por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Uma análise global ao jogo mostra que o Botafogo é
tecnicamente superior ao adversário e quando deixa de lado o joguinho lento e
irritante de troca de passes entre zagueiro e goleiro, cujo resultado esperado
de chamar o adversário à frente não resulta, então consegue ser mais perigoso.
O Botafogo não é mais perigoso em virtude de um esquema
tático altamente eficaz desenhado pelo seu técnico, mas porque consegue, aqui e
ali, desempenhos individuais que suprem a deficiência tática. Aliás, a montagem
da equipe permanece incorreta e subtrai melhores desempenhos individuais no
contexto do jogo coletivo.
Efetivamente, jogar com três zagueiros, sendo o terceiro,
Mateo Ponte, improvisado, compromete o sistema defensivo e perde-se um lateral com alguma
capacidade atacante. Acresce que o meio-campo não blinda a zaga porque na
verdade são apenas dois atletas a fazer a função de meio-campo, porque Alex
Telles e Vitinho são mandados para o ataque e depois têm dificuldade na
recomposição rápida. Quanto ao ataque, na verdade não existe um verdadeiro
ataque quando a função de centroavante está entregue a Matheus Martins ou a
Arthur Cabral – ambos muito inoperantes.
Em suma, o Botafogo não está desequilibrado apenas porque
tem falta de algumas peças melhores (como reconhece Textor); está
desequilibrado porque dentro das peças de que dispõe também monta mal o sistema
tático e operacional.
Dentro do que tem, e até que Anselmi tenha as peças
necessárias para o 3x4x3, o esquema do Botafogo com os atletas atuais seria bem
mais produtivo se enveredasse por um clássico 4x4x2 ou por variações do tipo
4x2x3x1, reforçando o sistema defensivo, melhorando a criatividade e tirando
partido da qualidade individual de atletas como Danilo, Álvaro Montoro,
Villalba ou Santi Rodríguez.
Até mesmo Matheus Martins, a quem falta lampejos de
técnica, poderia ser bem mais eficaz porque corre, briga e dá algum trabalho,
ao contrário de Arthur Cabral que não corre, briga mal, não tem qualidade de
remate e que quando entra em campo carrega nuvens de chumbo para o ataque.
Neste jogo, as ocorrências pontuais que merecem relevo
começaram logo aos 7’, quando o Barcelona pediu pênalti de Barboza. A repetição
do lance não suprimiu a dúvida, mas mesmo admitindo que não foi pênalti, a
verdade é que Barboza arrisca demasiadas vezes dentro da área – e se o árbitro
marcasse falta e o pênalti fosse convertido o Botafogo estaria enrolado em maus
lençóis.
E um minuto depois, em contra-ataque rapidíssimo,
explorando o nosso frágil sistema defensivo, o Barcelona desperdiçou um gol
claríssimo – e embora tivesse sido marcado impedimento posteriormente a ameaça
ficou no ar.
Ao 18’ foi a vez de Matheus Martins evidenciar a falta de
qualidade técnica para se livrar dos adversários e, no caso, a falta de
criatividade para superar o goleiro cara a cara rematando à figura.
O Botafogo manteve-se retraído trocando passes no seu
meio campo e o Barcelona foi-se acercando mais da grande área, esperando ganhar
segundas bolas e marcar um gol – e assim aconteceu, com a ‘preciosa’ ajuda de
um goleiro, agora titular, que é um verdadeiro perigo a defender a baliza do
Glorioso.
Aos 22’ Léo Linck lançou mal a bola para Alex Telles, o
adversário tomou-a rapidamente, centrou para Héctor Villalba cabecear ao
travessão e no regresso da bola o mesmo atleta mandou o esférico para o fundo
das redes. Barcelona 1x0.
Léo é ‘Linck’, mas falta-lhe o link para defender a baliza…
O jogo continuou na mesma toada por parte do Botafogo:
tudo muito lento e denunciado e desarmes fáceis dos nossos atacantes – em
especial do pseudo-atacante Matheus Martins quando recebia a bola.
Pelo lado do Barcelona nem o gol melhorou o seu
desempenho, que mostrava receio do Botafogo e jogava sobretudo em
contra-ataque, mas com mais perigo do que nós, que rematávamos constantemente
fora do alvo.
