terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Salim Simão, botafoguense roxo (I): personagem de Nelson Rodrigues existiu mesmo

Salim Simão e Afonsinho, em 1969. Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

«Supersticioso, eu? Por quê? Só porque vou a todos os jogos de paletó e gravata?» – assim falava Salim Simão de si próprio ‘defendendo-se’ aos gritos com ironia oscilante entre bem-humorada e mal-humorada.

Supersticioso e radical: «Futebol só aceito o Botafogo, inclusive contra a camisa verde e amarela. Qualquer que seja a nacionalidade, qualquer que seja o clube, qualquer que seja a região!» – Depoimento de Salim Simão ao Canal 100.

Salim Simão foi um dos grandes jornalistas botafoguenses roxos. O saudoso jornalista Roberto Porto, que anunciava o Botafogo como o seu maior amor imaterial, escalava Salim Simão como técnico da equipe de jornalistas botafoguenses do Jornal do Brasil e falava assim do colega de profissão:

«Vez por outra, em dias seguintes às vitórias, adentrava a editoria de esportes a figura de Salim Simão, aos gritos. De Salim guardo a lembrança de uma fita cassete com os gols do Botafogo na conquista de títulos, mas principalmente, com a esmagadora vitória (a maior até hoje em decisões do Campeonato Carioca) sobre o vetusto tricolor das Laranjeiras por 6 a 2.» – In Blog do Roberto Porto, 2009.

Augusto Mello Pinto, amigo íntimo de Salim Simão, escrevendo ao filho deste, Jorge Filipe, após a morte de Salim, corroborava Roberto Porto sobre a história da gravação:

«Salim Simão morreu creio que no dia certo: Sábado de Carnaval. Mas, certamente, no ano errado. Por que não no ano 2081?

«Melhor do que eu, você deve saber que ele possuía uma alma colorida. Assim como um destaque de Escola de Samba. Seu pai, neste momento, deve estar lá em cima, em alguma esquina do Além, discutindo com seu “irmão íntimo” Nelson Rodrigues e obrigando o Nelson a ouvir, pela milésima vez, os 5 gols que o Paulo Valentim fez no Fluminense, naquela memorável decisão. Nem adianta procurar pelos armários, porque ele levou mesmo aquela famosa gravação.» – In Boletim do Botafogo FR, 1981.

Nelson Rodrigues, muito provavelmente o maior dramaturgo de todos os tempos, tinha uma relação especial com Salim Simão ao ponto de tomar a liberdade de colocar o jornalista nas suas peças teatrais – não de carne e osso, mas como personagem das suas obras interpretado por atores.

Anselmo Gois conta como Salim Simão existiu de verdade e foi ‘vítima’ de Nelson Rodrigues nas suas obras, citando como exemplo a peça “Anti-Nelson Rodrigues”, escrita pelo próprio dramaturgo:

«Tonico Pereira, o grande ator, estará no CCBB, no Rio, dia 29, com “Anti-Nelson Rodrigues”. Será Salim Simão. Entre as frases que Nelson coloca na boca de Simão estão alguns dos seus maiores clássicos como “Quando se trata de uma mulher, todo homem é um canalha” e “O sexo é uma selva de epiléticos”. Aliás, Salim Simão existiu de verdade. O jornalista, botafoguense doente, foi uma das ‘vítimas’ de Nelson, que colocava frases suas na boca dos amigos.» – In Blog do Anselmo Gois, O Globo, 2015.

Carlos Heitor Cony explica as categorias de personagens de Nelson Rodrigues, detalhando assim a primeira categoria, na qual se enquadra Salim Simão:

«Em princípio, seus personagens podem ser divididos em três categorias. A primeira é constituída por aqueles que comparecem no teatro, no romance ou na crônica rodrigueana com os próprios nomes e atributos. É o caso de Salim Simão, jornalista, botafoguense, cujo bom-dia era um comício. Ele entra no teatro e em dezenas de crônicas. Viúvo, aposentado, botafoguense roxo.» – In Folha de S. Paulo, 2001.

Porém, a amizade entre os dois homens, de gostos políticos e clubistas opostos, entre outras oposições facilmente identificáveis, evidencia, claramente, que a estima pode radicar em outras razões e não existe apenas entre quem pensa, diz e faz coisas semelhantes – os ditos populares confirmam o caso do dueto Simão / Nelson, seja porque “os opostos se atraem”, seja porque “os extremos se tocam”.

Ruy Castro, autor da obra ‘Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues’, mostra exatamente isso, um Nelson invariavelmente sarcástico, genialmente explosivo e radicalmente extremista:

«Seu anticomunismo já era quase secular e sua implicância com os marxistas brasileiros, a quem chamava de “marxistas de galinheiro”, não era de hoje. Só se alterara ultimamente para acrescentar que “Marx também era marxista de galinheiro”. […] Nelson era quase tão anticomunista quanto o folclórico almirante Pena Boto. […] Como no dia em que o repórter Ib Teixeira chegou tarde ao jornal e justificou-se: “Fui levar meu pai ao hospital.” Nelson levantou os olhos da máquina. Fingiu ignorar que seu amigo saíra publicamente do “Partidão” e disparou, entre risos da redação: “Rá-rá-rá! E desde quando comunista leva o pai ao hospital? Comunista corta a carótida do pai com um caco de garrafa da ‘Brahma Chopp!”»

Ora, «Salim Simão era quase tão fanático brizolista quanto botafoguense. […] Torcer por Brizola em 1967 [embora Leonel Brizola não fosse comunista] era algo quase tão exótico, tanto para a direita como para a esquerda, quanto torcer pelo Canto do Rio. Não para Salim, que era de uma fidelidade de pequinês aos amigos e conseguia conciliar em sua estima os piores adversários entre si. Por exemplo, algumas das suas maiores admirações eram os anti-Nelson Rodrigues por excelência: Alceu, dom Helder e Oscar Niemeyer. E a outra era o próprio Nelson.» […]

«“Ó, Nelson”, ele perguntava aos berros, “o que você tem contra o Niemeyer?”»

«“O povo tem horror às invenções plásticas de Niemeyer, meu bom Salim”, respondia Nelson. “Abomina. O povo gosta mesmo é do prédio do ‘Elixir de nogueira’, ali na Glória, perto do relógio.” E quanto às opiniões de Nelson sobre Alceu e dom Helder, nem era preciso dizer. “Dom Helder só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, dizia Nelson. Salim rugia em defesa do bispo. Mas isso servia apenas como combustível para a amizade entre os dois, igualmente loucos por uma polêmica.»

Ao inverso, «Nelson era fascinado pela “espontaneidade animal” de Salim e o chamava de “O berro” porque ele só sabia falar a plenos pulmões.»

Quem assistisse aos almoços de ambos (quase diários a partir de 1968) «acharia que eles estavam se desfeiteando. Mas se fosse ouvir a conversa, constataria que estavam discutindo o campeonato carioca de 1924, o comportamento de suas coronárias (Salim também era cardíaco) ou, literalmente, o sexo dos anjos, nos quais ambos acreditavam

E é claro que uma tal relação só poderia resultar que a personalidade de Salim Simão fosse usada por Nelson Rodrigues no teatro e em dezenas de suas peças – Nelson era um provocador nato e encontrava o eco ideal na berraria de Salim.

(continua)

Fontes: Castro, Ruy (2017). Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues. Tinta-da-China. Lisboa: editora Tinta-da-China; https://blogdorobertoporto.blogspot.com; https://blogs.oglobo.globo.com; https://teatroemescala.com; https://x.com/brauneoficial; https://www1.folha.uol.com.br.

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