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domingo, 28 de dezembro de 2025

João-Sem-Medo enfrenta o diabólico Dr. Maduro

[Nota preliminar: Os Boletins Informativos do Botafogo de Futebol e Regatas sempre foram mais do que futebol e outros desportos, assumindo também um importante papel de cidadania social e cultural. Apresenta-se uma soberba alegoria publicada em 1981 – num ano de fortes referências –, centrada em torno da figura ousada de João Sem Medo e do diabólico inimigo Dr. Maduro. O autor assinou sob pseudônimo...]

por LAMANA | Boletim Oficial do Botafogo | Gentileza de ANGELO SERAPHINI, ex-dirigente do Glorioso.

I

Ouvindo um samba da antiga, acode-me à memória, por analogia, a figura daquele médico, cuja elegância e donaire aliciavam as donzelas de Copacabana.

Esvoaçado de fronteiras além túnel, pousara o esbelto, em aviso prévio, em horta necessitada de cultivo.

No colete da cachola portava o quarentão um dogma da pesada que pintara mal entre os esclarecidos, pois trocado em miúdos ao câmbio da moda, impunha um regime nada alentador e um saldo de zero à esquerda no comércio das carnes.

Sem encontrar oposição, o magnânimo decretava: ”Carne… jamais! São restos de cadáver! Aos vegetais, volver!”

E repimpado no trono desde o palacete à beira-mar, o déspota agraciava os súditos com o novo regime; o regime das hortaliças. Em pouco tempo, implantava-se o conformismo. Clientes e admiradores sucumbem à doutrina e proporcionam-lhe o domínio da situação.

A epidemia leguminosa alastra-se por todo o Posto 4. Dengosas, ávidas por transformar-se em cinturinha-de-vespa, vibram com a encolha da silhueta. Se a dita não entrar em quarto-minguante, doutor Maduro dará jeito.

Seguem-se à risca os ditames do usurpador. Imperam disciplina e obediência e, de quebra, o dedodurismo. Toda cautela é nenhuma. Maduro saca certo titular de vôlei do “Maduro’s Brócolis Club” por ter sido paqueirada com embrulho suspeito nas imediações do Açougue Santa Clara. Mas, o fenômeno não ocorre só com as diletantes.

Nerval – o lateral das divididas – entra na jogada da abstenção carnal. Despreza, ao finalizar o racha cotidiano, aquela que é a razão de sua existência; a inseparável senhora milanesa.

Doutrinado por filmes do espináfrico Popeye, a quem Maduro endossa piamente, quase perdemos o Zé Caniço. Convém não esquecer que o rubronegro Calote deu-se mal com o regime e anda pela bola sete.

Os apetecíveis angorás de dona Eufrásia desfilam junto às fuças do terrível boxer Ringo, cujo dono, o gordota Filó, impõe a todos da mansão a dieta das hortaliças.

Cai o consumo da carne na comarca. E cai alto e graduado. Ninguém tem força nem pra bater escanteio de mangas curtas. O verme da inanição mina as forças dos nossos correligionários. A situação de angústia clama por churrasco. O que será de nós?! É demasiado…

II

Eis senão quando, não é que surge das trevas do Cine Americano, o predestinado, o nosso almejado Messias?

Assistira ele – tranqüilão de Alegrete – ao polêmico “o que a carne herda” [filme de 1949, de Elia Kazan]. Alheio aos comentários da crítica, com o indefectível no canto da boca, o nosso salvador manda-se, lépido, a largas passadas (o prenúncio de toró o aviva) em direção ao boteco do Carnera – ponto de dissidência dos carnívoros.

Zé Lacraia, e Cláudio Estegomia, a mando do barão de Nanaga hão de embargar-lhe o intuito já que montam guarda à saída da meia-noite. Deve ser coisa pra lá de série. Embargar as andanças ou interromper a explanação do nosso herói é ato que não aconselho a ninguém. A bem da verdade, interrompem mesmo. E os prestimosos dão-lhe a dica e o mapa da mina. Já chove e troveja as pampas. Aconselham toda a cautela e se mandam de fininho.

Acompanhado em pensamento pelos que ficam na retaguarda, João parte célere em cumprimento da missão. Com a bússola do justiceiro chega, empapado, ao local do delito, depois de peripécias que se omitem para não acabar com a paciência do leitor. E Saldanha nega-se a crer no que os olhos vêem. Q que vêem? Vêem e ouvem.

Na exclusividade do recinto, entrincheirado na zona do agrião, em mesa de corner, à luz da vela e ao som de Wagner, lá está sentado o objetivo da missão: o diabólico dr. Maduro. No êxtase da transformação, deleita-se com Wagner, propiciado por vitrola de corda (daquelas em cuja estampa o Biriba do Macaé ouve) e trincha ao descompassado das garfadas um “Big-baby-beef” acebolado e à francesa.

A delicadeza do Doctor Jeckyl das hortaliças transfigura-se na grossura do Mister Hyde das tabernas de repasto. Vai-se encarnando a figura do processo.

Se os olhos de Saldanha mal acreditam no que vêem, os do esculápio só vêem e acreditam no que trincha. Vez por outra, ergue a cabeça do prato e olha para o intruso que se lhe postou defronte.

O danado teima por fixar os olhos naquele contorno diante de si, mas, no delírio, mistura as estações do cerebelo e distancia-se da realidade.

Com fanatismo nada vegetariano, monologa em dó maior: “– Eta bifão! Bifão de minhas entranhas! Ditoso boi sagrado!” E prossegue lombo a dentro. Só dá meia-trave ao derramar na caldereta-tanque – orgulho do Renânia – inteira Cascatinha de Petrópolis.

