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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quem você tem sido?...

O imaginário literato de Don Carlito, o único escritor do mundo cujo livro ainda está sendo escrito.

Crédito: Elaborado por IA.

[Nota preliminar do Mundo Botafogo: a 93ª crônica de Lúcia Senna no Mundo Botafogo cria mais uma sátira do inusitado Don Carlito Bandoneon.]

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo

Há momentos na vida de uma mãe em que não existe dignidade capaz de resistir ao orgulho.

Meu filho Tiago havia escrito seu primeiro livro. Não era qualquer coisa. Professor universitário na área de Bioquímica, acostumado a laboratórios, aulas, pesquisas e todas aquelas coisas sérias que fazem uma mãe fingir que entende perfeitamente o que o filho explica, enquanto, por dentro, pensa apenas:

– Meu Deus, como esse menino ficou inteligente!

Há algum tempo, Tiago estava buscando novos caminhos. Fez cursos de mentoria, desenvolvimento pessoal e de tantas outras áreas que apontavam para horizontes além da sala de aula. Dessa nova caminhada nasceu o livro QUEM VOCÊ TEM SIDO?

E não bastasse a emoção do primeiro livro, ele ainda fora convidado para lançá-lo na Bienal de São Paulo. E mãe, numa situação dessas, não pergunta se deve ir. Arruma a mala e vai.

Só que, em algum momento – e até hoje não sei como –, Don Carlito soube de tudo. Provavelmente a culpada fui eu, que devo ter deixado escapar, no maior orgulho de mãe, que Tiago estaria lançando seu livro na Bienal.

Para qualquer pessoa normal, essa informação significaria apenas que ele estaria participando de um importante evento literário. Don Carlito, porém, entendeu tudo à sua maneira.

Quando dei por mim, ele já havia chegado à Bienal: magro, elegante, bigodinho impecável, sapatos de verniz brilhando e uma quantidade de perfume argentino suficiente para deixar um rastro inconfundível pelos corredores do estande.

Examinou as pilhas de livros, alinhou as cadeiras e olhou para tudo com a seriedade de quem tinha acabado de ser nomeado diretor-geral da organização. Só havia um problema imperdoável para alguém daquela magnitude: faltava ali um trono, onde ele pudesse se sentar, pois Don Carlito não era homem de dar ordens em pé.

A partir daí começou a organizar item por item. Os livros, que estavam perfeitamente arrumados, passaram a ser inclinados, afastados, aproximados e reposicionados segundo critérios que somente Don Carlito conhecia. Pegou, então, um exemplar e leu o título: “QUEM VOCÊ TEM SIDO?

Ficou em silêncio. Ajeitou o bigode. Refletiu. Considerou o título muito bom. Profundo. Mas achou que faltava alguma coisa. Na sua opinião, a pergunta ficaria mais completa se viesse acompanhada de outra, ainda mais importante, questionando, por exemplo, quem a pessoa pretendia amar daqui pra frente.

Ao saber que a sessão de autógrafos começaria, o homem tratou de buscar mesa e caneta. Foi quando alguém, imprudentemente, o lembrou de que ele jamais publicara uma obra.

Don Carlito apenas lançou um certo olhar de quem lamenta a limitação intelectual dos outros. Olhou para o infinito, com aquela expressão de homem que já amou demais – ou, pelo menos, garante que sim – e respondeu:

– Meu livro ainda está sendo escrito, querida.”

– E qual é o título?

Don Carlito, suspirou e disse:

– Cem anos de solidão... acompanhada.

E começou a procurar uma plaquinha para colocar sobre a mesa:

DON CARLITO BANDONEON

Autógrafos e outras consequências amorosas

Logo adiante, notou uma fila se formando. Aproximou-se com a naturalidade de quem estava acostumado a ser o centro das atenções. Permaneceu ali distribuindo sorrisos misteriosos, cumprimentando a todos, até descobrir que ninguém estava nem aí pra ele: o pessoal queria apenas comprar livros. O choque deixou-o visivelmente decepcionado.

Ao ver alguém autografando livros, não resistiu. Aproximou-se, sentou-se, pegou uma caneta e, antes que fosse impedido, tascou uma dedicatória para uma tal de Luciana, transbordando paixão, saudade e um leve arrependimento.

O detalhe é que a obra tratava de inteligência artificial, mas Don Carlito não viu qualquer problema nisso: bastava esclarecer que a dele era absolutamente natural.

Foi na breve ausência de Tiago que o desastre aconteceu: Don Carlito assumiu as vendas.  Cada pessoa que se aproximava corria o risco de sair dali sem saber se havido garantido um exemplar ou se tinha acabado de iniciar uma sessão de terapia.

Ele investigava quem a pessoa havia sido, quem pretendia ser e por quem se apaixonara. O resultado? Clientes confusos em plena crise existencial.  Alguns desistiram da compra mergulhados na dúvida cruel de quem, afinal, tinham se tornado nas últimas quatro décadas.

Ao regressar, meu filho viu uma pequena fila ao redor do quiosque e sorriu, achando que o movimento estava bombando.

Ledo engano. O homem foi logo esclarecendo que não havia vendido nenhum livro. Em compensação, três pessoas choraram, duas terminaram o namoro pelo celular e um rapaz decidiu largar o emprego ali mesmo.

Tiago sussurrou, entre dentes:

– Don Carlito, pelo amor de Deus, o livro é sobre desenvolvimento pessoal!

Ao que ele respondeu categórico:

– Exatamente o que estou fazendo. Estou desenvolvendo as pessoas.

Foi naquele instante que Tiago começou a entender que nenhuma formação acadêmica prepara um ser humano para lidar com Don Carlito.

