Entrevista de MARTHA ESTEVES | revista Placar,
30.06.1989
PLACAR – Como é quebrar um jejum de títulos tão
longo?
ESPINOSA –
Uma verdadeira glória. Uma valorização enorme em todos os sentidos. Pelo lado
profissional, consegui minha afirmação no difícil mercado do Rio de Janeiro.
PLACAR – O Botafogo poderia perder o campeonato, caso
não vencesse o jogo da quarta-feira passada?
ESPINOSA –
Estávamos preparados para isso. Avisei os jogadores que não tínhamos a
obrigação de ganhar o título naquela partida especialmente. De qualquer jeito,
tinha certeza de que seríamos campeões em qualquer dia.
PLACAR – O que determinou a vitória?
ESPINOSA – Sem
dúvida a saída de Zico. Coincidência ou não, o Botafogo fez seu gol 1 minuto
depois que ele deixou o campo. O Flamengo sentiu a falta de sua liderança e
acabou se perdendo.
PLACAR – Por que, ao contrário da primeira
partida, você não armou uma marcação especial para Zico?
ESPINOSA – Começamos
o jogo tentando marcá-lo em cima, mas espertamente ele se movimentou muito,
trocando de posição com outros jogadores. A solução foi vigiá-lo por zona, o
que acabou dando certo.
PLACAR – Até que ponto a invencibilidade do time
mexeu com os jogadores?
ESPINOSA – Minha
maior preocupação foi não passar tensão para os jogadores. A cada jogo me
sentia como um castelo de areia pronto a desmoronar.
PLACAR – Qual foi o jogo mais difícil do
campeonato?
ESPINOSA – O
último com o Bangu (na Rodada Final da
Taça Rio). Foi o jogo em que fiquei mais nervoso porque poderíamos não
passar para a decisão e isso não passava pela minha cabeça. Sem medo de
arriscar, foi o mais tenso de minha carreira.
PLACAR – O que foi melhor: ser campeão mundial
com o Grêmio em 1983 ou campeão carioca pelo Botafogo?
ESPINOSA – Sem
dúvida, fiquei muito mais feliz com o Campeonato Carioca. Ganhar um título tão
esperado junto da torcida é muito melhor que vencer em Tóquio.
PLACAR – Três outros técnicos (Pinheiro, Zé Carlos e Jair Pereira) fracassaram com esse mesmo time. Qual seu
segredo?
ESPINOSA – Acho
que minha arma foi não despertar ansiedade de ganhar nada. Desde que cheguei ao
Botafogo, ensinei aos jogadores que o medo de perder tira a vontade de ganhar.
Resolvemos enfrentar tudo sem pensar no futuro, lutando naturalmente, sem
forçar nada.
PLACAR – Em que momento você sentiu que poderia ser campeão?
ESPINOSA –
Quando disse que a única equipe que me despertava esse desafio era o Botafogo.
Nesse momento, eu sabia que seria campeão. Tinha saído do Coritiba e tomado a
decisão de parar um tempo porque não via um time que me interessasse. Foi assim
com o Cerro Porteño, o Grêmio e o próprio Botafogo. Deve ser premonição ou
intuição.
PLACAR – Por isso também você resolveu ficar no
Brasil depois de tudo acertado para dirigir a Seleção do Kuwait?
ESPINOSA – Sou
muito intuitivo e desde o começo senti algo estranho em relação a essa mudança.
PLACAR – O quê?
ESPINOSA –
Não sei explicar, mas acho que até que posso morrer no Kuwait. Vejo muita coisa
ruim. Nada em relação a um possível fracasso profissional, porque isso eu não
temo. Corro esse risco mesmo ficando no Botafogo.
PLACAR – E você vai continuar no Botafogo?
ESPINOSA –
Entreguei uma proposta para o vice-presidente Emil Pinheiro antes mesmo de
classificar o time para as finais. Fiz isso para não dizerem que me aproveitei
da situação.
PLACAR – Mas você sempre trabalhou em times grandes e
organizados. Como foi enfrentar um sem estrutura alguma?
ESPINOSA –
Cheguei em Marechal Hermes preparado porque o Cerro Porteño era muito pior.
Então, avisei todos: “O Botafogo durante a semana é um time pequeno, mas no
domingo se torna grande”.
PLACAR – A torcida alvinegra é muito exigente e, depois de ser
campeã, pode cobrar ainda mais do time. Você não acha que pode fazer um mau
negócio trocando os dólares por muita dor de cabeça?
ESPINOSA – Não
tenho medo de perder e sei bem o que pode acontecer se a equipe não mantiver o
nível. Depois de ganhar o Mundial pelo Grêmio, fui várias vezes vaiado. O
importante é a consciência de ter realizado um excelente trabalho.
PLACAR – Como conseguiu um ótimo relacionamento com todos os
jogadores?
ESPINOSA – Eles
me respeitam porque estou no mesmo degrau, apesar de ser chefe. Consegui
induzi-los a andar no caminho sem precisar de chicote na mão. Trabalhamos com
unidade de pensamento. Ninguém é mais do que ninguém.
PLACAR – Esta é a razão de o Botafogo não ter estrelas?
ESPINOSA – Exatamente.
Bons exemplos são Mauro Galvão, que tem um destaque técnico, e Paulinho
Criciúma, com seu forte carisma junto à torcida. Eles não se consideram
estrelas.
PLACAR – E de que forma você resolveu a divisão do time entre
s que pertenciam a Emil Pinheiro (Paulinho
Criciúma, Mauro Galvão, Wílson Gotardo, Mazolinha…) e os demais?
ESPINOSA – Mostrei
para todos que precisávamos trabalhar unidos de verdade. Sem divisões ou
panelinhas, montei um time competitivo e unificado pelo mesmo objetivo.
PLACAR – Como se explica a invencibilidade de 28 jogos?
ESPINOSA – Simplesmente
valorizei a principal qualidade do time: a força de marcação. Assim como Vítor,
os meias Carlos Alberto e Luisinho também marcam com eficiência e disciplina.
Eu só dei alma a isso.
PLACAR – O Botafogo pode dar algum exemplo à Seleção
Brasileira?
ESPINOSA – Ele
provou que, independentemente da qualidade técnica, o time deve ser competitivo
sempre. Um grupo unido, buscando só a vitória. Na Seleção, os jogadores pensam
em aparecer para jogar na Europa. O resultado é que cada um quer mostrar o seu
e ninguém consegue mostrar nada.
PLACAR – Você é um homem predestinado?
ESPINOSA – A
grande maioria das coisas que previ para minha vida aconteceram e muitas ainda
estão por acontecer.
PLACAR – Ser técnico da Seleção, por exemplo?
ESPINOSA – Digamos
que eu sonhei com isso. Se um dia acontecer, direi se estava marcado nomeu
destino ou não.
Fonte:
Revista Placar, 30.06.1989.

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