quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Dama, o Giro e a Coluna

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo.

Antes do tango entrar na minha vida, com ares de drama argentino e olhares profundos, houve uma fase mais brasileira. Mais direta. Mais suada.

Minha iniciação na dança aconteceu na gloriosa Estudantina Musical – templo sagrado da gafieira – onde elegância e improviso andam de mãos dadas... ou pelo menos tentam.

As aulas aconteciam no cair da tarde.

Maria Antonieta era a professora. Maravilhosa. Minúscula. Uma espécie de milagre em forma de gente. Tão pequenininha que, se ficasse parada, corria o risco de desaparecer no salão. Mas bastava a música começar e ela crescia – não de tamanho, mas de presença. Dominava o espaço com uma autoridade que nenhuma altura explicava.

E era um tal de Giro Simples, Giro Duplo, Giro da Dama, Bate Quadril, Miudinho, Cruzado. Tudo saía dela com uma naturalidade ofensiva.

De mim, nem um pouco.

Eu, que sempre tive uma relação delicada – para não dizer desastrosa – com a coordenação motora, me lançava valente. Caprichava nas roupas. Saias rodadas escolhidas a dedo, para dar aquele efeito cinematográfico nos giros. Já me via flutuando pelo salão.

Na prática, eu escorregava.

Girava, sim. Mas com uma leve tendência a perder o eixo da Terra. E não era raro – aliás, quase uma assinatura – que, na ausência de um parceiro firme o suficiente, terminasse a coreografia amparada por uma coluna da Estudantina. Sem dúvida, arquitetura e dança mantinham comigo uma relação bastante próxima.

Mas era à noite que a verdadeira aula começava.

Lá íamos nós, algumas amigas e eu, cheias de entusiasmo e uma leve ilusão de que sabíamos dançar. Bastava subir as velhas escadas da gafieira, situada na Praça Tiradentes, para sermos imediatamente convidadas por uma fauna masculina de dar inveja a qualquer documentarista.

Sim, havia uma variedade tão grande de figuras raras, tipos curiosos e personagens peculiares, que mais parecia um documentário da National Geographic sobre a vida selvagem.

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow

Tinha o cavalheiro clássico, que começava com um “Me concede esta dança?” – e terminava te rodopiando como se estivesse disputando uma final de campeonato.

Tinha o silencioso que não dizia uma palavra, mas conduzia com tanta firmeza que você não sabia se estava dançando ou sendo sequestrada com elegância.

Tinha aquele que dançava olhando firmemente para o próprio reflexo no espelho. Eu era, no máximo, um acessório em movimento.  Confesso que, em certo momento, pensei em sair discretamente da pista só pra ver se ele notava.

Outro contava a própria vida durante o samba. No meio de um giro, descobri que ele tinha três filhos, uma ex-mulher complicada e um problema no joelho direito – que, aliás, não o impedia em nada de tentar passos altamente questionáveis.

E havia aquele que simplesmente inventava. Misturava gafieira com forró, com bolero, com algo que talvez fosse luta livre. Voltava para a mesa sem saber se tinha dançado ou sobrevivido.

Mas, acima de todos, existiam eles: os malandros.

Terno branco impecável. Sapato bicolor – preto e branco – tão bem engraxado que parecia deslizar antes mesmo da música começar. Chapéu Panamá levemente inclinado, lenço no bolso do paletó e uma confiança que já beirava o patrimônio histórico.

Eles não dançavam; desfilavam arrogância e autoridade.

Nós sabíamos que eles não eram pro nosso bico. E, justamente por isso, eram o meu sonho de consumo coreográfico. Ser tirada pra dançar por um malandro era quase um título honorário. E foi aí que, numa dessas noites, o improvável aconteceu.

Um deles – sim, um legítimo exemplar da espécie – parou diante da nossa mesa. Olhou diretamente pra mim.

E, com a naturalidade de quem sabe exatamente o impacto que causa, fez um leve gesto com a cabeça. Não houve convite formal. Não era necessário.

Levantei com a dignidade possível de quem, por dentro, já estava em estado de emergência.

A música começou.

Nos primeiros segundos, tudo foi surpreendentemente perfeito. Ele me conduzia com precisão cirúrgica. Eu obedecia como se tivesse nascido sabendo. Giro Simples, executei. Giro da Dama, sobrevivi. Um Miudinho elegante, quase me emocionei.

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow

Pensei com meus botões:

 – É hoje que viro lenda.

Foi então que ele resolveu inovar: um Giro Duplo.