Quanto a mim, voltei pra casa carregando muito mais do que lembranças, fotografias e o orgulho de ter visto meu filho na sua primeira bienal.

Voltei com a certeza de que sonhos, quando encontram coragem, às vezes ganham capa, título, páginas...

E outras vezes aparecem de bigode, sapato de verniz e perfume argentino, querendo comandar o estande de vendas.

E talvez essa seja a verdadeira pergunta que ficou daquela viagem: QUEM VOCÊ TEM SIDO?

No caso de Don Carlito – o argentino mais sem noção que jamais conheci – ninguém sabe ao certo. Mas uma coisa é garantida: onde houver um livro, uma cadeira vazia e a menor possibilidade de dar um pitaco... ele estará lá.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Don Carlito em território inimigo

Crédito: IA.

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo

Há pessoas que desafiam o destino. Don Carlito Bandoneon desafia o bom senso. Tudo começou quando ele anunciou, com a solenidade de quem comunica um noivado real:

“Meus queridos alunos, hoje não haverá aula de tango. A pátria me convoca.”

Perguntei qual pátria, porque com Don Carlito nunca se sabe. 

Ele levou a mão ao peito, fechou os olhos e respondeu:

“A Argentina, naturalmente.”

Era noite de Copa do Mundo. Argentina em campo. O problema é que o jogo seria assistido num bar tomado por brasileiros. Gente pintada de verde e amarelo, usando chapéu com bandeira, camiseta da seleção, peruca, corneta e uma confiança injustificável na tímida seleção da Inglaterra.   

Eu deveria ter desconfiado quando Don Carlito apareceu vestido como se fosse receber uma medalha do presidente da República. Terno azul-marinho impecável. Sapatos de verniz capazes de refletir o telão. Lenço de seda no bolso. Cachecol azul e branco cuidadosamente dobrado sobre os ombros. E um perfume tão forte que chegou ao bar antes dele.

Quando a porta se abriu, o ambiente silenciou.

Foi um daqueles silêncios históricos, semelhantes ao momento em que alguém derruba um bolo de casamento ou anuncia aumento de condomínio.

Don Carlito observou lentamente a multidão verde-amarela e perguntou, com absoluta tranquilidade:

 “Buenas noches... Onde fica a torcida civilizada?”

Um rapaz respondeu:

“Aqui é Brasil, professor!”

Don Carlito sorriu com piedade:

“Meu jovem, civilização não tem nacionalidade. Tem elegância.”

Sentou-se exatamente no centro do bar, como quem ocupa um território diplomático. Pediu um café. O garçom perguntou se ele não preferia cerveja. Don Carlito suspirou e alertou que cerveja antes do jogo compromete a precisão emocional do torcedor. Ninguém compreendeu mas todos fingiram que sim. 

O jogo começou.

A cada ataque da Argentina, Don Carlito se levantava da cadeira, como se fosse decolar. A cada ataque do adversário fazia sinal da cruz, ajustava o cachecol e murmurava frases em espanhol que provavelmente não existiam em nenhum dicionário.

Foi, então, que um brasileiro decidiu provocá-lo:

“Maradona acabou!”

Don Carlito virou-se lentamente, como um vilão elegante de novela mexicana:

“Meu jovem, Pelé jogava futebol. Maradona escrevia poesia com a chuteira.”

O bar explodiu em protestos.

Outro rapaz gritou:

“Messi nem é tudo isso!”

Don Carlito levou a mão ao peito:

“Senhor, existem blasfêmias que nem o VAR consegue revisar.”

As mesas começaram a rir. Até quem discordava dele achava impossível não gostar daquela figura. Mas o verdadeiro espetáculo ainda estava por vir. Descobrimos, durante um escanteio, que Don Carlito possuía uma teoria secreta. Segundo ele, a Argentina só vencia quando certas condições energéticas eram respeitadas:

“Este terno é o mesmo da semifinal de 2022. Este perfume foi usado contra a Holanda. E estes sapatos nunca testemunharam uma derrota em mata-mata.”

A partir desse momento, o bar entrou num regime de ditadura supersticiosa. Ninguém podia mudar de lugar. Ninguém podia cruzar as pernas. Ninguém podia levantar durante cobrança de falta. O garçom tentou servir uma cerveja. Don Carlito ergueu a mão como um maestro interrompendo a orquestra.

“Agora não! A espuma interfere na circulação astral da bola!”

E quando a televisão travava por um segundo, Don Carlito apontava para o telão:

“Viu? O universo está recalculando a jogada.”

No intervalo, a situação piorou. Ele resolveu explicar por que torcia pela Argentina mesmo cercado de brasileiros. Levantou-se, ajeitou o bigode e discursou:

“Meus amigos, eu não torço contra o Brasil. Eu torço a favor do tango. Abandonar a Argentina seria como um filho negar a própria mãe.”

Uma senhora perguntou:

“E o futebol?”

“Futebol dura noventa minutos. O tango dura a vida inteira.”

Alguns aplaudiram, outros vaiaram. No segundo tempo, a tensão atingiu níveis absurdos. Don Carlito já não piscava. Segurava a xicara de café como quem segura um artefato nuclear.

A cada lance perigoso, agarrava o braço do desconhecido mais próximo. Em determinado momento, abraçou um torcedor da Inglaterra sem perceber. O inglês ficou tão emocionado que começou a torcer pela Argentina também.

Então, aconteceu o GOOOOOLLLL!!!!

O bar explodiu. Metade comemorava, metade lamentava.  

No meio do caos, Don Carlito levantou-se, retirou o celular do bolso, conectou uma caixa de som e, para espanto geral, começou a tocar um tango.

