quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (VII): dos quase-títulos de Ernesto Paulo e Búfalo Gil ao desmantelamento técnico e financeiro pré Carlos Alberto Torres

Ernesto Paulo (á esquerda). Acervo: Bangu Atlético Clube.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Emil Pinheiro já era presidente do Botafogo (1991-1992) quando Valdir Espinosa saiu do Botafogo em circunstâncias também inéditas após vencer o Grêmio por 3x1 na última rodada do campeonato brasileiro de 1991, rebaixando o clube gaúcho, justamente para ir treinar o próprio Grêmio, onde era ídolo por ter conquistado a Copa Libertadores e a Taça Toyota Intercontinental.

Porém, durou pouco tempo porque os maus resultados na Série B levaram à sua demissão em fevereiro de 1992. Foi como se tivesse sido alvo de uma praga botafoguense, porque após o título de 1989, Espinosa só conseguiu vencer mais duas competições: o campeonato paranaense em 2002 e brasiliense em 2005. Por ironia do destino faleceu em 2020 após regressar ao Botafogo como gerente de futebol.

Após a saída de Espinosa chegou a Botafogo Ernesto Paulo, cuja principal missão seria o tricampeonato. A equipe não estava propriamente em desagregação na medida em que ainda contava com Carlos Alberto Dias, Carlos Alberto Santos, Ricardo Cruz, Valdeir, entre outros atletas. No Carioca de 1991 o Botafogo ficou em 1º lugar empatado com o Flamengo na Taça Rio, mas perdeu a decisão do turno por 1x0 e ficou afastado da final. Tratou-se de uma temporada frustrante para o Botafogo porque esteve mais perto do objetivo do que do desastre desportivo.

No entanto, após uma temporada sem grandes emoções, Ernesto Paulo foi substituído, em janeiro de 1992, por Gil Alves, mais conhecido por ‘Búfalo Gil’, que jogara no Botafogo entre 1977 e 1980, e treinara o Avaí em 1990.

Gil é provavelmente o mas injusto esquecimento no período de influência de Emil Pinheiro (desde 1986). Assumiu o Botafogo para o campeonato brasileiro de 1992 e realizou uma excelente campanha, chegando à final e em vantagem pelo regulamento devido a possuir a melhor campanha. A equipe dispunha de Carlos Alberto Dias, Carlos Alberto Santos, Márcio Santos, Odemilson, Pingo, Renato Gaúcho, Renê, Ricardo Cruz, Válber, Valdeir, entre outros, e afigurava-se favorito a título.

Porém, todo o entusiasmo mudou naquele jogo: o Botafogo foi derrotado por 3x0, placar difícil de reverter no jogo de volta, entregando praticamente o título. O turbilhão foi estrondoso: a defesa entregara o jogo em falhas difíceis de aceitação e alguns atletas foram acusados de se terem vendido ao Flamengo.

No dia seguinte, para cúmulo do ‘desastre’, Renato Gaúcho foi a casa de Gaúcho, do Flamengo, durante um churrasco comemorativo da vitória rubro-negra, a fim de pagar a aposta que fizera com ele sobre o resultado do jogo. Todavia, apareceram inúmeros flamenguistas e uma equipe de televisão que cobriu o acontecimento, ficando a imagem pública de uma confraternização com o adversário num momento traumático para a torcida botafoguense.

Ainda hoje se pode conferir, no Youtube, Renato Gaúcho risonho a dar churrasquinho na boca de Gaúcho. Um escândalo para a eternidade!

A reação de Emil Pinheiro foi explosiva. Alguns jogadores do Botafogo foram suspensos por suspeição e depois saíram do Clube, Renato Gaúcho foi afastado do jogo de volta e ‘excomungado’ – esperemos! – para sempre (ainda recentemente teve a cara de pau de admitir que poderia treinar o Botafogo antes da contratação de Tite) e o jogo de volta resultou num empate por 2x2 que deu o título ao Flamengo.

Búfalo Gil (à direita) quando comandava o Operário Várzea-grandense, ao lado do massagista Geraldo Malaquias. Fonte: Instagram @craquesdoradio.

