terça-feira, 16 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1962: “¿De que planeta viene Garrincha?”

Cartaz da Copa do Mundo de 1962. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1962, realizada no Chile, ficou marcada sobretudo por uma figura: Manoel Francisco dos Santos, o ‘Garrincha’, com exibições extraterrestres.

A competição decorreu entre 30 de maio e 17 de junho de 1962, com 16 seleções, e terminou com a vitória do Brasil sobre a Tchecoslováquia por 3x1, em Santiago, tendo registrado, além das atuações de Garrincha, três grandes dimensões: a confirmação do Brasil como potência mundial, Pelé lesionado substituído por Amarildo, o ‘Possesso’, e uma competição fisicamente dura, com episódios muito polémicos.

A edição de 1962 foi a última vez em que estiveram apenas seleções do continente europeu e do continente americano: 10 europeias, 5 sul-americanas e 1 centro-americana.

O Chile organizou a Copa do Mundo em contexto difícil, apenas dois anos após o grande terramoto de Valdivia, de 1960, um dos mais devastadores do século XX. A organização da competição teve, por isso, um valor simbólico muito forte porque significava uma demonstração de capacidade nacional e de reconstrução. A Copa realizou-se em apenas quatro cidades, o que também reflete as limitações logísticas da época.

Três dias antes de se iniciar a competição a FIFA reuniu-se em Santiago, capital chilena, e alterou as regras das naturalizações, definindo que um futebolista só poderia jogar por uma Seleção se nunca tivesse representado outro país em jogos oficiais (a regra seria mais tarde alterada, dizendo respeito apenas às seleções nacionais). O objetivo –  a concretizar na Copa de 1966 –  foi evitar o que aconteceu nesta Copa de 1962 em que dois ídolos dos seus países, Di Stéfano pela Argentina e Puskás pela Hungria, faziam parte da Seleção de Espanha.

O Brasil chegou ao Chile como campeão mundial em título, depois da vitória em 1958. Pelé começou jogando de início, marcou contra o México, mas lesionou-se no segundo jogo, frente à Tchecoslováquia, e não voltou a jogar. Este foi um dos acontecimentos centrais que poderia implicar a dificuldade de se alcançar o bicampeonato, mas a equipe superou essa perda através do genial Garrincha e da entrada fulgurante de Amarildo, ambos jogadores do Botafogo de Futebol e Regatas.

Amarildo teve papel decisivo na conquista da Copa do Mundo pela segunda vez consecutiva. O craque marcou dois golos contra a Espanha, num jogo fundamental para a passagem do Brasil à fase seguinte, e marcou também no jogo da final quando a Tchecoslováquia se adiantara no placar dois minutos antes. O Brasil teve profundidade coletiva, sob o comando de Didi, mas foram Garrincha e Amarildo, todos botafoguenses, que no contexto coletivo fizeram valer a sua genialidade, acompanhados por Vavá, autor de 4 gols.

Esquadrão Imortal do Botafogo (1962) com metade dos jogadores de linha e 80% do ataque sagrando-se campeões mundiais titulares da Seleção Brasileira. Da esquerda para a direita, em cima, Cacá, Zé Maria, Manga, Nilton Santos, Pampolini e Rildo; em baixo, Garrincha, Didi, Amarildo, Quarentinha e Zagallo. Foto colorizada| Reprodução.

Efetivamente, com Pelé lesionado, foi Garrincha que assumiu o protagonismo, sendo absolutamente decisivo nos jogos eliminatórios,  sobretudo contra a Inglaterra e contra o Chile. No seu portal a FIFA recorda, por exemplo, o gol de Garrincha contra o Chile nas semifinais como um dos grandes momentos da Copa, aos 9' de jogo.

Garrincha terminou como um dos melhores artilheiro da competição, com 4 gols, juntamente com Vavá, Leonel Sánchez, Flórián Albert, Valentin Ivanov e Dražan Jerković. O mais interessante é que não foi sequer a estatística que o tornou memorável, mas sim o modo brilhante como conseguiu desequilibrar os jogos, com drible inacreditáveis, imprevisibilidade total e uma capacidade rara de decidir em momentos de pressão.

Na verdade, Garrincha nunca sentia pressão e jogava com a alma em campo. Foi tão brilhante que o jornal chileno El Mercurio titulou: "¿De que planeta viene Garrincha?"