Todos pararam. Ele abriu os braços e declarou:

“Senhores, gol se comemora de pé. Vitória se agradece dançando.”

Antes que alguém reagisse, já havia convidado uma brasileira para dançar. Ela aceitou por puro choque psicológico. Don Carlito a conduziu pelo corredor entre as mesas com a elegância de quem atravessa a Avenida Corrientes.

Os argentinos bateram palmas. Os brasileiros começaram a marcar o compasso. Em menos de um minuto, o bar inteiro dançava. Ninguém mais discutia impedimento. Ninguém falava de arbitragem. Ninguém lembrava da Inglaterra.

Havia apenas um professor de tango, um salão improvisado e uma multidão descobrindo que rivalidade fica mais difícil quando alguém nos convida pra dançar.

Quando a música terminou, um brasileiro perguntou:

“Professor, afinal o senhor veio aqui para ver futebol ou para dar aula?” 

Don Carlito ajeitou o cachecol, alisou o bigode e respondeu:

“Meu rapaz, eu vim provar que existem três idiomas universais: o sorriso, o futebol e o tango. Felizmente, eu falo os três com sotaque portenho.”

O bar veio abaixo em gargalhadas.

Na saída, já perto da meia-noite, encontrei Don Carlito na calçada observando a lua como um poeta aposentado.

Perguntei se estava feliz com o resultado. Ele sorriu daquele jeito perigosamente charmoso que costumava preceder uma frase inesquecível.

“Minha querida, ganhar um jogo é importante. Mas transformar um bar cheio de rivais em um salão de dança... isso, sim, merece prorrogação.”

E saiu caminhando pela rua com seus sapatos de verniz brilhando sob os postes, enquanto eu concluía que Don Carlito talvez seja o único argentino capaz de entrar em território inimigo e sair aplaudido pelos próprios adversários.   

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Dama, o Giro e a Coluna

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo.

Antes do tango entrar na minha vida, com ares de drama argentino e olhares profundos, houve uma fase mais brasileira. Mais direta. Mais suada.

Minha iniciação na dança aconteceu na gloriosa Estudantina Musical – templo sagrado da gafieira – onde elegância e improviso andam de mãos dadas... ou pelo menos tentam.

As aulas aconteciam no cair da tarde.

Maria Antonieta era a professora. Maravilhosa. Minúscula. Uma espécie de milagre em forma de gente. Tão pequenininha que, se ficasse parada, corria o risco de desaparecer no salão. Mas bastava a música começar e ela crescia – não de tamanho, mas de presença. Dominava o espaço com uma autoridade que nenhuma altura explicava.

E era um tal de Giro Simples, Giro Duplo, Giro da Dama, Bate Quadril, Miudinho, Cruzado. Tudo saía dela com uma naturalidade ofensiva.

De mim, nem um pouco.

Eu, que sempre tive uma relação delicada – para não dizer desastrosa – com a coordenação motora, me lançava valente. Caprichava nas roupas. Saias rodadas escolhidas a dedo, para dar aquele efeito cinematográfico nos giros. Já me via flutuando pelo salão.

Na prática, eu escorregava.

Girava, sim. Mas com uma leve tendência a perder o eixo da Terra. E não era raro – aliás, quase uma assinatura – que, na ausência de um parceiro firme o suficiente, terminasse a coreografia amparada por uma coluna da Estudantina. Sem dúvida, arquitetura e dança mantinham comigo uma relação bastante próxima.

Mas era à noite que a verdadeira aula começava.

Lá íamos nós, algumas amigas e eu, cheias de entusiasmo e uma leve ilusão de que sabíamos dançar. Bastava subir as velhas escadas da gafieira, situada na Praça Tiradentes, para sermos imediatamente convidadas por uma fauna masculina de dar inveja a qualquer documentarista.

Sim, havia uma variedade tão grande de figuras raras, tipos curiosos e personagens peculiares, que mais parecia um documentário da National Geographic sobre a vida selvagem.

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow

Tinha o cavalheiro clássico, que começava com um “Me concede esta dança?” – e terminava te rodopiando como se estivesse disputando uma final de campeonato.

Tinha o silencioso que não dizia uma palavra, mas conduzia com tanta firmeza que você não sabia se estava dançando ou sendo sequestrada com elegância.

Tinha aquele que dançava olhando firmemente para o próprio reflexo no espelho. Eu era, no máximo, um acessório em movimento.  Confesso que, em certo momento, pensei em sair discretamente da pista só pra ver se ele notava.

Outro contava a própria vida durante o samba. No meio de um giro, descobri que ele tinha três filhos, uma ex-mulher complicada e um problema no joelho direito – que, aliás, não o impedia em nada de tentar passos altamente questionáveis.

E havia aquele que simplesmente inventava. Misturava gafieira com forró, com bolero, com algo que talvez fosse luta livre. Voltava para a mesa sem saber se tinha dançado ou sobrevivido.

Mas, acima de todos, existiam eles: os malandros.

Terno branco impecável. Sapato bicolor – preto e branco – tão bem engraxado que parecia deslizar antes mesmo da música começar. Chapéu Panamá levemente inclinado, lenço no bolso do paletó e uma confiança que já beirava o patrimônio histórico.

Eles não dançavam; desfilavam arrogância e autoridade.

Nós sabíamos que eles não eram pro nosso bico. E, justamente por isso, eram o meu sonho de consumo coreográfico. Ser tirada pra dançar por um malandro era quase um título honorário. E foi aí que, numa dessas noites, o improvável aconteceu.

Um deles – sim, um legítimo exemplar da espécie – parou diante da nossa mesa. Olhou diretamente pra mim.

