por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
O que se viu no Nilton Santos foi uma total coincidência
entre o Botafogo pré-data Fifa e o Botafogo pós-data Fifa, isto é, o Botafogo
permanece sem identidade coletiva, sem ideias, lento e ineficaz.
Conhecendo-se as características de Tite seria de esperar,
no mínimo, um sistema defensivo forte, mas nem isso sucedeu, pelo contrário, o
Vasco da Gama encontrou caminhos fáceis para explorar, jogou à vontade desde os
primeiros minutos e o Botafogo remeteu-se praticamente à defesa, parecendo jogar
contra um grande adversário e fora de casa.
O Botafogo não controlou os espaços e aos 28’ Vitinho foi
batido, os mecanismos defensivos de cobertura contra falhas individuais não
apareceram e em contra-ataque o Vasco da Gama inaugurou o marcador, como já se
podia prever ante uma defesa permeável.
Durante quase todo jogo o Botafogo defrontou-se com o
problema de que quando há pressão exercida sobre o adversário, os espaços nas
costas de quem faz pressão devem ser devidamente protegidos por precaução contra
falhas individuais.
O meio-campo vascaíno foi consistente, articulou-se bem e
as combinações criadas permitiam continuidade atacante com ligação a zonas
ofensivas onde o Vasco aparecia com capacidade de finalização.
Ao contrário, o Botafogo assentou o seu esquema essencialmente
em Ziyech, visando explorar a sua capacidade técnica e visão de jogo, mas não
encontrou parcerias na criação de linhas de passe que permitissem levar perigo
real à defesa adversária, tanto mais que nem Danilo nem Medina conseguiam a profundidade
e desequilíbrios no ataque para permitir que Matheus Martins e Arthur Cabral
finalizassem – e como habitualmente, nenhum deles foi capaz, por si mesmo, de criar
qualquer espécie de perigo.
Aliás, o ataque foi tão improdutivo que o rematador de
serviço era Vitinho, porque a dupla de atacantes não ocupava espaços
estratégicos para receber a bola e rematar à baliza.
Foi, enfim, um primeiro tempo sem identidade de jogo por
parte do Botafogo, jogando frouxo na defesa, pouco eficiente na contenção de
jogo do adversário e fraca ligação entre os setores, ao contrário do Vasco que
conseguiu jogar coletivamente e até poderia ter ampliado o placar se não fosse
o desempenho de Gabriel Batista.
Após o intervalo o Botafogo ainda ensaiou uma reação, mas
o Vasco manteve a sua postura e ampliou logo aos 50’: Huguinho errou na frente,
Cristian Medina perdeu na corrida com Colidio, que serviu David e este tocou a
bola com categoria para o fundo das redes. E logo depois o Vasco poderia ter
decidido completamente o jogo com um 3x0 se não fosse novamente Gabriel Batista
a evitar o pior.
Com o meio-campo improdutivo por mau posicionamento,
falta de ligação a Ziyech e incapacidade de urdir jogadas coletivas, foi Alex
Telles que aos 60’ cobrou uma falta que entrou no ângulo da baliza de Léo
Jardim para diminuir o placar.
O Botafogo tentou acelerar, o Vasco recuou um pouco, mas acabou
marcando um terceiro gol anulado – e depois Tiquinho Soares empatou, mas o gol
também foi anulado, e pouco mais se passou no segundo tempo.
No entanto, o saldo global em matéria de criação de oportunidades,
remates à baliza e escanteios foi amplamente favorável ao Vasco, que, diga-se,
é uma equipe apenas mediana, o que significa que a nossa encontra-se num estado
sofrível.
Enfim, não se vislumbra identidade coletiva nesta equipe,
Tite já acumula duas derrotas sem mostrar nada de novo e ainda agravou a situação
com uma expulsão emocional de comemoração no gol de Tiquinho Soares, prontamente
anulado, invadindo o campo e sendo expulso.
Em suma, tendo valores individuais que deviam colocar a
equipe pelo menos a meio da tabela, deparamos com a decadência a todo o vapor
do futebol botafoguense e a questão jurídica da SAF permanece incerta…
Tite deve concentrar-se, sobretudo, a poucas rodadas do
final do campeonato, em assegurar a manutenção na Série A, implementando um
sistema defensivo compacto com capacidade de saída de bola, estruturando o meio
campo tirando partido das habilidades de Ziyech e com Danilo mais ofensivo, estabelecendo
processos atacantes que reduzam a mera dependência individual e tendo sempre em
conta a simplificação e a mecanização de processos.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 1x2 Vasco da Gama
» Gols: Alex Telles, aos 60’ (Botafogo); Lescano, aos 28’,
e David, aos 50’ (Vasco da Gama)
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 08.10.2026
» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de
Janeiro (RJ)
» Público: 22.071
pagantes; 23.596 espectadores
» Receita: R$ 807.180,00
» Árbitro: Bruno Arleu de
Araújo (RJ); Assistentes: Thiago
Henrique Neto Correa Farinha (RJ) e Thayse Marques Fonseca (RJ); VAR:
Rodrigo Guarizo Ferreira do Amaral (SP)
» Disciplina: cartão amarelo – Ferraresi (Botafogo);
cartão vermelho – Tite, técnico (Botafogo)
» Botafogo: Gabriel
Batista; Vitinho (Mateo Ponte), Ferraresi, Arthur Chaves e Alex Telles;
Huguinho, Cristian Medina (Júnior Santos) e Danilo; Ziyech (Kadir), Arthur
Cabral (Tiquinho Soares) e Matheus Martins (Kauan Toledo). Técnico: Tite.
» Vasco da Gama: Léo
Jardim; Paulo Henrique (Pumita Rodríguez), Saldivia, Robert Renan e Cuiabano;
Sosa, Thiago Mendes e Lescano (Tchê Tchê); Hinestroza (Adson), Colidio (Nuno
Moreira) e Bruno Duarte (David). Técnico: Pedro Emanuel.

Sem comentários:
Enviar um comentário