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sexta-feira, 15 de julho de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: a estreia fulminante na Taça Brasil… [22]

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

[A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1968]

Na quinta-feira à noite, dia 5 de dezembro de 1968, o Botafogo estreou na Taça Brasil. O público decepcionou: 6.495 pagantes. Mas foi um passeio. Jairzinho voltou a sentir dores na virilha e foi cortado também da partida em Florianópolis. Aos 17, Rogério vence dois marcadores, chega ao fundo e recua para Humberto dominar e queimar: 1x0.

Aos 33, Paulo Cézar recebe um passe no bico esquerdo, deriva para o meio, prepara e executa um pelotaço rasteiro: 2x0. O Botafogo só não marcou mais gols porque se poupou, principalmente Gérson, que sentia dores no pé. No intervalo, ele foi substituído por Afonsinho.

Logo com 1 minuto, lançado por Humberto, Rogério atira no ângulo: 3x0. Ferreti entrou no lugar de Roberto. Aos 27, Humberto arranca pela ponta direita e entrega a Ferreti, que faz o corta-luz para Afonsinho fuzilar de primeira: 4x0. Golaço!

Aos 30, Humberto sofre pênalti, mas o juiz não apita. Paulo Cézar apanha a sobra e dá a Ferreti, que progride, atrai o goleiro Rubens e amplia: 5x0.

Aos 39, na intermediária, Ferreti domina o couro e parte em direção ao gol. Engana dois marcadores, avança e fuzila de canhota no ângulo: 6x0. Outro belo gol!

Mas aos 42, o ponta-direita Leocádio é derrubado por Dimas nas imediações da área. Nilzo (nosso ex-juvenil) cobra com categoria e reduz o gol average do Botafogo: 6x1. Apesar disso, a vaga parecia garantida. Foi este o time: Cao, Moreira, Zé Carlos, Dimas e Valtencir, Carlos Roberto e Gérson (Afonsinho), Rogério, Roberto (Ferreti), Humberto e Paulo Cézar.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

Os volumes I e II podem ser adquiridos através do endereço:  https://mauad.com.br/index.php?route=product/search&search=o%20futebol%20do%20botafogo

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: ganhando ao Santos apesar dos contratempos… [21]

O Clássico dos Craques

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

[A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1968]

No domingo, dia 1º de dezembro de 1968, o Botafogo despediu-se do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Moreira jogou com 38 graus de febre. O Santos roeria um osso na quarta-feira, em Porto Alegre. Por isso, no primeiro tempo, mastigou o couro para atrair o Botafogo. Para piorar, Roberto e Humberto caíam para a direita, prejudicando Rogério, que precisava de espaço para fazer Rildo de gato e sapato, como, de fato, fez. Paulo Cézar acompanhava os dois pontas de lança, prejudicando a estratégia de Gérson e dando boa vida a Carlos Alberto.

Na segunda metade do tempo final, o ritmo de disputa, que era intenso, graças ao Botafogo, ficou eletrizante. Aos 22, Edu (deslocado da ponta direita para a esquerda) cobra um tiro indireto e Cao, esperando um chute direto, não intervém, permitindo que Toninho cabeceie: 0x1. Incrível!

O Botafogo se manda e espreme o Santos. Aos 27, Humberto entrega um passe magnífico para Roberto. Cláudio larga as traves. Roberto o engana com um toque para a direita e estufa o barbante: 1x1. Golaço! Sansão (usando boina) escuta muita coisa, mas informa ao juiz que a posição de Roberto era boa.

Aos 29, Gérson avança em velocidade, atrai a marcação e estica para Paulo Cézar, que deriva para o meio e dispara um pelotaço cruzado no canto direito alto: 2x1. Mas aos 30, Dimas desarma Pelé e este, como sempre, se joga no chão e Arnaldo César Coelho sopra o pênalti absurdo. Carlos Alberto cobra e faz 2x2. No vestiário, Dimas dirá: “Não foi pênalti. Quando o Rildo conduzia a bola, o Pelé gritou duas vezes: “Joga por cima de mim que ele vai dar pênalti”. E foi dito e feito. Quando o juiz apitou, eu estava certo de que ele havia marcado empurrão do próprio Pelé, que abriu os braços na hora” (JS). Pelé confirmará o depoimento de Dimas: “O pênalti em mim ele não precisava ter dado” (JS). Por causa deste pênalti que não existiu, Arnaldo não apitará outro, de Dimas em Toninho. Aos 34, na cobrança de um tiro livre, Moreira lança para Roberto, que invade sem marcação e liquida a fatura: 3x2.

No dia seguinte, Sansão dirá a Luiz Bayer: “A jogada foi clara e eu estava bem colocado. A bola partiu de Moreira para Roberto e este só correu depois de lançado. Roberto ficou livre porque a defesa do Santos parou inexplicavelmente, pedindo impedimento. Mas como impedimento? Este lance eu discuto com qualquer um, porque tenho certeza de que o erro foi da defesa do Santos”.

Quando Arnaldo César apita pela última vez, os santistas o cercam. Sansão, vindo em socorro do juiz, nota que Gérson tenta conter Carlos Alberto, apoplético e sem camisa. Sansão pergunta ao lateral o que está ocorrendo e ele responde, cinicamente, que só quer dar sua camisa ao juiz. Sansão pede a Gérson que o largue. Pelé aparece e pergunta a Sansão se pretende agredir os santistas com o pau da bandeira. Que anjo! Sansão nega. Neste momento, o técnico Antoninho invade a cancha e chama Sansão de cafajeste. Sansão devolve o insulto. Então, Antoninho estufa a barriga, finge tirar o paletó e ameaça enfrentá-lo, quando justamente Sansão é agarrado pelos policiais. Valeu o ingresso! Foi este o time do Botafogo: Cao, Moreira, Zé Carlos, Dimas e Valtencir, Carlos Roberto, Gérson e Paulo Cézar, Rogério, Humberto (Ferreti) e Roberto.