E, com a naturalidade de quem sabe exatamente o impacto que causa, fez um leve gesto com a cabeça. Não houve convite formal. Não era necessário.

Levantei com a dignidade possível de quem, por dentro, já estava em estado de emergência.

A música começou.

Nos primeiros segundos, tudo foi surpreendentemente perfeito. Ele me conduzia com precisão cirúrgica. Eu obedecia como se tivesse nascido sabendo. Giro Simples, executei. Giro da Dama, sobrevivi. Um Miudinho elegante, quase me emocionei.

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow

Pensei com meus botões:

 – É hoje que viro lenda.

Foi então que ele resolveu inovar: um Giro Duplo.

Até tentei avisar pro meu corpo, mas já era tarde.  Girei uma vez...duas ... e na terceira, perdi completamente qualquer vínculo com as leis da física.

Só sei que, por um breve instante, vi o salão em câmera lenta. Em seguida, fui interceptada, não por ele, mas por uma das tradicionais colunas da casa, minha velha conhecida.

Houve um silêncio respeitoso. Ele me olhou. Eu o olhei.

E com uma elegância que só os verdadeiros malandros possuem, ajeitou o chapéu, fez um meio sorriso e disse:

– A senhora dança com muita emoção.

Voltei pra mesa sob aplausos discretos das amigas, tentando manter a compostura de quem, claramente, acabara de protagonizar um evento.

Nunca mais fui convidada por um malandro.

Mas também, depois daquela performance, acho que deixei minha marca, tanto no salão quanto na coluna.

Talvez tenha sido exatamente aí que entendi que a gafieira – por mais charmosa que fosse – exigia de mim uma coordenação motora que não possuía ou... me recusava a desenvolver sob pressão.

Foi então que, num surto de ousadia – ou completa falta de noção – decidi migrar para algo que, na minha cabeça, parecia mais simples, mais contido, quase introspectivo: o tango.

Mal sabia onde estava me metendo. Mal sabia que estava prestes a conhecer o inesquecível, o inclassificável, o irresistivelmente desajeitado galã de subúrbio: Don Carlito Bandonèon.

Nota do Mundo Botafogo: (a) todas as crônicas da autora podem ser lidas na eqtiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras lúciasenna [42 dessas crônicas foram posteriormente publicadas, mas a edição está esgotada]; (b) o encontro de Lúcia Senna com Don Carlito Bandonéon pode ser apreciado e ‘vivido’ no seguinte endereço: https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/01/um-beijo-no-seu-coracao.html

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A voz de Sara

Crédito: www.freepik.com

por LÚCIA SENNA | Escritora e cantora | Colunista do Mundo Botafogo

Sempre tive medo de doença. Gosto tanto da vida, que qualquer sinal suspeito no corpo me parece logo um aviso dramático de que minha permanência no planeta está por um fio. Mas houve uma época em que a coisa saiu completamente do controle.

Depois de uma pequena cirurgia para retirar um cisto no ovário, desmaiei durante o café da manhã. Acordei na casa da vizinha, com mamãe em estado de pânico – suspeito, aliás, que ela também tivesse certo talento para a hipocondria.

A partir daquele dia, meu organismo se transformou numa verdadeira fábrica de tragédias médicas.

Dor nas costas? Fratura exposta. Dormência nas pernas? Doença raríssima que certamente levaria à amputação do dedão do pé. Cisco no olho? Cegueira iminente. Resfriado? Pneumonia dupla. Verruga na mão? Tumor maligno. Dor de cabeça? Aneurisma.

Resultado: mãos suadas, coração disparado e a contínua sensação de morte imediata. Diagnóstico final: síndrome do pânico.

Foi então que uma prima me ofereceu o telefone de uma psicóloga chamada Sara.

Liguei. E, naquele instante, fiquei encantada. A voz de Sara era uma coisa extraordinária. Aveludada, firme, cheia de curvas, de ritmos... uma voz que parecia caminhar de salto alto. Imediatamente imaginei uma mulher elegante, bonita, segura – dessas que quando passam, todos percebem.

Marquei a consulta. Na hora combinada, cheguei à pequena sala de espera de um consultório dividido por três psicólogas. Ambiente simpático, discreto, aconchegante.

Às dez em ponto, a porta de um dos consultórios se abriu.

 – Lúcia?

Levantei... e levei um choque. Aquela senhora não tinha absolutamente nada a ver com a voz que havia conhecido pelo telefone. NADA!

Sara era enorme. Muito obesa. E, digamos com carinho, bastante distante da figura elegante que minha imaginação havia criado. Mas a voz... ah, a voz continuava a mesma. Sexy. Sedutora. Musical.

Entrei.

Sara acomodou-se numa poltrona gigantesca, cercada de almofadas, como se fosse um trono. Ao lado, havia uma mesinha com garrafas d’água – exclusivamente pra ela – e uma generosa coleção de guloseimas: jujubas, amendoins, paçocas, chicletes.

Sentei numa cadeira bem menos confortável. Comecei, então, a desfiar o meu rosário de medos. Expliquei cada sintoma, cada doença raríssima que tinha certeza de estar desenvolvendo dia após dia.

Sara ouvia... mastigando. De boca cheia, dizia apenas:

– Conta mais. - e eu contava...

– Mais. - e eu continuava...

Entre uma jujuba e uma paçoca, Sara me incentivava:

– Mais detalhes.

Uma hora depois, o despertador tocava. Tempo encerrado. Assim foram muitas semanas. Eu chegava com novas doenças imaginárias. Sara chegava com novas guloseimas.

