por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Após a saída de Carlos Alberto
Torres, Dé Aranha assumiu a equipe de dezembro de 1993 a maio de 1994, tendo
começado a reconstruir o plantel com a chegada de novos jogadores, entre os
quais Wágner, Wilson Gottardo, Sérgio Manoel e Túlio ‘Maravilha’, que viria a
ser o novo ídolo botafoguense na conquista do Brasileirão de 1995, e logo em
janeiro de 1994 fez três gols na vitória por 6x0 sobre o America.
Porém, Dé Aranha ficou por pouco
tempo e sucedeu-lhe Renato Trindade, que tivera em clubes de menor dimensão e
era relativamente desconhecido, mas em pouco tempo adquiriu fama de estudioso,
alternando a estrutura da equipe durante os próprios jogos – utilizando três
zagueiros, mudando para dois, reforçando o meio-campo ou alterando o número de
atacantes, numa espécie de esquema de basquete com permanentes mudanças de
organização constante segundo o que o jogo pedia.
Sob o comando de Renato, Túlio
consolidou-se como artilheiro, Sérgio Manoel amadureceu, Gottardo tornou-se
líder e a equipe começou a crescer competitivamente, ganhando o Torneio
Triangular Eduardo Paes. Porém, Renato não resistiu a uma derrota para o
América no estadual e foi substituído precisamente por um treinador que disse
admirar: Jair Pereira.
Jair comandou o Botafogo no
primeiro semestre de 1995, levou a equipe à decisão (perdida) da Taça Guanabara
e também foi substituído, mas o papel desempenhado por Renato e Jair foi de
crucial importância para o estado do plantel que chegou às mãos de Paulo
Autuori – o treinador improvável.
Autuori era carioca, mas quase
toda a sua carreira foi em clubes portugueses, destacando-se no Vitória de
Guimarães, Nacional e Marítimo, construindo uma reputação de profissional
metódico, organizado e intelectualmente acima da média de treinadores – mas no
Brasil havia a convicção que era português e questionava-se o presidente
Montenegro sobre onde descobrira ‘aquele português’.
Carlos Augusto Montenegro
confessou mais tarde que tinha dúvidas sobre as suas capacidades, mas a
contratação teve em conta a questão monetária frágil do Botafogo.
Assim, Autuori chegou ao Clube
como técnico sem prestígio, salarialmente barato e para comandar uma equipe que
não era candidata ao título. Porém, o plantel já tinha sido bem trabalhado,
amadurecido e estava à beira de uma profunda mudança.
O Botafogo de 1995 foi produto de
um planejamento plurianual, montado com celeridade, criatividade e poucos
recursos financeiros e estruturais, evidenciando, talvez, o erro típico do
futebol brasileiro em ter mais do que um treinador em cada ano, não dando tempo
útil para a consolidação de métodos e técnicas de treinamento.
A diferença económica para alguns
rivais era gritante, especialmente para o Flamengo, que acalentava ser campeão brasileiro
no ano em que celebrava o seu centenário, mas foi, uma vez mais, o Botafogo que
lhe ‘roubou’ a festa sagrando-se campeão do Brasil.
A equipe foi reforçada
recorrendo-se a empréstimos e oportunidades de mercado: Gonçalves e Donizete
regressavam do futebol mexicano e não entusiasmavam; Iranildo chegou do
Madureira quase a custo zero; Beto veio do Goiás numa negociação folclórica que
envolveu uma grande quantidade de chuteiras; Leandro Ávila saiu em conflito com
o Vasco; na lateral-direita André Silva foi adaptado à posição por Autuori.
Os jogadores eram mais ou menos
desconhecidos dos torcedores e mais tarde Gottardo descreveu a equipe como uma
combinação de jogadores experientes e outros ainda pouco valorizados, escolhidos
pelo qualidade técnica e o perfil.
Porém, o ‘onze’ ganhou identidade
própria: Wágner; Wilson Goiano, Gottardo, Gonçalves e André Silva; Leandro
Ávila, Jamir, Beto e Sérgio Manoel; Donizete e Túlio.
Era uma equipe com enorme
capacidade de luta, quatro jogadores de forte marcação no meio-campo e uma
dupla atacante complementar, sendo Donizete a ‘alma da equipe’ e Túlio na
função implacável de ‘matador’ Botafogo".
Túlio desempenhava outro papel crucial: ao contrário da maioria dos atletas entendeu desde cedo que o futebol envolvia não apenas as ocorrências de gramado, mas também de expectativas, provocação, manchete, espetáculo e psicologia.
Antes de jogos importantes
prometia gols, provocava adversários, inventava números e lançava frases
destinadas a títulos de primeira página, retirando pressão dos companheiros,
inflamando torcedores, irritando adversários – sem hostilidade real.
Um jornalista que acompanhou
aquele Botafogo recordaria depois que Túlio tinha uma extraordinária noção de
como "promover" um clássico através de provocações, sem
necessariamente ultrapassar o limite para a hostilidade real. Vinte e três gols
em todo o campeonato e espetáculos verbais recorrentes transformaram-no em
personagem.