Gil ainda permaneceu algumas semanas, mas a 14 de agosto deixou o Clube com muitas críticas a Emil Pinheiro, evidenciando a ruptura entre treinador e presidente. Em seu lugar – de agosto a dezembro – foi contratado Edinho Nazareth já numa fase de instabilidade que antecederia o desmantelamento da equipe, porque Emil afastara-se e uma grande parte de jogadores não pertenciam a Clube, mas ao próprio Emil Pinheiro, que os vendeu.

No dia 16 de dezembro de 1992 foi contratado o treinador Paulo Emílio para a temporada de 1993; Jorge Aurélio Ribeiro Domingues assumiu provisoriamente a presidência interina com a renúncia de Emil Pinheiro, até à eleição do novo presidente Mauro Ney Palmeiro.

Paulo Emílio dispôs de uma equipe muito mais barata após a saída de jogadores como Carlos Alberto Santos, Renato Gaúcho, Válber, Valdeir, entre outros, recorrendo-se, então, a jogadores mais jovens, alguns pouco conhecidos e atletas emprestados. Apesar de alguns bons resultados registraram-se muitos empates e a fragilidade da equipe perante os maiores rivais era notória, num grupo em que faltava dinheiro até para aquisição de material básico de treino.

O insuficiente rendimento levou à saída do treinador em abril, dando lugar ao ‘velho’ conhecido Othon Valentim, que foi uma das maiores revelações do Botafogo no início da década de 1960, ponta-esquerda da lendária equipe tetracampeã de juvenis em 1961-1964 (atualmente juniores), que chegou a jogar com Garrincha, Nilton Santos e Zagallo e que pendurou as chuteiras precocemente aos 27 anos devido a sucessivas lesões nos joelhos.

Porém, tratava-se de uma solução interna provisória de 28 dias que precedeu a chegada de Carlos Alberto Torres, jogador campeão do mundo em 1970 e que jogou no Botafogo em 1971 ao lado de Jairzinho, também campeão do mundo em 1970.

Carlos Alberto Torres sucedeu a uma história recente de altos e baixos: Ernesto Paulo recebeu o Botafogo bicampeão e ficou à beira do tri; Gil quase conseguiu o título brasileiro, mas ficou apenas como vice-campeão; Edinho apanhou o início da transição; Paulo Emílio e Othon receberam um Botafogo em pleno desmantelamento financeiro e técnico. Torres pegou nesse Botafogo quebrado e realizou uma das maiores improbabilidades da história do Clube, mundo o contexto e levando à conquista da América do Sul.

O período com Carlos Alberto Torres no comando da equipe começou e terminou de forma absolutamente inédita, tal como é costume suceder ao Botafogo.

Efetivamente a diretoria quis contratá-lo, mas explicou-lhe que não havia dinheiro para lhe pagar. Então, segundo André Silva, pegou no telefone, arrumou dois amistosos nas Caraíbas (Martinica e Guadalupe) e combinou com a diretoria que parte das receitas caberia ao Clube e outra parte seria destinada à remuneração do treinador. Isto é, Carlos Alberto Torres criou o seu próprio salário em 1993!

O próximo capítulo desenvolve as extraordinárias ocorrências desse ano histórico.

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Botafogo campeão estadual de basquete master +50

Crédito: Instagram @lsb.oficial

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Botafogo sagrou-se Campeão Estadual de Basquetebol Master 50+ invicto, competição organizada pela Liga Super Basketball, que decorreu nas instalações da Associação de Basquete de Veteranos (ABVRJ), entre os dias 12 de abril e 18 de outubro de 2026.

O Botafogo realizou 10 jogos e venceu-os todos, sendo um deles por WO, tendo sido simbolicamente atribuída a vitória ao alvinegro por 20x0.