Mas a maior peripécia da Copa – e talvez o episódio mais infame – foi o jogo Chile x Itália, conhecido como a “Batalha de Santiago”. A partida foi disputada no dia 2 de junho de 1962 e terminou com a vitória chilena por 2x0, mas ficou na história pela violência, designadamente agressões, expulsões, entradas muito duras e até mesmo intervenção policial em campo.

O árbitro foi Ken Aston, que mais tarde ficaria ligado à criação dos cartões amarelo e vermelho. A transmissão britânica também tornou o jogo célebre quando o comentador David Coleman apresentou-o como uma das exibições mais “estúpidas, chocantes, repugnantes e vergonhosas” da história do futebol (*).

A seleção chilena, jogando em casa, chegou às semifinais e terminou em 3º lugar, após vencer a Jugoslávia no jogo de atribuição do terceiro lugar. Para o Chile foi uma campanha de enorme significado nacional. A equipa beneficiou do ambiente emocional da competição, mas também mostrou competitividade real, eliminando a União Soviética nas quartas-de-final.

A semifinal contra o Brasil foi intensa e terminou 4x2 para os brasileiros. Garrincha marcou dois golos, Vavá também marcou dois e o Chile resistiu como pôde perante uma seleção brasileira avassaladora.

Garrincha, 1962 (foto colorizada). Crédito: https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br

O genial Garrincha foi expulso e desse modo não poderia disputar a final, desfalcando a seleção campeã do mundo do seu grande motor atacante. Porém, Garrincha acabou por disputar a final porque o árbitro Arturo Yamasaki, convocado pela FIFA para depor, afirmou que não viu a agressão e a expulsão ocorreu por indicação do árbitro assistente.

A FIFA convocou-o, mas o árbitro assistente não apareceu e noticiou-se que teria regressado ao Uruguai, mas no seu país também não sabiam dele e a agressão não ficou provada, permitindo que Garrincha jogasse. Alvitrou-se que teria recebido uma grande quantia para desaparecer e, coincidência, ou não, alguns meses depois foi convidado a apitar jogos no Brasil pela Federação Paulista de Futebol.

Na verdade, seria um grande desperdício futebolístico Garrincha não ter disputado a final…

Veja porquê: https://www.youtube.com/watch?v=mWlpba4i5Mw

Por seu turno, a Tchecoslováquia, segunda Seleção finalista, realizou um percurso muito sólido. A sua equipa estava bem organizada, com destaque para Josef Masopust, meio-campista de grande qualidade, que marcaria o primeiro gol da final. O jogo afigurava-se bastante difícil, quiçá competitivamente equilibrado, porque brasileiros e tchecoslovacos já se haviam defrontado na fase de grupos e empatado em 0x0 – e a final teria sabor a tira-teimas de quem era melhor.

No jogo derradeiro da Copa, Masopust colocou a Tchecoslováquia em vantagem logo aos 15 minutos de jogo, mas dois minutos depois, Amarildo, o ‘Possesso’, empatou. Na segunda parte Zito e Vavá completaram a reviravolta brasileira e o resultado final favoreceu com justiça o Brasil pela vitória de 3x1.

A Copa de 1962 também foi lembrada como uma competição mais física e menos aberta do que a de 1958. Houve 89 gols em 32 jogos, uma média inferior à de algumas edições anteriores, e vários relatos destacam a dureza do jogo.

Esse contexto ajuda a perceber por que razão o talento de Garrincha se tornou tão marcante: numa competição fechada, agressiva e taticamente mais cautelosa, Garrincha manteve a capacidade de desequilibrar individualmente e conduzir o Brasil ao bicampeonato.

Em resumo, a Copa do Mundo de 1962 foi muito importante para o Brasil consolidar o seu futebol como bicampeão mundial, transformou Garrincha na grande figura da competição, revelou a enorme capacidade de Amarildo para substituir Pelé, proporcionou ao Chile a sua melhor campanha de sempre e deixou para a história um dos jogos mais violentos dos Mundiais, a “Batalha de Santiago”.

Amarildo, o ‘Possesso’, em dupla perfeita com Garrincha, comemorando um gol na Copa. Crédito: Agência O Globo (foto colorizada).

Foi uma competição menos romântica do que em 1958, mas decisiva para a afirmação do Brasil como referência máxima do futebol internacional.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 3x1 Tchecoslováquia

» Gols: Amarildo, aos 17’, Zito, aos 69’, e Vavá, ao 78’ (Brasil); Josef Masopust, aos 15’ (Tchecoslováquia)

» Data: 17.06.1962

» Local: Estádio Nacional, em Santiago (Chile)

» Público: 68.679 espectadores

» Árbitro: Nikolay Latyshev (União Soviética)

» Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Mauro Ramos, Zózimo, Nílton Santos; Zito, Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo, Zagallo. Técnico: Aymoré Moreira.

