por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
«Supersticioso,
eu? Por quê? Só porque vou a todos os jogos de paletó e gravata?» – assim
falava Salim Simão de si próprio ‘defendendo-se’ aos gritos com ironia oscilante
entre bem-humorada e mal-humorada.
Supersticioso e radical: «Futebol só aceito o Botafogo, inclusive
contra a camisa verde e amarela. Qualquer que seja a nacionalidade, qualquer
que seja o clube, qualquer que seja a região!» – Depoimento de Salim Simão
ao Canal 100.
Salim Simão foi um dos grandes jornalistas
botafoguenses roxos. O saudoso jornalista Roberto Porto, que anunciava o
Botafogo como o seu maior amor imaterial, escalava Salim Simão como técnico da
equipe de jornalistas botafoguenses do Jornal do Brasil e falava assim do
colega de profissão:
«Vez
por outra, em dias seguintes às vitórias, adentrava a editoria de esportes a
figura de Salim Simão, aos gritos. De Salim guardo a lembrança de uma fita
cassete com os gols do Botafogo na conquista de títulos, mas principalmente,
com a esmagadora vitória (a maior até hoje em decisões do Campeonato Carioca)
sobre o vetusto tricolor das Laranjeiras por 6 a 2.» – In Blog do Roberto
Porto, 2009.
Augusto Mello Pinto, amigo íntimo de Salim
Simão, escrevendo ao filho deste, Jorge Filipe, após a morte de Salim, corroborava
Roberto Porto sobre a história da gravação:
«Salim
Simão morreu creio que no dia certo: Sábado de Carnaval. Mas, certamente, no
ano errado. Por que não no ano 2081?
«Melhor do que eu,
você deve saber que ele possuía uma alma colorida. Assim como um destaque de
Escola de Samba. Seu pai, neste momento, deve estar lá em cima, em alguma
esquina do Além, discutindo com seu “irmão íntimo” Nelson Rodrigues e obrigando
o Nelson a ouvir, pela milésima vez, os 5 gols que o Paulo Valentim fez no
Fluminense, naquela memorável decisão. Nem adianta procurar pelos armários, porque
ele levou mesmo aquela famosa gravação.» – In Boletim do Botafogo FR, 1981.
Nelson Rodrigues, muito provavelmente o maior
dramaturgo de todos os tempos, tinha uma relação especial com Salim Simão ao
ponto de tomar a liberdade de colocar o jornalista nas suas peças teatrais –
não de carne e osso, mas como personagem das suas obras interpretado por
atores.
Anselmo Gois conta como Salim Simão existiu
de verdade e foi ‘vítima’ de Nelson Rodrigues nas suas obras, citando como
exemplo a peça “Anti-Nelson Rodrigues”, escrita pelo próprio dramaturgo:
«Tonico
Pereira, o grande ator, estará no CCBB, no Rio, dia 29, com “Anti-Nelson
Rodrigues”. Será Salim Simão. Entre as frases que Nelson coloca na boca de
Simão estão alguns dos seus maiores clássicos como “Quando se trata de uma
mulher, todo homem é um canalha” e “O sexo é uma selva de epiléticos”. Aliás,
Salim Simão existiu de verdade. O jornalista, botafoguense doente, foi uma das
‘vítimas’ de Nelson, que colocava frases suas na boca dos amigos.» – In
Blog do Anselmo Gois, O Globo, 2015.
Carlos Heitor Cony explica as categorias de
personagens de Nelson Rodrigues, detalhando assim a primeira categoria, na qual
se enquadra Salim Simão:
«Em
princípio, seus personagens podem ser divididos em três categorias. A primeira
é constituída por aqueles que comparecem no teatro, no romance ou na crônica
rodrigueana com os próprios nomes e atributos. É o caso de Salim Simão,
jornalista, botafoguense, cujo bom-dia era um comício. Ele entra no teatro e em
dezenas de crônicas. Viúvo, aposentado, botafoguense roxo.» – In Folha de
S. Paulo, 2001.
Porém, a amizade entre os dois homens, de
gostos políticos e clubistas opostos, entre outras oposições facilmente
identificáveis, evidencia, claramente, que a estima pode radicar em outras
razões e não existe apenas entre quem pensa, diz e faz coisas semelhantes – os
ditos populares confirmam o caso do dueto Simão / Nelson, seja porque “os
opostos se atraem”, seja porque “os extremos se tocam”.
