por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 2002, organizada conjuntamente pela Coreia do Sul e pelo
Japão, foi profundamente simbólica por várias razões: foi o primeiro Mundial
realizado na Ásia – ampliando a importância geopolítica e desportiva da região
–, o primeiro organizado por dois países, assinalou o inédito pentacampeonato
do Brasil, a redenção de Ronaldo Nazário, a explosão internacional de
Ronaldinho Gaúcho, a queda precoce de várias potências europeias e a campanha
histórica — e muito polêmica — da Coreia do Sul.
A organização conjunta entre Coreia do Sul e Japão também foi simbólica porque envolvia dois países com relações históricas complexas, mas saldou-se
por uma forte capacidade organizativa, tecnológica e cultural em estádios
modernos e a entusiástica participação dos torcedores asiáticos.
O Brasil entrou no Mundial de 2002 com muitas dúvidas porque a qualificação
tinha sido difícil, a equipa mudara várias vezes de treinador e havia grande
desconfiança em torno do seu rendimento, embora tivesse jogadores
extraordinários.
Luiz Felipe Scolari, conhecido como Felipão, assumiu a seleção e construiu
uma equipa mais pragmática, competitiva e emocionalmente forte. A equipa
assentava no sistema com três centrais, dois alas muito ofensivos – Cafu e
Roberto Carlos – e o trio ofensivo que ficou conhecido como os 3R: Ronaldo,
Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.
A grande simbologia da Copa de 2002 foi a redenção de Ronaldo Nazário,
evidenciando uma vez mais que a linha separadora entre a queda e a redenção é
muito tênue.
Depois do episódio traumático da final de 1998, em França, e depois de lesões graves no joelho, Ronaldo era a grande interrogação da equipe brasileira. Havia dúvidas sobre a sua condição física, sobre a sua explosão e sobre a sua capacidade para voltar ao nível anterior. Porém, Ronaldo respondeu em campo, marcou oito gols, incluindo os dois da final contra a Alemanha, e foi o artilheiro da competição.
A imagem de Ronaldo, em 2002, com o corte de cabelo peculiar na parte frontal
da cabeça, tornou-se icônica, mas a narrativa humana foi muito mais importante:
o jogador cuja queda foi estrondosa no momento decisivo, em 1998, regressou
quatro anos mais tarde para decidir a final e conduzir o Brasil ao
pentacampeonato.
A final foi disputada entre Brasil e Alemanha, duas das maiores
potências da história dos Mundiais e que nunca se tinham defrontado numa Copa
do Mundo.
O jogo terminou com vitória do Brasil por 2x0, com dois gols de Ronaldo. O
primeiro surgiu após um erro raro de Oliver Kahn, que largou uma bola rematada
por Rivaldo; Ronaldo aproveitou o rebote. O segundo resultou de uma jogada mais
construída, com Rivaldo deixando passar a bola e Ronaldo finalizando com
precisão.
A final teve uma dicotomia clara: de um lado, a Alemanha organizada,
competitiva e liderada por Kahn; do outro, o Brasil talentoso, mas também
disciplinado e taticamente equilibrado.
Oliver Kahn foi uma das figuras maiores da Copa do Mundo, mas deixou uma
imagem amarga ao permitir que Ronaldo abrisse o placar na final. Kahn simbolizou
a crueldade do futebol de alto nível — um desempenho quase perfeito ensombrado
por um único erro no jogo decisivo. Porém, o seu desempenho foi tão brilhante
que conseguiu, ainda assim, receber a Bola de Ouro, distinção rara para um
goleiro.
Outro momento simbólico foi a subida da Cafu ao pódio para levantar a taça.
No momento da celebração, mostrou uma mensagem original escrita na camisa:
“100% Jardim Irene’, referência ao bairro paulista onde cresceu.
Cafu tornou-se também o primeiro jogador a disputar três finais
consecutivas de Mundiais: 1994, 1998 e 2002 – e neste ergueu a taça como
capitão.
A imagem de Cafu expressava uma narrativa muito brasileira: origem humilde, perseverança, liderança e reconhecimento das raízes.
Um dos momentos mais extraordinários da Copa foi o gol de Ronaldinho Gaúcho
contra a Inglaterra, nas quartas de final. O Brasil era derrotado com um gol de
Michael Owen, Rivaldo empatou ainda antes do intervalo e depois Ronaldinho
cobrou uma falta muito distante, aparentemente em busca de um cruzamento, mas a
bola acabou por encobrir David Seaman e entrar na baliza.