Os cestinhas foram Michael Dietrich (100), Marcelo Paulo da Silva – ‘Marcelão’ (78), Marco Antônio Alves da Cruz – o ‘Tonhão’ (59), Carlos Roberto Marquete Médici – o ‘Carlinhos’ (56), Igor Leonardo Silva Gomes (43), Jonny Gomes do Nascimento (42), Raphael Sacchi Zaremba (40), Ítalo Bulhões Cavalcanti Júnior (35), Rodrigo Lopes de Albuquerque Maranhão (34), Fabiano Silveira de Castro (33), André Luiz Juncken Iglésias (28), Gustavo Paulino de Albuquerque (26), Paulo Renato Bastos Palheiros – o ‘Paulinho’ (20), Claudio Roberto Rito Lopes – o ‘Claudinho’ (18), Leonardo Costa de Almeida – o ‘Léo Costa’ (13), Rodrigo César Maia (10), Márcio Conceição dos Santos (4) e Jornali Silva Junior (2),

Eis a campanha invicta do Glorioso:

1ª FASE

Botafogo 77x63 Impettus

» Pontos: Marcelo Paulo da Silva (20), Fabiano Silveira de Castro (13), Marco Antônio Alves da Cruz (11), Raphael Sacchi Zaremba (10), Rodrigo Lopes de Albuquerque Maranhão (8), Rodrigo César Maia (7), Carlos Roberto Marquete Médici (3), Leonardo Costa de Almeida (3) e Michael Dietrich (2).

» Data: 12.04.2026

» Local: ABVRJ

Botafogo 62x41 AVBN

» Pontos: Michael Dietrich (23), Marco Antônio Alves da Cruz (11), Igor Leonardo Silva Gomes (10), Carlos Roberto Marquete Médici (5), Márcio Conceição dos Santos (4), Gustavo Paulino de Albuquerque (3), Fabiano Silveira de Castro (2), Ítalo Bulhões Cavalcanti Junior (2) e Jornali Silva Junior (2).

» Data: 26.04.2026

» Local: ABVRJ

Botafogo 61x42 Vila da Penha

» Pontos: Jonny Gomes do Nascimento (18), Carlos Roberto Marquete Médici (13), Marco Antônio Alves da Cruz (8), André Luiz Juncken Iglésias (7), Gustavo Paulino de Albuquerque (6), Michael Dietrich (4), Igor Leonardo Silva Gomes (3) e Ítalo Bulhões Cavalcanti Junior (2).

» Data: 24.05.2026

» Local: ABVRJ

Botafogo 74x27 Salgueiro

» Pontos: Marco Antônio Alves da Cruz (15), Fabiano Silveira de Castro (12), Carlos Roberto Marquete Médici (10), Ítalo Bulhões Cavalcanti Junior (10), Igor Leonardo Silva Gomes (8), Raphael Sacchi Zaremba (8), André Luiz Juncken Iglésias (4), Rodrigo César Maia (3), Leonardo Costa de Almeida (2) e Paulo Renato Bastos Palheiros (2).

» Data: 05.07.2026

» Local: ABVRJ

Crédito: LSB TV, captura de tela, 18.10.2026.

Botafogo 67x71 Impettus

» Pontos: Michael Dietrich (21), Rodrigo Lopes de Albuquerque Maranhão (14), Ítalo Bulhões Cavalcanti Junior (11), Jonny Gomes do Nascimento (9), Marco Antônio Alves da Cruz (6), Renato Bastos Palheiros (4) e Carlos Roberto Marquete Médici (2).

» Data: 26.07.2026

» Local: ABVRJ

Botafogo 64x44 AVBN

» Pontos: Marcelo Paulo da Silva (14), Michael Dietrich (14), Gustavo Paulino de Albuquerque (8), Jonny Gomes do Nascimento (8), Igor Leonardo Silva Gomes (8), Ítalo Bulhões Cavalcanti Junior (5), Paulo Renato Bastos Palheiros (5), André Luiz Juncken Iglésias (2).

