domingo, 8 de maio de 2016

A praia vista por um vendedor ambulante (III parte e última)

Ipanema, 1984

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o Mundo Botafogo]

COMISSÕES RECEBIDAS E A FISCALIZAÇÃO

“As comissões dos ambulantes, de um modo geral, variam entre 30 a 35%. O sistema adotado pelos donos do depósito é o seguinte: os ambulantes, para saírem com o produto, terão que deixar como garantia os seus documentos, como identidade, carteira profissional e de saúde. Sem isso, eles jamais poderão trabalhar por conta própria. Antigamente, quando havia uma autoridade mais rígida, os fiscais da Prefeitura entravam nas praias e abordavam os ambulantes, exigindo a licença e a carteira de saúde. Caso o vendedor não estivesse com os documentos em dia, teria toda a sua mercadoria apreendida, só liberada através de pagamento de pesada multa.”

“Eu, apesar de gostar muito da profissão de ambulante, e de haver trabalhado vinte anos ininterruptamente, senti a inevitável necessidade de abandonar a profissão, pois, com a bagunça exagerada que existe agora na praia (8), não dá mais para se ganhar o suficiente: não compensa o suor derramado naquela luta estarrecedora.” (9)

[Notas do Autor: (8) Em meados da década de 1980, o jornalista e deputado federal Artur da Távola (1936-2008), ex-morador de Ipanema e do Leme, disse, em uma de suas crônicas no jornal ‘O Globo’, que realizara uma experiência na praia, concluindo que, a cada cinco segundos, alguém berrava no ouvido dos banhistas, anunciando e tentando vender um produto. E a jornalista e escritora Ana Maria Machado (1941-), numa coluna do ‘Caderninho B’, do ‘Jornal do Brasil’ de 08.02.1985, afirmava: “Há coisas que incomodam muito numa praia e podiam ser regulamentadas. Tipo vendedor ambulante. Para mim, por exemplo, nada incomoda tanto como o barulho de abridor de cerveja batendo na garrafa vazia para chamar a atenção de um possível freguês. Aliás, há algo pior, ia esquecendo, cachorro correndo de um lado para outro, jogando areia, cheirando quem está deitado”. (9) Indignado, Francisco largou a praia em 1984 e trabalhou como jornaleiro em bancas de Copacabana e Ipanema, de 1985 a 1988. Motivos imperiosos o levaram de volta, em 1989, às vendas praianas de mate e limão. Nesta época, sua irmã professorinha foi assassinada, segundo ele, pelo companheiro dela, no município de Paracambi, em crime que permaneceu impune e teve como testemunha ocular o filho da vítima, menor de idade, dopado pelo criminoso, um motorista da Prefeitura. O acontecido transtornou Francisco, que ficou obcecado com o fato, clamando por justiça daí por diante.]

Ipanema, 1984

DOIS BUJÕES E O BISCOITO DE POLVILHO

“Há os ambulantes que não carregam tanto peso, como os de sorvete, os de biscoito em canudos ‘Ling-Ling’ e muitos outros. Os ambulantes mais sacrificados são os que carregam bujão. Na época em que só existia mate na praia, trabalhávamos apenas com um bujão, mas depois que surgiu o ‘Limãozinho’, sentimos que trabalhar apenas com um bujão de um produto só seria prejuízo, e então partimos logo para dois bujões.”

“Além dos bujões, agora com mais ou menos vinte litros cada um (10), se quisermos ganhar um pouco mais, temos que levar na mão um grande saco plástico, carregado de saquinhos de biscoitos de polvilho de coco, salgado e doce, que muito nos ajuda no ganho diário, pois o biscoito nós compramos em separado, não pertencendo o lucro ao dono.” (11)

[Nota do Autor: (10) Um bujão metálico cheio pesa cerca de 20 a 25 quilos, incluindo o líquido, gelo e o seu próprio peso. Em consequência, muitos vendedores padecem de problemas na coluna. E, por trabalharem sempre em pé, descalços ou de sandálias, em contato direto com a areia fofa, também sofrem de varizes e dermatoses. (11) De origem paulista, os biscoitos de polvilho ‘Globo’ – o nome da padaria em que eram produzidos em Botafogo – são vendidos no Rio de Janeiro desde 1955, em forma de rosquinhas. No entanto, biscoitos dessa espécie já existiam nos anos 1930 nas estações de águas em Minas Gerais, apelidados de ‘engana-aquático’, uma vez que, sendo leves, não alimentavam o consumidor.]

Ipanema, 1985

“De um modo geral, o ambulante é um elemento querido na praia. Em todo esse tempo que eu trabalhei, sempre fui tratado com bastante carinho por toda aquela gente amável. Existem também ambulantes que usam da desonestidade, mas, por favor, não confundam o verdadeiro ambulante com o marginal vestido de ambulante.” (12)

[Nota do Autor: (12) No desespero para aumentar o minguado faturamento, alguns vendedores aplicam o chamado ‘golpe do copo’. Compram copinhos de plástico ou papel e os colocam por debaixo dos copos da empresa. Na hora de servir ao freguês usam os copinhos adquiridos, embolsando o dinheiro recebido, uma vez que as firmas fazem a contabilidade pelo número de copos vendidos e não pela quantidade de líquido. Outro recurso empregado, ainda mais condenável porque pode acarretar danos à saúde dos fregueses, é o recolhimento dos copos sujos da areia para a sua reutilização, no mesmo mecanismo descrito acima. Há também aqueles que, mancomunados com alguém do depósito, aguam o refresco – os bujões metálicos saem lacrados dos depósitos. Segundo Francisco, nestes casos, ao descobrir a fraude, “o patrão pega os documentos do vendedor e os entrega na Delegacia mais próxima”.]

