[Breve nota biográfica de Geraldo Mayrink: Geraldo Mayrink nasceu em Juiz de
Fora (MG), em 1942, foi jornalista, crítico de cinema, professor de técnica de
redação na Universidade São Marcos, em São Paulo, e um dos grandes textos da
imprensa brasileira. Começou a carreira em 1960 e ao longo de cinco décadas
passou pelas principais publicações do país, como Binômio, Diário de Minas, O Globo,
Jornal do Brasil, Manchete, Veja, IstoÉ, Playboy, Afinal, Correio Braziliense,
Revista Goodyear, Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Época e Diário do
Comércio. Tem uma dezena de artigos publicados, entre eles, “Juscelino”
(biografia), Editora Nova Cultural, 1988; ”Memorando” (teatro, coautoria com
Fenando Moreira Salles), Companhia das Letras, 1993; e “Escuridão ao Meio-dia”
(ensaios), Editora Record, 2005. Faleceu em 2009, em São Paulo, aos 67 anos.]
A VIDA TORTA DE MANÉ GARRINCHA
por GERALDO MAYRINK, escrito e publicado em 1972 na revista Veja.
«Nenhum jogador brasileiro, salvo Pelé,
mereceu mais o paraíso do que ele. Nenhum craque de sua categoria,
especialmente Pelé, chegou tão perto do inferno.
Suas pernas formavam um arco. A esquerda, em que a deformação era mais
notável, tinha seis centímetros mais que a outra. Já era um milagre que
andasse. Inadmissível que jogasse futebol. É inacreditável que logo no segundo
treino, torto e desajeitado nos seus 19 anos, desse meia dúzia de dribles “num
tal de Nílton Santos”: para ele, entre a “enciclopédia do futebol”, pelo seu
jogo prodigioso, e Pincel e Suingue, seus companheiros no Esporte Clube Pau
Grande, a diferença era nenhuma. Essa é a história no seu começo.
A lenda nasceu junto. Cresceu na Suécia em 1958 e tornou-se infinita no
Chile em 1962. Esfriou na Inglaterra em 1966. Desapareceu na poeira de campos
anônimos na Colômbia, Uruguai, Argentina e Itália. E reapareceu angustiadamente
no Maracanã, duas semanas atrás, para 50 mil pessoas que enfrentaram a chuva e
a noite para ver um jogo que normalmente seria ouvido no radinho de pilha. Suas
pernas continuavam formando um arco. Outra vez, mas por outros motivos, era um
milagre que jogasse futebol. Torto e desajeitado nos seus 38 anos, Mané
Garrincha ganhou palmas de um povo ávido em reencontrar sua velha alegria. Essa
é a lenda no seu crepúsculo.
Entre a história e a lenda, entre o Garrincha de 19 anos do Botafogo e o de
38 do Olaria, acentuou-se dramaticamente a linha que separa a realidade da
ficção. É a mesma linha que divide quase vinte anos de glórias e humilhações,
de baixezas e desprendimento, de heroísmos e ingenuidade. A mesma que fez com
que Nílton Santos, um dia, fosse outro jogador que não Pincel ou Suingue. É a
linha que Mané, com seus dribles impossíveis e sua imaginação de criança,
jamais respeitou, porque nem sequer suspeita de sua existência.
A sentença
O povo que acorreu ao Maracanã sabe, mas não quer saber, que perdeu para
sempre sua alegria. Garrincha, ao longo dos anos, perdeu muito mais que o seu
gênio para criar essa alegria em campo. Não está apenas mais gordo, mais lento
e mais velho, mas também um pouco mais triste. Nenhum jogador brasileiro, salvo
Pelé, mereceu mais o paraíso do que ele. Nenhum craque de sua categoria, especialmente
Pelé, chegou tão perto do inferno. Há muitos anos – nove, no mínimo – não é
mais o mesmo. Em 1962, o ano da Copa sem Pelé, em que Garrincha fez o seu papel
e o do gênio ausente, um exame médico aparentemente de rotina, para apurar
“umas dores muito fortes no joelho”, chegou a um laudo inquietante.
“Eu levei Mané ao ortopedista Mário Jorge”, conta o jornalista Sandro
Moreyra, um dos responsáveis pela divulgação da quantidade de histórias
engraçadas sobre o jogador. A sentença, no entanto, veio depois de três horas e
não era cômica: “Se não parar de jogar durante três meses, estará inutilizado
para o futebol”. Parecia exagerado, principalmente para o Botafogo, que
precisava de Mané numa excursão, sob pena de perder 50% dos lucros. A operação
foi adiada. O fim da carreira, automaticamente, antecipado.
A decadência
Mané, o otimista, concordava com seu time. Ele já era campeão carioca pelo
Botafogo duas vezes (em 1957 e 1961), ganhara o Torneio Rio-São Paulo em 1962,
além das duas Copas. Era a época em que o Botafogo considerava “normal, da
personalidade dele”, que Garrincha fosse a Pau Grande jogar pelada com amigos.
Quando o joelho começou a doer, depois de 1963, o Botafogo reclamou pelos
longos períodos que Garrincha passava em tratamento. Foi operado dos meniscos
naquele ano e, como o médico era de fora, o clube não quis pagar.
No ano seguinte, com os jogadores “come e dorme” (os que moram no clube e
treinam sem grandes esperanças de chegar a algum lugar), perdera o posto de
titular e era multado em 50% do salário por se recusar a excursionar pelo
interior (“Se não sou titular no Maracanã, não sou titular em nenhum outro
lugar”, defendia-se ele). Já era chamado de “moleque” no próprio boletim do
clube, numa nota assinada pelo diretor de propaganda. Da lenda, então, restava
só a lembrança.