Até que um dia, durante uma sessão, aconteceu o impensável. No meio da minha frase mais dramática – aquela em que relatava uma crise existencial que mereceria, no mínimo, um franzir de sobrancelhas profissional – percebi um silêncio estranho. Olhei melhor.

Sara dormia.

Não, não era um cochilo discreto. Era um sono convicto, profundo, daqueles que fazem a cabeça pender levemente para o lado e a boca se abrir num pequeno abandono terapêutico. Fiquei alguns segundos paralisada, entre a indignação e a vergonha. Mas a indignação venceu.

 – Sara?... – arrisquei, num tom que misturava delicadeza e revolta.

Ela despertou num pulo curto, olhos arregalados, um leve vestígio de baba ameaçando comprometer a autoridade científica da cena.

– Eu não estava dormindo! – declarou imediatamente, ajeitando-se na poltrona com dignidade apressada.

– Eu estava em alfa.

Fez uma pequena pausa, como quem revela um conceito sofisticadíssimo da neurociência:

– É um estado em que o inconsciente fica mais ativo.

Fiquei olhando pra ela alguns segundos. Confesso que, naquele momento, tive a forte impressão de que o inconsciente dela estava ativo... em outra dimensão. Observei que, na mesinha, não havia nem paçocas nem jujubas nem amendoins. Provavelmente, a secretária tinha esquecido de abastecer o estoque terapêutico. E Sara, faminta como ela só, acabou por adormecer. Afinal, sono também alimenta.

Mas o verdadeiro final dessa história viria pouco tempo depois.

Certo dia, Sara resolveu ocupar toda a sessão me contando um drama pessoal: a empregada havia entrado com uma ação contra ela. O motivo? Sara não pagava direitos trabalhistas – décimo terceiro, férias e outras formalidades que a lei exige.

Enquanto ouvia aquilo, um detalhe me deixou gelada. Eu trabalhava no INSS. E o processo havia caído justamente na unidade onde trabalhava.

Foi, então, que Sara, com sua linda voz aveludada e sedutora, me fez um pedido:

– Será que você poderia sumir com esse processo?

FIQUEI HORRORIZADA!!!!

Levantei daquela cadeira pouco confortável e saí da sala com a sensação de que estava assistindo a algo verdadeiramente preocupante.

Nunca mais voltei. Mas devo confessar uma coisa: talvez Sara tenha mesmo me ajudado. Depois de ouvir uma psicóloga mastigando jujubas, dormindo no meio da consulta e pedindo fraude no INSS... qualquer fratura exposta passou a parecer um problema bem menor.

Nota do Mundo Botafogo: todas as crônicas da autora podem ser lidas na etiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras lúciasenna [42 dessas crônicas foram posteriormente publicadas, mas a edição está esgotada].

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Um beijo no seu coração

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo

Descobri, há tempos, que o meu coração não bate – ele toca. É um verdadeiro rádio comunitário que funciona sem patrocínio, com programação caótica, vinhetas improvisadas e uma apresentadora dramática: eu mesma.

Sou dessas que escuta uma música romântica e já começa a chorar antes mesmo do refrão. Basta ouvir um “eu sei que vou te amar” pra me transformar numa heroína de novela mexicana, enxugando os olhos com o guardanapo e suspirando como se o amor estivesse atrasado no trânsito.

De manhã, ele começa suave, com uma MPB otimista do tipo “hoje vai dar tudo certo”. Mas basta eu abrir o aplicativo do banco e ver o saldo, pra trilha sonora mudar automaticamente para um tango sofrido, daqueles que já vêm com cheiro de lágrima e café requentado.

E foi numa dessas fases de “quero colocar drama na vida” que resolvi fazer aulas de tango na Lapa. Ah, o tango... meu coração, confesso, tem alma portenha. A escola funcionava numa casa tão antiga que as escadas gemiam, como se tivessem artrite. O chão rangia em compasso 2x4, e as janelas se abriam sozinhas, como num filme de Almodóvar com orçamento baixo.

Foi aí que conheci ele – o inesquecível, o inclassificável, o irresistivelmente desajeitado galã de subúrbio: Don Carlito Bandoneón.

Ah, Don Carlito... um homem que parecia ter nascido de sapato de verniz. Magro, elegante, com um bigodinho que fazia curvas como o compasso de uma milonga. Usava sempre perfume forte o bastante pra ser sentido em outra encarnação. E dançava com uma seriedade quase religiosa,  como se o destino da humanidade dependesse da firmeza do seu quadril.   

“Querida”, dizia ele, ajeitando o paletó, “no tango não se dança, se confessa pecados com os pés.”

E lá ia eu, toda compenetrada, tentando seguir seus passos e disfarçar o medo de virar penitente. O problema é que Don Carlito tinha o pé leve – leve pra dançar e pra pisar no dos outros. Cada aula era uma mistura de sensualidade e ortopedia. E quando eu reclamava, ele me fitava com olhos de telenovela e dizia:

“Foi o destino, querida... o destino me fez pisar em você. E como brigar com o destino, não é mesmo?” Ou ainda:

“No tango, querida, não se dança; se sofre com elegância.” E foi assim que, aos poucos, fui descobrindo que o sofrimento não era apenas metafórico.

Depois da aula, ele se sentava na varanda, tirava um lenço do bolso e secava o suor como quem limpava lembranças. Dizia ter dançado em Buenos Aires, Paris e até em Bonsucesso – sempre com o mesmo coração partido e a mesmíssima calça justa.

Mas o tango é só uma das estações do meu coração. Porque esse rádio toca de tudo – brega, samba, bolero, funk e até aquele sertanejo que a gente canta chorando, fingindo que é ironia. Sim, confesso: sou brega. Ouço Reginaldo Rossi e já fico derretida.