Cartaz de Exposição, 1986

OS ESPORTES E A MODA PRAIANA

“Nas praias são praticadas inúmeras modalidades de esporte, como vôlei, frescobol, futebol, peteca e futevôlei. Este último apareceu mais recentemente (13), com bastante assistência por parte dos banhistas.”

[Nota do Autor: (13) O futevôlei – vôlei praticado com os pés, pernas, tronco e a cabeça – surgiu em 1965, em Copacabana, defronte à Rua Bolívar, como uma forma de burlar a proibição policial de se bater bola, pelada e linha de passe na praia, fora das áreas delimitadas. Foi inventado pelo arquiteto Octávio Sérgio de Moraes (1923-2009), o ‘Tatá’ – paraense e filho da cronista Eneida de Moraes (1904-1971) – ex-jogador do Botafogo e da seleção. Uma criação coletiva, afirmaria posteriormente um mui modesto ‘Tatá’.]

“Há campeonatos como os de futebol e os de vôlei, de onde surgiram craques, técnicos e juízes (14). O esporte nas praias incomoda um pouco os banhistas, mas geralmente a compreensão fala mais alto.”

[Nota do Autor: (14) Como os juízes Armando Marques (1930-2014), Arnaldo César Coelho(1943-), José Roberto Wright (1944-) ex-goleiro do Juventus, Jorge Emiliano dos Santos ‘Margarida’ (1954-1995), Valter Serra ‘Bianca’ (1961-2002) e Luiz Carlos Gonçalves ‘Cabelada’ (1948-).]

“Não devemos julgar qual o esporte que mais prejudica os banhistas, pois todos incomodam um pouco. Mas já vi casos em que, aqueles mesmos que reclamavam tanto acabaram ‘entrando na dança’ e aderindo ao esporte. O surfe é também um dos esportes de bastante evidência nas praias, embora com áreas reservadas, que, às vezes, não são respeitadas.”

2014 / 2015

“As praias são também os lugares onde surgem novidades todos os anos, dos produtos vendidos aos trajes usados. Surgiu ultimamente o ‘topless’. O interessante é que na década de 1960 tentaram lançar o monoquíni (15) e a sociedade reprimiu. Então dispensaram o monoquíni para esperar pelo ‘topless’ nos anos 1980.”

[Nota do Autor: (15) Criado em 1964 pelo austríaco Rudi Gernreich (1922-1985), o monoquíni, de uma peça só, em estilo futurista, tinha grandes cortes nas laterais – frente e costas – visibilizando parcial ou totalmente os seios, pressagiando o ‘topless’.]

OS ‘RATOS DE PRAIA’ (LADRÕES EM PROFUSÃO)

“Finalmente, vamos aos chamados ‘ratos de praia’, que são os ‘descuidistas da areia’. Faço um alerta baseando-me em minha experiência adquirida na praia. Os ‘ratos de praia’ são bastante oportunistas. Ao cair na água, jamais esqueça na sua toalha coisas valiosas. Num grupo de pessoas, não custa nada um ficar vigiando o local onde os outros guardaram seus pertences antes de irem para a água. Os mais visados pelos ‘ratos de praia’ são os turistas.”

“Não devemos deixar de confiar também nos guarda-vidas nas praias, que são autoridades eventuais. É um erro pensar que a finalidade deles é apenas atuar no campo dos afogamentos. Na falta de um soldado da PM, Polícia Militar, em caso de roubo, chame o guarda-vidas mais próximo, que ele também age neste sentido, dando-lhe o máximo de importância e atenção.” (16)

[Nota do Autor: (16) Os guarda-vidas fazem parte do Corpo de Bombeiros Militar, integrando o Grupamento Marítimo de Salvamento (GMar), que age na prevenção e resgate de afogamentos e em casos de crianças perdidas em todas as praias do Rio de Janeiro.]

Grafite em Copacabana - banhistas

CARMA DO VENDEDOR AMBULANTE

Eu mantinha contatos esporádicos com Francisco, até que não deu mais notícias. Certa vez, ouvi de um ambulante, o Amaro, ex-pugilista, um ditado asseverando que “vendedor de praia quando desaparece é porque está preso ou morreu”.

Conhecendo a lisura do comportamento do Francisco, prefiro acreditar na segunda hipótese, infelizmente. Mas ele – que desenvolvera o hábito salutar de ler e escrever amiúde – anteriormente havia me deixado um versinho, que dizia ser de sua lavra, intitulado ‘KARMA’, e que reflete muito bem o labor diário de um vendedor ambulante de praia.

“Nas veredas vis
E nas trincheiras longas
Sinto o peso da missão:
Devo grandes caminhadas
Entre aclives e declives.
Como resultado surgem suores fétidos
De um burro tropeiro.”

AO FRANCISCO, O HERÓI BRASILEIRO ANÔNIMO

“Este é o único país do mundo em que o herói tem que contar a sua própria vida.” – ANSELMO DUARTE (1920-2009)

Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO

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