por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Antes de o Botafogo existir como clube de remo ou futebol, a Praia de
Botafogo já realizava corridas de cavalos. Entre 1810 e 1840 realizaram-se as
primeiras corridas com a presença de público e de autoridades, constituindo-se
o turfe o desporto de maior sucesso no século XIX depois das regatas, as quais
decorriam em frente ao Pavilhão de Regatas, em Botafogo.
De modo que o Botafogo como território urbano esteve ligado às corridas de
cavalos, e o Club de Regatas Botafogo, fundado oficialmente no 1º de maio de
1894, na Praia de Botafogo, aproxima o Clube ao mesmo ecossistema desportivo aristocrático
do Bairro de Botafogo e da cidade do Rio de Janeiro, em cujo ambiente social o
turfe prosperou, associando desportos de prestígio, clubes, sociabilidade de
elite, apostas, modernização urbana e vida pública carioca.
Mais tarde, a fundação oficial do futebol no Bairro de Botafogo foi feita
por ousados rapazes que criaram a instituição Botafogo Football Club, que a par
do Fluminense Football Club, juntaram o futebol ao ambiente social e desportivo
do Rio de Janeiro, formando a trilogia remo, turfe e futebol, além de outras
atividades lúdico-desportivas, como o ciclismo e a tourada, que tiveram dias
áureos antes de se eclipsarem do quotidiano da vida dos habitantes cariocas.
Uma outra relação simbólica muito curiosa entre ‘Botafogo’ e corridas de cavalos é que o mais lendário puro-sangue sul-americano, cavalo argentino, nascido em 1914, foi batizado por ‘Botafogo’.
O animal disputou 17 corridas e venceu-as todas, segundo registro da
American Classic Pedigrees, mas na 18ª corrida foi derrotado no Hipódromo de
San Isidro. Disputando o G. P. Carlos Pellegrini, em 3 de novembro de 1918, o
tordilho Grey Fox relegou-o para o 2º lugar.
Porém, a pressão do público argentino foi enorme porque não aceitou a
derrota do grande campeão e obrigou o proprietário do Botafogo a pedir uma
revanche ao proprietário do Grey Fox, restrita apenas aos dois cavalos em duelo.
Às 15 horas do dia 17 de novembro de 1918 o Hipódromo de San Isidro abriu
pela única vez as portas para um só páreo de dois cavalos, que se iniciou com
os portões encerrados desde as 10 horas por excesso de público e milhares de
pessoas no interior do recinto, que viram vibrantemente o Botafogo ganhar a
corrida com a enormidade de cem metros de avanço sobre o tordilho Grey Fox!
Não à toa, o alazão Botafogo tinha uma estrela branca na testa, o que
sugere uma associação simbólica com o Club de Regatas Botafogo, o Botafogo de
Futebol e Regatas e a Estrela Solitária no escudo de ambos os clubes.
Foi a última corrida do grande campeão com o seu proprietário inicial, que decidiu vendê-lo após derrotar o único adversário que o vencera, e ganhou direito a nome de páreo no famoso Hipódromo de San Isidro: ‘Clássico Botafogo’.
No entanto, além de uma relação histórica, territorial e simbólica com o
nosso Clube, há uma relação direta entre o Glorioso, já então denominado
Botafogo de Futebol e Regatas, e os desportos equestres, na medida em que a modalidade
de hipismo também fez parte do amplo leque de desportos alvinegros, pelo menos
na década de 1950.
Em um Boletim Oficial do Botafogo de Futebol e Regatas encontrou-se a
notícia de que o Botafogo disputara um campeonato na Sociedade Hípica
Brasileira, no dia 31 de maio de 1958, tendo a equipe feminina se sagrado
vice-campeã, constituída por Maria Olívia Leuenrouth e Marlena Matheir, que
competiram no ‘trote’ e na ‘ginkana’.
Leia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2021/03/botafogo-competiu-no-hipismo.html
Finalmente, pode-se também afirmar que há
mesmo uma relação direta entre o Botafogo de Futebol e Regatas e o turfe, nome
pelo qual são conhecidas as corridas de cavalos.
Efetivamente, o editor do Mundo Botafogo, que vos escreve, ainda hoje é fã de corridas de cavalos e de charretes, e na década de 1960 ganhou uma atração enorme pelo desporto, acompanhando sempre o turfe carioca e torcendo pelas vitórias do jóquei Antônio Ricardo, que, a par do jóquei José Portilho, era um grande vencedor de corridas, tendo ganho o G. P. Brasil montando o cavalo Duraque.
Muitas décadas depois, o seu filho Jorge
Ricardo, o ‘Ricardinho’, botafoguense ‘fanático’, tornou-se recordista mundial
de corridas de cavalos pela primeira vez, em fevereiro de 2007, no Hipódromo de
Palermo, na Argentina, montando o cavalo Minimal e envergando a indumentária do
Botafogo de Futebol e Regatas, crente que lhe daria sorte para finalmente
alcançar o seu maior desiderato.
Leia https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/jorge-ricardo-recordista-mundial-de.html
O jóquei venceu a sua 9.591ª corrida,
igualando o recorde mundial de vitórias do canadense Russel Baze e, mais tarde,
sempre em disputa com o seu melhor adversário, tornou a bater o recorde várias
vezes até alcançar o recorde atual de 13.370 vitórias, mais 520 do que o rival
Baze, já retirado, e Ricardinho continua competindo, sendo o seu recorde probabilisticamente
difícil de alcançar nas próximas décadas, já que entre os dez maiores
vencedores de corridas de cavalos Ricardinho é o único jóquei no ativo.
Aquando do seu primeiro recorde com a Camisa
Gloriosa, Ricardinho assumiu publicamente amor ao nosso Clube e declarou:
– “Tinha
que ser com a camisa do Botafogo, eu sabia! Não poderia mesmo ser só
coincidência. Sempre torci para o Clube e fico feliz que tenha chegado a essa
marca vestindo as cores alvinegras.”
Fontes: Boletim Oficial do Botafogo, nº. 140, de 1958; multi.rio; mundobotafogo.blogspot.com; pt.wikipedia.org; riomemorias.com.br; www.americanclassicpedigrees.com; www.botafogo.com.br; www.youtube.com.




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