terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Depoimento de Mendonça – uma paixão imensa

Crédito: Revista Placar, 1980.

"Não sou jogador do Botafogo, sou torcedor do Botafogo."  Mendonça.

por MENDONÇA | Entrevista de MARCELO REZENDE | Revista Placar, 1980

«Em 75, quando Zagalo me fez titular, isto aqui era uma merda. Foi quando me dei conta da concorrência desleal que impera no profissionalismo. No juvenil todos são amigos, um ajuda ao outro. Nos profissionais, cada um se vira sozinho. Meu pai mesmo diz: ‘Cuida de você e deixa a vida dos outros’.

Já como titular, começando a cair no gosto da torcida, sofri um golpe profundo: a mudança do Botafogo de General Severiano, que eu amava tanto, para Marechal Hermes. Eu adoro o Botafogo. Aprendi a gostar daqui porque nasci aqui dentro. Conheço todos os funcionários, nunca tive nenhum problema e sempre fui respeitado pelos dirigentes. Por isso, só deixo o clube por muito dinheiro.

Como dizia, saímos de General Severiano e foi como se roubassem um pedaço da minha vida, justamente da minha infância. Naquele momento, enterraram meus piqueniques debaixo da arquibancada, meu sonho de herói. Sepultaram, friamente, a tradição, o carisma, o respeito que meu clube impunha. Confesso que chorei. Creio que eu, a quem todos apontam como um dos bons jogadores, vou ser conhecido daqui a alguns anos como “esse craque de Marechal”. E eu queria ser de General.

Ser grande estrela tem um lado bom e outro rum. O bom é ser solicitado para autógrafos, tirar fotos com torcedores, chegar aos lugares e ser tratado com carinho, ser reconhecido na rua, ouvir o estádio gritar seu nome. Em compensação, no erro você é o único culpado. Na última partida com o Fluminense pela Taça Guanabara, eu estava errando todos os passes. A vaia invadia minha cabeça, os companheiros diziam: ‘Finge que não escuta, Mendonça’. Não escutar como? Eu não escuto os aplausos, porra? Então, vou ouvir também as vaias. Elas são pra mm, sou eu que tenho de ouvi-las!

A bola só saía errada, me traía. Até que, aos 45 minutos do segundo tempo, empate com um gol de cabeça: 1 a 1. Não comemorei. Saí correndo em direção à torcida e xinguei, fiz gestos obscenos. Eu queria até tirar o calção, só não tirei porque a televisão estava lá e não pegava bem.

No vestiário, entrei chorando, atirei a camisa com violência ao chão, pisei em cima e comecei a gritar: ‘Não jogo mais nessa merda desse clube! Não jogo mais pra essa torcida!’ Sou caladão, um jeito meu indolente, mas por dentro estou sempre em convulsão.

Horas depois, entendi: era a reação natural de uma torcida que não vence desde 68. Só esquecem que eu também estou nessa – 12 anos sem título. Pensa que não sofro? Sofro mais que a maioria dos torcedores e conselheiros que se dizem botafoguenses. Porque eu, mesmo profissionalmente, sou Botafogo sem interesse – porque amo.

Um clube não pode estar tanto tempo sem ganhar. Ser jogador do Botafogo, hoje, é se sentir achatado, espremido, pesado pelos outros. Uma inferioridade crônica.

Os jogadores têm a sua culpa. Você já chegou aqui antes do treino e sabe como é, tem gente rindo, brincando, a maior descontração. Um mergulha em cima do outro, os apelidos correm soltos. Eu, jogador e torcedor, fico espantado: como pode haver tanto riso, tanta satisfação, tanta alegria entre nós jogadores, se não conseguimos ganhar nada? Isto aqui deveria ser mais sério, um ambiente em que as pessoas fossem seguras, consciente, mas sem essas brincadeiras que na verdade não são de descontração e sim de fuga. Cadê a nossa vergonha na cara? E o sujeito que paga, que é fanático? Quando chega aqui, na certa deve pensar: ‘Não ganham nada e ainda ficam rindo como tarados mentais’.

Já conversei com alguns, disse no vestiário: ‘Quer dizer que todo mundo aqui está cheio de apartamentos, nadando em dinheiro? O silêncio foi total. Você pensa que adiantou alguma coisa? Recentemente falei: ‘Vocês já pensaram na conta bancária dos jogadores do Flamengo?’ Claro, o Flamengo tem de ser o exemplo pra tudo. Lá está o bom exemplo – jogadores dedicados, aplicados.

Eu mesmo organizei alguns churrascos, tentei reunir todos os jogadores numa grande família – só assim chegaríamos a algum lugar. Não deu resultado, ninguém se importou. Não será um presidente ou outro cartola que devolverá o título ao Bota, mas s jogadores.

O que ninguém entende é isso: você dorme ídolo, acorda joão-ninguém. Dorme ídolo, acorda um mortal qualquer. Esta é a profissão mais ilusória do mundo, que te dá alguns poucos momentos de dinheiro e satisfação. Tenho em casa o exemplo do meu pai, inutilizado para o futebol no melhor momento de sua carreira. Ele me ensina todas as malandragens, mas ninguém enxerga isso.

Já sou um homem. Ganhei algum dinheiro (salário atual de 100 mil cruzeiros), comprei um bom apartamento (em Jacarepaguá, com 250 m2 de construção), tenho carro, minha família. Dentro de mim, entretanto, carrego uma frustração, talvez a única que tenho hoje: jamais ter sido campeão.

Como se disse, só saio daqui por muito, muitíssimo dinheiro ou depois de conquistar um título. Aí me sentirei mais homem, aí sim não estarei traindo meu sonho de menino.»

O Depoimento de Mendonça – uma paixão imensa

Crédito: Revista Placar, 1980. "Não sou jogador do Botafogo, sou torcedor do Botafogo."  –  Mendonça. por MENDONÇA | Entrevista ...