quinta-feira, 2 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2002: Brasil de Ronaldo e Ronaldinho pentacampeão, goleiro Kahn Bola de Ouro, Beckham destaque e Jung-Hwan demitido

Cartaz da Copa do Mundo de 2002. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2002, organizada conjuntamente pela Coreia do Sul e pelo Japão, foi profundamente simbólica por várias razões: foi o primeiro Mundial realizado na Ásia – ampliando a importância geopolítica e desportiva da região –, o primeiro organizado por dois países, assinalou o inédito pentacampeonato do Brasil, a redenção de Ronaldo Nazário, a explosão internacional de Ronaldinho Gaúcho, a queda precoce de várias potências europeias e a campanha histórica — e muito polêmica — da Coreia do Sul.

A organização conjunta entre Coreia do Sul e Japão também foi simbólica porque envolvia dois países com relações históricas complexas, mas saldou-se por uma forte capacidade organizativa, tecnológica e cultural em estádios modernos e a entusiástica participação dos torcedores asiáticos.

O Brasil entrou no Mundial de 2002 com muitas dúvidas porque a qualificação tinha sido difícil, a equipa mudara várias vezes de treinador e havia grande desconfiança em torno do seu rendimento, embora tivesse jogadores extraordinários.

Luiz Felipe Scolari, conhecido como Felipão, assumiu a seleção e construiu uma equipa mais pragmática, competitiva e emocionalmente forte. A equipa assentava no sistema com três centrais, dois alas muito ofensivos – Cafu e Roberto Carlos – e o trio ofensivo que ficou conhecido como os 3R: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

A grande simbologia da Copa de 2002 foi a redenção de Ronaldo Nazário, evidenciando uma vez mais que a linha separadora entre a queda e a redenção é muito tênue.

Depois do episódio traumático da final de 1998, em França, e depois de lesões graves no joelho, Ronaldo era a grande interrogação da equipe brasileira. Havia dúvidas sobre a sua condição física, sobre a sua explosão e sobre a sua capacidade para voltar ao nível anterior. Porém, Ronaldo respondeu em campo, marcou oito gols, incluindo os dois da final contra a Alemanha, e foi o artilheiro da competição.

Ronaldo, o artilheiro da Copa. Crédito: Andreas Rentz | Getty Images.

A imagem de Ronaldo, em 2002, com o corte de cabelo peculiar na parte frontal da cabeça, tornou-se icônica, mas a narrativa humana foi muito mais importante: o jogador cuja queda foi estrondosa no momento decisivo, em 1998, regressou quatro anos mais tarde para decidir a final e conduzir o Brasil ao pentacampeonato.

A final foi disputada entre Brasil e Alemanha, duas das maiores potências da história dos Mundiais e que nunca se tinham defrontado numa Copa do Mundo.

O jogo terminou com vitória do Brasil por 2x0, com dois gols de Ronaldo. O primeiro surgiu após um erro raro de Oliver Kahn, que largou uma bola rematada por Rivaldo; Ronaldo aproveitou o rebote. O segundo resultou de uma jogada mais construída, com Rivaldo deixando passar a bola e Ronaldo finalizando com precisão.

A final teve uma dicotomia clara: de um lado, a Alemanha organizada, competitiva e liderada por Kahn; do outro, o Brasil talentoso, mas também disciplinado e taticamente equilibrado.

Oliver Kahn foi uma das figuras maiores da Copa do Mundo, mas deixou uma imagem amarga ao permitir que Ronaldo abrisse o placar na final. Kahn simbolizou a crueldade do futebol de alto nível — um desempenho quase perfeito ensombrado por um único erro no jogo decisivo. Porém, o seu desempenho foi tão brilhante que conseguiu, ainda assim, receber a Bola de Ouro, distinção rara para um goleiro.

Outro momento simbólico foi a subida da Cafu ao pódio para levantar a taça. No momento da celebração, mostrou uma mensagem original escrita na camisa: “100% Jardim Irene’, referência ao bairro paulista onde cresceu.

Cafu tornou-se também o primeiro jogador a disputar três finais consecutivas de Mundiais: 1994, 1998 e 2002 – e neste ergueu a taça como capitão.

A imagem de Cafu expressava uma narrativa muito brasileira: origem humilde, perseverança, liderança e reconhecimento das raízes.

Cafu, tri-finalista grato ao Jardim Irene. olympics.com.

Um dos momentos mais extraordinários da Copa foi o gol de Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra, nas quartas de final. O Brasil era derrotado com um gol de Michael Owen, Rivaldo empatou ainda antes do intervalo e depois Ronaldinho cobrou uma falta muito distante, aparentemente em busca de um cruzamento, mas a bola acabou por encobrir David Seaman e entrar na baliza.