O repórter rubro-negro Marco Aurélio Guimarães (Jornal dos Sports) escreveu: “O Botafogo mostrou mais uma vez, como já o faz há algum tempo, que entre o seu e o futebol do Santos, o time de Pelé está inferiorizado. Quando o Botafogo fez questão de ser Botafogo, esqueceu o toque inconsequente, dominou o jogo e chegou à vitória com todos os méritos”.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

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segunda-feira, 6 de junho de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: recordando conquista com inapelável goleada ao Flamengo… [20]

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

[A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1968]

Botafogo 4x1 Flamengo (18/09/1968) – Taça Guanabara:

Em caso de empate no tempo normal, seriam jogados mais 20 minutos. Persistindo a igualdade, o Botafogo seria o campeão por ter melhor saldo de gols (3x2). Mas o alvinegro não ligava para a vantagem, pois só pensava em vencer. E como Roberto prometeu, mandou brasa.

À noite, 94.535 pagantes deixaram nas bilheterias do Maracanã a renda espetacular de NCr$ 331.583,25. O Botafogo entrou em campo completo, porque Roberto (pé direito) e Jairzinho (joelho direito), que não haviam treinado na segunda-feira, se recuperaram das pauladas recebidas no sábado. Miraglia incumbiu Murilo de juntar-se a Guilherme, deixando Onça na sobra, e escalou Nelsinho (fora de ritmo) para defender a lateral direita. Rodrigues Neto voltou para a meia-cancha. Moreira e Valtencir jogaram à vontade. Paulo Cézar botou Nelsinho no bolso e fez um carnaval na avenida aberta por Murilo.

Aos 10 minutos, Paulo Cézar recebe de Valtencir nas costas de Nelsinho. Dentro da área, Murilo, ao invés de combatê-lo, retrocede. Paulo Cézar controla o couro e invade pelo corredor da área perigosa. Nelsinho percebe o perigo e parte em seu encalço. Paulo Cézar, mesmo derrubado por ele, cruza rente à risca lateral da grande área. Jairzinho faz a parede e Gérson, na carreira, executa um tiro seco no canto direito: 1x0. Golaço!

Gérson corre na direção da bandeirinha do córner esquerdo, onde está a torcida flamenguista, e desfere um soco no ar. Aos 33, Paulo Cézar fuzila no poste. Aos 36, Fio arranca pela direita, ganha a disputa com Leônidas, invade a área penal, evita o carrinho de Valtencir, aproxima-se do poste e fuzila, mas Cao encaixa a pelota com segurança. Sensacional! O Botafogo responde. Aos 40, Paulo Cézar deixa Murilo para trás e busca a pequena área. Sai Ubirajara! Paulo Cézar cruza para Zequinha, que domina, gira o corpo e dispara no canto direito, mas Paulo Henrique mergulha para salvar de cabeça. Milagre! Aos 42, Dionísio substituiu Nelsinho e ocupou o miolo do ataque, deslocando Fio para a ponta direita. Rodrigues Neto se mandou, largando Zequinha.

Na segunda etapa, logo aos 4 minutos, lançado em profundidade, Jairzinho vence Guilherme na corrida, mas é derrubado por Ubirajara. Pênalti! Gérson, no entanto, bate muito fraco, rasteiro, no meio do gol, facilitando a defesa do goleiro. O Flamengo se anima. Aos 15, Zé Carlos tira o pão da boca de Silva. Ubirajara voa e manda a córner, evitando o gol de Paulo Cézar. Aos 18, Dionísio penetra nas costas de Zé Carlos, aguarda a saída de Cao e toca no canto esquerdo: 1x1.

Aos 20, recebendo de Gérson, na intermediária, Jairzinho foge do cerco de Jorge Andrade (que substituíra Onça), gira e lança Zequinha em profundidade, sem marcação. Já na grande área, sem tentar dominar, Zequinha dispara um petardo no ângulo esquerdo: 2x1. Espetacular!

Aos 23, Dionísio sobe mais que Leônidas e cabeceia no poste esquerdo. Na volta, Silva mergulha cara a cara, mas Moreira estoura e isola para a linha de fundo. O Flamengo aperta e o Botafogo se defende com raça extraordinária. Aos 28, Jairzinho invade nas costas de Murilo. Jairzinho penetra! Atrai Ubirajara! Finta-o e vai cruzar para Roberto marcar, quando o goleiro segura sua perna. Pênalti! Gérson não quer cobrar, mas o time todo o obriga. Zagalo vira as costas para não ver. Desta vez, Gérson toca seco no canto direito, fora do alcance de Ubirajara: 3x1.

Aos 36, Gérson intercepta o passe de Jorge Andrade e dá na frente para Roberto, que progride pela meia esquerda, entrega a Jairzinho, ao lado da meia-lua e penetra sem marcação. Guilherme vem combater Jairzinho, mas este devolve a Roberto, no centro, que avança como um raio e, quase da marca do pênalti, fuzila inapelavelmente: 4x1.

Armando Marques apita pela última vez! Botafogo Bicampeão Invicto! Zagalo saltou para o campo e correu, gritando: “Esse time está cansado, sim. Cansado de ganhar títulos” (JS)! Moreira, cuja camisa já fora arrancada pela massa, conclamou os companheiros à sua volta: “Agora, vamos dar a volta olímpica! Mas essa será pra valer, pessoal” (JS)!

Nos anos 1967-1968, o Botafogo conquistou 5 títulos consecutivos no futebol carioca: 1 Torneio-Início, 2 Taças Guanabara e 2 Campeonatos. Um genuíno tetracampeão! Em 49 jogos (sem computar o Torneio-Início), foram 39 vitórias e 7 empates. Nos 32 clássicos, 23 vitórias e 6 empates.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

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quarta-feira, 1 de junho de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: recordando a Selefogo goleando os argentinos… [19]

Arte: Iram Santos.

