por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1934,
realizada na Itália, entre 27 de maio e 10 de
junho, foi a segunda edição do torneio e terminou com a Itália campeã, vencendo a
Tchecoslováquia por 2x1 após
prolongamento, em Roma. Foi também a primeira Copa vencida por
uma seleção europeia.
O acontecimento mais marcante fora de campo foi o uso político do torneio pelo regime fascista
de Benito Mussolini (*), aliado da Alemanha
de Hitler. A competição serviu como alavanca internacional para
projetar uma imagem de força, organização e prestígio da Itália fascista. Por
isso, a Copa de 1934 é frequentemente lembrada como um dos primeiros grandes
exemplos de megaevento esportivo usado como propaganda de Estado.
Em termos esportivos, a edição também foi histórica porque
tratou-se da primeira Copa com eliminatórias.
Trinta e duas seleções se inscreveram, mas apenas dezesseis disputaram a fase
final. Outro aspecto importante foi a ausência do Uruguai, campeão de 1930, que
boicotou o torneio em resposta à baixa participação europeia na Copa anterior.
Charles Sutcliffe era um dos responsáveis pela Liga Inglesa na
década de 1930 e acérrimo defensor da superioridade do futebol britânico, o
qual se manteve afastado do resto do mundo. Inglaterra, Escócia, Gales e
Irlanda jogavam entre si no International Championship desde 1883. Sutcliffe,
com a arrogância clássica dos ingleses do século XIX afirmou: – “O International Championship parece-me um
Campeonato do Mundo muito melhor do que o que vai acontecer em Roma.”
Porém, em 92 anos de Copas do Mundo, os ingleses apenas
conquistaram a Copa que decorreu no seu país, em 1966, e com a imensa simpatia
das arbitragens da semifinal e da final.
Na Copa de 1934 o Botafogo tornou-se recordista até hoje em número
de convocados para a Seleção Brasileira numa só Copa, cedendo Ariel, Átilla,
Canalli, Carvalho Leite, Germano, Martim, Octacílio, Pedrosa e Waldyr.
Seleção
Brasileira embarcando com 9 titulares do Botafogo FC. Fonte: Arquivo Nacional.
Dentro de campo, a campanha italiana foi intensa e controversa.
Nas quartas-de-final a Itália enfrentou a Espanha num duelo duríssimo: o
primeiro jogo terminou 1x1 após
prolongamento, exigindo o primeiro jogo de desempate da
história das Copas. A Itália venceu a repetição por 1x0, mas a eliminatória ficou
marcada por violência e lesões, inclusive a do goleiro espanhol Ricardo Zamora,
que não pôde jogar o desempate.
Na semifinal a Itália derrotou a Áustria por 1x0. Essa vitória também foi
significativa porque a Áustria possuía uma das equipes mais admiradas da época,
o chamado Wunderteam. Do
outro lado da chave a Tchecoslováquia chegou à final ao bater a Alemanha por 3x1.
A final, em 10 de junho de 1934,
foi disputada no Stadio Nazionale,
em Roma. A Tchecoslováquia saiu na frente com gol de Antonín Puč, mas a Itália
empatou perto do fim com Raimundo Orsi. No prolongamento Angelo Schiavio marcou
o gol do título italiano. A partida foi jogada sob calor extremo, com relatos
de temperatura próxima dos 40°C.
Também houve controvérsias sobre arbitragem e favorecimento à
Itália. Ao longo dos anos, historiadores e jornalistas apontaram suspeitas de
interferência política, pressão sobre árbitros e ambiente hostil para
adversários, embora a vitória italiana também tenha sido defendida posteriormente
por diversos analistas devido aquela geração ter vencido o ouro olímpico em
1936 e a Copa seguinte de 1938.
Em suma, os acontecimentos mais importantes foram a consolidação
da Copa como torneio mundial com eliminatórias, o boicote uruguaio, a
transformação do evento em propaganda fascista, a campanha física e controversa
da Itália, a eliminação da forte Áustria, e a final dramática em que a Itália
virou sobre a Tchecoslováquia para conquistar o seu primeiro título mundial.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Itália
2x1 Tchecoslováquia (ap)
» Gols: Raimundo Orsi, aos 81’, e Angelo Schiavio, aos 95’
(Itália); Antonin Puč, aos 71’ (Tchecoslováquia)
» Data: 10.06.1934
» Local: Stadio Nazionale, em Roma (Itália)
» Itália: Giampiero Combi, Angelo Schiavio, Attilio Ferraris,
Enrique Guaita, Eraldo Monzeglio, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Luigi
Allemandi, Luigi Bertolini, Luis Monti e Raimundo Orsi. Técnico: Vittorio
Pozzo.
» Tchecoslováquia: Frantisek Planicka, Antonin Puč, Frantisek
Junek, Frantisek Svoboda, Jiri Sobotka, Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Ladislav
Zenisek, Oldrich Nejedly, Rudolf Krcil e Stefan Cambal. Técnico: Karel Petru.
(*) A etimologia da
expressão ‘fascismo’ tem por origem fascio
(feixe) que era um símbolo romano de autoridade e unidade. O fascismo foi
criado pelo líder nacionalista Benito Mussolini, em Itália, oficializado em
movimento como Partido Nacional Fascista (1921). Defendia a supremacia do
Estado, o corporativismo e a exaltação da guerra, tendo Mussolini declarado em
1925: – “Somos um estado totalitário”.
Entretanto a expressão ‘fascista’ passou a aplicar-se generalizadamente aos
regimes de extrema-direita, independentemente de serem corporativistas ou não,
enquanto os regimes de extrema-esquerda (designadamente os comunistas) também
foram apelidados com a expressão ‘social-fascista’ por defenderem o Estado de
partido único.
Fontes
principais: maisfutebol.iol.pt;
pt.wikipedia.org;
www.britannica.com;
www.planetworldcup.com;
www.theguardian.com;
www.the-sun.com.

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