sábado, 9 de maio de 2026

Que associação entre ‘Botafogo’ e corridas de cavalos?

Disputa do Clássico Botafogo no Hipódromo de San Isidro. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Antes de o Botafogo existir como clube de remo ou futebol, a Praia de Botafogo já realizava corridas de cavalos. Entre 1810 e 1840 realizaram-se as primeiras corridas com a presença de público e de autoridades, constituindo-se o turfe o desporto de maior sucesso no século XIX depois das regatas, as quais decorriam em frente ao Pavilhão de Regatas, em Botafogo.

De modo que o Botafogo como território urbano esteve ligado às corridas de cavalos, e o Club de Regatas Botafogo, fundado oficialmente no 1º de maio de 1894, na Praia de Botafogo, aproxima o Clube ao mesmo ecossistema desportivo aristocrático do Bairro de Botafogo e da cidade do Rio de Janeiro, em cujo ambiente social o turfe prosperou, associando desportos de prestígio, clubes, sociabilidade de elite, apostas, modernização urbana e vida pública carioca.

Mais tarde, a fundação oficial do futebol no Bairro de Botafogo foi feita por ousados rapazes que criaram a instituição Botafogo Football Club, que a par do Fluminense Football Club, juntaram o futebol ao ambiente social e desportivo do Rio de Janeiro, formando a trilogia remo, turfe e futebol, além de outras atividades lúdico-desportivas, como o ciclismo e a tourada, que tiveram dias áureos antes de se eclipsarem do quotidiano da vida dos habitantes cariocas.

Uma outra relação simbólica muito curiosa entre ‘Botafogo’ e corridas de cavalos é que o mais lendário puro-sangue sul-americano, cavalo argentino, nascido em 1914, foi batizado por ‘Botafogo’.

O campeoníssimo alazão Botafogo. Crédito: Reprodução.

O animal disputou 17 corridas e venceu-as todas, segundo registro da American Classic Pedigrees, mas na 18ª corrida foi derrotado no Hipódromo de San Isidro. Disputando o G. P. Carlos Pellegrini, em 3 de novembro de 1918, o tordilho Grey Fox relegou-o para o 2º lugar.

Porém, a pressão do público argentino foi enorme porque não aceitou a derrota do grande campeão e obrigou o proprietário do Botafogo a pedir uma revanche ao proprietário do Grey Fox, restrita apenas aos dois cavalos em duelo.

Às 15 horas do dia 17 de novembro de 1918 o Hipódromo de San Isidro abriu pela única vez as portas para um só páreo de dois cavalos, que se iniciou com os portões encerrados desde as 10 horas por excesso de público e milhares de pessoas no interior do recinto, que viram vibrantemente o Botafogo ganhar a corrida com a enormidade de cem metros de avanço sobre o tordilho Grey Fox!

Não à toa, o alazão Botafogo tinha uma estrela branca na testa, o que sugere uma associação simbólica com o Club de Regatas Botafogo, o Botafogo de Futebol e Regatas e a Estrela Solitária no escudo de ambos os clubes.

Foi a última corrida do grande campeão com o seu proprietário inicial, que decidiu vendê-lo após derrotar o único adversário que o vencera, e ganhou direito a nome de páreo no famoso Hipódromo de San Isidro: ‘Clássico Botafogo’.

Hipódromo da Gávea onde corria Antônio Ricardo. Crédito: Reprodução.

No entanto, além de uma relação histórica, territorial e simbólica com o nosso Clube, há uma relação direta entre o Glorioso, já então denominado Botafogo de Futebol e Regatas, e os desportos equestres, na medida em que a modalidade de hipismo também fez parte do amplo leque de desportos alvinegros, pelo menos na década de 1950.

Em um Boletim Oficial do Botafogo de Futebol e Regatas encontrou-se a notícia de que o Botafogo disputara um campeonato na Sociedade Hípica Brasileira, no dia 31 de maio de 1958, tendo a equipe feminina se sagrado vice-campeã, constituída por Maria Olívia Leuenrouth e Marlena Matheir, que competiram no ‘trote’ e na ‘ginkana’.

Leia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2021/03/botafogo-competiu-no-hipismo.html

Finalmente, pode-se também afirmar que há mesmo uma relação direta entre o Botafogo de Futebol e Regatas e o turfe, nome pelo qual são conhecidas as corridas de cavalos.

Efetivamente, o editor do Mundo Botafogo, que vos escreve, ainda hoje é fã de corridas de cavalos e de charretes, e na década de 1960 ganhou uma atração enorme pelo desporto, acompanhando sempre o turfe carioca e torcendo pelas vitórias do jóquei Antônio Ricardo, que, a par do jóquei José Portilho, era um grande vencedor de corridas, tendo ganho o G. P. Brasil montando o cavalo Duraque.

Ricardinho igualando recorde mundial pela 1ª vez na carreira. Crédito: Reprodução.

Muitas décadas depois, o seu filho Jorge Ricardo, o ‘Ricardinho’, botafoguense ‘fanático’, tornou-se recordista mundial de corridas de cavalos pela primeira vez, em fevereiro de 2007, no Hipódromo de Palermo, na Argentina, montando o cavalo Minimal e envergando a indumentária do Botafogo de Futebol e Regatas, crente que lhe daria sorte para finalmente alcançar o seu maior desiderato.

Leia https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/jorge-ricardo-recordista-mundial-de.html

O jóquei venceu a sua 9.591ª corrida, igualando o recorde mundial de vitórias do canadense Russel Baze e, mais tarde, sempre em disputa com o seu melhor adversário, tornou a bater o recorde várias vezes até alcançar o recorde atual de 13.370 vitórias, mais 520 do que o rival Baze, já retirado, e Ricardinho continua competindo, sendo o seu recorde probabilisticamente difícil de alcançar nas próximas décadas, já que entre os dez maiores vencedores de corridas de cavalos Ricardinho é o único jóquei no ativo.

Aquando do seu primeiro recorde com a Camisa Gloriosa, Ricardinho assumiu publicamente amor ao nosso Clube e declarou:

– “Tinha que ser com a camisa do Botafogo, eu sabia! Não poderia mesmo ser só coincidência. Sempre torci para o Clube e fico feliz que tenha chegado a essa marca vestindo as cores alvinegras.”

Fontes: Boletim Oficial do Botafogo, nº. 140, de 1958; multi.rio; mundobotafogo.blogspot.com; pt.wikipedia.org; riomemorias.com.br; www.americanclassicpedigrees.com; www.botafogo.com.br; www.youtube.com.

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