NILTON SANTOS, excerto citado em dossieco.org.br
«Teoricamente, o Mané joga o futebol mais errado
que alguém já jogou no mundo. Seu eu tivesse que ensinar a um jovem extrema,
diria: ‘você está vendo aquele ali? Preste muita atenção ao seu jogo e faça
tudo ao contrário’. […]
Mané
pode fazer tudo errado porque ele é um fenômeno da natureza, mas nunca poderá
ser imitado. Fisicamente, ele driblou todos os prognósticos, inclusive o do
médico que o olhou, ainda bebê, e disse que aquele garoto nunca conseguiria
caminhar. Teoricamente, ele é um aleijado, não há ortopedista que não diga isso. […]
Esse garoto que mal podia se equilibrar entrou
nas peladas de bola de meia e aprendeu a fazer as coisas de maneira diferente.
Veja bem. Um bom ponta, ao receber a bola, tem duas maneiras de agir. Se é
homem de muito pique e boa habilidade, normalmente joga a bola para a frente e
ganha do marcador na velocidade, retoma a bola e tenta o passe ou o tiro.
Geralmente
os que fazem isso são bons chutadores e têm pouco futebol. O extrema mais
difícil de marcar é aquele que traz a bola perto do pé e, ao invés de fugir,
parte para cima de seu marcador. Ele vem fazendo ziguezague em alta velocidade
e pega você parado, passando por sua perna de apoio. Alguns, como Julinho [Botelho], vêm ao seu encontro fazendo tabela de
um pé para outro, com rapidez incrível.
Já
o Mané não é como ninguém. Ele recebe a bola, corre até a entrada da área e, ao
invés de aproveitar a velocidade e o corre-corre da defesa, ele para. É o único
atacante do mundo que prefere os defensores em fila.
Além
disso, dribla de contra-ataque. Mané faz como os boxeadores que esperam, às
vezes até oferecendo a cara. Quando o adversário desfere o murro, ele esquiva e
coloca o seu soco. Você compreende que esse sistema é pessoal e não tem nada a
ver com o resto do futebol? Qualquer jogada de conjunto termina no Mané. E ele
recomeça tudo.»

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