por MEIA ENCARNADA |
Excerto de https://ge.globo.com.
«Eis que, na
véspera da Copa do Mundo, outra questão se ergueu no horizonte. […] O abraço do esquecimento está atingindo
Garrincha. […]
Garrincha
simplesmente é o futebol brasileiro (assim mesmo, no presente). Se Pelé
representou toda a majestade imaginável dentro das quatro linhas, o mais famoso
pau-grandense da história é a própria encarnação de um ideal brasileiro de
jogar bola – e, por que não, um ideal de como o brasileiro decidiu olhar para o
mundo. O homem para quem o drible era um espasmo. Um dos únicos que fez a
arquibancada sorrir, e não apenas no sentido metafórico. […]
O começo do jogo
contra a temida União Soviética [na estreia de Garrincha e Pelé na Copa do Mundo de
1958] foi definido pelo jornalista Gabriel Hanot, que estava no estádio, como
"os melhores três minutos que o futebol já presenciou" – com poucos
segundos, Garrincha já havia deixado três soviéticos capotados pelo caminho
para castigar a trave de Yashin. Aquele momento, simbolicamente, representou o
nascimento do futebol brasileiro, e o atacante do Botafogo era o autor do
parto, escrevendo com as pernas tortas todas as possibilidades imagináveis
sobre a grama.
No entanto, o mesmo
Garrincha de alma indomável, […] inegociavelmente inocente,
tornou-se, durante alguns dias, o gênio absolutamente centrado que jogou por
ele e pelo lesionado Pelé para ganhar o bicampeonato de 1962, marcando gols de
tudo que era jeito e colocando-se, ao lado de Maradona, como o jogador mais
determinante em uma edição de Copa do Mundo. O argentino, aliás, é um dos
poucos que podem ser comparados a Garrincha: ambos transformaram os maiores
estádios do mundo em campinhos de bairro e demonstravam uma humanidade
excessiva, quase transbordante. [...]
E talvez a impiedosa
ironia esteja no fato de que Garrincha corre o risco de ser esquecido
exatamente porque o futebol moderno não é capaz de reproduzi-lo.»

Sem comentários:
Enviar um comentário