por TIAGO LEITE | PhD Saúde, Master Coach | Colaborador do Mundo Botafogo
Todo botafoguense gosta de revisitar grandes momentos.
Garrincha entortando marcadores. Nilton Santos
atravessando o campo. Jairzinho decidindo jogos. Túlio fazendo a arquibancada
explodir. Jefferson fechando o gol. E, mais recentemente, uma geração que
devolveu ao torcedor a experiência de celebrar grandes conquistas.
Faz parte.
Um clube sem memória perde parte da sua identidade.
Mas existe uma diferença enorme entre honrar a
história e viver dela.
E talvez essa seja uma boa pergunta para nós, homens
depois dos 40.
Quanto da sua vida ainda está acontecendo — e quanto
dela você passa contando histórias de quando acontecia?
“Eu treinava muito.”
“Eu tinha um físico excelente.”
“Eu trabalhava 12 horas por dia.”
“Eu era muito mais disposto.”
“Eu jogava bola toda semana.”
“Eu tinha vários projetos.”
“Eu ganhava muito dinheiro.”
“Eu era outra pessoa.”
Perceba o tempo verbal.
Era. Fazia. Tinha. Conseguia.
Sem perceber, alguns homens chegam aos 40, 45 ou 50
anos e começam a transformar a própria vida em uma espécie de museu.
As grandes conquistas estão lá.
As fotografias estão na parede.
As histórias continuam sendo contadas.
Só está faltando uma coisa: um novo jogo acontecendo
agora.
O perigo de confundir história com identidade…
Imagine se o Botafogo entrasse em campo acreditando que
suas glórias passadas fossem suficientes para vencer a próxima partida.
Não seriam.
A camisa pesa.
A história inspira.
Os títulos constroem identidade.
Mas quando o árbitro apita, o placar começa novamente
em 0 x 0.
Na vida também.
Seu diploma não treina por você.
O dinheiro que você ganhou dez anos atrás não organiza
suas finanças atuais.
O corpo que você tinha aos 30 não protege sua saúde aos
50.
Os grandes projetos que realizou não garantem
relevância profissional no futuro.
E nem mesmo tudo aquilo que você já fez pela sua
família substitui a presença que ela precisa de você hoje.
O passado pode ser patrimônio.
Só não pode virar esconderijo.
Depois dos 40, alguns homens começam a recuar as linhas…
Isso acontece silenciosamente.
Primeiro você deixa um projeto para depois.
Depois diminui os treinos.
Para de aprender alguma coisa nova.
Começa a evitar riscos.
Aceita situações que antes incomodariam.
Reduz suas ambições.
E encontra uma explicação aparentemente madura para
tudo isso:
“Agora é diferente.”
É verdade.
Agora é diferente.
Mas diferente não significa necessariamente pior.
Talvez você não tenha mais a velocidade dos 25.
Em compensação, deveria possuir algo que aquele jovem
ainda não tinha: leitura de jogo.
Você conhece melhor suas forças.
Conhece seus erros.
Já perdeu partidas.
Já tomou decisões ruins.
Já confiou nas pessoas erradas.
Já desperdiçou oportunidades.
Já caiu.
E, principalmente, já descobriu que consegue levantar.
Experiência deveria tornar um homem mais estratégico.
Não mais acomodado.
Aos 40+, talvez você precise mudar a maneira de jogar…
Um jogador experiente não precisa correr atrás de todas
as bolas.
Ele aprende a ocupar espaços.
Antecipar movimentos.
Escolher batalhas.
Economizar energia onde não importa para utilizá-la
quando o jogo exige.
Talvez maturidade seja exatamente isso.
Você não precisa provar mais nada para todo mundo.
Mas ainda precisa provar algumas coisas para você.
Que ainda consegue cuidar do próprio corpo.
Que ainda consegue aprender.
Que ainda consegue construir.
Que ainda consegue pedir desculpas.
Que ainda consegue começar um negócio.
Que ainda consegue mudar de carreira.
Que ainda consegue reconstruir um relacionamento.
Que ainda consegue abandonar hábitos que estão
destruindo silenciosamente sua saúde.
Que ainda consegue estabelecer uma nova meta e
persegui-la.
Aos 40+, você não precisa jogar como jogava aos 20.
Precisa continuar em campo.
Qual foi sua última grande temporada?...
Faça um exercício.
Pense nos últimos cinco anos da sua vida.
Qual foi sua maior evolução física?
Qual foi sua maior conquista profissional?
Qual foi a última habilidade realmente nova que você
aprendeu?
Qual foi a última decisão que exigiu coragem?
Qual foi a última vez que você olhou para alguma coisa
que havia construído e pensou: “Eu ainda sou capaz de me surpreender.”
Se todas as suas melhores respostas estiverem muito distantes
no passado, talvez exista um alerta no placar.
Você pode estar vivendo mais da reputação do homem que
foi do que da construção do homem que ainda pode ser.
E isso é perigoso.
Porque existe uma diferença brutal entre envelhecer e sair
do jogo antes da hora.
O próximo capítulo ainda não foi escrito…
O Botafogo não apaga Garrincha quando surge um novo
ídolo.
Não apaga Nilton Santos quando conquista um novo
título.
Uma nova vitória não diminui a história.
Ela acrescenta mais uma página.
Faça o mesmo com a sua vida.
Você não precisa renegar o homem que foi.
Muito pelo contrário.
Honre tudo o que ele construiu.
Mas não obrigue sua versão atual a viver eternamente
das conquistas dele.
A pergunta depois dos 40 não deveria ser apenas:
“O que eu já fiz da minha vida?”
Talvez exista uma pergunta muito mais importante:
“Qual será a próxima coisa da qual eu ainda vou me
orgulhar?”
Escolha uma.
Pode ser recuperar sua saúde.
Construir um novo projeto.
Organizar sua vida financeira.
Melhorar seu casamento.
Voltar a estudar.
Empreender.
Viajar.
Competir novamente.
Ou simplesmente recuperar uma versão sua que foi
ficando pelo caminho.
Depois transforme essa escolha em uma ação concreta.
Porque história nenhuma ganha o próximo jogo.
Quando a bola rola, é preciso jogar novamente.
E talvez você ainda tenha muito campeonato pela frente.
Não viva apenas dos seus melhores momentos. Crie os
próximos.
Mude ou Aceite: não tem outra maneira.
tiagoleite40.oficial

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