quarta-feira, 8 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2014: colapso brasileiro e espanhol, maturidade alemã, recorde de Klose, brilho de Navas, dentada de Suárez e tecnologia na linha da meta

Cartaz da Copa do Mundo de 2014. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil, teve festa, tensão social, grandes jogos, colapsos inesperados, afirmações individuais e uma das derrotas mais traumáticas da história do futebol.

O Brasil é o país mais associado à história dos Mundiais: cinco títulos, Pelé, Garrincha, Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Maracanã, futebol de rua, identidade nacional. Porém, o país vivia forte tensão social e política na medida que em 2013 grandes manifestações tinham contestado os custos da organização da Copa, os investimentos em estádios, a qualidade dos serviços públicos, a corrupção e as prioridades do Estado.

Assim, a Copa de 2014 teve uma ambivalência clara: por um lado, celebração mundial do futebol num país apaixonado pela modalidade; por outro, desconforto social com o contraste entre espetáculo global e desigualdades internas.

Antes do Mundial havia a sombra histórica do Maracanazo de 1950, quando o Brasil perdeu a final do Mundial para o Uruguai, no Maracanã. Em 2014, muitos brasileiros viam a Copa dentro de portas como oportunidade de reparar simbolicamente essa ferida histórica, vencendo no Brasil, apagando 1950 e reconquistando o mundo.

Porém, o que aconteceu foi ainda mais traumático, porque em vez da reparação simbólica, surgiu uma nova ferida: a derrota por 7x1 contra a Alemanha, a qual ficou conhecida como ‘Mineirazo’.

A seleção de Scolari não era vista como uma das seleções brasileiras mais brilhantes da história, mas jogava em casa e tinha Neymar como grande figura que carregava o peso emocional da equipe e do país. Era o jogador mais criativo, desequilibrador e mediático, e o Brasil dependia muito da sua inspiração.

Neymar marcou gols importantes e assumiu o papel de protagonista, mas essa dependência tornar-se-ia dramática com a sua lesão nas quartas de final contra a Colômbia. O Brasil venceu por 2x1, mas saiu do jogo profundamente ferido.

Contra o Brasil Miroslav Klose bate recorde de gols em Copas. Fonte: Facebook.

Neymar sofreu uma fratura numa vértebra após uma entrada de Juan Camilo Zúñiga. Além disso, Thiago Silva, capitão e líder defensivo, recebeu cartão amarelo e ficou suspenso para a semifinal contra a Alemanha.

O Brasil perdeu, de uma só vez, o seu principal jogador ofensivo e o seu principal líder defensivo, ficando a equipe emocionalmente desprotegida antes do jogo mais difícil.

E, como consequência, o acontecimento central da Copa de 2014 antes da final foi a semifinal em que o Brasil foi estrondosamente goleado por 7x1 pela Alemanha, no Mineirão, em Belo Horizonte, numa derrota sem precedentes pela dimensão, pelo contexto e pelo impacto emocional – em menos de 30 minutos de jogo o Brasil já perdia por 5x0 e a Alemanha deu-se ao luxo de aliviar o pé do acelerador.

O 7x1 tornou-se mais do que um resultado: tornou-se expressão cultural, metáfora nacional e trauma coletivo, passando a significar o colapso de um projeto.

A Inglaterra caiu na fase de grupos, num grupo difícil com Itália, Uruguai e Costa Rica. Apesar de ter alguns jovens promissores, como Sterling, a Seleção inglesa mostrou fragilidades e saiu cedo, evidenciando, uma vez mais, a longa distância entre a Premier League, muito forte comercialmente, e os resultados da Seleção em Mundiais.

A Espanha, que era campeã mundial e bicampeã europeia, dominou o futebol internacional entre 2008 e 2012, mas contra os Países Baixos foi goleada por 5x1, com destaque para o gol de cabeça de Robin van Persie, num mergulho espetacular. Foi o fim do ciclo espanhol, cuja Seleção do ‘tiki-taka’, que parecera quase invencível, surgiu vulnerável, desgastada e previsível, sendo eliminada ainda na fase de grupos.

A Bósnia-Herzegovina estreou-se em Mundiais em 2014 e teve um simbolismo interessante, dada a história recente do país e a sua construção nacional pós-guerra. Embora não tenha passado da fase de grupos, a participação representou afirmação desportiva e identitária.

