sexta-feira, 8 de maio de 2026

Entre o céu e o inferno (I): do caos financeiro e administrativo à despromoção no futebol e queda das atividades desportivas (2000-2002)

Torcedores lançando bombas em Caio Martins revoltados com a despromoção no jogo contra o São Paulo. Crédito: Hipólito Pereira | O Globo.

[Nota preliminar – Após a série de resenhas publicadas sobre a década de 1990, o Mundo Botafogo inicia uma nova série de resenhas desde o início do século XXI, esmiuçando os momentos altos e baixos de um Clube Glorioso em permanente ressurreição e que, como sublinha a sua torcida, é uma fortaleza que jamais se renderá.]

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A presidência de José Luiz Rolim (1997-1999), que conquistara a Taça Guanabara, a Taça Rio e o Campeonato Estadual, em 1997, e o 4º título do Torneio Rio-São Paulo, em 1998, poderia ter sido coroada com a cereja no cimo do bolo conquistando a Copa do Brasil, em 1999, mas terminou amargamente com a perda do título, com o Botafogo à beira da sua primeira descida de divisão e o prenúncio da quase-tragédia anunciada da gestão e das finanças do Botafogo.

Em 2000 Mauro Ney Machado Monteiro Palmeiro foi eleito presidente do Glorioso (2000-2002) e uma nova e mais profunda crise desabou em cima do Clube, tanto no futebol como em outras modalidades, que se saldou por um desastre financeiro e desportivo estrondoso que nos levou à beira da falência técnica e financeira.

No futebol, 2000 foi o ano de alerta. O Botafogo disputou a Copa João Havelange no módulo principal porque tinha escapado do descenso anterior no contexto do Caso Sandro Hiroshi, em 1999, e o início da década foi marcado por campanhas pífias no campeonato brasileiro e de proximidade à zona de rebaixamento, perdendo-se competitividade no cenário nacional.

Entretanto, na vertente financeira e estrutural, o ano 2000 foi a sequência da deterioração iniciada em fins de 1999, operando com fortes limitações administrativas e sem a solidez de fases anteriores, e determinando a impossibilidade de uma base estável e moderna que pudesse sustentar o futebol e as demais modalidades desportivas.

Não obstante nos abeirarmos de uma profunda crise, o Botafogo disputou o Torneio Rio-São Paulo em 2001 e conseguiu chegar à final, iludindo os torcedores de que poderia reagir desportivamente.

A caminhada iniciou-se com a fase de grupos na qual o Botafogo empatou 3x3 com o Corinthians, perdeu por 3x0 para o Santos, empatou 1x1 com o São Paulo e venceu o Palmeiras por 3x1.

Nas semifinais empatou por 2x2 com o Santos, em casa, e classificou-se para as finais vencendo por 1x0 em Vila Belmiro. Nas finais contra o São Paulo perdeu por 4x1 em casa e por 2x1 fora.

Torcedor em contestação na goleada para o Juventude. Crédito: Cezar Loureiro | O Globo.

No basquete também houve um momento desportivo que indiciava capacidade competitiva, porquanto o Botafogo realizou uma grande campanha no campeonato brasileiro de 2001, eliminando o Fluminense nas quartas-de-final e caindo apenas nas semifinais diante do COC/Ribeirão Preto.

Porém, o Clube não traçou uma estratégia de recuperação e não resolveu nenhum dos grandes problemas de fundo, pelo contrário. A crise financeira e administrativa latente anunciava-se e a gestão era pressionada por soluções que não foi capaz de criar e implementar.

E em 2002 o desastre anunciado concretizou-se. O futebol do Botafogo foi decapitado pela saída de jogadores antes do início do campeonato brasileiro porque financeiramente esse ano representou o colapso do Clube, repleto de dívidas para com jogadores e empresários, salários em atraso, sem patrocinador, sem local adequado para treinar e atletas pedindo para não atuarem mais pelo Clube.

A equipe de futebol do Botafogo foi treinada a maior parte do tempo por Ivo Wortmann, depois teve Carlos Alberto Torres nos jogos finais, mas acabou rebaixada à Série B, após ser derrotada pelo São Paulo por 1x0 no estádio Caio Martins, consumando a primeira queda do Glorioso à divisão secundária do futebol nacional.

No dia 17 de novembro de 2002, no estádio Caio Martins, justamente no dia de aniversário (tristonho nessa data específica) do editor do Mundo Botafogo, Dill marcou aos 54’ o gol que nos enviou para a Série B à 29ª rodada. Comandado por Carlos Alberto Torres, o Botafogo alinhou com Carlos Germano; Márcio Gomes (Rodrigão), Gilmar, Sandro Barbosa e Rodrigo Fernandes; Carlos Alberto, Almir, Lúcio Bala e Esquerdinha (Camacho); Daniel Mendes (Geraldo Madureira), e Ademilson.

Também no basquete as consequências foram devastadoras, porque apesar das campanhas competitivas o departamento profissional de basquete foi encerrado em 2002.

Bebeto e Freitas, recém-eleito presidente para o biênio 2003-2005, assistindo à despromoção do Botafogo em 2002, sob a presidência de Mauro Ney Palmeiro. Crédito: Cezar Loureiro | O Globo.

A gestão de Mauro Ney Palmeiro ficou, pois, marcada pela decadência do futebol relegado para segundo plano, pela extinção do basquete e pela pré-falência financeira e patrimonial.

Em suma…

…desportivamente o Botafogo deixou simplesmente de competir em todas as frentes, alienando o enorme prestígio de mais de uma centena de anos;

…financeiramente o triênio foi marcado por dívidas, salários em atraso, falta de patrocinador e uma gestão de absoluta incompetência;

…estruturalmente o problema central residia na precariedade da estrutura, na medida em que o Clube não dispunha de um estádio e de um centro de operações à altura da sua história, da sua torcida e das exigências competitivas, porquanto o Caio Martins consistia apenas numa solução transitória.

Foi este Clube, que não tinha dinheiro sequer para comprar bolas de futebol ou papel higiênico, que Mauro Ney Palmeiro deixou após três anos de permanente delapidação desportiva, financeira e estrutural.

A dinastia oligárquica do Clube estava esgotada pela falta de profissionalismo e modernidade, e das suas fileiras não havia quem mostrasse capacidades e competências para regenerar o Clube.

Urgia alguém fora dessa oligarquia, com novas ideias, com visão e competência para arrancar o Botafogo de novo das correntes do inferno em que fora lançado.

Esse alguém tinha nome sonante: Paulo Roberto de Freitas, carinhosamente tratado por ‘Bebeto de Freitas’, que venceu as eleições para o triênio 2003-2005 com a incumbência gigantesca de sanar financeiramente e administrativamente o Clube e devolver-lhe competitividade no futebol e nas modalidades desportivas de que tanto nos orgulhámos sempre como secular Clube Multiesportivo.

Fontes principais: https://ge.globo.com; https://extra.globo.com; www.mundobotafogo.blogspot.com; www.transfermarket.com.br

Imagens: https://extra.globo.com/esporte/relembre-fatos-fotos-do-ultimo-rebaixamento-do-botafogo-no-brasileirao-de-2002-14670385.html

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Entre o céu e o inferno (I): do caos financeiro e administrativo à despromoção no futebol e queda das atividades desportivas (2000-2002)

Torcedores lançando bombas em Caio Martins revoltados com a despromoção no jogo contra o São Paulo. Crédito: Hipólito Pereira | O Globo. [...