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

 [A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1968]

Recordando Brasil 4x1 Argentina (Maracanã – 07/08/1968)

Na terça-feira (30/07/1968), após ouvir José Carlos Villela (supervisor), Zagalo convocou 22 craques para a seleção carioca que enfrentaria a Argentina. Dez pertenciam ao Botafogo. Cao, único titular alvinegro que não foi chamado, chiou bastante (sem razão). No dia seguinte, Zagalo revelou que o Botafogo seria a base do time, pois os convocados se apresentariam na véspera do jogo. Evaristo estrilou: ele deveria “ter convocado para a reserva os demais jogadores do Botafogo, pois eles já estão entrosados com os titulares”. Reinaldo Reis solicitou a Octávio a dispensa de Brito e Nei, pois contava com ambos para um amistoso. Silva (preterido) desceu o pau: “Isso não é seleção coisa nenhuma, é uma palhaçada”. Wolney Braune ameaçou: “Zagalo terá oportunidade de conhecer melhor o valor dos jogadores do América, domingo”.

Na quinta-feira, 1º de agosto, ciente de que Zagalo não dispensaria os dois vascaínos, Octávio convidou Reinaldo Reis (presidente do Vasco da Gama) para o cargo (diplomático) de chefe da delegação. Reis alegou que chefiaria outra delegação, a do Vasco. Recusou e insistiu na dispensa. No Fluminense, o vice-presidente de futebol Manuel Duque considerou “um absurdo” chamar Suingue (que custara 460 mil) para colocá-lo na reserva. Por isso, defendia a dispensa dos quatro tricolores. Villela ameaçou renunciar ao cargo de supervisor. Duque prometeu a mesma coisa. A crise só foi superada com a interferência de Luiz Murgel. Zagalo rebateu as críticas: “Cansei de ouvir que o time do Santos ou o do Botafogo, com um ou outro reforço, seria a seleção ideal. Agora, já acham que não”.

No apronto (titulares 2x1) de sexta-feira, Rogério deixou o campo com dores musculares na coxa direita. No mesmo dia, Octávio engoliu a desfeita de Reinaldo Reis, mas insistiu em prestigiar o Vasco, convidando Ciro Aranha para chefiar a delegação. No sábado, Ciro Aranha (articulado com João Havelange) nomeou João Saldanha para o cargo decorativo de assessor técnico de Zagalo. Também no sábado, confirmado o estiramento, Rogério foi excluído da partida contra o América. Com isso, Zequinha, destaque dos últimos coletivos, faria sua estreia.

No domingo, o América (em 4-4-2) entrou em campo para empatar ou vencer num erro do Botafogo. Na defesa, Gérson era marcado por Tadeu. No ataque, por Badeco. Cao não foi exigido. Embora mantendo a iniciativa, o Botafogo cozinhava demais o jogo. Numa falta quase no bico esquerdo, Rosã armou a barreira com seis homens. Então, o Botafogo armou outra ao lado com Roberto, Zequinha e Jairzinho. Com precisão, Paulo Cézar fuzilou na forquilha direita. Jairzinho se abaixou, mas atrás dele, Edu salvou de cabeça para córner. Sensacional! Foi o grande lance da primeira fase.

Aos 5 do segundo tempo, Tadeu entrega a Edu, que dribla Moreira, evita Zé Carlos, progride até a meia-lua e atira seco. A bola quica no terreno, bate no braço de Cao e entra no canto esquerdo: 0x1. Os rubros aumentam a retranca, contudo, Badeco se machuca (aos 19). Sérgio entra na lateral direita e o jovem Paulo César passa a marcar Gérson, agora bem avançado. Paulo Cézar estraçalha na esquerda. Aos 26, Humberto substitui Zequinha e troca de posição com Paulo Cézar. E aos 39, na meia-lua, Jairzinho se livra de Renato e toca para Gérson, desmarcado, atirar um petardo, que quica no chão e explode no canto esquerdo: 1x1. Golaço!

Na segunda-feira, Reinaldo Reis protocolou o pedido de dispensa dos vascaínos, porém, constrangido pelo cargo, Ciro Aranha contornou a crise. Jogada de mestre de Octávio.

Na Última Hora, Maneco Müller compôs a ridícula comédia: “Saldanha só aceitou essa assessoria técnica para salvar o barco e prestigiar Zagalo. (...) A verdade é que João Saldanha deveria ser conselheiro permanente do Havelange, ao invés de conselheiro eventual do Zagalo”. Se para dirigir uma seleção local, Zagalo precisava dos conselhos de um comentarista, como poderia pensar um dia em ser técnico do Brasil? Na terça-feira, Zito (supervisor do Santos) declarou que ele ainda “precisava aprender muito”. Pelé preferia vê-lo “em ação” antes de opinar, mas reforçou: “Acho-o imaturo para tamanha responsabilidade”.

Na terça-feira, Paulo Henrique (estiramento) nem trocou de roupa. Para o seu lugar foi convocado Dimas. Após o coletivo de meia hora (titulares 1x0), Luís Carlos (contusão) e o suplente Rogério (estiramento) também foram reprovados. Zagalo, desta vez, só convocou um jogador: Nado.

Na outra noite, os brasileiros entraram em campo debaixo de vaia. Os argentinos foram ovacionados. Na boca do túnel, Zagalo foi alvejado com copos de café, bolas de papel e bagaços de laranja. “Nos primeiros minutos, qualquer chute errado recebia vaia” – dirá Zagalo, um ano depois. Aos 41 minutos, apanhando o rebote do lateral direito Ostua, Valtencir vem na corrida e atira um míssil que passa zunindo entre Perfumo e Basile: 1x0. Golaço! No segundo tempo, aos 5, Nado cruza do fundo e Roberto encobre Sanchez com linda puxeta: 2x0. Aos 32, concluindo passe de Paulo Cézar, Roberto amplia de canhota: 3x0. E aos 43, depois de quatro minutos e meio de olé, Nei toca para Jairzinho, recebe de volta, dribla o goleiro, fica sem ângulo e devolve para Jairzinho empurrar levemente para o barbante: 4x0. Gol de placa! Na saída de bola, num córner, Basile vence Brito e reduz a vergonha: 4x1.

