por RUY MOURA | Editor
do Mundo Botafogo
O essencial da vitória do Botafogo
sobre o Atlético Mineiro, numa temporada já perdida, foi a conquista dos três
pontos para nos mantermos acima da linha de água da despromoção, porque
infelizmente, em apenas dois anos, deixamos o topo do futebol sul-americano e brasileiro
para lutarmos por não descer à Série B.
Isso significa que, apesar da
vitória fundamental obtida, por escasso 1x0 sobre uma equipe de reservas,
estamos perante fragilidades de funcionamento da equipe.
É verdade que o Botafogo foi
superior na criação das melhores oportunidades (p.e. gol de Edenilson aos 18’, Tiquinho
no travessão aos 28’ e Martins na trave aos 90+3’), mas não conseguiu
transformar essa superioridade num controlo consistente da partida e num placar
mais confortável. A equipe venceu meritoriamente, a estrutura defensiva melhorou,
mas sem a eficácia atacante desejada.
Tite surpreendeu o adversário com
a utilização de Justino, Ferraresi e Marçal na zaga, proporcionando maior
proteção à baliza e permitindo que Vitinho tivesse liberdade para avançar pela
ala direita, tendo sido essencial na excelente jogada que proporcionou o gol de
Edenilson.
Huguinho mais recuado protegeu o
espaço dos zagueiros e reduziu as possibilidades de progressão interior do
Atlético.
O conjunto desse esquema permitiu um maior equilíbrio defensivo, evitando simultaneamente que Gabriel
Batista pudesse ser colocado muitas vezes à prova, embora aos 38’ tenha
realizado uma defesa que claramente evitou o empate.
Não obstante, o esquema 3-5-2,
variando para 3-1-4-2, assentou muitas vezes numa organização defensiva 5-4-1,
a qual funcionou vezes demais após o gol, evidenciando um esquema concetual com
densidade defensiva, mas aumentando a distância entre linhas e prejudicando ataques
bem urdidos.
Tiquinho muito isolado à frente
obstava a ligação entre defesa e ataque e as dificuldades na posse de bola
foram evidentes. Isto é, Tite resolveu, neste caso concreto, o problema defensivo,
mas não conseguiu criar um modelo integrado e harmonioso entre os três setores.
A excelente articulação coletiva
que precedeu o gol de Edenílson foi muito mais ocasional do que sistemática, o
que mostra que Tite ainda não conseguiu potenciar as qualidades individuais de
diversos jogadores em favor de um conjunto equilibrado, intenso e eficaz.
Um dos principais problemas é que
Medina apresenta dificuldades em participar na construção ofensiva e Danilo
Pereira também não conseguiu estabelecer uma relação consistente com Edenílson
e Tiquinho, o que significa que as combinações pelo corredor central foram
escassas e as melhores ações decorreram de progressões individuais, bolas
paradas e transições rápidas mal aproveitadas – em suma, escassa circulação
ofensiva entre linhas e poucos movimentos coordenados.
De modo geral, a organização
defensiva melhorou com três zagueiros e Huguinho na proteção; o meio campo com Medina
e Danilo Pereira continua estruturalmente desequilibrado, sem soluções de
criação por dentro; no ataque Tiquinho sofreu com o recuo da equipe e Matheus
Martins, como habitualmente, perdeu duas ou três oportunidades decisivas para
ampliar o placar, apesar da sua entrada ter dado mais velocidade e profundidade
ao ataque.
Por outro lado, mantém-se a
tendência para proteger vantagens mínimas demasiadamente cedo e a organização ofensiva
fica aprisionada nessa tendência e na dificuldade do meio campo mediar a
passagem para as zonas ofensivas de remate.
Em síntese, Tite ainda não
conseguiu criar uma identidade coletiva na equipe e a nossa vitória, embora
muito importante, foi sobre uma equipe reserva do Atlético. Perdemos jogos
fundamentais contra adversários do Z4, vencemos o lanterna por um magro 1x0 e
repetimos a dose na vitória sobre o Atlético sem muitos titulares fundamentais.
Donde, Tite ainda não convenceu ninguém.
Finalmente, sublinhar que não me
agrada o 3-5-2, porque julgo que não temos atualmente os atletas indicados para
o efeito, o que significa que a opção de Tite não é provavelmente a mais
adequada para a identidade da equipe e aparenta mais ser uma solução de recurso
face às recentes atuações desastradas do setor defensivo.
Para o futuro imediato: em geral,
os treinadores queixam-se da falta de tempo para treinar, mas quando o têm nem
por isso as melhorias são claras; Tite tem, agora, esse tempo antes do próximo
jogo e esperemos que encontre uma solução mais equilibrada e eficaz, que vença
o Corinthians e assegure a manutenção.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 1x0 Atlético
Mineiro
» Gols: Edenílson, as 18’
» Competição: Campeonato
Brasileiro
» Data: 04.11.2026
» Local: Estádio Olímpico Nilton
Santos, no Rio de Janeiro (RJ)
» Público: 20.462 pagantes;
22.008 espectadores
» Receita: R$
438.170,00
» Árbitro: Lucas Casagrande (PR);
Assistentes: Daniella Coutinho Pinto (BA) e Thiaggo Americano Labes (SC); VAR: Douglas
Schwengber da Silva (RS)
» Disciplina: cartão amarelo – Cristian
Medina e Marçal (Botafogo); Tomás Pérez e Kauã Pascini (Atlético)
» Botafogo: Gabriel Batista; Justino,
Ferraresi e Marçal; Vitinho, Huguinho, Edenílson (Alex Telles), Cristian Medina
(Domingos Andrade) e Paulinho (Kauan Toledo); Danilo Pereira (Matheus Martins)
e Tiquinho Soares (Arthur Cabral). Técnico: Tite.
» Atlético Mineiro: Everson;
Preciado, Léo Duarte, Vitão (Vitor Hugo) e Kauã Pascini; Tomás Pérez (Gutte),
Cissé (Gabriel Veneno), Alexsander e Gustavo Scarpa; Dudu e Cauã Soares.
Técnico: Eduardo Domínguez.

Sem comentários:
Enviar um comentário