por TIAGO LEITE | PhD Saúde,
Master Coach | Colaborador do Mundo Botafogo
Existe um momento estranho diante do espelho.
Olha para o seu reflexo. Reconhece o rosto. Reconhece
as marcas do tempo. Reconhece o homem que chegou até aqui.
Porém, em algum lugar, dentro de si, existe
outro homem; o homem que imaginou que seria:
Mais saudável. Mais forte. Mais presente para a
família. Mais seguro financeiramente. Mais corajoso para tomar decisões. Mais
livre. Mais próximo daquilo que, muitos anos atrás, acreditava em quem se
tornaria.
E talvez a pergunta mais difícil não seja: “Quem
eu sou?”
Mas: “Como eu chego até aquele homem?”
TODO JOGADOR TEM UMA VERSÃO
QUE AINDA NÃO ENTROU EM CAMPO
Todo garoto que começa a jogar futebol imagina
alguma coisa.
Um dia vestir uma grande camisa. Entrar em um
estádio lotado. Fazer um gol. Ouvir a torcida. Ser reconhecido.
Mas entre o garoto que sonha e o jogador que
chega lá, existe uma distância. E essa distância tem um nome: trabalho.
Treino. Disciplina. Repetição. Correção. Fracasso.
Persistência. Decisões.
Ninguém chega ao nível que deseja apenas porque
consegue imaginar onde quer chegar.
No futebol, talento sem desenvolvimento vira
promessa. E promessa, quando não se transforma em ação, envelhece.
A vida não é muito diferente.
O HOMEM QUE IMAGINOU SER
Talvez tenha chegado aos 40, 50 ou 60 anos e tenha conquistado muito: Carreira. Dinheiro. Família. Patrimônio. Respeito. Experiência.
Talvez até tenha realizado coisas que um dia pareciam impossíveis, mas existe uma pergunta que pouca gente faz: tornou-se o homem que imaginava que seria?
Porque sucesso externo não significa
necessariamente realização interna.
É possível construir uma carreira e perder a
saúde. Construir patrimônio e perder tempo. Construir uma imagem de força e
viver dominado pelo medo. Cuidar de todos e abandonar a si mesmo.
Ter uma vida aparentemente bem-sucedida e,
ainda assim, sentir que alguma coisa ficou pelo caminho.
É como vestir a camisa certa, entrar em campo e
perceber que está jogando uma partida que não escolheu.
O BOTAFOGO E A IDENTIDADE
Todo clube tem uma identidade. E quem conhece o
Botafogo sabe que a relação com o clube vai muito além de resultados.
Existe a camisa. A Estrela Solitária. A
história. O Nilton Santos. Garrincha.
A paixão de uma torcida que aprendeu que
futebol também é memória, pertencimento e esperança.
Talvez seja por isso que o futebol seja uma
metáfora tão poderosa para a vida.
Porque pode mudar o esquema tático. Pode mudar
os jogadores. Pode mudar o treinador. Pode mudar a estratégia.
Mas existe algo que precisa permanecer: a
identidade.
Na vida acontece o contrário do que muitas
pessoas imaginam.
Elas tentam mudar o resultado sem mudar a identidade
que produz aquele resultado.
Querem saúde, mas continuam vivendo como alguém
que sempre coloca a própria saúde em segundo plano.
Querem prosperidade, mas continuam tomando
decisões baseadas no medo.
Querem um relacionamento diferente, mas continuam
repetindo os mesmos comportamentos.
Querem uma vida nova, mas continuam escalando
os mesmos velhos hábitos.
E então perguntam: – “Por que nada muda?”
TALVEZ O PROBLEMA NÃO SEJA O
CAMPO
Imagine um técnico recebendo uma equipe que não
consegue vencer:
Ele poderia reclamar do estádio. Da arbitragem.
Da tabela. Do calendário. Da sorte.
Mas, em algum momento, precisaria olhar para dentro: o que estamos fazendo errado?
Na vida, essa pergunta é ainda mais difícil.
Porque o adversário não está do outro lado do campo;
está dentro de nós.