Pouco depois, Ronaldinho foi expulso por uma entrada sobre Danny Mills. O
jogo teve, portanto, uma sequência quase cinematográfica: gênio, surpresa,
polêmica e expulsão. Esse momento projetou definitivamente Ronaldinho para o
imaginário mundial, provavelmente o único jogador artístico capaz de rivalizar com
o mítico Garrincha em seus melhores momentos.
Brasil e Turquia encontraram-se duas vezes no Mundial de 2002: na fase de
grupos e na semifinal. O primeiro jogo foi difícil e polêmico; o Brasil venceu
por 2x1. Na semifinal, venceu por 1x0, com gol de Ronaldo. Já no final da
partida, no jogo da fase de grupos, Hakan Ünsal chutou a bola em direção a
Rivaldo na bandeirola de escanteio, a bola bateu na perna do jogador turco e
Rivaldo atirou-se para o chão agarrado ao rosto. O árbitro mostrou o segundo
amarelo a Hakan e expulsou-o, numa jogada de simulação do brasileiro que só o
desmereceu como antidesportista.
A Turquia foi uma das grandes surpresas do torneio. Terminou em terceiro
lugar, o melhor resultado da sua história em Mundiais.
Jogadores como Hakan Sükür, Hasan Sas, Rüstü Reçber e Ílhan Mansiz marcaram
a competição. A Turquia simbolizou a emergência de seleções competitivas fora
do círculo habitual dos grandes favoritos.
Quanto a Rivaldo, teve um desempenho absolutamente decisivo na ligação entre meio-campo e ataque, mas a sua simulação, que valeu a expulsão injusta de Hakan, fê-lo desmoronar do trono para o qual poderia ter sido escolhido – o melhor jogador da Copa.
No jogo de atribuição do terceiro lugar, entre Turquia e Coreia do Sul,
Hakan Sukür marcou logo nos primeiros segundos, tornando-se o gol mais rápido
da história das Copas. É uma das imagens estatísticas e simbólicas mais
recordadas da competição: a Turquia fechava a sua melhor campanha com um
momento absolutamente histórico.
A campanha da Coreia do Sul foi uma das grandes histórias de 2002. Sob
orientação de Guus Hiddink, a equipa chegou às semifinais, tornando-se a
primeira seleção asiática a atingir essa fase.
O país viveu a Copa como uma verdadeira mobilização nacional. As multidões
vestidas de vermelho, conhecidas como Red
Devils, transformaram ruas e estádios num cenário de celebração coletiva.
Porém, a campanha sul-coreana foi envolvida em grande polêmica, sobretudo
nos jogos contra Itália e Espanha. Houve decisões de arbitragem muito
contestadas, gols anulados e expulsões muito discutíveis. A Coreia beneficiou
de arbitragens demasiado favoráveis – costume não combatido pela FIFA, que é o
favorecimento sistemático da Seleção do país anfitrião.
A simbologia da Coreia do Sul em 2002 é, por isso, ambivalente: por um
lado, afirmação histórica do futebol asiático; por outro, uma das campanhas
mais debatidas e polêmicas da história dos Mundiais.
Nas oitavas de final, a Itália foi eliminada pela Coreia do Sul, com um ‘gol
de ouro’ de Ahn Jung-hwan, mas a partida teve enorme carga dramática. A Itália
sentiu-se prejudicada pela arbitragem, sobretudo pela expulsão de Francesco
Totti e por decisões ofensivas anuladas. O resultado foi sentido em Itália como
uma injustiça histórica.
Curiosamente, Ahn Jung-hwan jogava em Itália, no Perugia, e após o gol que eliminou a seleção italiana, o presidente do Perugia demitiu-o após - disse ele - “arruinar” o futebol italiano. E nunca mais jogou em Itália.
Nas quartas de final a Coreia do Sul eliminou a Espanha nos pênaltis,
novamente em um jogo repleto de lances muitíssimo discutíveis. A Espanha teve
lances invalidados, incluindo jogadas que poderiam ter decidido o encontro e a
eliminação aumentou ainda mais a polêmica em torno do percurso sul-coreano.
A França chegou ao Mundial como campeã do mundo em 1998 e campeã europeia
em 2000. Era uma das grandes favoritas, mas teve uma campanha desastrosa, tendo
sido eliminada ainda na fase de grupos e… sem marcar qualquer gol!
A ausência de Zinedine Zidane nos primeiros jogos, por lesão, foi
importante, mas não suficientemente explicativa de uma equipe desgastada, sem
criatividade e emocionalmente bloqueada. A eliminação francesa foi uma das
maiores surpresas da competição e simbolizou a dificuldade de manutenção de
ciclos vitoriosos no futebol internacional.
