O APRENDIZADO TÉCNICO

– Por isso – continua João Saldanha – e, também, porque comecei a viajar, parei de praticar o esporte em carater oficial. Continuava a acompanhá-lo com a mesma atenção e interêsse. Tanto mais quanto, com a ida de Kuerschener para o Botafogo e como, além do húngaro, só sabia se expressar em inglês ou francês, comecei a servir-lhe de intérprete, função que me ofereceu o excelente ofício de intérprete. E esta função se tornou verdadeiramente sedutora porque ofereceu-me oportunidade de colher grandes ensinamentos do extraordinário técnico. Posso assim dizer que aí começou o meu aprendizado técnico. E com o melhor professor.

– Em 44, Ademar Bebiano me chamou para ser seu diretor de futebol. E isto me deu ensejo a que tivesse contato com Bengala, o técnico mais simples, mas mais vivo e objetivo que já vi. Depois com Ondino Vieira e assim continuei sempre aprendendo e assimilando, buscando melhorar. Permaneci nessas funções até 47, quando por motivo de saúde e, também, porque voltei às viagens, interrompi minhas atividades, para só retornar em 56, novamente, para atender ao chamado de Ademar Bebiano, a fim de substituir Nelson Cintra. De diretor a técnico, o passo foi pequeno. Não tendo sido possível se estabelecer acôrdo com Geninho, assumi a direção do quadro. E dêsse instante para cá, julgo não ser preciso dizer nada. Todo mundo já sabe o que houve,

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