Pouco depois, Ronaldinho foi expulso por uma entrada sobre Danny Mills. O jogo teve, portanto, uma sequência quase cinematográfica: gênio, surpresa, polêmica e expulsão. Esse momento projetou definitivamente Ronaldinho para o imaginário mundial, provavelmente o único jogador artístico capaz de rivalizar com o mítico Garrincha em seus melhores momentos.

Brasil e Turquia encontraram-se duas vezes no Mundial de 2002: na fase de grupos e na semifinal. O primeiro jogo foi difícil e polêmico; o Brasil venceu por 2x1. Na semifinal, venceu por 1x0, com gol de Ronaldo. Já no final da partida, no jogo da fase de grupos, Hakan Ünsal chutou a bola em direção a Rivaldo na bandeirola de escanteio, a bola bateu na perna do jogador turco e Rivaldo atirou-se para o chão agarrado ao rosto. O árbitro mostrou o segundo amarelo a Hakan e expulsou-o, numa jogada de simulação do brasileiro que só o desmereceu como antidesportista.

A Turquia foi uma das grandes surpresas do torneio. Terminou em terceiro lugar, o melhor resultado da sua história em Mundiais.

Jogadores como Hakan Sükür, Hasan Sas, Rüstü Reçber e Ílhan Mansiz marcaram a competição. A Turquia simbolizou a emergência de seleções competitivas fora do círculo habitual dos grandes favoritos.

Quanto a Rivaldo, teve um desempenho absolutamente decisivo na ligação entre meio-campo e ataque, mas a sua simulação, que valeu a expulsão injusta de Hakan, fê-lo desmoronar do trono para o qual poderia ter sido escolhido – o melhor jogador da Copa.

Ronaldinho no fabuloso remate que encobre o goleiro e a bola se aninha no ângulo superior direito da baliza inglesa. Crédito: Youtube FIFA (captura de tela). Endereço: https://www.youtube.com/watch?v=4JcwixRnFhs

No jogo de atribuição do terceiro lugar, entre Turquia e Coreia do Sul, Hakan Sukür marcou logo nos primeiros segundos, tornando-se o gol mais rápido da história das Copas. É uma das imagens estatísticas e simbólicas mais recordadas da competição: a Turquia fechava a sua melhor campanha com um momento absolutamente histórico.

A campanha da Coreia do Sul foi uma das grandes histórias de 2002. Sob orientação de Guus Hiddink, a equipa chegou às semifinais, tornando-se a primeira seleção asiática a atingir essa fase.

O país viveu a Copa como uma verdadeira mobilização nacional. As multidões vestidas de vermelho, conhecidas como Red Devils, transformaram ruas e estádios num cenário de celebração coletiva.

Porém, a campanha sul-coreana foi envolvida em grande polêmica, sobretudo nos jogos contra Itália e Espanha. Houve decisões de arbitragem muito contestadas, gols anulados e expulsões muito discutíveis. A Coreia beneficiou de arbitragens demasiado favoráveis – costume não combatido pela FIFA, que é o favorecimento sistemático da Seleção do país anfitrião.

A simbologia da Coreia do Sul em 2002 é, por isso, ambivalente: por um lado, afirmação histórica do futebol asiático; por outro, uma das campanhas mais debatidas e polêmicas da história dos Mundiais.

Nas oitavas de final, a Itália foi eliminada pela Coreia do Sul, com um ‘gol de ouro’ de Ahn Jung-hwan, mas a partida teve enorme carga dramática. A Itália sentiu-se prejudicada pela arbitragem, sobretudo pela expulsão de Francesco Totti e por decisões ofensivas anuladas. O resultado foi sentido em Itália como uma injustiça histórica.

Curiosamente, Ahn Jung-hwan jogava em Itália, no Perugia, e após o gol que eliminou a seleção italiana, o presidente do Perugia demitiu-o após - disse ele - “arruinar” o futebol italiano. E nunca mais jogou em Itália.

Ahn Jung-hwan fez o ‘gol de ouro’ que eliminou a Itália na prorrogação e foi demitido do Perugia. Fonte: www.panenka.org.

Nas quartas de final a Coreia do Sul eliminou a Espanha nos pênaltis, novamente em um jogo repleto de lances muitíssimo discutíveis. A Espanha teve lances invalidados, incluindo jogadas que poderiam ter decidido o encontro e a eliminação aumentou ainda mais a polêmica em torno do percurso sul-coreano.

A França chegou ao Mundial como campeã do mundo em 1998 e campeã europeia em 2000. Era uma das grandes favoritas, mas teve uma campanha desastrosa, tendo sido eliminada ainda na fase de grupos e… sem marcar qualquer gol!

