por LÚCIA
SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo.
Antes do tango entrar na minha vida, com ares
de drama argentino e olhares profundos, houve uma fase mais brasileira. Mais
direta. Mais suada.
Minha iniciação na dança aconteceu na
gloriosa Estudantina Musical – templo sagrado da gafieira – onde elegância e
improviso andam de mãos dadas... ou pelo menos tentam.
As aulas aconteciam no cair da tarde.
Maria Antonieta era a professora.
Maravilhosa. Minúscula. Uma espécie de milagre em forma de gente. Tão
pequenininha que, se ficasse parada, corria o risco de desaparecer no salão.
Mas bastava a música começar e ela crescia – não de tamanho, mas de presença.
Dominava o espaço com uma autoridade que nenhuma altura explicava.
E era um tal de Giro Simples, Giro Duplo,
Giro da Dama, Bate Quadril, Miudinho, Cruzado. Tudo saía dela com uma
naturalidade ofensiva.
De mim, nem um pouco.
Eu, que sempre tive uma relação delicada – para
não dizer desastrosa – com a coordenação motora, me lançava valente. Caprichava
nas roupas. Saias rodadas escolhidas a dedo, para dar aquele efeito
cinematográfico nos giros. Já me via flutuando pelo salão.
Na prática, eu escorregava.
Girava, sim. Mas com uma leve tendência a
perder o eixo da Terra. E não era raro – aliás, quase uma assinatura – que, na
ausência de um parceiro firme o suficiente, terminasse a coreografia amparada
por uma coluna da Estudantina. Sem dúvida, arquitetura e dança mantinham comigo
uma relação bastante próxima.
Mas era à noite que a verdadeira aula
começava.
Lá íamos nós, algumas amigas e eu, cheias de
entusiasmo e uma leve ilusão de que sabíamos dançar. Bastava subir as velhas
escadas da gafieira, situada na Praça Tiradentes, para sermos imediatamente
convidadas por uma fauna masculina de dar inveja a qualquer documentarista.
Sim, havia uma variedade tão grande de figuras
raras, tipos curiosos e personagens peculiares, que mais
parecia um documentário da National Geographic sobre a vida selvagem.
Tinha o cavalheiro clássico, que começava com
um “Me concede esta dança?” – e terminava te rodopiando como se estivesse
disputando uma final de campeonato.
Tinha o silencioso que não dizia uma palavra,
mas conduzia com tanta firmeza que você não sabia se estava dançando ou sendo
sequestrada com elegância.
Tinha aquele que dançava olhando firmemente
para o próprio reflexo no espelho. Eu era, no máximo, um acessório em movimento. Confesso que, em certo momento, pensei em
sair discretamente da pista só pra ver se ele notava.
Outro contava a própria vida durante o samba.
No meio de um giro, descobri que ele tinha três filhos, uma ex-mulher
complicada e um problema no joelho direito – que, aliás, não o impedia em nada
de tentar passos altamente questionáveis.
E havia aquele que simplesmente inventava.
Misturava gafieira com forró, com bolero, com algo que talvez fosse luta livre.
Voltava para a mesa sem saber se tinha dançado ou sobrevivido.
Mas, acima de todos, existiam eles: os
malandros.
Terno branco impecável. Sapato bicolor – preto
e branco – tão bem engraxado que parecia deslizar antes mesmo da música
começar. Chapéu Panamá levemente inclinado, lenço no bolso do paletó e uma confiança
que já beirava o patrimônio histórico.
Eles não dançavam; desfilavam arrogância e
autoridade.
Nós sabíamos que eles não eram pro nosso
bico. E, justamente por isso, eram o meu sonho de consumo coreográfico. Ser
tirada pra dançar por um malandro era quase um título honorário. E foi aí que,
numa dessas noites, o improvável aconteceu.
Um deles – sim, um legítimo exemplar da
espécie – parou diante da nossa mesa. Olhou diretamente pra mim.
E, com a naturalidade de quem sabe exatamente
o impacto que causa, fez um leve gesto com a cabeça. Não houve convite formal.
Não era necessário.
Levantei com a dignidade possível de quem,
por dentro, já estava em estado de emergência.
A música começou.
Nos primeiros segundos, tudo foi
surpreendentemente perfeito. Ele me conduzia com precisão cirúrgica. Eu
obedecia como se tivesse nascido sabendo. Giro Simples, executei. Giro da Dama,
sobrevivi. Um Miudinho elegante, quase me emocionei.
Pensei com meus botões:
– É
hoje que viro lenda.
Foi então que ele resolveu inovar: um Giro
Duplo.
Até tentei avisar pro meu corpo, mas já era
tarde. Girei uma vez...duas ... e na
terceira, perdi completamente qualquer vínculo com as leis da física.
Só sei que, por um breve instante, vi o salão
em câmera lenta. Em seguida, fui interceptada, não por ele, mas por uma das
tradicionais colunas da casa, minha velha conhecida.
Houve um silêncio respeitoso. Ele me olhou.
Eu o olhei.
E com uma elegância que só os verdadeiros
malandros possuem, ajeitou o chapéu, fez um meio sorriso e disse:
– A senhora dança com muita emoção.
Voltei pra mesa sob aplausos discretos das
amigas, tentando manter a compostura de quem, claramente, acabara de
protagonizar um evento.
Nunca mais fui convidada por um malandro.
Mas também, depois daquela performance, acho
que deixei minha marca, tanto no salão quanto na coluna.
Talvez tenha sido exatamente aí que entendi
que a gafieira – por mais charmosa que fosse – exigia de mim uma coordenação
motora que não possuía ou... me recusava a desenvolver sob pressão.
Foi então que, num surto de ousadia – ou
completa falta de noção – decidi migrar para algo que, na minha cabeça, parecia
mais simples, mais contido, quase introspectivo: o tango.
Mal sabia onde estava me metendo. Mal sabia
que estava prestes a conhecer o inesquecível, o inclassificável, o irresistivelmente
desajeitado galã de subúrbio: Don Carlito Bandonèon.
Nota do Mundo Botafogo: (a) todas
as crônicas da autora podem ser lidas na eqtiqueta/rubrica com a seguinte
denominação: letras lúciasenna [42 dessas crônicas foram posteriormente
publicadas, mas a edição está esgotada]; (b) o encontro de Lúcia Senna com Don
Carlito Bandonéon pode ser apreciado e ‘vivido’ no seguinte endereço: https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/01/um-beijo-no-seu-coracao.html