Até tentei avisar pro meu corpo, mas já era tarde.  Girei uma vez...duas ... e na terceira, perdi completamente qualquer vínculo com as leis da física.

Só sei que, por um breve instante, vi o salão em câmera lenta. Em seguida, fui interceptada, não por ele, mas por uma das tradicionais colunas da casa, minha velha conhecida.

Houve um silêncio respeitoso. Ele me olhou. Eu o olhei.

E com uma elegância que só os verdadeiros malandros possuem, ajeitou o chapéu, fez um meio sorriso e disse:

– A senhora dança com muita emoção.

Voltei pra mesa sob aplausos discretos das amigas, tentando manter a compostura de quem, claramente, acabara de protagonizar um evento.

Nunca mais fui convidada por um malandro.

Mas também, depois daquela performance, acho que deixei minha marca, tanto no salão quanto na coluna.

Talvez tenha sido exatamente aí que entendi que a gafieira – por mais charmosa que fosse – exigia de mim uma coordenação motora que não possuía ou... me recusava a desenvolver sob pressão.

Foi então que, num surto de ousadia – ou completa falta de noção – decidi migrar para algo que, na minha cabeça, parecia mais simples, mais contido, quase introspectivo: o tango.

Mal sabia onde estava me metendo. Mal sabia que estava prestes a conhecer o inesquecível, o inclassificável, o irresistivelmente desajeitado galã de subúrbio: Don Carlito Bandonèon.

Nota do Mundo Botafogo: (a) todas as crônicas da autora podem ser lidas na eqtiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras lúciasenna [42 dessas crônicas foram posteriormente publicadas, mas a edição está esgotada]; (b) o encontro de Lúcia Senna com Don Carlito Bandonéon pode ser apreciado e ‘vivido’ no seguinte endereço: https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/01/um-beijo-no-seu-coracao.html

Muitos Parabéns, Lúcia Senna!!!

 

Botafogo 1x0 Chapecoense – fazendo o caminho…

Crédito: Vitor Silva | Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Botafogo dominou a partida, criou inúmeras oportunidades, mas foi dia em que a bola não queria entrar de jeito nenhum.

A Chapecoense começou atrevidamente em modo de ataque, mas logo Kadir respondeu aos 5’ com jogada perigosa, seguida no minuto seguinte por um arranque veloz de Júnior Santos pela ala direita, cruzando para Kadir que rematou à trave, e no rebote Júnior Santos desperdiçou a oportunidade de marcar chutando para fora.

Os minutos foram correndo, o Botafogo urdindo ataques perigosos, sobretudo pela ala direta, mas as jogadas eram bloqueadas no momento dos remates pela ‘cortina de ferro’ defensiva da Chapecoense que montou, ou chutadas para fora.

O nosso adversário teve uma jogada perigosa de gol apenas aos 65’ quando Garcez, livre de marcação, chutou para fora.

O Botafogo respondeu três minutos depois com Álvaro Montoro a rematar, a bola sofreu um leve desvio num adversário e foi novamente à trave.

Por essa altura a posse de bola do Botafogo acercava-se de 70%, com muitas finalizações, mas sem incomodar excessivamente o goleiro Anderson, excepto aos 70’ quando Kadir arrancou pela esquerda até à linha de fundo e serviu Vitinho que rematou à boca da baliza, a bola tocou num zagueiro, ia entrando e em cima da linha de gol o goleiro enrolou-se e agarrou o esférico sem saber como o terá feito.

A bola não queria mesmo entrar…

Aos 82’ houve uma grande oportunidade da Chapecoense, que levou a bola à trave. No minuto seguinte Álvaro Montoro endereçou um excelente passe para Joaquín Correa descaído pelo lado direito e frente a frente com o goleiro permitiu-lhe uma grande defesa.

Tudo se encaminhava para o zero a zero no Nilton Santos. Eis senão quando, aos 90’ cravados, Vitinho fez uma excelente jogada pelo lado direito, ludibriou os adversários, centrou ao segundo poste e Alex Telles – com veia goleadora na parte final da sua carreira – cabeceou como mandam as regras, de cima para baixo, e colocou o Botafogo a vencer por 1x0.

E o jogo terminou praticamente aí, apesar dos minutos de compensação, numa vitória difícil, mas justa e finalmente sem sofrermos gols.

Entretanto, a equipe de arbitragem poderia ir para a reforma após uma atuação medíocre, invariavelmente contra o Botafogo.

Deve-se destacar a redenção de Bastos e de Montoro, que surgiram em bom plano, respectivamente na defesa e na criação, Ferraresi fez novamente uma boa dupla de zaga com o seu parceiro e Alex Telles confirmou uma vez mais a sua importância em cada jogo.