Ruy Castro, autor da obra ‘Anjo Pornográfico
– a vida de Nelson Rodrigues’, mostra exatamente isso, um Nelson invariavelmente
sarcástico, genialmente explosivo e radicalmente extremista:
«Seu
anticomunismo já era quase secular e sua implicância com os marxistas
brasileiros, a quem chamava de “marxistas de galinheiro”, não era de hoje. Só se
alterara ultimamente para acrescentar que “Marx também era marxista de
galinheiro”. […] Nelson era quase tão
anticomunista quanto o folclórico almirante Pena Boto. […] Como no dia em que o repórter Ib Teixeira
chegou tarde ao jornal e justificou-se: “Fui levar meu pai ao hospital.” Nelson
levantou os olhos da máquina. Fingiu ignorar que seu amigo saíra publicamente
do “Partidão” e disparou, entre risos da redação: “Rá-rá-rá! E desde quando
comunista leva o pai ao hospital? Comunista corta a carótida do pai com um caco
de garrafa da ‘Brahma Chopp!”»
Ora, «Salim
Simão era quase tão fanático brizolista quanto botafoguense. […] Torcer por Brizola em 1967 [embora
Leonel Brizola não fosse comunista] era
algo quase tão exótico, tanto para a direita como para a esquerda, quanto
torcer pelo Canto do Rio. Não para Salim, que era de uma fidelidade de pequinês
aos amigos e conseguia conciliar em sua estima os piores adversários entre si.
Por exemplo, algumas das suas maiores admirações eram os anti-Nelson Rodrigues
por excelência: Alceu, dom Helder e Oscar Niemeyer. E a outra era o próprio
Nelson.» […]
«“Ó, Nelson”, ele perguntava aos berros, “o
que você tem contra o Niemeyer?”»
«“O
povo tem horror às invenções plásticas de Niemeyer, meu bom Salim”, respondia
Nelson. “Abomina. O povo gosta mesmo é do prédio do ‘Elixir de nogueira’, ali
na Glória, perto do relógio.” E quanto às opiniões de Nelson sobre Alceu e dom
Helder, nem era preciso dizer. “Dom Helder só olha para o céu para saber se
leva ou não o guarda-chuva”, dizia Nelson. Salim rugia em defesa do bispo. Mas
isso servia apenas como combustível para a amizade entre os dois, igualmente
loucos por uma polêmica.»
Ao inverso, «Nelson era fascinado pela “espontaneidade animal” de Salim e o chamava
de “O berro” porque ele só sabia falar a plenos pulmões.»
Quem assistisse aos almoços de ambos (quase
diários a partir de 1968) «acharia que
eles estavam se desfeiteando. Mas se fosse ouvir a conversa, constataria que
estavam discutindo o campeonato carioca de 1924, o comportamento de suas
coronárias (Salim também era cardíaco) ou, literalmente, o sexo dos anjos, nos
quais ambos acreditavam.»
E é claro que uma tal relação só poderia
resultar que a personalidade de Salim Simão fosse usada por Nelson Rodrigues no
teatro e em dezenas de suas peças – Nelson era um provocador nato e encontrava
o eco ideal na berraria de Salim.
(continua)
Fontes: Castro,
Ruy (2017). Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues. Tinta-da-China.
Lisboa: editora Tinta-da-China; https://blogdorobertoporto.blogspot.com; https://blogs.oglobo.globo.com;
https://teatroemescala.com; https://x.com/brauneoficial; https://www1.folha.uol.com.br.

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