O Botafogo lavou a alma! Leônidas comentou: “Jogo fácil para o Botafogo e, nos meus 13 anos de profissional, nunca vi um espetáculo tão lindo como o do antecedente ao quarto gol”. O treinador José María Minella irá lamentar: “Quando soube que os cariocas iam montar a seleção na estrutura de um time como o Botafogo, senti que a parada seria duríssima”.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

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sexta-feira, 27 de maio de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: explosiva vitória perante quase 150 mil torcedores… [18]

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

 [A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1968]

09.06.1968

O Vasco arriscou tudo, abrindo-se em 4-2-4, apesar do vaivém de Nei (só para buscar bola). Danilo e Bougleux juntaram-se ao quarteto da frente, abrindo um buraco atrás deles e obrigando Ananias a sair da área para marcar Jairzinho. Foi um inferno! Mas o Vasco quase marca primeiro. Aos 2 minutos, Nei domina no bico da chuteira. Zé Carlos fecha, o couro espirra e sobe. Leônidas se antecipa a Valfrido, mas a bola bate na barriga do atacante e sobra limpa para Silvinho, que atira, cara a cara, de bico. Cao agarra e solta! Entra Valfrido! Agarra Cao e não larga! Ufa! Aos 7, Jairzinho domina na meia direita e toca atrás para Gérson, que passa por Bougleux, devolve a Jairzinho e se projeta. Jairzinho invade e atira rasteiro no canto direito. Pedro Paulo solta. Gérson vem na carreira e queima de direita no pé do poste direito. Sensação!

Aos 13, Silvinho cruza na área botafoguense. Leônidas salta com Valfrido, mas este consegue raspar a bola, que sobra limpa para Nado, nas costas de Valtencir. Mas o ponta vascaíno permite que a bola lhe escape pelo meio das pernas. Valtencir dá o bote e toma-lhe a bola. Quase!

Aos 15, Jorge Luiz manda à boca da meta, mas Leônidas intercepta o couro e toca curto para Carlos Roberto, que domina, passa por Nado e entrega a Paulo Cézar, que cruza a linha divisória da cancha, progride em largas passadas, deriva para o miolo, vence Bougleux e serve a Jairzinho, que atrai Ananias e enfia para Roberto, que vence Brito na corrida, invade a meia-lua e sacode o canto direito: 1x0. Um gol espetacular!

Um gol para chegar à marca de 13 gols e superar Nei na corrida pela artilharia do certame. A partir do gol, a torcida do Botafogo dominou o Maracanã. Enquanto a torcida vascaína enrolava as bandeiras, a botafoguense tremulava milhares das suas. Uma faixa, entre muitas, chamou a atenção: “BOTAFOGO PODER JOVEM”.

Aos 29, Jairzinho cai nas costas de Jorge Luiz. Não deixa a bola sair pelo fundo, a conduz sobre a linha e cruza para Roberto, que atira, mas a bola bate em Rogério e Brito alivia. Sensacional! Brito esperneia, grita palavrões para Viug, mas é só punido com falta técnica por Armando Marques. Aos 33, Jairzinho passa por Ananias entrega a Paulo Cézar, que domina sem marcação e cruza rasteiro para Rogério, livre, tocar de esquerda no canto direito: 2x0. Pedro Paulo ficou de cócoras. A massa rubro-negra se levanta para ir embora. Os vascaínos enrolam as bandeiras.

No intervalo, Ananias pagou o pato e foi substituído por Sérgio. Aos 15, recebendo de Paulo Cézar, na intermediária adversária, Gérson lança magistralmente para Jairzinho, nas costas de Brito (atônito). Enquanto Bougleux levanta os braços, pedindo socorro a Amilcar Ferreira, Jairzinho caminha com a bola sob seu controle. Roberto sai da frente! Ferreira larga Rogério e corre para debaixo do pau! Jairzinho avança até a pequena área, atrai Pedro Paulo e toca de leve no canto esquerdo: 3x0. A torcida vascaína recolhe a faixa que dizia: “ARBITRAGEM ESPERANÇA DO BOTAFOGO”. E começa a ir embora, em silêncio. No dia seguinte, Nélson Rodrigues descreveu-a: “Era impressionante a sua tristeza. Não se ouvia um grito, uma palavra, um suspiro. Iam todos assombrados”.

Aos 22, Pedro Paulo infringe a Regra 12. O tiro indireto é frontal. Na risca da grande área, diante da barreira de oito homens, Paulo Cézar rola para Gérson, que sem sair do lugar, acerta o ângulo esquerdo: 4x0. Golaço! Os reservas, uns loucos varridos, abraçam o maestro do título. Armando expulsa todos eles, mas a esta altura do massacre (técnico e tático), o Botafogo não precisa de substituições. Apito final!

O Botafogo devolveu com juros a derrota do turno e ainda colocou no peito a faixa de Bicampeão! Enquanto a torcida do Vasco queima suas bandeiras, a do Botafogo grita em polvorosa: “Fogo! Fogo! Fogo”! Armando trila o apito pela última vez! O túnel grita e chora! Carlos Roberto se agarra com o gandula para ficar com a bola do jogo. Paulo Cézar toma de volta a camisa que entregara à torcedora. Era para Marinho! Zagalo é carregado nos ombros da massa. Espremido, empurrado, sofre um corte no rosto ao bater na máquina de um fotógrafo. Sempre contido (de alma lavada), o capitão Gérson ergue o troféu e lidera a volta olímpica! Em toda a região próxima do Maracanã, um mar de bandeiras vascaínas (milhares) rasgadas cobriu as calçadas e o asfalto.