» Data: 01.08.2026

» Local: AVBRJ

Botafogo 79x55 Vila da Penha

» Pontos: Marcelo Paulo da Silva (23), Michael Dietrich (14), Carlos Roberto Marquete Médici (10), Marco Antônio Alves da Cruz (8), André Luiz Juncken Iglésias (7), Fabiano Silveira de Castro (4), Igor Leonardo Silva Gomes (4), Gustavo Paulino de Albuquerque (3), Ítalo Bulhões Cavalcanti Junior (3), Raphael Sacchi Zaremba (3),

» Data: 16.08.2026

» Local: ABVRJ

Botafogo 20x00 Salgueiro

» Pontos: –

» Data: 13.09.2026

» Local: ABVRJ

SEMIFINAIS

Botafogo 78x37 AVBN

» Pontos: Claudio Roberto Rito Lopes (18), Marcelo Paulo da Silva (9), Paulo Renato Bastos Palheiros (9), Raphael Sacchi Zaremba (9), André Luiz Juncken Iglésias (6), Gustavo Paulino de Albuquerque (6), Igor Leonardo Silva Gomes (6), Michael Dietrich (6), Rodrigo Lopes de Albuquerque Maranhão (5) e Leonardo Costa de Almeida (4).

» Data: 27.09.2026

» Local: ABVRJ

FINAL

Botafogo 79x45 Vila da Penha

» Pontos: Michael Dietrich (16), Carlos Roberto Marquete Médici (13), Marcelo Paulo da Silva (12), Raphael Sacchi Zaremba (10), Jonny Gomes do Nascimento (7), Rodrigo Lopes de Albuquerque Maranhão (7) Igor Leonardo Silva Gomes (4), Leonardo Costa de Almeida (4), André Luiz Juncken Iglésias (2), Fabiano Silveira de Castro (2), Ítalo Bulhões Cavalcanti Júnior (2),

» Data: 18.10.2026

» Local: ABVRJ

Voz de Igor Jesus

Crédito: Vitor Silva | Botafogo.

«A partir do momento que cheguei ao Botafogo, senti uma parada diferente. Meu coração é Fogão!» – Igor Jesus, respondendo à pergunta sobre aceitar uma boa proposta para ingressar no Flamengo.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (VI): de Espinosa a Espinosa e de permeio Edu e Joel Martins bicampeões cariocas

Edu Coimbra. Crédito: Domínio Público | Wikipédia.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Da publicação anterior sabíamos que Valdir Espinosa nunca tivera qualquer relação com o Botafogo, algo que se revelou claramente após alguns meses da sua estadia no Botafogo. A sua relação era de natureza pessoal com Emil Pinheiro, o homem-forte do futebol botafoguense.

Em setembro de 1990, em pleno campeonato brasileiro, Espinosa recebeu um convite para treinar o Flamengo de Zico, Júnior, etc., menos de duas antes de reafirmar uma relação muito forte com Emil, “muito maior do que uma relação patrão-empregado”, e que não queria passar de herói a traidor perante os jogadores, funcionais e torcedores, afirmando não querer se vestir “como uma pessoa desonesta, mercenária, que abandona sempre um trabalho em função de uma melhor proposta. Podem me chamar de burro, mas de desonesto eu não aceito.”

Declarou, então, que só sairia [para o Flamengo] se o próprio Emil o libertasse. A essas declarações seguiu-se a surpresa: no dia 5 de outubro de 1990 Espinosa trocou o Botafogo pelo Flamengo por uma proposta considerada milionária, embora praticamente tenha jurado que não faria exatamente aquilo que acabou por fazer.

A 10 de outubro, após assumir o Flamengo, Espinosa justificava a mudança afirmando que era “fascinante ser o técnico de um dos maiores clubes do mundo”, sem detalhar como ficara o compromisso pessoal invocado com Emil duas semanas antes.

Curiosamente, o Flamengo estivera para contratar Eduardo Antunes Coimbra, conhecido por Edu, irmão mais velho de Zico. Porém, tendo contratado Espinosa, o Botafogo acabou por contratar Edu, havendo uma espécie de ‘troca perfeita’ dos treinadores.

Edu encontrou um vestiário profundamente revoltado.

Efetivamente, antes do campeonato brasileiro, Mauro Galvão e Maurício haviam recebido propostas de contratos melhores, mas Espinosa considerava-os indispensáveis e Emil Pinheiro segurou os jogadores, mas quando surgiu a proposta financeiramente melhor para Espinosa, é suposto que, perante a conversa anterior de Espinosa, que sugeria só sair do Botafogo se Emil o dispensasse, pode-se considerar que, nesse caso, Emil liberou Espinosa.