A primeira investida do João, na tentativa de acordar o comilão, esgarça-se pelos flancos e morre na entrada da área. Saldanha volta à carga. Levantando a voz acima de Wagner, tabela com a consciência do antagonista e, de trivela, desfecha-lhe, à queima-roupa, o arremate definitivo.

Despertado da batalha, o algoz emerge das carnes e atônito fica ao deparar com a ousadia do mocetote atrevido que lhe interrompera o ritual. E João, taxativo, enfia-lhe o bico da chuteira no âmago do escrúpulo: “– Francamente… doutor Maduro! E pensar que quase embarco nessa canoa dos legumes. A esta hora teria afundado na praia da Agonia.”

Depois dessa, meus amigos, a vaca foi para o brejo. O guloso cai no pesadelo da realidade e vencido joga o guardanapo. Deixa-se estar, braços arreados, bifão inacabado e nas mãos, garfo e faca; armas depostas da peleja que João-Sem-Medo interrompera.

Há homens assim, dessa têmpera pampeira; como há bárbaros leguminívoro que não resistem à autópsia de uma boa paca.

Rasgado o cartaz do ditador de regimes, assoma a liberdade na comarca do Posto 4, graças à intrepidez de João-Sem-Medo.

Restou ao doutor Maduro trasladar-se para as bandas de Ipanema, onde encarrilhou novos beatos. A tese do egocentrismo vingará em outras plagas com o sermão “Faz o que te digo e não o que faço”, embora o de foro íntimo seja o dileto “Carne jamais… para os otários. Venha ela toda a mim.”

Em defesa do prato de combate, adotou o enganador um sistema em voga nos dias de hoje; retrancou-se na “necrologia com papas fritas”. E dizem que na tática profícua de rasquetear alcatras prosseguiu; porque na gulodice e no amor não existe a palavra “jamais”.

Fonte: Boletim Oficial do Botafogo FR, n.º 241, agosto de 1981.

Nota final do Mundo Botafogo: a expressão ‘João-Sem-Medo’ deriva de personagem lendário de um jovem que não temia coisa alguma e se embrenhou pelo mundo afora enfrentando diabos, gigantes e outros personagens, encerrando a sua saga quando se apaixonou por uma princesa, descobrindo então o medo através do amor e casou-se com a amada; o título de ‘dr.’ era frequentemente usado de modo inflacionário desde o século XIX, sobretudo usado para bacharéis, funcionários públicos ou figuras que queriam ostentar prestígio, e a literatura, a crônica e o jornalismo satírico exploravam isso intensamente com muita ironia social; a expressão ‘maduro’  significava alguém que se julgava experiente, acabado, definitivo, ou, de forma mordaz, alguém dogmático, pedante, autoritário e fossilizado.

sábado, 29 de novembro de 2025

Ser botafoguense passando a taça

In Instagram de Tefypontess

Ser botafoguense sempre foi sentir mais do que viver futebol. Cresci ouvindo que era pra largar o time, que era sofrimento, que era difícil demais, mas eu cresci acreditando.

Porque o Botafogo sempre foi o time da fé, da resiliência e da superação e, no fundo, eu já vivia o Botafogo antes de entender qualquer coisa de futebol.

Aí chegou 2024 e foi simplesmente mágico!

Foi o ano em que eu não só torci, eu participei. Entrei pra Fogocheer e aquilo que antes eu via da arquibancada virou parte da minha rotina, da minha história, do meu coração.

Eu vi de perto o Nilton Santos pulsar. Vi o Botafogo escrever capítulos que parecem cena de filme e eu tava lá! Eu tava ali perto do campo, sentindo a energia, vivendo cada segundo com orgulho e a sensação de: “eu tô fazendo parte disso!”

Esse ano a gente passa a taça, mas a nossa vitória ainda está lá! Está marcada pra sempre na história do futebol e, mais ainda, nos nossos corações.

2024 foi o ano em que eu vi a história sendo escrita… e tive a honra de viver o Botafogo de um jeito que nunca sonhei viver! Que venha mais um ano par!

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Botafogo FR é Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do RJ

Fonte: www.portaltela.com. Crédito: Wallace Lima / Botafogo.

Após reconhecimento do Grêmio Recreativo Escola de Samba Botafogo Samba Clube, o Botafogo de Futebol e Regatas também foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro em publicação no Diário Oficial de 3 de novembro de 2025, por aprovação do governador Cláudio Castro.

Fonte: www.lance.com.br. Reprodução / Diário Oficial do Rio de Janeiro.

Notícia veiculada em odia.ig.com.br; www.lance.com.br; www.portaltela.com.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Dia do Botafogo Continental ratificado pelo prefeito do Rio

Crédito: André Durão/ge.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro decretou a criação do ‘Dia do Botafogo Continental’, incluindo-o no Calendário oficial, após o sancionamento do prefeito Eduardo Paes ao projeto de lei do vereador Leonel de Esquerda (PT), votado favoravelmente pela Câmara Municipal em 4 de setembro de 2025.