O Botafogo fechou sua participação num campeonato inesquecível, vencendo todos os adversários reunidos numa frente única, superando o noticiário sujo e a hostilidade de quase toda a crônica esportiva. Em 18 jogos, 15 vitórias e 2 empates, 40 gols contra 10. O ataque mais positivo e a defesa menos vazada. No vestiário, Zagalo desabafou: “Não pensava que fosse tão fácil” (JS). Moreira resumiu a importância de Bianchini para o título: “Nosso time tem 11 homens com H maiúsculo. Foi, acima de tudo, uma vitória de raça, de sangue. Neste particular, Bianchini nos ajudou muito. Futebol não se ganha falando. A nossa motivação para conquistar o Bi era enorme, mas foi redobrada com o falatório de Bianchini. A realidade é que ele, ao invés de ajudar, acabou prejudicando o Vasco” (JS).

Gérson, o craque do campeonato, repetia que precisava, infelizmente, mandar um recado para Bianchini: “Olha, rapaz, se você quiser colocar faixa, usa uma de papel higiênico” (UH). Passando por cima de muita coisa, Carlito Rocha, à frente de toda a diretoria de Ney Palmeiro, apareceu para cumprimentá-lo pelo título: “Muito bem, meu filho. Agora, para eu morrer em paz, só falta você me garantir o Tri” (UH)! Faltou apenas Manga, também legítimo bicampeão.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: grande conquista sob a efusividade de 111 mil torcedores… [17]

 
Gérson, o obreiro da vitória. Reprodução Internet.

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

[A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1967]

A final sensacional (de 17/12/1967) atraiu um público imenso: 111.651 torcedores, sendo 19.770 menores. O recorde de renda foi novamente derrubado: NCr$220.902,00. Merecidamente, o Botafogo foi o campeão de renda. O temporal que desabou sobre a Guanabara provocou, como de costume, inundações na região do Maracanã. Além disso, o gramado ficou coberto de lama, cheio de poças, pesado e bastante escorregadio.

Exceto pelo desfalque de Fidélis, o Bangu veio com sua força máxima: Jaime, Ocimar e Aladim na meia-cancha; no ataque, Paulo Borges, Mário e Del Vecchio. O jogo é nervoso. Os dois times arriscam muito pouco. Na cobrança de uma falta próxima ao bico direito, Jaime atira um tijolo quente. Na dúvida quanto à direção do disparo, Manga (sem luvas, que ele detesta) não tenta segurar e espalma para a direita. Aladim penetra, porém, bem marcado por Paulistinha, deixa o couro sair pelo fundo. Ufa! Aos 12, Manga cobra o tiro de meta com extrema violência, lançando Jairzinho. Luís Alberto divide pelo alto com ele. Mário Tito apanha a sobra e tenta atrasar para Ubirajara, mas chuta o chão e a bola se oferece a Roberto, que avança e desfere um tiro seco, violento, no canto esquerdo: 1x0. Um gol sensacional!

A volta olímpica. Reprodução Internet.

O Bangu abandona a cautela e se manda. Paulo Borges cruza da direita. Gérson defende. Paulo Borges recupera. Gérson marca. O ponteiro atrasa para Jaime, marcado por Gérson. Jaime toca no meio para Paulo Borges, que busca o fundo e cruza violentamente, buscando Mário, mas Manga mergulha e agarra firme. Aos 40, Jaime lança na área. Del Vecchio corre de costas e dá uma cotovelada em Manga, impedindo-o de socar a bola, e ela morre dentro do gol. Antônio Viug, a um metro do lance, apita a infração, sem titubeio. Dez entre dez juízes (honestos) fariam a mesma coisa. No segundo tempo, logo aos 6 minutos, Jaime progride pelo meio e lança Del Vecchio, que gira e entrega a Mário, nas costas de Leônidas. Gérson não o alcança. Mário invade a pequena área e fuzila no ângulo direito, sem apelação: 1x1.

O Botafogo acorda e se manda. Aos 9, Paulo Cézar faz um carnaval na defesa e serve a Rogério, que cruza nas mãos de Ubirajara. Aos 11, Jairzinho arranca da meia-lua, vence Luís Alberto na corrida, mas Ubirajara divide. A bola sobra limpa para Rogério. Luís Alberto vai para debaixo do pau. Cabrita faz o mesmo. Aladim vem em socorro. Basta entregar a Roberto, livre, mas Rogério finta Ubirajara com um toque para dentro, chega à marca do pênalti e chuta de canhota, mascado, nas mãos do goleiro. Impossível! Mas aos 22, Gérson envolve Mário Tito com um toque curto para Paulo Cézar, recebe, ganha a grande área e atira um pelotaço no ângulo esquerdo: 2x1. Um gol eletrizante!

O Troféu de Campeão. Acervo Botafogo de Futebol e Regatas.

Aos 27, nas costas de Cabrita, Jairzinho escapa, finta Mário Tito e Luís Alberto com uma ginga de corpo e cruza na cabeça de Roberto, que pula antes do tempo e perde o gol que sepultaria o Bangu. Aos 36, dentro da área, Mário, cercado por Carlos Roberto e Paulistinha, gira e cruza para Paulo Borges, que chuta prensado com Valtencir. Zé Carlos devolve de canhota na coxa de Gérson, marcador de Aladim. A bola sobra para Aladim, que fuzila à queima-roupa, mas Manga, no reflexo, defende com o braço direito. Milagre! No rebote, Gérson toca para o fundo. Sufoco! Aos 39, Aladim bate o córner. Zé Carlos e Leônidas ficam presos embaixo do pau. Manga disputa a bola fora da pequena área com Del Vecchio, Paulo Borges e Paulo Cézar. Tenta aliviar de soco (como convém), mas falha. A sobra é de Ocimar, que escorrega e o tiro sai mascado. O couro passa por Mário. Em cima da linha, guarnecido por Gérson e Leônidas, Paulistinha dá um bico na bola com absoluta tranquilidade. Daí a pouco, Viug apita pela última vez. Botafogo Campeão!

O túnel grita e comemora. Zagalo (chorando) invade o gramado! Lídio e Chirol erguem os punhos! Gérson corre como um doido varrido!