Tanto Mauro Galvão como Maurício consideraram, publicamente, que Emil não aplicara a Espinosa o mesmo critério que aplicara a eles. Significa que a reação não foi sentimental, mas uma questão interna de coerência e lealdade.

Consequentemente Edu teria um trabalho suplementar de acalmia, reorganização da equipe e reconstrução da competitividade a meio do campeonato brasileiro para superar a saída de Espinosa e a revolta dos atletas.

Em dezembro de 1989, o treinador Edu, o preparador físico Nardo Siqueira e Emil Pinheiro planejavam o bicampeonato tendo por prioridade não vender os jogadores importantes e deixar as contratações para segundo plano. E Edu até recebera uma proposta do Al-Ittihad, mas decidiu permanecer no Botafogo.

Edu montou, conduziu e venceu com o Botafogo o bicampeonato estadual com a melhor campanha acumulada, garantindo acesso direto à decisão. O Botafogo já estava reformulado, apresentando Carlos Aberto Dias, Carlos Alberto Santos, Djair, Donizete, Gustavo, Luisinho, Mauro Galvão, Paulo Roberto, Renato Martins, Renato Cruz, Valdeir, Wilson Gottardo.

Após um intenso trabalho com a equipe durante o campeonato estadual, Edu preparava-se para ser levado em braços conquistando o campeonato, mas como “há coisas que só acontecem ao Botafogo”, não foi exatamente assim.

A decisão não aconteceu logo porque foi interrompida pela Copa do Mundo de 1990. E aqui surgiu a ironia do destino: no final de maio e início de junho o Botafogo aproveitou a paragem do futebol brasileiro para disputar o Torneio da Amizade de Vera Cruz, onde venceu o próprio Vera Cruz por 2x0 e na final o Pumas, também por 2x0, conquistando o torneio sob o comando de Edu. Vai daí o Vera Cruz invejou-se do Botafogo pelo treinador que tínhamos e ainda em junho contratou Edu, que rumou para o México, na segunda ‘traição’ de treinadores em poucos meses.

Em suma, Edu vai a Vera Cruz, derrota o Vera Cruz, ganha o torneio de Vera Cruz e ainda em junho vai treinar o Vera Cruz – tragicomédia bem ao modo do nosso Glorioso.

Porém, a ironia do destino foi vingada: Edu conquistou no Botafogo os últimos títulos da sua carreira como treinador (Campeonato Carioca e Tornei de Vera Cruz) e desde 2002 a 2011, quando encerrou as atividades futebolísticas, não passou de Auxiliar Técnico em diversos clubes estrangeiros.

Curiosamente, Espinosa é despedido do Flamengo em maio de 1990, sete meses depois de ‘roubado’ ao Botafogo, mas ainda na qualidade de treinador do rubro-negro percebeu que lá há um lema intolerante de “ganhar é obrigação”, enquanto no Botafogo se reconhecem os esforços e as façanhas dos atletas e dos treinadores.

Sai Edu entra Joel Martins, um ‘velho’ conhecido do Botafogo, que, após a quebra da linhagem técnica anterior, poderia reacender a antiga linhagem, porque a sua ligação ao Clube e aos seus técnicos foi intensa, além de Joel ter sido, embora esporadicamente, treinador do Botafogo em 1979, 1984, 1986, 1987, 1988, 1990 e 1992.


Joel Martins. Créditos: Revista Esporte, nº 244, 09.11.1963.

Joel atuou em 240 jogos pelo Botafogo e foi campeão carioca em 1961-1962 e 1967-1968 e do Torneio Rio-São Paulo em 1962, 1964 e 1966.

A escolha de Joel não foi propriamente improvisada, porque ele conhecia profundamente o Clube, o ambiente e o convívio com os jogadores, e vinha da conquista do bicampeonato carioca de juvenis (atualmente juniores) pelo Botafogo, como treinador da equipe. Gottardo confirmou, anos depois, que Joel era muito querido pelos jogadores, disciplinador e que o convívio anterior facilitou a sua integração para a decisão do campeonato carioca.