Contra a França o Senegal foi autor do primeiro grande choque da Copa, logo
no jogo inaugural: os senegaleses venceram a França por 1x0. O gol de Papa
Bouba Diop tornou-se histórico. A celebração junto à bandeirola de escanteio,
com os jogadores a dançar em redor da camisa no relvado, ficou como uma das
imagens mais alegres da competição.
O Senegal chegou às quartas de final igualando o melhor desempenho
africano até então, simbolizando irreverência, talento, orgulho nacional e
afirmação africana.
A Argentina também tombou apesar de dispor de Batistuta, Verón, Ortega,
Crespo, Zanetti, Simeone e Pochettino. O grupo era difícil (Inglaterra, Suécia
e Nigéria) e foi eliminada com derrota contra a Inglaterra, com pênalti
convertido por David Beckham.
O resultado foi muito simbólico porque para Beckham foi uma espécie de redenção após a expulsão contra a Argentina em 1998; para a Argentina, foi uma eliminação amarga e inesperada, agravada pelo contexto de crise económica e social que o país vivia. Em 1998 Beckham fora vilão, em 2002 tornou-se capitão, líder e figura redimida.
Os americanos fizeram uma campanha muito forte, chegando às quartas de
final, eliminando o México nas oitavas de final, num jogo muito simbólico pela
rivalidade regional. Porém, nas quartas de final perderam com a Alemanha por
1x0, num jogo em que se queixaram de uma grande penalidade não assinalada por
mão na bola. Ainda assim, a campanha foi uma das melhores da história da
seleção americana em Mundiais modernos.
A Alemanha chegou à final, mas não era vista como uma equipa brilhante. Era
considerada sólida, disciplinada e muito dependente de Oliver Kahn e de
Miroslav Klose, que se destacou pelos gols de cabeça. A campanha alemã mostrou
a força competitiva tradicional do país, e Klose, então ainda pouco conhecido
internacionalmente, iniciou em 2002 a trajetória que o levaria a tornar-se o
maior artilheiro da história dos Mundiais.
Portugal chegou ao Mundial com a chamada ‘geração de ouro’, com jogadores
como Luís Figo, Rui Costa, João Pinto, Sérgio Conceição, Fernando Couto, Paulo
Sousa e Nuno Gomes. Havia expectativas elevadas, mas a seleção foi eliminada na
fase de grupos, perdendo com os americanos, vencendo a Polônia e caindo contra
os sul-coreanos em jogo de expulsão de … dois portugueses!
Uma das peripécias anteriores ao início da Copa foi o conflito entre Roy Keane e o selecionador irlandês Mick McCarthy. Keane criticou as condições de preparação da equipe e acabou por abandonar ou ser afastado da seleção antes do início da competição, dividindo a Irlanda, que ainda chegou às oitavas de final e foi eliminada pela Espanha.
Em suma, o Mundial de 2002 ficou marcado por vários significados fortes: a
expansão e globalização geoestratégica do futebol; o pentacampeonato do Brasil,
com muito talento ofensivo, disciplina tática e redenção de Ronaldo; as quedas
precoces e inesperadas de argentinos, franceses, italianos e portugueses; as
boas surpresas protagonizadas por americanos, senegaleses, sul-coreanos e
turcos; e… sobretudo de arbitragens tendenciosas a favor do pais anfitrião
sul-coreano.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Brasil 2x0 Alemanha
» Gols: Ronaldo, aos 67’ e 79’
» Data: 30 de junho de 2002
» Local: International Stadium, Yokohama (Japão)
» Público: 69.029 espectadores
Árbitro: Pierluigi Collina (Itália); Assistentes: Leif Lundberg (Suécia) e
Philip Sharp (Inglaterra); 4º Árbitro: Hugh Dallas (Escócia)
» Disciplina: cartão amarelo – Roque Júnior (Brasil) e Miroslav Klose
(Alemanha)
» Brasil: Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva,
Kléberson e Roberto Carlos; Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista) e Rivaldo;
Ronaldo (Denílson). Técnico: Luiz Felipe Scolari.
» Alemanha: Oliver Kahn; Thomas Linke, Christoph Metzelder e Carsten
Ramelow; Torsten Frings, Dietmar Hamann, Jens Jeremies (Gerald Asamoah) e Bernd
Schneider; Marco Bode (Christian Ziege); Miroslav Klose (Oliver Bierhoff) e
Oliver Neuville. Técnico: Rudi Völler.
Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; olympics.com; trivela.com.br;
www.britannica.com;
www.espn.com.br; www.fifa.com;
www.rsssf.org; www.theguardian.com; www.thesun.co.uk.







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