“Um beijo no seu coração”, que frase linda! Brega? Com toda certeza. Mas quem precisa de licença poética quando se tem um refrão desses? O brega é honesto, é emocional sem medo, é o coração falando alto – e desafinado.

E quando tocam Lupicínio Rodrigues, então...

Ah, Lupicínio! Aquele homem sabia sofrer com categoria, como ninguém. Outro dia, coloquei “Nervos de Aço” pra tocar, e no primeiro verso:

“Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração”, já senti o colapso emocional se aproximando. Que exagero, maravilhoso! Eu ali, deitada no tapete da sala, pensando: “É isso, Lupi, eu também sou dessas, mas com trilha sonora em estéreo!”

E quando chega na parte: “Eu não sei se o que trago no peito, é ciúme, despeito, amizade ou horror... Eu só sei que quando a vejo, me dá um desejo de morte ou de dor...”, me entrego de vez e viro figurante da minha própria fossa.

Descobri que o zumbido no ouvido, tem diagnóstico simples: excesso de trilha sonora interna, uma overdose de ritmos, lembranças, dramas e paixões. O DJ que mora no meu peito é completamente descontrolado. Mistura tango com funk, samba com bolero e ainda bota um Lupicínio no meio só pra ver se eu aguento.

Mas, sinceramente, eu gosto disso. Gosto dessa bagunça sonora que me faz rir, chorar, rebolar e tudo ao mesmo tempo. Porque, no fundo, ter um coração barulhento é a maior prova de que ele ainda está bem vivo.

E se um dia, você me vir andando pelas ruas, sorrindo pro nada, pode apostar: é o Don Carlito Bandoneón que voltou a me chamar pra dançar – lá de dentro da memória, com o bigodinho torto, o olhar de novela e aquele sotaque inconfundível. 

E como boa radialista do amor, deixo o recado final, com voz de apresentadora brega da madrugada:

“Um beijo no seu coração, ouvinte querido”.

Nota do Mundo Botafogo: todas as crônicas da autora podem ser lidas na etiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras lúciasenna.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Velório do zumbido

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo

Depois de vinte e seis anos de convivência intensa, barulhenta e muitas vezes perturbadora, ele finalmente começou a dar sinais de que estava se despedindo. Sim, o zumbido.  Aquele som insistente, inconveniente, impertinente – meu inquilino auditivo sem contrato – resolveu, aparentemente, entrar em silêncio. E como tudo que deixa marca merece uma despedia à altura, decidi organizar o que ninguém jamais ousou: o velório do zumbido. Foi íntimo, mas digno.

Na capelinha do meu cérebro, reuni os mais próximos: o nervo auditivo (emocionado), o labirinto (levemente enjoado) e o cerebelo, que veio só pela comida. Minha secretária cuidou do buffet: tortas de banana, biscoitinhos de polvilho em forma de ouvido, e sucos de maracujá – em respeito à paz que finalmente se fazia presente.

Do lado de fora, uma plaquinha delicada:

– Favor manter o silêncio. O defunto já fez barulho demais em vida.

A cerimônia foi conduzida por mim mesma, vestida de preto e fones de ouvido, não por necessidade, mas por memória afetiva. Fiz um discurso breve:

– Estamos aqui reunidos não para chorar, mas para comemorar a partida de um som que me acompanhou por décadas.  Foi um relacionamento unilateral, barulhento e sem consentimento. Eu, gritava por paz. Ele, apitava por rebeldia. Mas hoje me despeço com gratidão e com certo alívio:

– Vá em paz, zumbido.  E fique, de preferência, bem longe.

Teve até homenagem musical, claro. Um violino ao fundo tocando ‘Ode ao Silêncio’, que compus mentalmente, só de imaginar as noites sem ele. Não, não tocamos ‘La Bamba’. Esse é um funeral, não um castigo. Alguns amigos quiseram comparecer, mas acharam estranho participar do velório de um som.

Estranho?  Mais estranho é ter uma corneta invisível no ouvido por vinte e seis anos e fingir que está tudo bem. Teve quem chorou (de emoção).  Teve quem não entendeu nada (normal). E teve quem disse:

– Mas… se ele voltar?

Ora, se ele voltar, a gente faz outro velório. Ou, então, uma sessão de exorcismo auditivo. Ainda não decidi. Por enquanto, sigo esperançosa, de luto seletivo e um tanto desconfiada. O zumbido sempre gostou de fazer aparições súbitas – tipo parente que não avisa que vai dormir na sua casa.  Mas até segunda ordem, ele está silenciado.

E eu? Bom, estou ouvindo o mundo de novo: o barulho da rua, os pássaros, as risadas e até o silêncio, agora, tem outro som.

E como todo velório que se preze tem lembrancinha, o do meu zumbido não podia ser diferente. Mandei fazer chaveirinhos com a miniatura da minha cóclea – dourada, claro, que era pra parecer vitória. A embalagem vinha com um bilhetinho:

– Obrigada por comparecer ao silêncio que nunca tive.

Alguns acharam de mau gosto. Outros disseram que ouviram um tinnitus vindo da caixa, mas era só culpa. Culpa por nunca terem entendido que o inferno, às vezes, mora dentro da orelha. 

PS: Se alguém ouvir um apito vindo da região espiritual, favor ignorar. Pode ser só interferência do além.

Não perca o zumbido em plena atividade:

https://mundobotafogo.blogspot.com/2025/08/o-otorrino-nao-me-deu-ouvidos.html

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O otorrino não me deu ouvidos

[Aos leitores interessados informa-se que as crônicas de Lúcia Senna no Mundo Botafogo foram publicadas em livro intitulado 'No embalo da Rede', 148 p.]

