por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
A conquista da Copa Conmebol em 1993 poderia
trazer algum alento ao Botafogo, mas a realidade é que o Botafogo atravessava
um verdadeiro deserto e a sua vida financeira era mais próxima do estertor da
morte.
Em 1994 a dívida salarial aos jogadores era
elevada e tinha sido sinalizada pelo então presidente Carlos Augusto Montenegro
para ser quitada em parte. No entanto, em pleno quadrangular final do
campeonato carioca e com a equipe eliminada com duas derrotas e um empate
(apenas um ponto ganho), os jogadores souberam já dentro do ônibus, rumo ao
Maracanã para enfrentar o Fluminense – com uma derrota e dois empates (apenas
dois pontos ganhos) –, que a prometida quitação não se iria realizar.
O que se viu depois em campo foi o reflexo do
descomprometimento do clube: o Fluminense goleou o Botafogo por 7x1!
A lassidão dos atletas em campo foi tão
escandalosa que em escassos 24 minutos de jogo o Botafogo já era derrotado por
4x0!
O técnico Dé, confrontado com a hipótese de
ter havido participação financeira do Fluminense nega em absoluto essa versão:
“Depois
dessa goleada afastamos jogadores, alguns com certo nome. É só comparar a
escalação contra o Fluminense e a do jogo depois para ver uma reformulação de
cinco ou seis nomes. Surgiu uma conversa de que a goleada teria tido
participação financeira do Fluminense, mas isso é mentira. Os jogadores não
levaram dinheiro. O que aconteceu foi que eles não receberam salário e se
vingaram. Puxaram o freio de mão, reclamaram publicamente de substituições. Na
minha época de jogador isso não aconteceria, porque não havia mercenários.”
De certo modo o presidente do Botafogo
perdera o controlo da situação e, segundo se disse à época, teria ensaiado uma
escapatória invadindo o vestiário para agredir o lateral-esquerdo Eduardo. A
coisa pegou em parte, porque ainda hoje se diz que os jogadores se venderam.
Porém, da catástrofe financeira e da vergonha
dos 7x1 em 1994 até ao título de campeão brasileiro de 1995 mediou apenas um
ano e meio. Fruto de uma gestão espetacular e uma organização florescente?
Nem por isso, nem por isso…
Os salários continuaram atrasados, mas,
paradoxalmente, o Botafogo fazia uma boa campanha no campeonato brasileiro de
1995, dispondo de jogadores como Túlio Maravilha, Wilson Gottardo, Sérgio
Manoel e Donizete.
Contudo, os salários em atraso incomodavam
sobremaneira os jogadores e Túlio tinha alguns privilégios. Os jogadores
entendiam que Túlio devia cobrar a diretoria, especialmente Wilson Gottardo e
Sérgio Manoel.
É claro que Túlio não quereria confrontar a
diretoria, e entretanto chegara aos ouvidos do presidente uns certos zumbidos
sobre o assunto. Vai daí conta-se que Carlos Augusto Montenegro terá ido ao
vestiário da equipe e gritado: “Aqui não é Flamengo, não é bagunça, não. Vocês
querem que eu mande o Túlio embora. Eu mando, mas Gottardo e Sérgio Manoel,
vocês vão ter que fazer gol."
Os ânimos acalmaram, mas em boa verdade
estávamos bem mais próximos da bagunça do Flamengo do que da situação de
qualquer outro clube organizado – e foi o próprio presidente do Botafogo a admiti-lo,
em junho de 2020, numa live com
Sérgio Manoel, Gonçalves, Túlio e Wagner, relembrando o título 25 anos antes, a
propósito de uma pergunta sobre como foi o planejamento desse ano:
– “Nenhum.
Absolutamente nenhum. Foi uma bagunça. Eu não conhecia o Paulo Autuori, o
Gottardo que falou que ele era gente boa. Me ajudaram, trouxeram o Donizete lá
do México, o Antônio conseguiu o Jamir e ainda veio o Iranildo. Eu tinha ligado
pro Calçada e ofereci uma troca, aproveitei que o Eurico tava na Europa, e aí
veio o Leandro Ávila. O time montou. Profissionais com muito caráter e
dedicação. Demos sorte porque não tínhamos um elenco muito grande, mas graças a
Deus ninguém se machucou.”
Em suma, o afamado ‘presidente do título’ não
tinha nenhum plano em 1995 e tudo foi acontecendo por acaso e pela sorte –
comprovando-se que “há coisas [boas e
más] que só acontecem ao Botafogo”.
Foi um título construído na base da
resiliência e da superação protagonizadas pela comissão técnica e pelos líderes
do vestiário, que juntos conseguiram galvanizar a equipe para realizar um sonho
muito, muito improvável: sermos campeões brasileiros em 1995!
JOGOS DA DECISÃO (https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-brasileiro-em-futebol-1995.html):
BOTAFOGO FR 2x1 e 1x1 SANTOS FC
Wilson Gottardo e Túlio marcaram os gols do
jogo de ida e Túlio marcou o gol do jogo de volta. A equipe do 2º jogo alinhou
com Wagner; Wilson Goiano, Wilson Gottardo, Gonçalves e André Silva (Moisés);
Leandro, Jamir, Beto e Sérgio Manoel; Donizete e Túlio. Técnico: Paulo Autuori.
Fontes principais:
https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-brasileiro-em-futebol-1995.html