A ausência de Zinedine Zidane nos primeiros jogos, por lesão, foi importante, mas não suficientemente explicativa de uma equipe desgastada, sem criatividade e emocionalmente bloqueada. A eliminação francesa foi uma das maiores surpresas da competição e simbolizou a dificuldade de manutenção de ciclos vitoriosos no futebol internacional.

Contra a França o Senegal foi autor do primeiro grande choque da Copa, logo no jogo inaugural: os senegaleses venceram a França por 1x0. O gol de Papa Bouba Diop tornou-se histórico. A celebração junto à bandeirola de escanteio, com os jogadores a dançar em redor da camisa no relvado, ficou como uma das imagens mais alegres da competição.

O Senegal chegou às quartas de final igualando o melhor desempenho africano até então, simbolizando irreverência, talento, orgulho nacional e afirmação africana.

A Argentina também tombou apesar de dispor de Batistuta, Verón, Ortega, Crespo, Zanetti, Simeone e Pochettino. O grupo era difícil (Inglaterra, Suécia e Nigéria) e foi eliminada com derrota contra a Inglaterra, com pênalti convertido por David Beckham.

O resultado foi muito simbólico porque para Beckham foi uma espécie de redenção após a expulsão contra a Argentina em 1998; para a Argentina, foi uma eliminação amarga e inesperada, agravada pelo contexto de crise económica e social que o país vivia. Em 1998 Beckham fora vilão, em 2002 tornou-se capitão, líder e figura redimida.

Beckham. Fonte: www.thesun.co.uk.

Os americanos fizeram uma campanha muito forte, chegando às quartas de final, eliminando o México nas oitavas de final, num jogo muito simbólico pela rivalidade regional. Porém, nas quartas de final perderam com a Alemanha por 1x0, num jogo em que se queixaram de uma grande penalidade não assinalada por mão na bola. Ainda assim, a campanha foi uma das melhores da história da seleção americana em Mundiais modernos.

A Alemanha chegou à final, mas não era vista como uma equipa brilhante. Era considerada sólida, disciplinada e muito dependente de Oliver Kahn e de Miroslav Klose, que se destacou pelos gols de cabeça. A campanha alemã mostrou a força competitiva tradicional do país, e Klose, então ainda pouco conhecido internacionalmente, iniciou em 2002 a trajetória que o levaria a tornar-se o maior artilheiro da história dos Mundiais.

Portugal chegou ao Mundial com a chamada ‘geração de ouro’, com jogadores como Luís Figo, Rui Costa, João Pinto, Sérgio Conceição, Fernando Couto, Paulo Sousa e Nuno Gomes. Havia expectativas elevadas, mas a seleção foi eliminada na fase de grupos, perdendo com os americanos, vencendo a Polônia e caindo contra os sul-coreanos em jogo de expulsão de … dois portugueses!

Uma das peripécias anteriores ao início da Copa foi o conflito entre Roy Keane e o selecionador irlandês Mick McCarthy. Keane criticou as condições de preparação da equipe e acabou por abandonar ou ser afastado da seleção antes do início da competição, dividindo a Irlanda, que ainda chegou às oitavas de final e foi eliminada pela Espanha.

Oliver Kahn. Fonte: trivela.com.br.

Em suma, o Mundial de 2002 ficou marcado por vários significados fortes: a expansão e globalização geoestratégica do futebol; o pentacampeonato do Brasil, com muito talento ofensivo, disciplina tática e redenção de Ronaldo; as quedas precoces e inesperadas de argentinos, franceses, italianos e portugueses; as boas surpresas protagonizadas por americanos, senegaleses, sul-coreanos e turcos; e… sobretudo de arbitragens tendenciosas a favor do pais anfitrião sul-coreano.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 2x0 Alemanha

» Gols: Ronaldo, aos 67’ e 79’

» Data: 30 de junho de 2002

» Local: International Stadium, Yokohama (Japão)

» Público: 69.029 espectadores

Árbitro: Pierluigi Collina (Itália); Assistentes: Leif Lundberg (Suécia) e Philip Sharp (Inglaterra); 4º Árbitro: Hugh Dallas (Escócia)

» Disciplina: cartão amarelo – Roque Júnior (Brasil) e Miroslav Klose (Alemanha)

» Brasil: Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson e Roberto Carlos; Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista) e Rivaldo; Ronaldo (Denílson). Técnico: Luiz Felipe Scolari.

» Alemanha: Oliver Kahn; Thomas Linke, Christoph Metzelder e Carsten Ramelow; Torsten Frings, Dietmar Hamann, Jens Jeremies (Gerald Asamoah) e Bernd Schneider; Marco Bode (Christian Ziege); Miroslav Klose (Oliver Bierhoff) e Oliver Neuville. Técnico: Rudi Völler.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; olympics.com; trivela.com.br; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com; www.thesun.co.uk.

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