Veja a notícia desenvolvida ao pormenor no Mundo Botafogo, de 6 de setembro: https://mundobotafogo.blogspot.com/2025/09/dia-do-botafogo-continental.html

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Botafogo em Barreiras: o prefeito Baltazarino, o empresário e a ‘estrela’ Josimar

Fonte: https://eurio.com.br

[Nota preliminar: trata-se do excerto de uma publicação do autor intitulada “Quando Baltazarino trouxe o Botafogo do Rio para jogar em Barreiras”.]

por ROBERTO DE SENA | Mural do Oeste | 23 de julho de 2025

«Baltazarino Araújo Andrade entrou para a história como um dos melhores prefeitos de Barreiras. Ainda hoje, muitos anos depois da sua morte, suas obras continuam aí para todo mundo ver, como é o caso do CAB – Centro de Abastecimento de Barreiras – Ginásio de Esportes, Estádio Geraldão, entre muitas outras que não dá para enumerar e que são marcos da nossa cidade.  Mesmo realizando grandes obras, e sendo Barreiras ainda uma cidade pequena e sem muito destaque no cenário nacional, Baltazarino conseguia proezas inacreditáveis para a época, como, por exemplo, trazer o Botafogo do Rio de Janeiro, campeão brasileiro do ano anterior e uma das melhores equipes do País, para jogar em Barreiras. […]

Lembro-me como hoje. Corria o ano de 1986, logo depois da Copa do Mundo, quando a notícia foi dada em primeira mão pela rádio Barreiras. […]

Em dois minutos a notícia correu feito um raio. Na Praça Castro Alves, conhecida popularmente por Praça das Corujas, um senhor que era dono de uma barraca de vender cigarros e refrigerantes, bem na esquina de frente para a avenida, dava pulos de alegria e gritava:

– “Finalmente vou realizar meu sonho. Eu sabia que não iria morrer sem ver o meu Botafogo jogar. Só Baltazarino pra me dar um presente desse! Enquanto vida eu tiver não deixo de votar neste homem é nunca.” E pulava feito um doido dentro da barraca.

Um barbeiro por nome Didi que trabalhava em um salão na Praça Coronel Antonio Balbino e que hoje é chamada de Praça 24 Horas, passou o resto do dia soltando foguetes para comemorar a vinda do seu time de coração.

Já os adversários de Baltazarino se encarregaram de lançar a dúvida no ar. […]

E ficava aquela discussão danada nas esquinas da cidade. Os aliados de Baltazarino tiravam sarro com a oposição. […] Os adversários rebatiam. […]

Quem ama o futebol como é o meu caso, sabe muito bem que naquele tempo o Botafogo tinha um jogador chamado Josimar, famoso lateral direito que havia sido o destaque da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986 realizada no México, tendo marcado dois gols que de tão belos entraram para a história das Copas. Josimar era a estrela e estava sendo sondado para jogar em grandes times da Europa. […]

O povo de Barreiras estava ansioso para ver de perto as sensacionais jogadas do craque botafoguense que não fazia nem um mês todos viam pela televisão jogando na Copa do Mundo, fazendo belíssimos gols pela Seleção Brasileira. Os adversários de Baltazarino continuavam baixando o sarrafo. […]

– Vocês acham que um jogador do nível de Josimar vem jogar em Barreiras? […]

O certo é que o assunto tomou conta da cidade. Na hora do almoço e do jantar quando as famílias estavam reunidas ou domingo depois da missa. No famoso bar Aconchego de Nelli Nancy, no bar do Bento, no bar do Humberto, no Mercado Velho, na loja de Naldomar Campos, no Supermercado Castro, na loja de Annibinha, na Loja  de Peças Sabbá, de Barrerinhas a Vila Brasil, da Baraúna ao Mucambo, a vinda do Botafogo era o que se comentava por todos os cantos entre ricos e pobres, pretos e brancos, adultos e crianças. Dizem que até o padre Geraldo na época teria falado durante uma pregação da importância do futebol para a saúde e o bem-estar do povo. Por aí se pode deduzir a importância que se dava à vinda do Botafogo do Rio de Janeiro a Barreiras. […]

Dois dias antes de viajar para  Barreiras o Botafogo jogou em Brasília. Conta-se que Josimar pediu para não vir para Barreiras e o empresário teria ligado para Baltazarino tentando dar um migué.

– Bom dia prefeito, o Botafogo jogou ontem em Brasília, o time deu um show e vai fazer um grande espetáculo ai em Barreiras. Já estamos aqui prontos para embarcar.

Comandante do 4º BEC, Cel. Fernando Porres Ferreiras e esposa e o prefeito Baltazarino Araújo Andrade e sua esposa D. Josefa (casal à direita da foto), na inauguração do Parque de Exposições. Crédito: Acervo pessoal da historiadora Ignez Pitta de Almeida.

Baltazarino abriu-se em sorrisos no telefone e mostrou toda a sua alegria com o empresário.

– Muito bem, compreendeu, o povo de Barreiras tá soltando foguetes na rua de alegria para ver o Botafogo. Vamos fazer uma comitiva grande para recepcionar o time na entrada da cidade. Vou botar banda de música, mandar fazer umas  galinhas caipira no jeito para os atletas sentirem o sabor do nosso tempero. Vai ser uma festança daquelas que nosso povo sabe fazer.

– Só tem um pequeno problema seu prefeito, mas é coisa sem importância, probleminha bobo que não vai atrapalhar em nada o espetáculo.

– Sim, pois não, pode falar. É dinheiro? Diga lá! O que for a gente resolve. Aqui num tem parangolé não, compreendeu? […]

– Olha prefeito, o Josimar no jogo de ontem sofreu uma contusão e vai ter que voltar para o Rio de Janeiro para ficar em tratamento. […]

Baltazarino, que era explosivo, ficou irado e não mediu as palavas

– Como é que é? É verdade o que eu tô ouvindo? O Josimar não vem? É isso mesmo que você falou ou eu tô ficando doido?