A relação com Montenegro era
explosiva. Em dado momento zangou-se, ficou em Goiânia e não se apresentou.
Montenegro ameaçou multá-lo e Túlio expôs a precaridade financeira do Clube:
“como poderia ser multado sem salário há meses?
Apesar dos confrontos entre eles,
Montenegro recusou vendê-lo ao Corinthians, tomando provavelmente a mais
importante decisão da sua presidência naquele ano.
No Botafogo de 1995 certamente
havia amizade e solidariedade, certamente, mas houve também crises reais – que
começavam inevitavelmente pelo dinheiro. Em contexto de salários e prémios
atrasados, Túlio encontrava-se numa situação diferente porque possuía um
contrato publicitário com a Pepsi que lhe garantia uma fonte de rendimento
regular, e isso gerou ressentimento.
Formaram-se dois polos: um
associado à liderança Wilson Gottardo, outro próximo de Túlio, que ajudava
financeiramente alguns companheiros em maiores dificuldades.
Em setembro o Botafogo estava em
crise, embora bem colocado na classificação e Sérgio Manoel confrontou Túlio
por não o cumprimentar, a tensão subiu e a agressão física esteve próxima entre
dois jogadores fundamentais no funcionamento ofensivo.
O conflito não estalava num
equipe derrotada, mas numa equipe que ganhava – e talvez por isso mesmo se
tornasse mais perigoso. Então, Montenegro reuniu o plantel em Cai Martins e
recriminou duramente as divisões internas, os ciúmes e as reclamações públicas.
Houve confronto verbal, a crise não se evaporou, mas algo se alterou quando os
atletas compreenderam que a sobrevivência coletiva dependia de uma espécie de
pacto pragmático: podiam cobrar a direção e discutir entre si, mas que
continuassem ganhando, isto é, ganhar era objetivo desportivo e instrumento de
reivindicação salarial, em vez de a direção responder simplesmente “não há
dinheiro’.
Foi nesse ambiente de crise e
confronto que Autuori assumiu o duplo papel comandante tanto tático como
psicológico. Montenegro definiu-o, mais tarde, como comandante tático,
"paizão" e psicólogo.
Autuori não se expressava por
temperamento explosivo típico de muitos treinadores brasileiros da época,
preferindo a racionalidade, organizando funções, definindo responsabilidades e
um modelo em que cada jogador entendia o que deveria fazer.
Donizete aproximou-se de Túlio e
passou a explorar a mobilidade entre linhas; Leandro Ávila e Jamir equilibravam
o meio-campo; Beto oferecia chegada e intensidade; Sérgio Manoel articulava
jogo, avançava pela esquerda e servia os atacantes; Gottardo e Gonçalves
formaram uma sólida dupla de zaga; André Silva adaptou-se a lateral esquerdo;
Wágner foi decisivo na baliza. Foi Autuori que introduziu consistentemente a
marcação à zona em vez de individual e ocupação racional de espaços
A equipe passou a valer mais do
que a mera soma das parte. Donizete alternava os movimentos: corria entre
linhas, surgia nas alas, recuava para buscar jogo e apoiava defensivamente. A
dupla ofensiva funcionava por características opostas: Donizete buscava os
movimentos para finalização, Túlio finalizava.
Em novembro o Atlético Mineiro
foi goleado por 5x0, com dois gols de Túlio e dois gols de Donizete – já não
era o acaso funcionando. Por ironia do futebol a adversidade não une
automaticamente: primeiro divide e só depois gera coesão, se houver liderança.
Havia: pela emoção, Montenegro; pela racionalidade e saber técnico, Autuori, o
equilibrador de uma equipe que foi ganhando mesmo em crise – ou talvez por ela!
Na semifinal, por ironia do
destino, o Botafogo enfrentou o Cruzeiro de Jair Pereira, que conhecia bem a
equipe botafoguense, porém ela fora transformada por Autuori e após dois
empates o Botafogo chegou à final contra o Santos.
Vitória por 2x1 no Rio; empate
por 1x1 em São Paulo. O Santos reclamou do árbitro no jogo de volta, mas não do
impedimento inexistente de Túlio à boca da baliza que daria mais um gol no jogo
de ida. Erros de arbitragem de parte a parte e o improvável no ano do centenário
do Flamengo aconteceu – Botafogo Campeão Brasileiro.
Campanha completa em: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-brasileiro-em-futebol-1995.html
Não houve uma linhagem técnica
relacionada entre treinadores como aconteceu n passado, mas formou-se uma
sequência técnica alinhada ao título: Dé Aranha participou no início da formação
base; Renato Trindade introduziu flexibilidade tática; Jair Pereira afinou as
referências internas da equipe; Paulo Autuori recebeu um plantel reconstruído,
incorporou novos elementos, organizou-o taticamente, geriu psicologicamente a
crise e nesse equilíbrio conduziu o Botafogo ao almejado título.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br


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