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo

Conviver com um zumbido no ouvido por vinte e seis anos é quase uma relação de casamento, daquelas bem tóxicas. A gente até aprende a conviver, mas nunca se acostuma. No meu caso, o relacionamento começou cedo. Nunca houve pausas, férias ou um momento de silêncio. Um companheiro fiel, mas com uma voz aguda e estridente, assim como um motor de geladeira em fim de carreira que insiste em ser a trilha sonora da minha vida.

Claro que jamais fiquei de braços cruzados ouvindo esse podcast do inferno. Já fiz de tudo. Rezei para todos os santos e posso garantir que não encontrei a Nossa Senhora do Zumbido. Se existisse, eu já teria levantado um altar no quarto e acendido velas com aroma de silêncio. Fiz promessas para as entidades da Umbanda, do Candomblé e do Xambá. Subi escadas de igrejas de joelhos (inclusive, o joelho tá bem melhor que o ouvido).

Fui a São Paulo me consultar com uma médica famosíssima – dessas que têm currículo maior que bula de antidepressivo. Fui quase obrigada a comprar um livro de sua autoria: “Quem disse que zumbido não tem cura?” Pra compensar, ganhei de amostra grátis um comprimido novo que, segundo ela, tem ajudado muitos pacientes. No meu caso, ajudou o zumbido a entrar em modo turbo. A médica, com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo, me disse através de vídeo chamada que, em casos raros, isso podia acontecer. Devo ser o pokémon do zumbido raro.

Mas… sigo firme! Nunca se sabe quando o milagre auditivo vai acontecer. Há três dias, numa dessas crises mais agudas em que o zumbido sobe o tom, tal qual cantor de karaokê empolgado, fui ao encontro de um outro otorrino indicado por uma prima. Ela me disse que ele era jovem, pesquisador, super atualizado, humano, competente – desses que respiram ciência no café da manhã. Que maravilha, pensei! O combo perfeito! E lá estava eu, acompanhada da minha fiel escudeira: uma pasta abarrotada de exames, assim como quem leva provas para um tribunal celestial.

Chego na hora marcada e esperei quase duas horas para ser atendida. Finalmente, chamam o meu nome. Entro animada. Diante de mim, um homem bonito, simpático e muito, muito falante. Um verdadeiro protagonista de série médica da Netflix.

– Em que posso te ajudar? – perguntou sorrindo.

Aproveito o gancho e disparo:

– Tenho zumbido no ouvido esquerdo há vinte e seis anos. Trouxe os últimos exames...

Foi nesse momento que a situação virou tragicômica. Ele me interrompeu subitamente e eu ainda estava no prefácio da minha dor. Ele, ao contrário, já estava lançando a autobiografia. Começou, a partir daí, um animado monólogo sobre... ele mesmo! Contou das cirurgias que realizava, das pessoas que havia ajudado a respirar melhor (e tudo o que eu queria, era ouvir melhor), das palestras, dos cursos, dos congressos e da paixão pelas vias aéreas. Falou de otites com um brilho nos olhos que, sinceramente, invejei.

Tentei, juro, enfiar o zumbido no meio da conversa. Tudo em vão. A mim só me restava prestar atenção sobre o sucesso da carreira dele. Enquanto isso, o zumbido esperneava. Em alguns momentos tossi levemente, levantei a sobrancelha, balancei a pasta como quem diz: “tenho provas!”. Mas nada o fazia parar de falar. Ele estava inspirado. Sim, o fato é que o otorrino não me deu ouvidos.

O melhor, no entanto, ainda estava por vir. No meio da “palestra”, ele solta, com cara de quem compartilha um segredo íntimo, uma revelação bombástica:

– Eu também tenho zumbido no ouvido esquerdo.

Arregalei os olhos, esperançosa! Uma mistura de alívio e empatia me invadiram. Era como se eu acabasse de encontrar um companheiro de trincheira, irmão de chiado! Enfim, alguém que entenderia minha luta incessante, minhas madrugadas insones, meus testes malucos com tampão de ouvido e a caça por ruídos brancos no YouTube. Mas o momento de conexão foi breve. E com a maior seriedade, ele me perguntou:

– Você tem alguma receita caseira que funcione? 

Foi a minha vez de fazer ouvido de mercador. Por dentro, o Zumbido gargalhava. Ele, então, resolveu compartilhar sua técnica pessoal:

– Tomar um banho bem quente, demorado, deixando a água cair abundantemente sobre os cabelos, sacudir a cabeça com força e sair do banho cantarolando uma música bem alto. A minha preferida é “La Bamba”. Mas pode ser outra a teu gosto. Importante é que seja bem animada, entendes?

Senti uma vontade grande de olhar para uma câmera que não existia e dizer: 

– Vocês estão vendo isso, né? 

Olhei para ele. Olhei para a pasta. Olhei para o teto. Paguei a consulta. Saí da clínica com uma única certeza:  o zumbido, além de tudo, tem um senso de humor muito peculiar. Quanto à pasta apinhada de exames, vou vendê-la no sebo e comprar uma caixa de espuma acústica. 

E hoje, enquanto escrevo essa crônica, sigo ouvindo o mesmo zumbido de sempre – agora, com um leve eco de “La Bamba”, graças ao ritual do dr. Karaokê.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Sob Nova Direção

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo

Era uma manhã qualquer no quartel-general da Disney. Em um canto isolado do vasto império do entretenimento, uma reunião inusitada estava prestes a acontecer. Os personagens se reuniam para discutir a nova direção do governo, que acabara de chegar. Visivelmente preocupados com as mudanças políticas, cada um deles tentava entender as possíveis repercussões para o futuro.