– É isso mesmo, seu prefeito. Ele não vai poder ir. Olhe, mas não tem problema nenhum. No jogo de ontem aqui em Brasília, ele foi substituído por um jogador da base que jogou um bolão, deu um show e a torcida gostou mais dele do que do Josimar. Sabe como é, Josimar depois da Copa deixou a fama subir para a cabeça, tá pensando que é o rei da cocada preta, mas num é não. Vamos provar ai em Barreiras que não precisamos dele para fazer um grande espetáculo e dar um show de bola como a torcida gosta. Né não prefeito?

– O quê! Cê tá pensando que eu sou algum besta, é? Pois olhe, vou lhe dizer uma coisa: se Josimar não vier, não precisa o Botafogo vir não. Pode voltar daí mesmo compreendeu? Nem venha me enrolar com tal de jogador da base que eu num quero saber de base nenhuma. Aliás, se o Botafogo tiver a coragem de vir até aqui sem o Josimar aí vocês vão conhecer a base direitinho pois vão sair daqui na base da taca. Vai ser na base da taca compreendeu. É taca de vergalho de boi para aprender a cumprir a palavra. […]

Dizem que não passaram nem 10 minutos, o empresário voltou a ligar.

– Prefeito, o senhor me desculpe, eu entendi mal, o jogador que tá machucado é um tal de Clerismar, que eu mesmo num sei nem quem é. É esse que não pode ir. O Josimar vai sim. […]

O certo é que o Botafogo chegou a Barreiras debaixo de imenso foguetório e muita festa. Josimar era tietado por todos, embora não tivesse dado muita atenção para quase ninguém.

No dia do jogo o Estádio Geraldão estava tão lotado que parece que a cidade toda estava lá. Pelas ruas em volta podia se ver ônibus de caravanas que vinham de Santa Rita de Cássia, Formosa do Rio Preto, Riachão das Neves e as demais cidades da região. […]

No dia seguinte, quando o Botafogo foi embarcar de volta para o Rio de Janeiro, centenas de torcedores foram ao hotel e levaram presentes para os jogadores. Carne de bode, buchada, doce de buriti, peta, ginete, licor da caju, rapadura, mel de abelha, litros e mais litros de cachaça brejeira. Kincão e Hugo Assis, do antigo Cine Foto Revelação, racharam de ganhar dinheiro tirando foto do povo com os jogadores. […]

Era assim o nosso saudoso Baltazarino. Não engolia “H” de ninguém e nem aceitava vissunagem. Quando alguém vinha com conversa mole, com enrolação, ele percebia no ato e ia logo dizendo: “Sabedoria quando é demais vira bicho e come o dono.”»

Publicação completa em https://muraldooeste.com/cronica-de-roberto-de-sena-quando-baltazarino-trouxe-o-botafogo-do-rio-para-jogar-em-barreiras/

FICHA TÉCNICA

Botafogo 0x0 Seleção de Barreiras (BA)

» Gols: –

» Competição: Amistoso

» Data: 25.07.1987

» Local: Estádio Municipal Luiz Geraldo da Silva, o 'Geraldão', em Barreiras (BA)

» Botafogo: Jorge Lourenço; Josimar, Ronaldo, Wilson Gottardo, e Wagner Pepeta; Vítor, Carlos Magno e Berg (Mazolinha); Helinho (Hélder), De Lima e Marcinho (Evaldo). Técnico: Sebastião Leônidas.

» Seleção de Barreiras: Rodnei; Nego, Nildo, Maninho e Gaguinho; Dom, Cláudio e Paulo; Raimundo, Chiquinho (Baema) e Roberto Porto (Jaime). Técnico: Severo. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

12 de agosto de 1945: embate Botafogo x Vasco e aniversário do Glorioso

Fonte: Jornal dos Sports, 12/08/1945.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

No dia 12 de agosto de 1945 comemorou-se o 41º aniversário de fundação do Botafogo Football Club com um formidável embate entre Botafogo e Vasco da Gama, as melhores equipes do momento, e o Jornal dos Sports publicou a charge acima.

A propósito do aniversário várias lojas comerciais do Rio de Janeiro publicaram fotos da equipe de futebol com os jogadores titulares. Em um caso específico reproduziram a arte do argentino Lorenzo Molas (imagem abaixo) sobre os atletas do Botafogo que participaram na II Guerra Mundial (ver https://mundobotafogo.blogspot.com/2016/10/o-botafogo-venceu-ate-hitler.html).

Arte de Lorenzo Molas / Globo Sportivo.

Outras lojas comerciais também se manifestaram congratulando o Botafogo com imagens dos grandes cartolas do Clube, tais como Augusto Frederico Schmidt, Carlito Rocha, Adhemar Bebiano, Luiz Aranha, Vargas Neto, entre outros.

Houve ainda, entre outras, a interessante imagem do Pato Donald honrando a bandeira e o escudo do Glorioso (imagem abaixo), homenagem da Sapataria Insinuante.

Fonte: Jornal dos Sports, 12/08/1945.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Tribunal de Justiça homenageia o Botafogo: da recusa à inclusão de Garrincha – ‘pernas tortas’ em discussão

Crédito: Arquivo/AE.

por ANCELMO GOIS | Blog do Ancelmo Gois | O Globo

«O Botafogo será homenageado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) no dia 24 de setembro, durante a Cerimônia de Abertura da Ação Social em Alusão ao Dia Nacional da Pessoa com Deficiência.

O ídolo do clube e campeão do mundo pela Seleção Brasileira, Garrincha, é o motivo da homenagem. A cerimônia ocorrerá às 10h, na Rua Dom Manuel, 37, em frente à Lâmina III.

