Ipanema, 1984
por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o Mundo
Botafogo]
COMISSÕES RECEBIDAS E A
FISCALIZAÇÃO
“As comissões dos ambulantes, de um modo geral, variam entre 30 a
35%. O sistema adotado pelos donos do depósito é o seguinte: os ambulantes,
para saírem com o produto, terão que deixar como garantia os seus documentos,
como identidade, carteira profissional e de saúde. Sem isso, eles jamais
poderão trabalhar por conta própria. Antigamente, quando havia uma autoridade mais
rígida, os fiscais da Prefeitura entravam nas praias e abordavam os ambulantes,
exigindo a licença e a carteira de saúde. Caso o vendedor não estivesse com os
documentos em dia, teria toda a sua mercadoria apreendida, só liberada através
de pagamento de pesada multa.”
“Eu, apesar de gostar muito da profissão de ambulante, e de haver
trabalhado vinte anos ininterruptamente, senti a inevitável necessidade de
abandonar a profissão, pois, com a bagunça exagerada que existe agora na praia (8), não dá mais para se
ganhar o suficiente: não compensa o suor derramado naquela luta estarrecedora.”
(9)
[Notas do Autor: (8)
Em meados da década de 1980, o jornalista e deputado federal Artur da Távola (1936-2008), ex-morador
de Ipanema e do Leme, disse, em uma de suas crônicas no jornal ‘O Globo’, que realizara uma experiência
na praia, concluindo que, a cada cinco
segundos, alguém berrava no ouvido dos banhistas, anunciando e tentando vender
um produto. E a jornalista e escritora Ana
Maria Machado (1941-), numa coluna do ‘Caderninho
B’, do ‘Jornal do Brasil’ de 08.02.1985,
afirmava: “Há coisas que incomodam muito
numa praia e podiam ser regulamentadas. Tipo vendedor ambulante. Para mim, por
exemplo, nada incomoda tanto como o barulho de abridor de cerveja batendo na
garrafa vazia para chamar a atenção de um possível freguês. Aliás, há algo
pior, ia esquecendo, cachorro correndo de um lado para outro, jogando areia,
cheirando quem está deitado”. (9)
Indignado, Francisco largou a praia em 1984 e trabalhou como jornaleiro em
bancas de Copacabana e Ipanema, de 1985 a 1988. Motivos imperiosos o levaram de
volta, em 1989, às vendas praianas de mate e limão. Nesta época, sua irmã
professorinha foi assassinada, segundo ele, pelo companheiro dela, no município
de Paracambi, em crime que permaneceu impune e teve como testemunha ocular o filho
da vítima, menor de idade, dopado pelo criminoso, um motorista da Prefeitura. O
acontecido transtornou Francisco, que ficou obcecado com o fato, clamando por
justiça daí por diante.]
Ipanema, 1984
DOIS BUJÕES E O BISCOITO DE
POLVILHO
“Há os ambulantes que não carregam tanto peso, como os de sorvete,
os de biscoito em canudos ‘Ling-Ling’
e muitos outros. Os ambulantes mais sacrificados são os que carregam bujão. Na
época em que só existia mate na praia, trabalhávamos apenas com um bujão, mas
depois que surgiu o ‘Limãozinho’,
sentimos que trabalhar apenas com um bujão de um produto só seria prejuízo, e
então partimos logo para dois bujões.”
“Além dos bujões, agora com mais ou menos vinte litros cada um (10), se quisermos ganhar um
pouco mais, temos que levar na mão um grande saco plástico, carregado de
saquinhos de biscoitos de polvilho de coco, salgado e doce, que muito nos ajuda
no ganho diário, pois o biscoito nós compramos em separado, não pertencendo o
lucro ao dono.” (11)
[Nota do Autor: (10)
Um bujão metálico cheio pesa cerca de 20 a 25 quilos, incluindo o líquido, gelo
e o seu próprio peso. Em consequência, muitos vendedores padecem de problemas
na coluna. E, por trabalharem sempre em pé, descalços ou de sandálias, em
contato direto com a areia fofa, também sofrem de varizes e dermatoses. (11) De origem paulista, os biscoitos de polvilho ‘Globo’ – o nome da padaria em que eram produzidos em Botafogo –
são vendidos no Rio de Janeiro desde 1955, em forma de rosquinhas. No entanto,
biscoitos dessa espécie já existiam nos anos 1930 nas estações de águas em
Minas Gerais, apelidados de ‘engana-aquático’,
uma vez que, sendo leves, não alimentavam o consumidor.]
Ipanema, 1985
“De um modo geral, o ambulante é um elemento querido na praia.
Em todo esse tempo que eu trabalhei, sempre fui tratado com bastante carinho
por toda aquela gente amável. Existem também ambulantes que usam da
desonestidade, mas, por favor, não confundam o verdadeiro ambulante com o
marginal vestido de ambulante.” (12)
[Nota do Autor: (12)
No desespero para aumentar o minguado faturamento, alguns vendedores
aplicam o chamado ‘golpe do copo’.
Compram copinhos de plástico ou papel e os colocam por debaixo dos copos da
empresa. Na hora de servir ao freguês usam os copinhos adquiridos, embolsando o
dinheiro recebido, uma vez que as firmas fazem a contabilidade pelo número de
copos vendidos e não pela quantidade de líquido. Outro recurso empregado, ainda
mais condenável porque pode acarretar danos à saúde dos fregueses, é o
recolhimento dos copos sujos da areia para a sua reutilização, no mesmo
mecanismo descrito acima. Há também aqueles que, mancomunados com alguém do
depósito, aguam o refresco – os bujões metálicos saem lacrados dos depósitos. Segundo
Francisco, nestes casos, ao descobrir a fraude, “o patrão pega os documentos do vendedor e os entrega na Delegacia mais
próxima”.]