A reunião estava tensa, e o Mickey, com suas orelhas ligeiramente mais achatadas do que o normal, olhava com uma expressão preocupada para o resto da turma. O destino da Disney nunca parecera tão nebuloso, e o fato de que o governo atual estava tomando decisões, sem nem ao menos ouvir a opinião dos personagens mais experientes, o deixava inquieto. Mickey balançando suas mãos pequenas, pediu atenção e falou:    

-- Gente, vocês viram o que estão fazendo com a nossa marca? A Disney sempre foi magia, inclusão e sonhos! Agora, parece que estamos mais para um parque temático do que para uma verdadeira terra de fantasias. Ainda assim, galera, vamos manter a calma! Precisamos estudar a situação, antes de tomarmos qualquer atitude. 

O Pateta, sentado na ponta da mesa, com o boné torto e os olhos esbugalhados, estava claramente perdido. Parecia estar em transe existencial:

 -- Hã... então... quer dizer que vai ter mudança...na coisa toda? Quer dizer que isso é bom ou ruim, hein Mickey? Eu não tô entendendo nada.

Pateta balbuciou uma porção de bobagens, fazendo todos soltarem uma risada abafada.  Já o tio Patinhas, com olhar calculista e riso ganancioso, estava radiante com os impactos financeiros das novas políticas. Fazia cálculos no ar com os dedos, já imaginando como poderia aumentar a fortuna: 

-- Mudança política? Maravilha! Agora vou poder investir ainda mais nas minhas minas de ouro e nas aventuras de caçar riquezas sem me preocupar com essa história de projetos sociais. 

Enquanto isso, Zé Carioca, batendo as asas com nervosismo, não conseguia esconder o pânico. Temia que a qualquer momento surgisse uma carta com seu nome, enviando-o direto para Guantánamo:   

-- Ai, meu Deus, e agora? Com essas mudanças, será que vou ser deportado? Será que vou ter que voltar para aquela confusão do Brasil?!  E se pedirem meu passaporte, Mickey? Nem sei onde coloquei aquele treco! Eu sou famoso, não vou ficar em fila de migração. Eu tenho meus direitos, ora bolas!

 Mickey tentou acalmá-lo:

 -- Zé, respira! Não vai acontecer nada disso. Vamos esperar o governo se organizar e ver o que acontece. Você está exagerando. Estamos todos aqui para proteger uns aos outros.

Nesse momento todos se entreolharam e Mickey parecia profundamente preocupado. Tio Patinhas, no entanto, imerso nos próprios cálculos, continuava com os olhos brilhando com o poder do lucro:

-- Impostos mais baixos, mais possibilidades de expandir meus negócios! O futuro é de quem tem dinheiro, meu chapa, ahahaha! 

 Zé Carioca não parava de andar de um lado para o outro, agora com um plano mais elaborado na cabeça:

 -- Mickey, já sei o que fazer. Vou procurar as autoridades brasileiras. Quem sabe eles podem me ajudar. Vou falar com o presidente, fazer umas relações diplomáticas. De repente, ganho uma carteirinha especial, uma cidadania vitalícia, algo como...sei lá... um Zé Carioca VIP! Vou criar uma rede de apoio internacional. Não, não vão me pegar de jeito algum.

Pateta, coitado, na sua santa ingenuidade, ao ouvir o plano de Zé, exclamou: 

-- Vai nessa, Zé, que eu te apoio. Só não vai esquecer da gente, tá?

Mickey, já sem paciência, resolveu acabar com aquela conversa, tentando imprimir um pouco de realidade naquelas cabeças atordoadas: 

-- Gente, calma!!!! Vocês estão fazendo uma tempestade em copo d’agua. Vamos dar um tempo e aguardar as medidas reais da nova direção. E vamos lutar para manter a Disney o que ela sempre foi. 

Enquanto a discussão sobre o futuro da Disney parecia não ter fim, com toda a turma trocando argumentos acalorados sobre qual caminho seguir, a porta da sala se abriu com barulho repentino. Era o pato Donald, com os olhos semiabertos e bocejando sem parar.

Entrou cambaleando, como se tivesse acordado de um sono profundo, e antes mesmo de olhar para os outros, soltou: 

-- Gente, não sei o que está acontecendo aqui, mas pelo amor de Deus, preciso de silêncio! O jogo do Botafogo contra o Flamengo vai começar, e eu sou mascote do Glorioso, viu? Não posso perder nenhum segundo da transmissão!

 A turma se entreolhou, em choque, enquanto Donald se acomodava na cadeira, ignorando completamente os debates importantes que aconteciam ao redor. Tio Patinhas, com um suspiro de frustração, foi o primeiro a falar:

-- Donald, a gente tá decidindo o futuro da Disney! E o que você está fazendo aqui?

E Donald, com um sorriso bobo e os olhos grudados na tela do celular, respondeu: 

-- Eu estou cuidando do meu futuro, Patinhas. Afinal, mascote precisa estar sempre bem informado, né? E o blogue do Mundo Botafogo aguarda ansioso pelas minhas considerações. 

E assim, enquanto a reunião continuava de um jeito pouco produtivo, Donald permaneceu ali, em seu mundinho de futebol, levando todos a perceber que, às vezes, a verdadeira distração pode ser o melhor remédio para uma crise sem solução.

Treinadores e contextos (IV): de Marinho Rodrigues, auxiliar de Saldanha, ao auge da linhagem técnica com Mário Zagallo

Marinho Rodrigues. Fonte: Mundo Botafogo. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Após a demissão de João Saldanha, a linhagem técnica ...