O presidente do TJRJ, desembargador Ricardo Couto, relembrou, durante o seminário comemorativo dos 10 anos da Lei Brasileira de Inclusão, intitulado Justiça e Inclusão em Movimento, o “anjo das pernas tortas”, um dos maiores jogadores da história do futebol, ao ser recusado pelo Flamengo por apresentar deficiência física.

Após a negativa, o Botafogo foi o time que contratou o camisa 7 e se tornou o primeiro clube a incluir um atleta aparentemente com deficiência em sua equipe.»

Fonte: https://oglobo.globo.com/blogs/ancelmo-gois/post/2025/09/garrincha-inspira-homenagem-do-tribunal-de-justica-ao-botafogo.ghtml

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Nota preliminar do Mundo Botafogo sobre ´pernas tortas´:

Valgismo (genu valgo) é o desalinhamento que faz os joelhos se aproximarem e os pés se afastarem, formando um X nas penas. O varismo (genu varo) é o oposto, onde os joelhos se afastam um do outro e as pernas formam um arco, conhecido como ‘pernas arqueadas’. Garrincha apresentava ambos os casos: um joelho valgo e um joelho varo.

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Fonte: Reprodução / Twitter Botafogo.

por Tácio Santos | NINJA Esporte Clube

«Mané Garrincha tinha o joelho direito valgo, mas devido a questões ligadas à saúde pública do Brasil de sua época, e não ao futebol. Ele nasceu com uma má formação congênita, em uma família humilde, quando não havia um sistema público de saúde universal como é o SUS hoje em dia. Assim, não recebeu o devido acompanhamento médico, que poderia ter resolvido tal alteração nos primeiros anos de vida com o uso de um simples aparelho corretivo.

Garrincha também foi vítima de poliomielite na infância, uma doença transmitida principalmente pelo contato com água contaminada por fezes de pessoas já infetadas, e que se alastrou em surtos sequenciais no Rio de Janeiro nos anos 1930. […] O alarmante número de casos naquela década não se deu apenas pelas péssimas condições sanitárias a que a maioria da população estava exposta, mas também pelo negacionismo das autoridades locais.

Com a deficiência física de nascença e as sequelas da paralisia infantil, a perna direita de Mané ficou seis centímetros menor que a esquerda, fazendo com que o valgismo fosse acentuado devido à acomodação irregular do peso corporal sobre um membro desfavorecido.

Entretanto, diferente do que costuma acontecer com as pessoas ditas “das pernas tortas”, o joelho esquerdo de Garrincha apresentava um desvio diferente do direito, pois era varo. […]

Mas tanto indivíduos com joelho varo inato, como aqueles com joelho padrão, desenvolvem adaptações ósseas favoráveis ao desvio em varo quando são expostos a regimes de treinamentos de futebol visando o alto rendimento ao longo da infância e da adolescência.

Durante o período de crescimento, as extremidades dos ossos se alongam de maneira a fazer com que cheguemos à estatura final. Ao longo desse processo, deve haver um nível ótimo de sobrecarga mecânica sobre os ossos para que alcancemos o melhor resultado dentro de nossas possibilidades genéticas. Contudo, sobrecargas superiores ou inferiores ao nível ótimo atenuam o crescimento, bem como níveis assimétricos de sobrecarga sobre uma mesma superfície óssea podem levar a um crescimento assimétrico do osso. 

A este respeito, o treinamento de futebol com volume e intensidade que visam o alto rendimento pode causar uma sobrecarga assimétrica na tíbia, o osso da canela que se articula com o fêmur, formando o joelho. Ações como corridas com mudanças repentinas de direção e desacelerações bruscas geram maior estresse na parte interna da tíbia, limitando o crescimento nesta região, e favorecendo um alinhamento varo da articulação.

Ademais, situações causadas por ações específicas do futebol, que não são comuns em outros esportes, exigem a musculatura interna da coxa de modo a elevar a sobrecarga já imposta à parte interna da tíbia, limitando sobremaneira o crescimento da região. Embora os passes, os dribles, os desarmes e os chutes estejam entre essas ações, ainda não sabemos se há preponderância de alguma delas sobre as outras. Por fim, quando os pés ficam presos ao chão pelas travas da chuteira, um novo estresse adicional é imposto à face interna da tíbia.

A longo prazo, o joelho que sofreu desvio em varo pode não apresentar nenhum desfecho diferente do joelho padrão, mas também por causar dor, aumentar o risco de lesões em geral durante a prática esportiva, de lesão de menisco, e do desenvolvimento de artrose. […]

Sendo assim, uma das tendências apontadas para estudos futuros sobre a saúde de atletas em formação é justamente monitorar os regimes de treinamento, o crescimento ósseo e o alinhamento dos membros inferiores para identificar o melhor a se fazer.»

Fonte: https://midianinja.org/de-garrincha-ao-catar-pernas-que-ja-eram-tortas-e-que-vieram-a-entortar/

sábado, 6 de setembro de 2025

Dia do Botafogo Continental

Crédito: Vitor Silva / Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo

Das muitas maneiras que os políticos têm para atrair vários segmentos de população, a utilização do desporto tem sido sempre um elemento privilegiado em todas as partes do mundo.

Desta feita é o Botafogo que beneficia de um Dia incrivelmente ‘criativo’, isto é, atribuir ao Clube o ‘Dia do Botafogo Continental’, proposto para celebração anual no dia 30 de novembro, homenageando a conquista da Copa Libertadores da América, em Buenos Aires.

O projeto de lei que cria a celebração foi aprovado no dia 4 de setembro de 2025 na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por iniciativa do vereador Leonel de Esquerda (PT), juntando-se ao Dia do Botafoguense (homenageando o aniversário de Mário Zagallo), ao Dia do Botafogo (homenageando o aniversário de Nilton Santos), ao Dia do Goleiro (homenageando o aniversário de Manga) e provavelmente ao reconhecimento próximo do Botafogo como patrimônio cultural.