Fica a nota de que teremos que ser mais efetivos com as ‘muralhas’ defensivas do futebol hodierno, algo que defrontaremos tantas mais vezes quanto mais forem obtidos resultados positivos e expressivos, alarmando os adversários.

Teremos proximamente adversários mais fortes do que a maioria daqueles que a comissão técnica de Franclim Carvalho tem defrontado, mas por enquanto, face a um começo que deixou a torcida desconfiada, 73% de aproveitamento sem derrotas em cinco jogos é um passo importante a consolidar.

FICHA TÉCNICA

Botafogo 1x0 Chapecoense

» Gols: Alex Telles, aos 90’

» Competição: Copa do Brasil – jogo de ida

» Data: 21.04.2026

» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro (RJ)

» Público: 26.001 espectadores

» Renda: R$

» Árbitro: Rodrigo José Pereira de Lima (PE); Assistentes: Brígida Cirilo Ferreira (AL) e Francisco Chaves Bezerra Júnior (PE); VAR: Adriano de Assis Miranda (SP)

» Disciplina: cartão amarelo – Caio Roque, e Álvaro Montoro (Botafogo) e Rafael Thyere, Camilo, Marcinho e Anderson (Chapecoense)

» Botafogo: Neto; Vitinho, Ferraresi, Bastos e Caio Roque (Alex Telles); Allan (Cristian Medina), Danilo e Montoro; Júnior Santos (Arthur Cabral), Kadir Barría (Joaquín Correa) e Matheus Martins (Edenílson). Técnico: Franclim Carvalho.

» Chapecoense: Anderson; Victor Caetano, Rafael Thyere (Bruno Leonardo) e Marcos Vinícius, Eduardo Doma, Bruno Pacheco (Ênio), Camilo e Higor Meritão; Jean Carlos (Walter Clar), Marcinho (Rubens) e Garcez (João Vitor). Técnico: Fábio Matias.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Zico, a ‘FlaPress’ e a ‘FogoPress’

Imagem: Mundo Botafogo.

por RUY MOURA | Editor o Mundo Botafogo

Tenho imensa consideração por Arthur Antunes Coimbra, o conhecidíssimo futebolista Zico, por duas razões essenciais: (a) por ter sido um futebolista de elevada craveira, embora sem dimensão internacional; (b) e pelo seu caráter e comportamentos enquanto cidadão.

Todavia, um/a flamenguista é sempre um/a flamenguista que foge à verdade, ou a torneia, quando se trata de debater o escandaloso favorecimento do Clube de Regatas Flamengo, seja por dirigentes confederativos ou federativos, seja por arbitragens amigas, seja por simpaticíssimas decisões judiciais, seja pela mídia em geral, parte dela denominada popularmente por ‘FlaPress’ – e bem denominada.

Relembremos a frase mais emblemática de Zico referindo-se ao Botafogo de Futebol e Regatas:

– “Eu tinha ódio do Botafogo. Eles ganhavam todas.” – e acrescenta que “nunca vi o Flamengo ganhar do Botafogo como torcedor”.

Agora Zico vem com um novo artifício que de certo modo branqueia, ou no mínimo justifica, o injustificável:

– “Hoje falam que tem FlaPress, mas na época era Botafogo Press. Os grandes jornalistas eram todos botafoguenses. O Botafogo era isso aí.” – disse Zico em entrevista recente a Podpah.

O Botafogo era isso aí?!?!

Zico faz bem em reconhecer que quase todos os ‘grandes jornalistas’ eram botafoguenses. Relembro, por exemplo, um Onze possível de grandes jornalistas botafoguenses: Armando Nogueira, Canor Simões Coelho, Geraldo Romualdo, Ivan Lessa, Léo Batista, Maneco Müller, Oldemário Touguinhó, Paulo Mendes Campos, Roberto Porto, Salim Simão e Sandro Moreyra.

Confira o Clube dos Gloriosos Jornalistas em https://mundobotafogo.blogspot.com/2025/09/clube-dos-gloriosos-jornalistas.html

E permitam-me os leitores acrescentar um nome, talvez mesmo o mais exuberante nome do jornalismo desportivo e da dramaturgia naquela época: Nelson Rodrigues, quiçá o mais brilhante torcedor do Fluminense, e que, contudo, escreveu inúmeras crônicas elogiando atletas e clubes do Rio de Janeiro.

No entanto, não havia FogoPress nem FluPress, porque a atual designação de FlaPress não se baseia em ‘grande jornalistas’ – que a torcida do Flamengo nunca teve –, mas sim em maus jornalistas, sem qualidade nem ética profissional, que inventam, omitem, mentem e também ofendem sem nenhum pudor os clubes adversários.