Joel, personagem leal que conquistou o Prêmio Belfort Duarte, regressou ao Botafogo a 19 de junho para disputar uma única partida do campeonato carioca e sagrar-se campeão, levando o Botafogo ao bicampeonato.

Apesar de campeão carioca, o Botafogo era desprezado como favorito ao título em detrimento do Vasco da Gama, o qual já escolhera o local dos festejos do título e encomendara as faixas. Porém, as crenças supersticiosas dos botafoguenses funcionaram novamente quando Joel Martins lembrou a um jornalista a sua sina:

– “Fui bicampeão carioca em 61/62 e 67/68 como jogador do Botafogo. Como treinador do Botafogo fui bicampeão carioca de juniores em 77/78 e bicampeão juvenil em 88/89. Bicampeão como técnico da Seleção Carioca de juniores em 77/78 e 87/88 fui bicampeão pelo CRB. Portanto, sou chegado a um bicampeonato e este tabu não será quebrado agora.”

E acrescentou: – “Se eles vão fechar uma boate, parabéns, pois ela ficará mesmo fechada. A nossa festa começará no gramado do Maracanã.”

Dito e feito: Botafogo bicampeão carioca!

Campanha completa aqui: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-bicampeao-estadual-de-futebol.html

Porém, Joel não se limitou a uma continuidade, porque Edu utilizava Carlos Alberto Dias como falso ponta, com Valdeir e Gustavo, enquanto Joel preparou e escalou Donizete, um atacante mais característico de modo a reforçar o trio atacante.

A equipe venceu o Vasco da Gama por 1x0 com um gol de Carlos Alberto Dias, mas o Vasco da Gama, fazendo uma interpretação incorreta do regulamento, comemorou ridiculamente o título com uma improvisada caravela de papelão. Onze dias depois o STJD atribuiu o título obviamente ao Botafogo, em votação favorável por 7x1.

Joel fez uma espécie de estatística perfeita: 1 jogo, 1 vitória, 1 título, mas se terminou bem o campeonato carioca, começou mal o campeonato brasileiro e após 90 dias cedeu o lugar a… Valdir Espinosa!

O regresso do treinador que quebrou o jejum carioca do Botafogo em 1989 evidenciou, mais uma vez, que a ligação Emil-Espinosa era coisa profunda. Ademais, Espinosa continuava intrinsecamente ligado ao emocional título de 1989 e, de modo geral, tinha boas relações com a equipe.

A relação afetiva com a equipe foi reconstruída e décadas depois Espinosa continuava sendo um dos grandes símbolos do Clube devido, provavelmente, ao título de 1989 ter sido o mais emocionalmente sentido pela torcida. E, claro, as ocorrências ‘exóticas’ do Botafogo engendraram uma sequência absolutamente inédita em apenas 15 meses:

21.06.1989: Espinosa derrota o Flamengo e o Botafogo sagra-se campeão carioca.

22.09.1989: Espinosa diz não querer trocar o Botafogo pelo Flamengo e tornar-se ‘traidor’

05.10.1989: Espinosa aceita a proposta milionária para treinar o Flamengo.

06.10.1989: Edu assume o comando do Botafogo e encontra jogadores revoltados com Espinosa.

02.05.1990: Espinosa é demitido do Flamengo após 13 jogos.

19.06.1990: Edu abandona o Botafogo para assumir o comando do Vera Cruz, após ter derrotado o clube mexicano no Torneio da Amizade de Vera Cruz no mês anterior, e imediatamente Joel Martins assume o comando do Botafogo.

29.07.1990: Joel Martins vence o Vasco da Gama na decisão e conquista o bicampeonato carioca disputando apenas a partida derradeira.

17.09.1990: Joel sai do comando da equipe após maus resultados.

18.09.1990: Espinosa regressa ao Botafogo apenas onze meses depois de o ter abandonado pelo maior rival.

Inventar um roteiro mais botafoguensse do que esse é difícil!

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br.

Treinadores e contextos (VII): dos quase-títulos de Ernesto Paulo e Búfalo Gil ao desmantelamento técnico e financeiro pré Carlos Alberto Torres

Ernesto Paulo (á esquerda). Acervo: Bangu Atlético Clube. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Emil Pinheiro já era presidente do Bo...