» Tchecoslováquia: Viliam Schrojf; Jiří Tichý, Svatopluk Pluskal, Ján Popluhár, Ladislav Novák; Andrej Kvašňák, Josef Masopust; Tomáš Pospíchal, Adolf Scherer, Josef Kadraba, Josef Jelínek. Técnico: Rudolf Vytlačil.

(*) Não sabia David Coleman que 12 anos depois, em 29 de maio de 1958, numa final da Liga do Campeões Europeus, os torcedores do Liverpool iniciaram uma violentíssima briga na arquibancada, as grades que separavam os torcedores ingleses dos italianos cederam e dezenas de espectadores italianos foram espezinhados por hooligans, que usaram barras de ferro para bater nos rivais. Com a pressão humana o muro caiu e arrastou na queda mais algumas dezenas de pessoas, saldando-se o acontecimento por 39 mortos e um número indefinido de feridos, no episódio que ficou conhecido pela “Tragédia do Estádio Heysel”, o qual levou a que a própria rainha Isabel II condenasse publicamente o comportamento do hooligans e apoiasse a suspensão das equipes inglesas nas competições europeias por cinco anos. O acontecimento bárbaro mudou o futebol mundial.

Fontes principais: Arquivo Nacional; en.wikipedia.org; www.britannica.com; www.fifa.com; www.reddit.com

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Copa não vai mudar sua vida, sua próxima decisão vai

por TIAGO LEITE | PhD Saúde, Master Coach | Colaborador do Mundo Botafogo

Milhões de brasileiros já começam a sonhar com a Copa do Mundo de 2026. Milhões de botafoguenses também sonham com novas conquistas. E não há nada de errado nisso. O problema surge quando passamos mais tempo esperando uma mudança acontecer em campo do que promovendo as mudanças que a nossa própria vida exige.

Garrincha, o maior ídolo da história do Botafogo e uma das maiores lendas da Seleção Brasileira, nos deixou uma lição que vai muito além do futebol. Ele não ficou conhecido por esperar. Ficou conhecido por agir. Quando recebia a bola, partia para cima. Driblava. Arriscava. Decidia. Enquanto muitos estudavam o jogo, ele mudava o jogo.

Aos 40+, a vida costuma apresentar um desafio parecido. Você já acumulou experiência, enfrentou dificuldades, construiu coisas importantes e superou obstáculos que muita gente nem conhece. Mas existe uma pergunta desconfortável: se você tem tanta experiência, por que ainda existe uma área da sua vida que continua travada?

A resposta, muitas vezes, está naquilo que chamo de ‘Trava Oculta’. Não é falta de inteligência. Não é falta de capacidade. É aquele mecanismo silencioso que faz você adiar decisões importantes. Você sabe que precisa cuidar melhor da saúde, mas deixa para depois. Sabe que precisa organizar a vida financeira, mas empurra o assunto. Sabe que existe uma conversa necessária, um projeto parado ou um ciclo que já terminou, mas continua adiando o inevitável.

A ‘Trava Oculta’ não impede você de sonhar. Ela impede você de agir. E enquanto você espera o momento ideal, os anos passam. O corpo muda. As oportunidades mudam. E a vida continua cobrando a conta das decisões não tomadas.

No futebol, chega um momento em que o treinador precisa fazer uma escolha. Ou muda a estratégia ou aceita o resultado. Na vida acontece exatamente a mesma coisa. Existe um momento em que você precisa decidir se continuará repetindo os mesmos comportamentos ou se terá coragem de iniciar um novo ciclo. Porque não existe transformação sem ruptura. Não existe resultado diferente fazendo as mesmas coisas.

Por isso, deixo uma pergunta simples: qual decisão você está adiando há mais tempo? Não a que veio à sua mente agora. A primeira. Aquela que você tenta evitar. Aquela que sabe que precisa tomar. Escreva essa decisão em um papel e, nas próximas 24 horas, execute uma ação concreta em direção a ela. Uma ligação. Um exame. Uma matrícula. Uma conversa. Um primeiro passo.