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

Os volumes I e II podem ser adquiridos através do endereço:  https://mauad.com.br/index.php?route=product/search&search=o%20futebol%20do%20botafogo

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: a maior atrocidade da história do futebol brasileiro… Parte II [16]

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

 [A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1967]

Quando a bola rolou, Frederico Lopes se transformou no protagonista da maior atrocidade já cometida no Brasil contra um time de futebol. Escreveu o Diário de Notícias: “O Sr. Frederico Lopes, acovardado, apenas chamando a atenção dos cariocas e deixando o Mineirão ser transformado num verdadeiro Vietnam, onde a bola pouco foi perseguida, mas sim as canelas dos jogadores alvinegros por parte do time local”. O Botafogo denunciará ao STJD: “Os adversários só podiam estar dopados porque, durante o jogo, mostravam-se com os olhos excessivamente esbugalhados”.

Nos 10 minutos iniciais, o Atlético Mineiro cometeu 12 faltas, quase todas maldosas e violentas. Enquanto isso, o soprador ofendia os botafoguenses com palavrões, especialmente Paulo Cézar. Aos 14, Amauri leva uma pregada de Gérson e ameaça agredi-lo. Nas barbas do juizinho. Aos 15, Bianchini (segundo reserva de Ronaldo), que fugira o tempo todo de Gérson, debaixo de ruidosa ovação da plateia, atinge Carlos Roberto por trás, abrindo com as travas da chuteira um talho de 5 cm de profundidade na canela direita. O garoto sai de campo na maca. O lance pareceu casual ao garfador: “Não houve má-fé”.

Carlos Roberto pediu ao médico para colocar um esparadrapo, pois queria voltar, mas foi duramente repreendido e levado para o vestiário. Lídio Toledo aplicou-lhe duas injeções e fez a sutura (8 pontos), antes de conduzi-lo ao Pronto-Socorro para fazer a radiografia. A visão do sangue escorrendo fez Carlos Roberto desmaiar. “Quando passei a mão pelo corte, pensei que também tinha quebrado a perna, pois, mesmo por cima da meia, meus dedos quase chegaram a tocar no osso” – desabafou.

O Atlético tirou proveito do abalo provocado no Botafogo. Aos 18, recebendo de Bianchini, Laci atira da pequena área, mas acerta o travessão. Na sequência do lance, Tião chama Moreira. Quando o lateral se vira, leva uma cotovelada que além de feri-lo seriamente no lábio superior, compromete dois dentes. No chão, é chutado no ombro direito. Moreira reclama com Frederico Lopes, mas é ameaçado de expulsão. Aos 20, Afonsinho entra em campo. Aos 25, Roberto se surpreende com um presente de Canindé, perdendo segundos preciosos. O tiro é bloqueado por Vander. Aos 37, Ronaldo substitui Bianchini. A torcida vaia. Era cedo! Passa algum tempo. Valtencir é chutado no chão por Vanderlei. Era pra quebrar!

No segundo tempo, os atleticanos voltaram dispostos a tudo, caçando os adversários e procurando atingi-los deslealmente. Aos 9, Manga defende o tiro perigosíssimo de Ronaldo e Valtencir alivia. Aos 12, numa cobrança de falta, Roberto recebe de Gérson e fuzila de primeira, mas a bola não entra. Que azar! Aos 13, Buião recebe outra firme de Gérson. O tempo fecha. Aos 20, Rogério passa por Hélio, mas atira fraco, permitindo que Grapete salve em cima da linha. Incrível! Aos 22, Vanderlei derruba Paulo Cézar e passa a agredi-lo com pontapés. Airton socorre o companheiro, mas é chutado por Grapete, revida com uma bofetada e é expulso. Ferido seriamente na cabeça, Paulo Cézar é retirado na maca, debaixo de vaia. Frederico Lopes atribuiu o corte à grama! Aos 25, Ronaldo comete falta em Manga e toca para o gol vazio, mas o juiz já apitara a infração. Mas aos 28, Zé Carlos corta com as duas mãos um passe para Ronaldo: “Senti que seria encoberto e não vi que o Moreira estava atrás de mim. Creio que por causa do nervosismo, tive a impressão de estar fora da área”. Pênalti! Ninguém quer bater, mas Ronaldo se apresenta e abre o placar: 0x1. Gérson se mandou, mas faltou sorte ao Botafogo para desfazer a injustiça.

A delegação alvinegra só deixou o Mineirão na madrugada de quinta-feira, protegida por forte escolta policial, depois de sucessivos pedidos de socorro pelo telefone do estádio. Não parou aí. Uma multidão voltou a atacar a caravana botafoguense, dando socos, pisoteando e rasgando bandeiras, e depredando quaisquer ônibus e carros com chapa da Guanabara. Um atleticano esfregou um cigarro aceso no braço da irmã de Carlos Roberto, Tânia. Sua irmã Regina reagiu e se feriu na mão. Os mineiros gritavam para os cariocas: “Tragam ambulâncias!” e “Sexta-feira é dia de enterro”.

A terceira partida estava marcada para daí a 48 horas, na mesma rinha, mas a chefia da delegação decidiu regressar ao Brasil na manhã seguinte e não voltar a Belo Horizonte, mesmo ao custo da eliminação.

Ney Palmeiro disse ao Globo: “Posso informar – e aqui vai uma opinião pessoal – que se ele [o juiz] expulsasse o Bianchini no lance que originou a contusão grave de Carlos Roberto, não haveria mais jogo e o conflito engolfaria público e jogadores”.

No recurso dirigido ao STJD, o Botafogo responsabilizou o Atlético e a imprensa local pelo “calamitoso clima de pavor” e que resultou em “promessas de massacre e em pedidos de cabeças”. Denunciou o juiz, que, antes mesmo do início da partida, advertiu “os jogadores botafoguenses de que, sob pena de expulsão, não lhe criassem situações embaraçosas”. E pediu que a decisão fosse realizada em campo neutro, em qualquer lugar, “menos em Belo Horizonte”.

