"Não sou jogador do Botafogo, sou torcedor do Botafogo." – Mendonça.
por MENDONÇA | Entrevista de MARCELO REZENDE
| Revista Placar, 1980
«Em 75, quando Zagalo me fez titular, isto aqui era uma
merda. Foi quando me dei conta da concorrência desleal que impera no
profissionalismo. No juvenil todos são amigos, um ajuda ao outro. Nos
profissionais, cada um se vira sozinho. Meu pai mesmo diz: ‘Cuida de você e
deixa a vida dos outros’.
Já como titular, começando a cair no gosto da torcida,
sofri um golpe profundo: a mudança do Botafogo de General Severiano, que eu
amava tanto, para Marechal Hermes. Eu adoro o Botafogo. Aprendi a gostar daqui
porque nasci aqui dentro. Conheço todos os funcionários, nunca tive nenhum
problema e sempre fui respeitado pelos dirigentes. Por isso, só deixo o clube
por muito dinheiro.
Como dizia, saímos de General Severiano e foi como se
roubassem um pedaço da minha vida, justamente da minha infância. Naquele momento,
enterraram meus piqueniques debaixo da arquibancada, meu sonho de herói.
Sepultaram, friamente, a tradição, o carisma, o respeito que meu clube impunha.
Confesso que chorei. Creio que eu, a quem todos apontam como um dos bons
jogadores, vou ser conhecido daqui a alguns anos como “esse craque de
Marechal”. E eu queria ser de General.
Ser grande estrela tem um lado bom e outro rum. O bom é
ser solicitado para autógrafos, tirar fotos com torcedores, chegar aos lugares
e ser tratado com carinho, ser reconhecido na rua, ouvir o estádio gritar seu
nome. Em compensação, no erro você é o único culpado. Na última partida com o
Fluminense pela Taça Guanabara, eu estava errando todos os passes. A vaia
invadia minha cabeça, os companheiros diziam: ‘Finge que não escuta, Mendonça’.
Não escutar como? Eu não escuto os aplausos, porra? Então, vou ouvir também as
vaias. Elas são pra mm, sou eu que tenho de ouvi-las!
A bola só saía errada, me traía. Até que, aos 45 minutos
do segundo tempo, empate com um gol de cabeça: 1 a 1. Não comemorei. Saí
correndo em direção à torcida e xinguei, fiz gestos obscenos. Eu queria até
tirar o calção, só não tirei porque a televisão estava lá e não pegava bem.
No vestiário, entrei chorando, atirei a camisa com
violência ao chão, pisei em cima e comecei a gritar: ‘Não jogo mais nessa merda
desse clube! Não jogo mais pra essa torcida!’ Sou caladão, um jeito meu
indolente, mas por dentro estou sempre em convulsão.
Horas depois, entendi: era a reação natural de uma
torcida que não vence desde 68. Só esquecem que eu também estou nessa – 12 anos
sem título. Pensa que não sofro? Sofro mais que a maioria dos torcedores e
conselheiros que se dizem botafoguenses. Porque eu, mesmo profissionalmente,
sou Botafogo sem interesse – porque amo.
Um clube não pode estar tanto tempo sem ganhar. Ser
jogador do Botafogo, hoje, é se sentir achatado, espremido, pesado pelos
outros. Uma inferioridade crônica.
Os jogadores têm a sua culpa. Você já chegou aqui antes
do treino e sabe como é, tem gente rindo, brincando, a maior descontração. Um
mergulha em cima do outro, os apelidos correm soltos. Eu, jogador e torcedor,
fico espantado: como pode haver tanto riso, tanta satisfação, tanta alegria
entre nós jogadores, se não conseguimos ganhar nada? Isto aqui deveria ser mais
sério, um ambiente em que as pessoas fossem seguras, consciente, mas sem essas
brincadeiras que na verdade não são de descontração e sim de fuga. Cadê a nossa
vergonha na cara? E o sujeito que paga, que é fanático? Quando chega aqui, na
certa deve pensar: ‘Não ganham nada e ainda ficam rindo como tarados mentais’.
Já conversei com alguns, disse no vestiário: ‘Quer dizer
que todo mundo aqui está cheio de apartamentos, nadando em dinheiro? O silêncio
foi total. Você pensa que adiantou alguma coisa? Recentemente falei: ‘Vocês já
pensaram na conta bancária dos jogadores do Flamengo?’ Claro, o Flamengo tem de
ser o exemplo pra tudo. Lá está o bom exemplo – jogadores dedicados, aplicados.
Eu mesmo organizei alguns churrascos, tentei reunir todos
os jogadores numa grande família – só assim chegaríamos a algum lugar. Não deu
resultado, ninguém se importou. Não será um presidente ou outro cartola que
devolverá o título ao Bota, mas s jogadores.
O que ninguém entende é isso: você dorme ídolo, acorda
joão-ninguém. Dorme ídolo, acorda um mortal qualquer. Esta é a profissão mais
ilusória do mundo, que te dá alguns poucos momentos de dinheiro e satisfação.
Tenho em casa o exemplo do meu pai, inutilizado para o futebol no melhor
momento de sua carreira. Ele me ensina todas as malandragens, mas ninguém
enxerga isso.
Já sou um homem. Ganhei algum dinheiro (salário atual de 100 mil cruzeiros),
comprei um bom apartamento (em
Jacarepaguá, com 250 m2 de construção), tenho carro, minha
família. Dentro de mim, entretanto, carrego uma frustração, talvez a única que
tenho hoje: jamais ter sido campeão.
Como se disse, só saio daqui por muito, muitíssimo
dinheiro ou depois de conquistar um título. Aí me sentirei mais homem, aí sim
não estarei traindo meu sonho de menino.»

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