Garrincha não entrou para a história porque ficou observando a partida. Entrou porque teve coragem de partir para cima. A Copa de 2026 será decidida por quem tiver coragem de agir quando a oportunidade aparecer. A sua vida também.

A pergunta é: você vai continuar assistindo o jogo da arquibancada ou vai voltar a ser protagonista da própria história?

Mude ou Aceite: não tem outra maneira.

tiagoleite40.oficial

Garrincha, Rei do Drible em Copas do Mundo

Fonte: X - Charles Xavier BFR.

domingo, 14 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1958: Didi, o ‘Senhor Futebol’, e a eclosão da maior dupla de atacantes em Copas do Mundo

Cartaz da Copa do Mundo de 1958. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia entre 8 e 29 de junho, foi uma das edições mais importantes da história do futebol. Foi o torneio em que o Brasil conquistou o seu primeiro título mundial e Pelé apareceu para o mundo com apenas 17 anos, e em que a seleção brasileira começou a construir a imagem de potência máxima do futebol.

O Mundial teve 16 seleções, 35 jogos e 126 gols, mantendo uma média ofensiva alta, embora menor que a de 1954. A Suécia foi a única sede nórdica da história das Copas masculinas até hoje, e a organização foi considerada estável e moderna para a época.

Uma das primeiras grandes peripécias foi a ausência da Itália, bicampeã mundial em 1934 e 1938, que não conseguiu se classificar. Foi um sinal de que o futebol europeu do pós-guerra já não obedecia às antigas hierarquias. A Hungria, vice-campeã de 1954, também chegou enfraquecida: depois da Revolução Húngara de 1956 (*), vários jogadores importantes deixaram o país, e aquela equipa mágica dos anos anteriores já não existia da mesma forma.

Para o Brasil, a Copa de 1958 começou com muita pressão. O trauma de 1950 ainda era recente, e a preparação dispôs de mais meios científicos e de uma organização superior às que foram adotadas em torneios anteriores. A delegação levou equipa médica, psicólogo, observadores e um planejamento cuidadoso. O Brasil queria evitar improvisos e indisciplina, e isso marcou uma mudança no modo de encarar uma Copa.

Na fase de grupos, o Brasil venceu a Áustria por 3x0, empatou 0x0 com a Inglaterra – o primeiro empate sem gols da história das Copas — e depois derrotou a União Soviética por 2x0. Esse terceiro jogo foi decisivo para a história brasileira: entraram Pelé e Garrincha como titulares, e a equipa ganhou outra dimensão técnica e ofensiva, sob o comando, evidentemente, de Didi, apelidado internacionalmente como ‘Mr. Football’ e Bola de Ouro da Copa de 1958.

A entrada de Garrincha foi uma das grandes peripécias futebolísticas do torneio. Contra a União Soviética – que alardeava a superioridade do seu ‘futebol científico’ –, ele começou o jogo destruindo a defesa adversária pelo lado direito aos 3’, num início que ficou célebre na memória do futebol brasileiro. Junto com Didi, Vavá, Zagallo e Pelé, Garrincha ajudou a transformar o Brasil numa equipa mais solta, imprevisível e encantadora.

Nas quartas-de-final, o Brasil enfrentou o País de Gales e venceu por 1x0, com o primeiro gol de Pelé em Copas do Mundo. O jogo foi difícil, fechado, e o Brasil precisou de uma jogada individual do jovem atacante para avançar. A partir dali, Pelé deixou de ser promessa e começou a tornar-se protagonista.

Didi, ‘Bola de Ouro’ da Copa do Mundo. Reprodução | Montagem MB.

Na semifinal aconteceu um dos grandes espetáculos da Copa: Brasil 5x2 França. A França tinha uma equipa muito forte, liderada por Just Fontaine e Raymond Kopa, mas o Brasil foi superior. Pelé marcou três gols, tornando-se o jogador mais jovem a fazer um hat-trick em uma Copa do Mundo.

Mesmo com a eliminação francesa, Just Fontaine entrou para a história: terminou a Copa com 13 gols, recorde absoluto de gols numa única edição do Mundial, marca que permanece até hoje.

Do outro lado, a Suécia aproveitou muito bem o fator casa. Com jogadores experientes como Nils Liedholm, Gunnar Gren, Kurt Hamrin e Lennart Skoglund, os suecos eliminaram a União Soviética nas quartas-de-final e a Alemanha Ocidental, campeã de 1954, na semifinal. A vitória sueca por 3x1 sobre os alemães levou os anfitriões à sua primeira e única final de Copa do Mundo.