Surpreendido com a atitude do Botafogo, Guilherme Ferreira ordenou a retenção da cota que lhe era devida. Chegou a alardear que parte dela seria repassada ao Atlético Mineiro para ressarci-lo das despesas relacionadas à terceira partida. Conversa! Na sexta-feira, o gerente do Banco Industrial de Campina Grande, Murilo Macedo Cunha, procurador nomeado pelo Botafogo, recebeu na tesouraria da FMF, sem dificuldades, o pagamento (pouco mais de 66 mil), prontamente transferido ao Botafogo.

Na manhã de sexta-feira, João Havelange reunira a diretoria da CBD para informar sua decisão de adiar sine die o terceiro jogo, mas confirmando-o para Belo Horizonte. Informado por telefone, Fábio Fonseca julgou-a injusta, pois fora tomada “somente para favorecer ao Botafogo” a quem acusou de procurar deixar, através de um noticiário tendencioso e maledicente, uma imagem negativa do tratamento recebido em Minas Gerais.

À noite, julgado pela expulsão contra o América, Roberto foi absolvido pelo TJD (4 votos a 2). Menos mal, pois a enfermaria estivera lotada ao longo de todo o dia. Moreira estava bebendo água de canudo. Zé Carlos fora agredido na perna direita. Valtencir perdera os movimentos do braço esquerdo. Gérson estava com o tornozelo esquerdo bastante inchado. Rogério conseguira livrar o tornozelo de todas as sarrafadas, mas ainda sentia dores na virilha direita. Roberto levou soco na cara (sem bola) e foi chutado no tornozelo e na virilha direita. Paulo Cézar ainda não retirara o esparadrapo do couro cabeludo. Pelo menos, Ferreti se recuperou.

Também na sexta-feira, em carta encaminhada a Octávio, Frederico Lopes pediu demissão do quadro de árbitros e pendurou o apito. No sábado, ele se mostrou inteiro ao Jornal do Brasil: “Só não o expulsei [Gérson] de campo para que ele sofresse o castigo por ter provocado os adversários, no Maracanã, criando assim um péssimo ambiente para o segundo jogo. O mesmo castigo mereceu o Paulo Cézar. (...) Nada tenho contra o Botafogo, e sim contra Gérson. A torcida do Atlético, da mesma forma, não criou aquele ambiente para o Botafogo, e sim para Gérson”. Não havia mais dúvidas de que Frederico Lopes agira com dolo.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

Os volumes I e II podem ser adquiridos através do endereço:  https://mauad.com.br/index.php?route=product/search&search=o%20futebol%20do%20botafogo

terça-feira, 10 de maio de 2022

Fragmentos ‘futebol do botafogo 1966-1970’: a maior atrocidade da história do futebol brasileiro… Parte I [15]

Imagens de Internet / Montagem Mundo Botafogo.

por CARLOS FERREIRA VILARINHO

especialmente para o Mundo Botafogo

sócio-proprietário e historiador do Botafogo de Futebol e Regatas

 [A narração que se segue antecipa o III Volume da coleção, a editar em 2022, e reporta-se ao ano de 1967]

Em 26 de setembro de 1967, uma terça-feira, o Botafogo e o Atlético Mineiro (que eliminou o Goytacaz) acertaram as datas dos jogos pela Taça Brasil. O presidente atleticano, Fábio Fonseca, argumentou que a renda seria maior se a segunda partida fosse disputada em Belo Horizonte. Premido pelas dificuldades financeiras, Palmeiro abriu mão do sorteio. Então, ficou assim: 11 de outubro, no Maracanã; 1º de novembro, no Mineirão.

Daí a duas semanas, na noite de quarta-feira, o Botafogo entrou em campo com o mesmo uniforme usado no Gomes Pedrosa (o triste 4x4). Nos primeiros minutos, preocupado com Nei (uma pilha de nervos), Gérson atuou mais recuado, abrindo, um buraco entre ele e Paulo Cézar, imediatamente aproveitado pelo Atlético Mineiro, que mantinha três homens na meia-cancha: Vanderlei, Amauri (marcador de Gérson) e Tião (no vaivém), este último, em constantes combinações com Laci e Ronaldo. Aos 15, Canindé investe no costado de Paulo Cézar e chuta da intermediária, mas a bola toma um efeito inesperado. Manga, quase na marca penal, ainda toca com a mão direita, mas leva o gol: 0x1.

Arriscando tudo, e graças ao avanço de Gérson (e Nei), o Botafogo custou, mas tomou o controle do jogo, levando constante perigo ao gol de Hélio. Aos 30, lançado por Paulo Cézar, Gérson penetra em velocidade e no instante em que finta Hélio, sofre carga faltosa, por trás, de Vander. Pênalti! Joaquim Gonçalves acha normal. Mas o empate estava maduro. Aos 41, recebendo da defesa, Paulo Cézar lança Roberto, que atira de esquerda, na corrida, antes do corte de Grapete. O couro explode no poste esquerdo e estufa o filó: 1x1.

Aos 42, Zagalo substituiu Airton (fraco) por Ferreti. Aos 43, Hélio abandona a grande área para neutralizar o lançamento de Nei para Ferreti. Grapete apanha a sobra e toca para Décio Teixeira, mas Rogério o desarma. Grapete corre para o gol vazio, enquanto Rogério (perdendo segundos preciosos) toca por cima. O couro bate na cabeça de Grapete, mas entra na gaveta esquerda: 2x1. Um gol espetacular!

Na fase final, o Atlético não viu a cor da bola. Ferreti entrou como uma luva no ataque, participando de tabelas infernais. Aos 24, Gérson entrega a Ferreti, recebe de volta, finge que vai atirar, mas toca para Paulo Cézar entrar livre e fuzilar de canhota no canto direito: 3x1. Golaço! Hélio ficou sentado. Nos 10 minutos seguintes, o Botafogo buscou o quarto gol, que praticamente decidiria a vaga. Então, regido por Gérson, começou um olé desmoralizante. Porém, aos 44, numa jogada de Laci, o juizinho mineiro apita mão na bola, em vez de bola na barriga de Zé Carlos. O lateral esquerdo Décio Teixeira reduz e o jogo termina: 3x2. Revoltante!