O Chile, treinado por Jorge Sampaoli, fez uma prova intensa, agressiva e muito competitiva. Nas oitavas de final, esteve muito perto de eliminar o Brasil, pois no último minuto da prorrogação Maurício Pinilla rematou à trave, num lance que poderia ter eliminado o anfitrião – perdendo apenas nos pênaltis.

Van Persie faz gol de peixinho na goleada contra a Espanha. Fonte: Reuters.

O México fez uma boa campanha, mas foi eliminado pelos Países Baixos nas oitavas de final, tendo o jogo sido marcado por uma grande penalidade assinalada sobre Robben nos minutos finais, cuja conversão de Huntelaar classificou os Países Baixos. No México, a frase “No era penal” tornou-se símbolo de frustração nacional e de contestação à decisão arbitral.

A Argélia fez um dos seus melhores Mundiais e deu enorme trabalho à Alemanha nas oitavas de final, que só conseguiu vencer na prorrogação perante um adversário corajoso, veloz e organizado, expondo fragilidades alemãs que foram corrigidas nos jogos seguintes.

Os americanos, treinados por Jürgen Klinsmann, chegaram às oitavas de final e foram eliminados pelos belgas após prorrogação. O goleiro Tim Howard fez uma exibição extraordinária e tornou-se herói mediático e símbolo da crescente popularidade do futebol na América.

A Bélgica chegou ao Mundial com uma geração muito promissora: Hazard, De Bruyne, Lukaku, Courtois, Kompany, Witsel, Fellaini, Vertonghen e Alderweireld. Chegou às quartas de final, onde perdeu com a Argentina, tendo amadurecido na Copa seguinte, em 2014, e confirmado a emergência da chamada ‘geração dourada’ belga.

Os colombianos concretizaram um bom Mundial, que viu em James Rodríguez a grande revelação individual da Copa. Na ausência de Falcão, lesionado antes do torneio, James assumiu o protagonismo, marcou em todos os jogos que disputou e terminou como artilheiro do Mundial, com seis gols. Contra o Uruguai fez um elegante gol: controlou a bola no peito e rematou de primeira, de fora da área, com a bola a bater na trave e a entrar.

James foi o selo de qualidade da Colômbia, uma das seleções mais cativantes do torneio, jogando com intensidade, talento e alegria. Chegou às quartas de final, o melhor resultado de sempre, e aí foi eliminada pelo Brasil, mas revelou-se uma Seleção vibrante técnica e emocionalmente.

Keylor Navas, goleiro sensação da surpreendente Costa Rica. Fonte: Damir Sagolj | Reuters.

A Costa Rica foi a grande surpresa da Copa, terminando invicta com 2 vitórias e 3 empates. Num grupo com Uruguai, Itália e Inglaterra, previa-se a sua eliminação, mas os costa-riquenhos venceram o Uruguai e a Itália e empataram com a Inglaterra, terminando em 1º lugar. Depois eliminaram a Grécia nos pênaltis e só caíram nas quartas de final contra os Países Baixos, também nos pênaltis.

Keylor Navas esteve em grande destaque como uma das grandes figuras da competição. As suas defesas foram decisivas para a campanha histórica da Costa Rica e pouco tempo depois chegaria ao Real Madrid para acumular grandes títulos.

Os Países Baixos fizeram uma campanha muito boa, orientados por Louis van Gaal e contando com Robben, van Persie, Sneijder, Kuyt, de Vrij, Vlaar, Blind e Depay. A Seleção começou com uma goleada histórica sobre a Espanha por 5x1, vingando a final perdida em 2010. Foi uma equipe muito pragmática, alternando sistemas e explorando a velocidade de Robben, chegou às semifinais e terminou em terceiro lugar, após vencer o Brasil por 3x0.

A Argentina conseguiu chegar à final, mas Messi, figura central da equipe, não foi tão brilhante como muitos esperavam. Na fase de grupos foi decisivo, com gols importantes contra Bósnia, Irão e Nigéria. Acabou conquistando injustamente a Bola de Ouro, uma clara ‘oferta’ da FIFA para um craque que decepcionou e cuja imagem que ficou foi a sua passagem junto à Taça do Mundo, sem a levantar.

A Argentina não foi uma equipe exuberante. Ao contrário do que se poderia esperar de uma seleção com Messi, Higuaín, Agüero, Di María e Lavezzi, tornou-se uma equipe de grande contenção, disciplina e sofrimento.

Nas fases a eliminar, venceu a Suíça na prorrogação, a Bélgica por margem mínima e os Países Baixos nos pênaltis. Foi uma Argentina de resistência, mais do que de espetáculo.