A final, em 29 de junho de 1958, no Råsunda Stadium, em Solna, começou com susto para o Brasil. A Suécia abriu o placar logo aos 4’, com Nils Liedholm, e Didi, com a tranquilidade do costume, pegou a bola na sua baliza e levou-a até à marca do meio-campo, assinalando simbolicamente que outro jogo iria começar. Então, o Brasil reagiu com maturidade: Vavá virou o jogo ainda no primeiro tempo, com gols aos 9’ e 32’. Depois, Pelé, Zagallo e novamente Pelé completaram a vitória por 5x2.

A final foi histórica por vários motivos. Foi o primeiro título mundial do Brasil, a primeira final entre uma seleção europeia e uma seleção das Américas, e a única vez em que uma Copa disputada na Europa foi vencida por uma seleção não europeia. Também marcou recordes de idade: Pelé, com 17 anos, tornou-se o mais jovem goleador numa final, enquanto Liedholm, com 35 anos, tornou-se o mais velho a marcar numa decisão mundial.

Ademais, por superstição, o Brasil mudara a cor da camisa após a desdita do ‘Maracanazo’, passando a envergar a ‘amarelinha’, porém a Seleção da Suécia também usava a cor amarela e o Brasil viu-se na contingência de mudar a cor da sua camisa, mas estava absolutamente fora de questão a camisa branca de 1950.

Então, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, recorreu à fé e, após uma oração, fixou o olhar numa imagem de Nossa Senhora Aparecida e inspirado no manto da padroeira do Brasil, decidiu que a nova camisa da Seleção seria azul – e a delegação comprou camisas azuis comuns em lojas de Estocolmo, costurou nelas os arrancados das camisas amarelas e na final a goleada brasileira transformou o ‘manto azul’ num símbolo de fé e de vitória.

Estreia em Copas do Mundo da maior dupla atacante de todos os tempos: Garrincha apoia Pelé em comoção após a conquista da Copa do Mundo sobre a Suécia (colorizada). Divulgação.

Outra imagem simbólica foi o capitão Bellini erguendo a Taça Jules Rimet acima da cabeça. O gesto, hoje comum, tornou-se icônico e passou a ser repetido por capitães campeões em várias competições.

Em resumo, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a queda da Itália nas eliminatórias, a Hungria enfraquecida depois de 1956, a preparação mais organizada do Brasil, a entrada decisiva de Pelé e Garrincha contra a União Soviética, o primeiro gol de Pelé contra o País de Gales e o hat-trick contra a França, Didi o ‘Bola de Ouro’ da Copa, o recorde de 13 gols de Just Fontaine, a campanha forte da anfitriã Suécia, e a consagração brasileira na final por 5x2. A Copa de 1958 concluiu que o Brasil tinha deixado de ser apenas uma promessa trágica de 1950 para se tornar, finalmente, uma realidade mágica.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 5x2 Suécia

» Gols: Vavá, aos 9’ e 32’, Pelé, aos 55’ e 90’, e Zagallo, aos 68’ (Brasil); Liedholm, aos 4’, e Simonsson, aos 80’ (Suécia)

» Data: 29 de junho de 1958

» Local: Estádio Råsunda, em Solna (Suécia)

» Público: 49.737 espectadores

» Árbitro: Maurice Guigue (França)

» Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola.

» Suécia: Svensson; Bergmark, Parling, Gustavsson e Axbom; Börjesson, Gren e Liedholm; Hamrin, Simonsson e Skoglund. Técnico: George Raynor.

(*) A Revolução Húngara de 1956 foi uma revolta popular na Hungria contra o controlo da União Soviética e o regime comunista imposto após a Segunda Guerra Mundial. Começou em outubro com manifestações estudantis em Budapeste e transformou-se numa insurreição nacional que exigia maior liberdade política, eleições livres, retirada das tropas soviéticas, liberdade de expressão e reformas económicas. O líder reformista Imre Nagy tentou implementar mudanças democráticas e anunciou a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia, o que alarmou Moscovo. Em novembro de 1956, a União Soviética respondeu com uma intervenção militar massiva: tanques entraram em Budapeste e esmagaram a revolta popular após combates violentos, mantendo o regime sob a sua dependência.

Fontes principais: imortaisdofutebol.com; maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

Copa do Mundo de 1962: “¿De que planeta viene Garrincha?”

Cartaz da Copa do Mundo de 1962. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo de 1962, realizada no Chi...