No vestiário, Fábio Fonseca jurou vingança: “Haverá forra em Minas”. Na madrugada de sexta-feira, ao desembarcar no Aeroporto da Pampulha, embora considerando justa a derrota (após 23 jogos), ele afirmou que a “molecagem de Gérson” não podia ser “perdoada”. Emprestado (de graça), há três semanas, Bianchini prometeu: “Se eu for escalado no próximo jogo, vou vingar a derrota e a palhaçada comandada por Gérson, nem que tenha de quebrar a perna dele”.

Na semana seguinte, Carlos Roberto participou normalmente do coletivo de quarta-feira (titulares 2x1), preparatório para o clássico contra o Flamengo. Gérson sofreu um estiramento na panturrilha direita e passou a preocupar. No apronto de sexta-feira (titulares 5x1), Gérson marcou 2 gols e foi o nome do treino, demonstrando frieza diante de ameaças de morte e outras violências. Na véspera, Zagalo lhe entregara uma carta anônima, contendo uma foto sua (cercada com cruzes) e outra do cadáver de Ernesto Guevara (assassinado na Bolívia, no domingo da outra semana). Frases coladas em folhas soltas desnudaram os remetentes: “Em Minas, morte”; “Vingança antes de morrer”; “A um passo da eternidade”, etc. No entanto, concordando com Toniato, Gérson atribuiu a autoria à torcida do Flamengo: “Sempre me envia bilhetinhos e ameaças, parecendo que ainda não aprendeu que, quando faz isso, entra sempre bem”. No domingo (22 de outubro), o Botafogo venceu por 2x1. No sábado seguinte (dia 28), derrotou o América por 1x0.

Agora, ia começar a batalha da Taça Brasil. Em Belo Horizonte, Fábio Fonseca afirmou: “Guerra é guerra e haja ou não sangue, o Atlético não perderá este jogo”. Ferreti se apresentou na segunda-feira (30 de outubro) com muitas dores na perna direita e passou a preocupar. Zagalo, inclusive, passou a suspeitar que ele estivesse escondendo uma distensão. Rogério foi liberado. Ufa! No individual do dia seguinte, Ferreti deu um pique e distendeu o músculo adutor da coxa, ficando praticamente de fora do jogo. Caso fosse reprovado no teste do vestiário, Airton entraria. Prevenindo-se contra o clima de terror, Zagalo adiou o embarque para a manhã de quarta-feira (dia do jogo).

Na noite anterior, seguiriam cerca de 2 mil botafoguenses em 27 ônibus contratados por Tarzan, chefe da torcida. Com eles viajariam Jaime de Carvalho e Dulce Rosalina, chefes das torcidas do Flamengo e do Vasco. Centenas de torcedores seguiriam em caravana nos seus próprios veículos. Não faltariam fogos e bandeiras para apoiar o Botafogo. Zagalo antecipou o que diria na preleção: “Temos de ganhar de qualquer maneira. Se perdermos o segundo jogo, ficaremos em situação dificílima no futuro. Seremos obrigados a disputar o terceiro jogo num intervalo de apenas 48 horas, e num mesmo intervalo disputaremos outra partida importante pelo campeonato carioca, contra o Vasco. O desgaste trará consequências imprevisíveis”.

Há duas semanas, o jornal do Atlético Mineiro publicara na primeira página uma foto de Gérson com a seguinte legenda: “É esse”. Ao lado, ameaçou: “Vamos vingar o olé”. Em outras páginas, publicou matérias com os seguintes títulos (em caixa alta): “Quem Vinga”; “Por que Temos de Vencer”; “Eis o Homem”; “Gérson, a torcida do Atlético está marcando encontro com você”. Na noite de terça-feira, Fábio Fonseca lançou o grito de guerra: “Vencer ou matar”.

Na manhã seguinte, 1º de novembro, um inédito aparato policial-militar, superior ao utilizado na segurança de Costa e Silva (na semana anterior), conduziu a delegação da Pampulha até o Mineirão. Parecia um país estrangeiro. O Botafogo denunciará: “A delegação do Botafogo, com efeito, saltou do avião que a transportara entre alas de praças armadas”. Os jogadores e a comissão técnica foram confinados no subsolo do Mineirão até a hora do jogo. Nas Tribunas, Palmeiro, Toniato e Gumercindo Brunet foram insultados e ameaçados.

Proibidos pela polícia de circular pela Cidade, os torcedores acamparam na Pampulha, mas foram avisados de que os bares e restaurantes estavam proibidos de lhes vender qualquer alimento. Marginais alvejaram os ônibus e os carros com ovos, paus, pedras e barras de ferro. Sobraram insultos e ameaças. Num dos ônibus estava a família de Carlos Roberto (os pais, duas irmãs e um irmão). Criminosos viraram um Fusca e reduziram a trapos as vestes de uma senhora. Já na entrada do Mineirão, os botafoguenses foram obrigados a tirar os sapatos para serem revistados.

Para entrarem em campo, os jogadores tiveram de passar em fila indiana entre soldados, “como se fossem prisioneiros” (Ney Palmeiro). Carlos Roberto levou uma pedrada no ombro. Gérson ofertou uma corbeille de flores a Fábio Fonseca, logo estraçalhada a pontapés. Após o Hino Nacional, a banda militar, de surpresa, tocou o “Oh, Minas Gerais”. Do túnel, os dirigentes atleticanos berravam: “Eles não podem sair daqui com a vitória”. O ambiente era claramente fascista.

Extraído do livro “O Futebol do Botafogo – 1966-1970” (a lançar em 2022).

Os volumes I e II podem ser adquiridos através do endereço:  https://mauad.com.br/index.php?route=product/search&search=o%20futebol%20do%20botafogo

Treinadores e contextos (IV): de Marinho Rodrigues, auxiliar de Saldanha, ao auge da linhagem técnica com Mário Zagallo

Marinho Rodrigues. Fonte: Mundo Botafogo. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Após a demissão de João Saldanha, a linhagem técnica ...