A justificativa do projeto de lei realça: “A presente data nada mais é que o dia da maior vitória que o Botafogo teve nos últimos anos, o título da Copa Libertadores da América, ocorrido em 30 de novembro de 2024. Tal data, já eternizada pela torcida, merece o devido reconhecimento da cidade.”

E o próprio Leonel de Esquerda acrescenta em entrevista ao jornal O Dia: “O Botafogo faz parte da alma do Rio de Janeiro. A história da nossa cidade se entrelaça com a história do clube. Não dá para pensar um sem o outro. Por isso, nada mais justo que oficializar essa conquista tão gloriosa.”

A inclusão da data no calendário oficial da cidade do Rio de Janeiro carece apenas da sanção do prefeito Eduardo Paes.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Botafogo é novamente destaque na premiação Confut Sul-americana 2025

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Na edição de 2025 da Confut Sul-Americana, que premeia os melhores profissionais em 33 domínios dos bastidores do futebol sul-americano, e que decorreu no Mercado Livre Arena Pacaembu, no dia 3 de setembro de 2025, o Botafogo, juntamente com o Palmeiras, foi o clube mais agraciado, arrecadando novamente cinco troféus.

O Botafogo venceu as seguintes categorias:

Melhor TV de Clube

Botafogo TV (Brasil)

Melhor Ação Social ou Sustentável

O Patrocínio Que Ninguém Viu – Botafogo (Brasil)

Profissional de Scout

Alessandro Brito – Botafogo (Brasil)

Profissional de Recursos Humanos

Mariana Carvalho – Botafogo (Brasil)

Profissional de Finanças

Anderson Santos – Botafogo (Brasil)

Recordando as edições anteriores também vencidas maioritariamente pelo Botafogo:

CONFUT 2023

Melhor Executivo de Futebol

André Mazzuco

Melhor Analista de Dados

Alessandro Brito

Melhor Profissional de Direção Geral

Thairo Arruda

CONFUT 2024

Clube com Melhores Práticas de Gestão

Botafogo

Profissional de Scout

Alessandro Brito

Profissional de Comunicação

Júlio Gracco

Profissional de Marketing Esportivo

Pedro Souto

Melhor TV de Clube

Botafogo TV

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Botafogo, o melhor Clube Sul-americano entre os 5 melhores do mundo!

Fonte: Cazé TV.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Botafogo é, desde já, um dos 5 maiores clubes do Mundo e o melhor clube Sul-americano na temporada 2024/2025, integrando a lista para a Bola de Ouro 2025, evento co-organizado pela UEFA e pelo Groupe Amaury, proprietário das empresas de comunicação social France Football e L’Équipe.

A indicação do Botafogo para o seleto grupo dos 5 melhores clubes do mundo impacta significativamente a nossa Gloriosa História, fomenta a reputação do Clube e projeta o escudo da Estrela Solitária como símbolo da nossa força competitiva no futebol mundial.

O Botafogo é, além disso, o primeiro clube brasileiro a ser indicado para o quinteto concorrente à Bola de Ouro, deixando atrás de si potências futebolísticas como Arsenal, Bayern München, Internazionale, Juventus, Manchester City, Milan, Real Madrid…

Reprodução / UEFA.

E que John Textor perceba, finalmente, a verdadeira valia do Botafogo, historicamente muito mais ampla do que a reunião conjunta dos clubes americano, belga, francês e inglês que compunham a Eagle Football até recentemente.

Ou como se diz popularmente: “John, open your eyes!... e não estragues o colosso que começaste a reconstruir!”

A cerimônia dos prêmios Bola de Ouro 2025 – clubes, atletas, treinadores… – tem encontro marcado com o público para o dia 22 de setembro de 2025, no Théâtre du Châtelet, em Paris.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Estrela de cinco pontas

[nota MB: texto absurdamente notável do jornalista botafoguense mais artístico da prosa desportiva brasileira.]

por ARMANDO NOGUEIRA | Jornalista desportivo | 02.09.1997

«Botafogo, campeão da Taça Guanabara. Venceu folgado, embora seja uma equipe de escasso fulgor. Passou por todos os adversários, jogando, sempre, à conta do chá. Nem mais, nem menos. É um time sem estrelas de primeira grandeza. A rigor, tem um astro: Gonçalves. O time é corajoso, sem ser temerário. Sereno, sem ser indolente. Guardadas as devidas proporções, me lembra a seleção de Parreira jogando num rígido 4-4-2 que vence mas não arrebata ninguém. Quando tem a posse da bola, o time alvinegro põe o jogo em banho-maria. Troca passes, numa cadência pausada como um adágio, por sinal, bem regido pelo estilo compassado de Djair. Mesmo o contra-ataque, arma preferida da equipe n jogo final, mesmo o contra-ataque nada tem de vertiginoso. É alegro ma non troppo.

Louve-se no time do Botafogo, acima de tudo, a solidariedade, dentro e fora de campo. Da noite pro dia, o time revelou-se uma entidade ampla e indivisível. Juntando virtudes que forjam uma equipe. E é da alma que vem a glória o exporte. Cabe aqui uma verdade irrefutável com sabor de paradoxo: um time é coletivo na soma de seus integrantes, mas é sumamente individual na alma única que o engrandece. Alma que, no caso do Botafogo, tem forma de estrela. Solitária. Solidária.