Na semifinal contra os Países Baixos, Mascherano tornou-se símbolo da alma argentina. Fez cortes decisivos, liderou emocionalmente a equipe e terá dito ao goleiro Sergio Romero, antes dos pênaltis: “Hoje viras herói.”

Tecnologia de linha da meta. Fonte: Agência RBS.

Romero defendeu pênaltis e a Argentina passou à final. Mascherano representou a dimensão sacrificial da Argentina: menos brilho ofensivo, mais entrega, concentração e resistência.

A Alemanha campeã de 2014 foi o resultado de um processo longo de maturação desde a renovação iniciada após o ano 2000. Tinha jogadores como Neuer, Lahm, Hummels, Boateng, Schweinsteiger, Khedira, Kroos, Özil, Klose, Götze e Schürrle.

Era uma equipe com organização, capacidade técnica, disciplina tática, transições fortes e experiência. A vitória em terras brasileiras teve ainda uma carga simbólica adicional: a Alemanha tornou-se a primeira seleção europeia a vencer um Mundial disputado na América do Sul.

Na semifinal contra o Brasil, Klose marcou e tornou-se o maior artilheiro da história dos Mundiais, ultrapassando Ronaldo Nazário e aumentando a dimensão simbólica por ocorrer em solo brasileiro. Sem ser o jogador mais exuberante da sua geração, Klose representou a persistência, a eficácia e a longevidade competitiva.

A final foi disputada no Maracanã, entre Alemanha e Argentina e terminou com a vitória alemã por 1x0, após prorrogação.

A Argentina teve oportunidades claras, sobretudo por Higuaín, Messi e Palacio, mas não conseguiu marcar. A Alemanha foi mais paciente e acabou por decidir com um gol de Mario Götze, após cruzamento de Schürrle.

A imagem de Götze a dominar a bola no peito e a rematar de pé esquerdo tornou-se a fotografia decisiva do título alemão. Götze entrou durante o jogo e marcou o gol mais importante da sua carreira.

Aquela que foi, talvez, a maior peripécia da Copa ocorreu com a dentada de Luis Suárez em Giorgia Chiellini, no jogo entre Uruguai e Itália. Suárez envolvera-se antes em episódios semelhantes na carreira e essa dentada gerou enorme polêmica mundial. Foi suspenso pela FIFA e afastado do resto da competição, marcando profundamente a imagem do Uruguai e reforçando a ambiguidade de Suárez: jogador competitivo e decisivo, mas também associado a comportamentos inaceitáveis.

Suárez morde o ombro do italiano Chiellini. Fonte: www1.folha.uol.com.br.

Em matéria de regras houve inovações na tecnologia da linha da meta e o uso da espuma na composição das barreiras. A introdução da tecnologia marcou uma nova fase na arbitragem internacional, sobretudo após erros históricos em Mundiais anteriores, e abriu caminho futuro para a introdução do VAR.

O uso da espuma, parecendo um detalhe menor, tornou-se importante para marcar a posição da bola e da barreira na cobrança de faltas, sendo rapidamente incorporada mundialmente.

Em suma, foi a Copa do colapso emocional e competitivo do Brasil e da maturidade plena da Alemanha, do fim do ciclo espanhol e da afirmação de novas narrativas vindas da América Latina, da consagração de James Rodríguez e do sofrimento argentino até à final, da dentada de Luis Suárez e da consolidação do futebol como espetáculo planetário.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha 1x0 Argentina

» Gols: Mario Götze, aos 112’

» Data: 13 de julho de 2014

» Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (Brasil)

» Público: 74.738 espectadores

» Árbitro: Nicola Rizzoli (Itália); Assistentes: Renato Faverini (Itália) e Andrea Stefani (Itália)

» Disciplina: cartão amarelo – Schweinsteiger e Howedes (Alemanha) e Mascherano e Aguera (Argentina)

» Alemanha: Manuel Neuer; Lahm, Boateng, Hummels e Howedes; Schweinsteiger e Kramer (Schürrle); Müller, Kroos e Özil (Mertesacker); Klose (Mario Götze). Técnico: Joachim Low.

» Argentina: Romero; Zabaleta, Demichelis, Garay e Rojo; Mascherano, Biglia, Enzo Pérez (Gago) e Messi; Lavezzi (Aguero) e Higuaín (Palacio). Técnico: Alejandro Sabella.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www1.folha.uol.com.br; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.

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