O suposto FogoPress de Zico baseia-se em que os ‘grandes jornalistas’ eram predominantemente botafoguenses, mas não consta das históricas crônicas da época textos ordinários, mesquinhos e desprezíveis como os textos e as oralidades que atualmente, e desde há dezenas de anos, se assiste principalmente em televisão e nas redes sociais.

Os jornalistas da época mencionada por Zico eram, como o próprio confirma, ‘grandes jornalistas’ – e por serem grandes não usavam da mesquinhez que a ‘pequena’ FlaPress usa.

Ora, por os jornalistas da época serem sobretudo botafoguenses e ‘grandes’, não implica, em momento algum, favorecimento ilícito do Botafogo, designadamente através de menosprezo e desestabilização dos adversários por via da sua posição na imprensa – porque justamente os grandes jornalistas são-nos pela sua qualidade e ética profissional.

Consequentemente não havia favoritismo ao Botafogo pela mídia nos termos do favoritismo ao Flamengo na atualidade, o qual se baseia em baixos níveis de qualidade e ética profissional.

Na verdade, pode-se apontar diversos títulos conquistados pelo Flamengo com base em benefícios da arbitragem e com o beneplácito da FlaPress nas últimas décadas, mas não se consegue apontar um único título do Botafogo conquistado na década de 1960 por vantagem de árbitros simpaticíssimos ao Botafogo, nem ‘grandes jornalistas’ encobriam e protegiam o Botafogo publicamente ou evidenciavam atitudes desprezíveis pelo Flamengo – no máximo ironizavam situações caricatas do rubro-negro, como a final do campeonato estadual de 1966, em que Almir Pernambuquinho iniciou uma enorme pancadaria em campo contra o Bangu, a fim de o árbitro terminar o jogo – e terminou – cujo placar já acusava 3x0 e tudo indiciava que iria à meia dúzia.

A vantagem do Botafogo na década de 1960 não era do tipo FlaPress, que branqueia e valida comportamentos eticamente inaceitáveis, mas sim o que Zico menciona claramente na entrevista:

– “Os anos sessenta são do Botafogo. O Botafogo era, em 61, 62, Garrincha, Didi, Amarildo, Nilton Santos.” – e mais adiante acrescenta: – “Aí, em 67, 68 vieram Jairzinho, Paulo Cézar, Gérson, Leônidas e tal. E foram bicampeões também.”

Finalmente Zico menciona que a mudança de patamar do Flamengo a partir de 1971 relaciona-se com o desmembramento da equipe do Botafogo em 1972:

– “Trouxe o Zagallo, a comissão técnica do Botafogo, que eram os vencedores, e os jogadores. Seis jogadores do Botafogo. E foi campeão em 72. Então, quer dizer, o Botafogo começou a cair e o Flamengo se levantou.”

O que Zico não menciona é que o Botafogo desagradou ao regime político da época quando em 1968 a Polícia Militar invadiu General Severiano perseguindo manifestantes e o presidente Althemar Dutra de Castilho considerou inadmissível que a PM tivesse entrado em General Severiano sem autorização do Clube, violando todas as regras.

Desde aí – com o respaldo do poder político – o Botafogo começou sendo cercado, e em 1971 viu-se isso mesmo na reta final do campeonato estadual. O Botafogo tinha 5 pontos de vantagem (7, segundo os critérios atuais) e a arbitragem começou a ‘operar’, incluindo durante a final com o gol ilegal do Fluminense que lhe valeu o título.

O Botafogo não era isso aí, meu caro Zico… o Botafogo era, por mérito próprio, um Clube que se destacava a nível nacional e internacional e os ‘grandes jornalistas’, cuja ampla maioria torcia pelo Botafogo, eram gente de qualidade e ética profissional e jamais podem ser comparados ao caráter e aos comportamentos dos jornalistas denominados por ‘FlaPress’.

A título de curiosidade indica-se aos leitores 40 jornalistas botafoguenses da atualidade: https://www.youtube.com/watch?v=nA25jMPVqCo&t=33s

Fonte que menciona a entrevista de Zico ao Podpah: https://odia.ig.com.br/esporte/2026/04/amp/7238032-zico-relembra-passado-e-analisa-peso-da-midia-no-rio-era-botafogo-press.html

A Dama, o Giro e a Coluna

Rainer Cadete e Juliana Valcézia, 2016. Crédito:  Carol Caminha | O Globo, Gshow por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mund...