São os padrões que repetimos. Os medos que
obedecemos. As desculpas que aperfeiçoamos. Os comportamentos que nos dão
alívio imediato, mas cobram um preço depois.
É a chamada Trava Oculta.
Acredita que está apenas “sem tempo”; mas
talvez esteja evitando uma decisão.
Acredita que está esperando o momento certo; mas
talvez esteja com medo de fracassar.
Acredita que está sendo prudente; mas talvez
esteja apenas tentando não correr riscos.
Acredita que ainda não está preparado; mas talvez
esteja usando a preparação como uma forma sofisticada de adiamento.
E assim, ano após ano, o homem que poderia ser
continua sentado no banco.
QUEM ESTÁ NO BANCO?
Essa talvez seja a pergunta mais importante. Porque
existem comportamentos que precisam sair de campo:
O excesso de trabalho. A procrastinação. A
necessidade de aprovação. O medo de se expor. O vício em conforto. A
dificuldade de dizer não. A incapacidade de cuidar do próprio corpo. A
tendência de sempre colocar a própria vida para depois.
Porém, não precisa necessariamente de uma vida
completamente nova.
Talvez precise de uma nova escalação.
Algumas coisas precisam ir para o banco; outras
precisam ser substituídas.
E algumas precisam finalmente entrar em campo: Coragem. Disciplina. Presença. Responsabilidade. Saúde. Propósito. Ação.
GARRINCHA NÃO FICOU NO ESPELHO
Existe uma imagem que representa muito bem essa
ideia.
Garrincha poderia ter sido apenas um homem com
um talento extraordinário; mas ele entrou em campo. É ali que o talento deixa
de ser possibilidade e vira realidade. É ali que a promessa encontra a ação.
E talvez essa seja uma das maiores armadilhas da vida adulta: passar anos admirando a pessoa que poderia ser sem nunca se tornar essa pessoa.
Sabe que poderia cuidar melhor da sua saúde. Sabe
que poderia ser mais presente. Sabe que poderia começar aquele projeto. Sabe
que poderia mudar sua relação com o dinheiro. Sabe que poderia abandonar
determinados comportamentos.
Sabe.
Mas saber não transforma.
Ação transforma.
ENTÃO, COMO CHEGAR LÁ?
Talvez esteja esperando uma resposta
complicada. Não é.
Comece olhando novamente para o espelho, mas
desta vez não olhe apenas para o homem que está diante dele.
Olhe para o homem que deseja encontrar ali
daqui a cinco ou dez anos.
Pergunte: quem é esse homem?
Como ele vive? Como ele se comporta? Como trata a própria saúde? Como trata sua família? Como toma decisões? O que ele não aceita mais? O que ele deixou para trás?
E, principalmente: o que o homem que sou hoje precisa começar a fazer para que esse homem possa existir amanhã?
Porque não chegará a uma nova versão de si
mesmo fazendo as mesmas escolhas que construíram a versão atual:
É preciso mudar a escalação. Mudar o
treinamento. Mudar alguns padrões.
E, principalmente, entrar em campo.
VOLTE AO ESPELHO
Talvez hoje, quando olhar para o espelho, ainda
veja apenas o homem que chegou até aqui.
Tudo bem. Ele merece respeito. Ele sobreviveu. Errou.
Acertou. Perdeu. Ganhou. Construiu. Aprendeu.
Mas ele não precisa ser o seu ponto final.
Existe uma versão sua esperando para entrar em
campo.
Talvez essa versão esteja mais perto do que
imagina.
E talvez a distância entre as duas versões não
seja determinada pela idade, pelo passado ou pelas circunstâncias; talvez seja
determinada por uma decisão.
A decisão de parar de perguntar: – “Quem eu gostaria de ser?”
E começar a perguntar: – “O que preciso fazer hoje para me tornar esse homem?”
Porque o futuro não é construído pelo homem que
imagina ser no espelho.
É construído pelo homem que, depois de olhar
para o reflexo, decide entrar em campo.
E então?
Quando olhar para o espelho amanhã, vai
reconhecer apenas o homem que chegou até aqui?
Ou começará a enxergar aquele que ainda pode se
tornar?
A escolha continua sendo sua.
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