O Botafogo começou a Taça Guanabara sitiado de descrenças. Fez um time de jogadores enjeitados. Cada nova contratação era noticiada com desdém. Todo mundo duvidou de uma equipe que acabara de perder ninguém menos que Túlio, seu maior trunfo. E ainda assim, venceu. Mal sabiam os desavisados que é de coisas assim, inexplicáveis, que vive o Botafogo. Sempre fi desse jeito. Quando menos se espera ele apronta uma. O que parece uma simples frase de efeito, na verdade, é um desígnio de berço: há cisas que só acontecem ao Botafogo.

Só quem não conhece a vida do Botafogo é capaz de se admirar que, de repente, ele faça o tremendo estrago que fez na vida do Flamengo, pondo em campo, contra Romário e Sávio, um mero time reservas. Coisas do Botafogo. Como dizia o poeta Paulo Mendes Campos, o Botafogo, tal como ele, Paulinho, sempre foi um tanto tantã.

Em 1948, ganhou um título com um belo time e atribuiu todos os méritos do triunfo a um cachorro vira-lata. Chamava-se Biriba. Entrava em campo à frente da equipe, tirava fotografia, fazia pipi no pé da trave do adversário – e pronto – era mais um jogo ganho. Nesse mesmo ano de 48, o Botafogo mandou embora o seu bem-amado Heleno de Freitas e, sem ele, sairia campeão carioca, desbancando, na final, o Vasco, até então invicto e louvado como o melhor time do Brasil.

O poeta Augusto Frederico Schmidt era louco pelo Botafogo. O professor São Tiago Dantas, amigo cáustico do poeta, achava que os dois nasceram um para o outro. Ambos, clube e poeta, tinham a vocação do erro. Picuinhas intelectuais. A índole botafoguense é, isso sim, meio neurótica. De repente, ele emerge da mais sombria depressão pro gozo mais delirante de uma goleada como aquela da decisão de 57, contra o épico Fluminense. Sies a dois! Nélson Rodrigues deixou o Maracanã carregando no rosto o mais lívido dos silêncios.

O Botafogo sempre se lixou pra lógica da vida. Prefere apostar na superstição. Sempre viveu atrelado ao sortilégio das feitiçarias. Carlito Rocha, quando precisava imobilizar o time rival, mandava alguém de fé dar um nó na cortina de veludo do salão nobre do clube. O time inimigo passava a não andar mais em campo… Nilton Santos, jogador magistral, não abria mão das mandingas que o roupeiro Aloísio fazia, no vestiário, na véspera de um jogo, fosse contra o Flamengo, fosse contra o Fuleiro F. C.

Esperar o quê de um clube que tem por insígnia uma estrela? A estrela de cinco pontas é, justamente, o símbolo do centro místico do mundo.

A moça que está aqui, na mesa ao lado da minha, veste, festiva, uma camisa do Botafogo. Que linda mulher! O rosto, quase grego. A pele, alva e fina, me enternece. Contemplo a beleza da mulher, pensando: se a vida, se a própria vida falasse em voz alta, ia passar a vida toda a se gabar, com orgulho, dos encantos dela.

Tanta beleza assim, numa simples criatura, talvez seja uma dessas coisas que acontecem ao Botafogo. A moça ostenta na camisa uma estrela solitária. Dentro e fora do peito.»

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Meu Amigo Heleno

Reprodução / Internet.

por SANDRO MOREYRA | Jornalista desportivo

Na galeria dos heróis do futebol brasileiro, Heleno de Freitas talvez mereça um lugar tão importante quanto os de Pelé e Garrincha, embora seja menos lembrado do que eles – por ser mais antigo e por ter brilhado numa época em que os meios de comunicação eram mais limitados e não tinham, como hoje, o poder de levar a imagem dos ídolos a milhões de espectadores.

Mas, assim como Pelé foi o Gênio do Futebol e Garrincha a Alegria do Povo, Heleno – pinta e temperamento de galã, dentro e fora dos estádios – foi o Herói Romântico. Tanto no seu jeito de jogar (a bola e ele foram namorados apaixonados, bem ao estilo da década de 40: ela obediente, avisando sempre aonde ia e aceitando docilmente suas vontades) como no jeito de viver, ardente e dissipado.

A fulgurante e temperamental aventura de Heleno começou por volta de 1936, quando ele tinha 16 anos e começou a se destacar nas peladas da praia, nas areias de Copacabana. Foi nessa época que o conheci. Chegara de São João Nepomuceno, interior de Minas, pouco tempo antes, com a mãe viúva e os irmãos, e se preparava para entrar na Faculdade de Direito. Seu talento logo foi percebido pelos olheiros dos grandes clubes do Rio. Um deles levou-o para fazer um teste entre os juvenis do Fluminense, mas ele não se adaptou: o clube de sua paixão era o Botafogo.

Um técnico de basquete, Togo Renan Soares, o Kanela, foi quem levou Heleno para o Botafogo. apresentou-o ao técnico Ademar Pimenta, garantindo que o garoto era um futuro titular da Seleção Brasileira. Mas só algum tempo depois, numa tarde de agosto de 1940, Heleno de Freitas teve o seu primeiro encontro com a fama, no estádio de São Januário, o maior do Rio naquela época. Marcou os dois gols da vitória do Botafogo sobre o São Cristóvão, que era então um adversário forte. No domingo seguinte, mais dois gols e uma nova vitória, dessa vez contra o América. Seu nome conquistava as manchetes desportivas, que exaltavam o seu perfeito domínio de bola, as fulminantes cabeçadas, o chute preciso com os dois pés, o drible fácil, tudo o que compunha o seu notável repertório de craque.