Além de Matheus Martins nem os nossos melhores atletas
eram certeiros: aos 40’ Danilo falhou um gol claro à boca da baliza; aos 41’ Montoro
girou mal sobre si mesmo dentro da grande área e rematou para o alto.
Em suma, nenhuma jogada tecnicamente acima da mediania,
quer do Botafogo, quer do Barcelona.
No segundo tempo o Botafogo entrou melhor, jogando mais
de pé em pé em vez do chutão para a frente, e a velocidade melhorou.
Surpreendentemente o Barcelona eclipsou-se, defendendo o 1x0 e deixando de
pressionar, demonstrando uma equipe muito frágil cujo gás se gastou depressa –
e não estavam na altitude de Potosí.
Nessas circunstâncias o Botafogo chegou-se mais à frente
e aos 65’ Barrera persistiu até à linha de fundo em busca de um lançamento de
Vitinho, conseguiu centrar no limite da linha, o zagueiro furou, assim como ‘providencialmente’
também um atleta do Botafogo furou o remate, e a bola sobrou para Matheus
Martins que só precisou de rematar para o fundo das redes a dois metros da
linha da meta. Jogo empatado em 1x1.
O árbitro apitou para o período de hidratação, mas à posteriori parecia ter apitado para o
fim da partida, porque de parte a parte as equipes pareciam satisfeitas com o
empate. O Barcelona porque já não tinha pernas para atacar; o Botafogo porque
na pequenez da estratégia montada, considerou por bem que um empate era suficiente
para se classificar no jogo da segunda mão. Tomara que sim…
E quando aos 76’ Anselmi decidiu mandar Arthur Cabral a
campo, então o jogo encerrou de vez – porque se Matheus Martins não atrapalha
muito as defesas adversárias, Arthur Cabral até beneficia o bom desempenho dos
adversários.
Até ao final registrou-se apenas uma oportunidade do
Barcelona aos 85’ em resultado da substituições que fez. Mas foi uma chance
fugaz num segundo tempo em que o Botafogo foi melhor até empatar.
No Nilton Santos o fraco Barcelona vai jogar muito
fechado, explorando o contra-ataque para ganhar o jogo ou ir a pênaltis. O
Botafogo tem tudo para ganhar se for inteligente, caso contrário Anselmi fica
em sérios apuros e nós totalmente desapontados com um acerto da equipe que
nunca mais chega.
Embora, diga-se, não devamos esperar um ‘grande’ semestre
face à absurda decisão da SAF em priorizar determinadas posições e não cobrir
as duas posições mais decisivas para o placar – a posição de goleiro e a posição
de centroavante, sendo difícil ganhar quando um deixa as bolas entrarem por
erros grosseiros e outro não estufa as redes adversárias por evidente falta de
faro de gol.
PS: A contratação de Júnior Santos - embora eu seja fã dele - é uma nova incógnita, porque vem de diversas lesões e não atua desde setembro, o que significa que para se colocar em forma levará tempo.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 1x1 Barcelona
» Gols: Matheus Martins, aos 65’ (Botafogo); Héctor
Villalba, aos 22’ (Barcelona)
» Competição: Copa Libertadores da América
» Data: 03.03.2026
» Local: Monumental Banco
Pichincha, em Guayaquil, Equador
» Árbitro: Wilmar Roldán (Colômbia); Assistente:
John Alexander León (Colômbia) e Sebastián
Vela (Colômbia); Var: David Rodríguez (Colômbia)
» Disciplina: cartão amarelo – Álvaro Montoro (Botafogo)
e Jhonny Quiñónez e Joao Rojas (Barcelona)
» Botafogo: Léo Linck; Mateo Ponte (Lucas Villalba), Bastos e Alexander Barboza;
Vitinho, Newton, Danilo e Alex Telles; Jordan Barrera (Joaquín Correa), Matheus
Martins (Arthur Cabral) e Álvaro Montoro. Técnico: Martín Anselmi.
» Barcelona: Contreras; Carabalí, Javier Báez, Rangel e Vallecilla; Jhonny Quiñónez,
Céliz (Montaño) e Joao Rojas (Wila); Tomás Martínez (Jonnathan Mina), Benedetto
(Sergio Núñez) e Héctor Villalba (Jandry Gómez). Técnico: César Farías.

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