quarta-feira, 18 de maio de 2016

Bipartido (tristereza)

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o Mundo Botafogo]

[Nota do autor: Prêmio de Edição em concurso da Litteris Editora, publicado em 2004 na antologia ALÉM DAS PALAVRAS – “mais um registro sincero e seguro, uma radiografia fiel do que pensam e escrevem nossos autores acerca da vida e do mundo” –, o texto, produzido em 1977, em plena ditadura militar, fala da incomunicabilidade entre um casal de irmãos de classe média no Rio de Janeiro, cuja mãe falecera recentemente, vitimada por um câncer no estômago. Trata-se de uma obra ficcional que vem corroborar o dito popular: “Família é muito bom em retrato”. Qualquer semelhança com a realidade terá sido pura reincidência.]

“Se eu morresse amanhã, viria ao menos / Fechar meus olhos minha triste irmã; / Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã!” - ÁLVARES DE AZEVEDO (1831-1852), ‘Se eu morresse amanhã’.

Amigos não somos,
Amigos não fomos,
Poderíamos ter sido,
Tecido amizade,
Nutrido franqueza.

Hoje roídos,
Corroídos,
Ruídos partidos
Da incerteza.
Tristeza, Tereza,
Tristereza, Cristina.

Eis que sido,
Em dois quebrado,
Esquizofrenecido,
Rompido, vencido.
Sinalizando,
Ao fim analisar,
Finalizando
Num estampido.

Texto e imagem: FERNANDO MOURA PEIXOTO

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