Garrincha já saíra das gírias esportivas para as manchetes dos jornais de
escândalo, encantados com a notícia de que ele deixara a mulher e oito filhas
em Pau Grande para viver com a cantora Elza Soares (com quem casou em 1966, na
embaixada da Bolívia), e as notícias sobre suas dívidas cresciam como só os
rumores sabem crescer. Não bastava, assim, que Garrincha não tivesse nada. Era
necessário que ele, quase derrotado, ainda ficasse devendo.
Em família
A triste sorte de Garrincha, nessa época, não chegou a surpreender ninguém.
João Saldanha, técnico do Botafogo em 1957, ano em que Garrincha ganhou seu
primeiro campeonato pelo time, lembra o episódio do “tal de Nílton Santos” como
sintoma muito claro de sua alienação e do que estava para acontecer. Garrincha,
diz ele, não é um poeta: “É um primitivo, um matuto, meio índio, meio selvagem,
criado num submundo de miséria e ignorância, um lugar atrasado onde nem o trem
parava”.
Esse fim de mundo, Pau Grande, não tem cinema, nem cartório, nem mais nada.
Quase tudo – terrenos, empregos, pessoas – pertence à fábrica América Fabril,
uma tecelagem que hoje, mal se recuperando de uma concordata, não consegue
reempregar todos os seus antigos funcionários.
Mané Garrincha nasceu ali, quarto filho de uma família numerosa e marcada
pela tragédia. O pai, guarda, morreu de cirrose. Uma irmã, Teresa, morreu aos
14 anos de barriga-d’água. Outra, ao cair de um caminhão num dia de festa, e o
filho desta, agora com 16 anos, perdeu uma perna quando caiu de um trem.
Garrincha estudou até o segundo ano primário e, como todo mundo no lugar,
foi trabalhar na fábrica. Carregava carrinhos de pano enquanto sua namorada,
Noir (Noir, na certidão de nascimento, e Nair, na de casamento: o escrivão
corrigiu o que lhe pareceu grafia errada), já era qualificada como tecelã. Ela
lhe dava cigarros, frutas, amendoim. Ele deu o troco que podia dar e os dois se
casaram em 1953 (ele com 19 anos, ela com 16), já com a primeira filha
encomendada. Além de Teresa, hoje com dezoito anos, viriam outras sete – para
encher a casa de três quartos, sala, cozinha e banheiro, presente da fábrica
quando Garrincha ganhou a primeira Copa.
Teresa já trabalha como fiandeira, mas está de licença desde que perdeu no
trabalho o dedo anular direito, há dois anos, e sofreu um trauma nervoso.
Garrincha está muito presente na casa de dona Noir, agora com 36 anos, quadris
largos, cabelos curtos e esticados, fala fluente de quem já se acostumou a
responder perguntas, acendeu velas no dia da volta do ex-marido contra o
Flamengo. “Manuel”, diz ela, “era um primor de marido, uma beleza de casa, eu
tinha até empregada.”
Depois, porém, “viraram a cabeça dele” e desde então sua vida entrou em
compasso de espera. Diz que Garrincha lhe deve 20 mil cruzeiros de pensões, que
não teria pagado desde que ele foi para a Europa; tem esperança de recebê-los
agora, descontados dos salários de Garrincha no Olaria, mil cruzeiros por mês.
Sustenta-se e às filhas com o auxílio-doença de Teresa, 250 cruzeiros de pensão
do governo da Guanabara (votada no governo Negrão de Lima), e duzentos que o
Botafogo dá, numa regularidade duvidosa, como homenagem à família do maior
jogador que teve em toda a sua história.
Saco sem fundo
Nem sempre a vida foi tão dura para dona Noir e suas filhas. Garrincha,
como tantos personagens famosos e folclóricos, literalmente nadava em dinheiro
em 1958, quando veio da Suécia campeão do mundo. Bebeu para valer (cachaça e
batida de limão) em Pau Grande, jogou pelada com Suingue e Pincel e entrou no armazém
de seu Joaquim com uma sacola de dinheiro, pagando em dólar todas as contas em
atraso dos moradores de Pau Grande. Mais tarde, ao procurar um banco, levava a
mala de lona que ganhara da companhia aérea e de dentro dela tirou pacotes de
dinheiro amarrados com barbante e notas remendadas com esparadrapo.
Havia cheques de mais de um ano de idade e Garrincha contou que foram
encontrados entre os brinquedos de suas filhas. Era um louco, deliciosamente
irresponsável. Quando perdeu a forma, passou a ser apenas irresponsável. As
histórias sobre o que Garrincha deixou que lhe roubassem formam o saco sem
fundo de sua infeliz vida financeira. Não parecia preocupar-se com isso, na
época. Tinha amigos, contava com eles. Em 1959, por exemplo, o Botafogo não
queria pagar-lhe 80 mil cruzeiros velhos por mês porque um dos diretores do
time, engenheiro, dizia que nem ele ganhava tanto, embora também não fosse um
Garrincha na sua profissão. O Botafogo pagou 78 mil cruzeiros. Os dois
restantes saíram dos bolsos do técnico Saldanha e de Renato Estelita,
responsável pela política de profissionalismo que manteve no clube jogadores
como Garrincha, Nílton Santos, Didi e Amarildo.
Nas vésperas da Copa de 1962, dirigentes do Botafogo apressaram a renovação
de seu contrato, antes que ele se valorizasse. Deram a Garrincha 120 mil
cruzeiros velhos de ordenados, 3 milhões em luvas e um terreno sem valor em
Saquarema. Radiante, ele chegou a agradecer ao clube pelo grande negócio.
Mané, com seus dribles impossíveis e sua imaginação de
criança, jamais respeitou a linha que separa a realidade da fantasia.»
Continua na II Parte.

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