Reprodução / Internet.

Em pouco tempo tornou-se o ídolo da torcida alvinegra. Era notável como o seu estilo clássico e elegante combinava com o espírito guerreiro, a garra com que se atirava à luta. Heleno não sabia perder. E para conseguir a vitória brigava com os adversários, com o juiz e até com os companheiros de time. Mas não era por vedetismo e sim por seu temperamento explosivo e inconformado. Frequentemente, porém, cabeça fria depois do jogo, procurava os companheiros para se desculpar. A verdade é que ele tinha a volúpia de ganhar, de ver na frente o seu Botafogo.

As torcidas dos outros clubes, obviamente, não o perdoavam. Naquele tempo, o grande rival do Botafogo no campeonato carioca era o Fluminense, e foi a torcida do tricolor que o apelidou de “Gilda”, numa alusão à personagem temperamental interpretada por Rita Hayworth num filme de grande sucesso na época. Mas Heleno, ferido com os gritos de Gilda, Gilda, crescia em campo, cheio de raiva, buscando a todo custo a vitória.

De 1940 a 1947, Heleno reinou absoluto no Botafogo. O seu apogeu, porém, foi em 1945/46, quando comandou o ataque da Seleção Brasileira, barrando o grande Leônidas da Silva. No Sul-Americano de 1945, no Chile, formou, num dos ataques mais poderosos da história do nosso futebol. Tesourinha, Zizinho, Heleno, Jair e Ademir (este foi deslocado para a ponta-esquerda para dar lugar a Heleno). Ele foi o artilheiro desse Sul-Americano e voltou consagrado como o melhor centro-avante do continente.

Heleno vivia a grande fase da sua carreira. Tinha tudo: fama, prestígio, dinheiro, lindas mulheres a suspirar por ele. Era tratado com deferência pelos maîtres e garçons dos restaurantes e boates de luxo, onde, ao contrário da quase totalidade de seus colegas de profissão, ele se sentia inteiramente à vontade. Na verdade, Heleno era – e seria ainda hoje – uma excepção entre os jogadores de futebol, quase todos de origem humilde e inculta. Formado em direito, anel no dedo, vestia-se no alfaiate mais caro do Rio e frequentava as rodas boêmias de elite.

Reprodução / Internet.

Naqueles tempos não existia o controle que existe hoje sobre o comportamento dos jogadores fora de campo e nem eles tinham a consciência profissional que têm atualmente. Assim, era comum encontrá-los nas noitadas dos cabarés e dancings do centro da cidade. A diferença entre eles e Heleno é que o craque-galã preferia [expressão inelegível] nas boates e festas ricas da Zona Sul. E seus companheiros habituais de boêmia eram os rapazes do lendário Clube dos Cafajestes – Mariozinho de Oliveira, Sérgio Porto, Carlinhos, Niemeyer, Paulinho Soledade e outros. Era considerada grave infração aos “estatutos” do clube sair mais de duas vezes com a mesma garota e não há lembrança de que Heleno tenha cometido muitas vezes a infração.

Em janeiro de 1948, o Boca Juniors ofereceu ao Botafogo uma fortuna irrecusável pelo passe de Heleno. Ele relutou em deixar o seu amado Botafogo, mas terminou cedendo. E foi reviver na Argentina os seus dias de maior glória no Botafogo. Teve uma estreia retumbante, marcando dois golos e deixando o campo já transformado em ídolo da torcida do Boca. O seu charme de galã, o seu penteado lustroso a la Carlos Gardel, logo conquistaram Buenos Aires. Era saudado e cortejado em toda parte. Virou letra de tango, suprema homenagem dos portenhos. E diziam que até Evita Perón, todo-poderosa primeira dama da Argentina, sentia-se envolvida por sua sedução.

A lua-de-mel com o Boca durou poucos meses. [Expressão inelegível], má vontade do treinador e os rompentes cada vez mais explosivos de Heleno o levaram a pedir a rescisão de contrato e voltar para o Brasil. Na verdade, estavam ficando cada vez mais visíveis os sinais da doença mental que terminaria por consumi-lo poucos anos depois.

Heleno ainda vivera momentos de triunfo jogando pelo Vasco, que ajudou a vencer o Campeonato Carioca de 1949, e, nos dois anos seguintes, no futebol colombiano. Seu último clube foi o América, do Rio, pelo qual jogou uma única vez: a primeira em que pisou o gramado do Maracanã.

Morreu obscuramente no sanatório de Barbacena. Mas não foi esquecido por sua cidade, São João Nepomuceno, onde virou nome de rua. Nem pelos amigos que ainda vivem e que tiveram a sorte de testemunhar a sua dramática e apaixonada carreira. Fui um deles. E prefiro lembrá-lo em seus dias mais felizes, empolgando a torcida nos estádios ou enfrentando bravamente o ciúme das namoradas. Posso até vê-lo ainda na praia, queimado do sol, a cabeça deitada no colo de uma loura magnífica, a Úrsula, que toda a rapaziada paquerava, mas que só dava atenção ao Heleno. Uma manhã estava ele lá, com o colo dela como travesseiro, quando apareceu outra transa sua, Diamantina, que era cantora do Cassino Atlântico e tinha o temperamento de uma leoa. Armou uma confusão tremenda e foi a única vez em que vi Heleno fugir a uma marcação cerrada (à noite, os amigos o gozaram, dizendo que Heleno havia sido vítima de “Úrsula no estômago”).

Eleito novamente o escudo mais bonito do futebol brasileiro!

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo, baseado em Globoesporte. Globo Esporte, veículo de informação desportiva insuspeito de qualque...