Cartaz de Exposição, 1986
OS ESPORTES E A MODA PRAIANA
“Nas praias são praticadas inúmeras modalidades de esporte, como
vôlei, frescobol, futebol, peteca e futevôlei. Este último apareceu mais
recentemente (13), com
bastante assistência por parte dos banhistas.”
[Nota do Autor: (13)
O futevôlei – vôlei praticado com os pés, pernas, tronco e a cabeça –
surgiu em 1965, em Copacabana, defronte à Rua Bolívar, como uma forma de burlar
a proibição policial de se bater bola, pelada e linha de passe na praia, fora
das áreas delimitadas. Foi inventado pelo arquiteto Octávio Sérgio de Moraes (1923-2009), o ‘Tatá’ – paraense e filho da cronista Eneida de Moraes (1904-1971) – ex-jogador do Botafogo e da seleção.
Uma criação coletiva, afirmaria posteriormente um mui modesto ‘Tatá’.]
“Há campeonatos como os de futebol e os de vôlei, de onde surgiram
craques, técnicos e juízes (14).
O esporte nas praias incomoda um pouco os banhistas, mas geralmente a
compreensão fala mais alto.”
[Nota do Autor: (14)
Como os juízes Armando Marques (1930-2014),
Arnaldo César Coelho(1943-), José Roberto Wright (1944-) ex-goleiro
do Juventus, Jorge Emiliano dos Santos
‘Margarida’ (1954-1995), Valter
Serra ‘Bianca’ (1961-2002) e Luiz
Carlos Gonçalves ‘Cabelada’ (1948-).]
“Não devemos julgar qual o esporte que mais prejudica os
banhistas, pois todos incomodam um pouco. Mas já vi casos em que, aqueles
mesmos que reclamavam tanto acabaram ‘entrando
na dança’ e aderindo ao esporte. O surfe é também um dos esportes de
bastante evidência nas praias, embora com áreas reservadas, que, às vezes, não
são respeitadas.”
2014 / 2015
“As praias são também os lugares onde surgem novidades todos os
anos, dos produtos vendidos aos trajes usados. Surgiu ultimamente o ‘topless’. O interessante é que na
década de 1960 tentaram lançar o monoquíni (15)
e a sociedade reprimiu. Então dispensaram o monoquíni para esperar pelo ‘topless’ nos anos 1980.”
[Nota do Autor: (15)
Criado em 1964 pelo austríaco Rudi Gernreich
(1922-1985), o monoquíni, de uma peça só, em estilo futurista, tinha
grandes cortes nas laterais – frente e costas – visibilizando parcial ou
totalmente os seios, pressagiando o ‘topless’.]
OS ‘RATOS DE PRAIA’ (LADRÕES EM
PROFUSÃO)
“Finalmente, vamos aos chamados ‘ratos de praia’, que são os ‘descuidistas
da areia’. Faço um alerta baseando-me em minha experiência adquirida na
praia. Os ‘ratos de praia’ são
bastante oportunistas. Ao cair na água, jamais esqueça na sua toalha coisas
valiosas. Num grupo de pessoas, não custa nada um ficar vigiando o local onde
os outros guardaram seus pertences antes de irem para a água. Os mais visados
pelos ‘ratos de praia’ são os
turistas.”
“Não devemos deixar de confiar também nos guarda-vidas nas praias,
que são autoridades eventuais. É um erro pensar que a finalidade deles é apenas
atuar no campo dos afogamentos. Na falta de um soldado da PM, Polícia Militar, em
caso de roubo, chame o guarda-vidas mais próximo, que ele também age neste
sentido, dando-lhe o máximo de importância e atenção.” (16)
[Nota do Autor: (16)
Os guarda-vidas fazem parte do Corpo de Bombeiros Militar, integrando o Grupamento
Marítimo de Salvamento (GMar), que age
na prevenção e resgate de afogamentos e em casos de crianças perdidas em todas
as praias do Rio de Janeiro.]
Grafite em Copacabana - banhistas
CARMA DO VENDEDOR AMBULANTE
Eu mantinha contatos esporádicos com Francisco, até que não deu
mais notícias. Certa vez, ouvi de um ambulante, o Amaro, ex-pugilista, um ditado asseverando que “vendedor de praia quando desaparece é porque está preso ou morreu”.
Conhecendo a lisura do comportamento do Francisco, prefiro acreditar
na segunda hipótese, infelizmente. Mas ele – que desenvolvera o hábito salutar
de ler e escrever amiúde – anteriormente havia me deixado um versinho, que
dizia ser de sua lavra, intitulado ‘KARMA’,
e que reflete muito bem o labor diário de um vendedor ambulante de praia.
“Nas veredas vis
E nas trincheiras longas
Sinto o peso da missão:
Devo grandes caminhadas
Entre aclives e declives.
Como resultado surgem suores
fétidos
De um burro tropeiro.”
AO FRANCISCO, O HERÓI BRASILEIRO ANÔNIMO
“Este é o único país do mundo em que o herói tem que contar a sua
própria vida.” – ANSELMO DUARTE (1920-2009)
Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO






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