por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Após a saída de Zezé
Moreira no ano seguinte à conquista do campeonato carica de 1948, o Botafogo
regressou à sobreposição de linhagens técnicas com quase todas as soluções já
testadas anteriormente e que não resultaram em títulos: Carvalho Leite
(1950-1952), Sylvio Pirillo (1952, única solução ainda não testada
anteriormente), Martim Silveira (1952-1953) e Carvalho Leite (1953).
Chegou então a vez de
Gentil Cardoso (1953-1955), o qual não faz parte da linhagem técnica atrás
mencionada e cujo relevo não está tanto no seu trabalho, mas por ter dado o seu
acordo à contratação de Garrincha, que se revelaria como o maior ídolo do
Botafogo e o maior driblador do planeta Terra.
Manoel Francisco dos
Santos apareceu em General Severiano em 1953 para testes e desse dia histórico
resultou uma versão lendária e uma versão historicamente mais prudente sobre a
sua contratação.
É muito antiga a lenda
que conta a história de Nilton Santos ter sido sucessivamente driblado por
Garrincha e que o ‘Enciclopédia’ teria dito a Gentil Cardoso para o contratar
porque ele não quereria enfrentar Garrincha jogando por outra equipe, tal era a
qualidade do candidato a jogador do Botafogo.
Porém, essa versão que
narra comentários iniciais depreciativos de Gentil Cardoso a propósito das
pernas de Garrincha e que este teria humilhado Nilton Santos, tornou-se mais
prudente após algumas pesquisas que apontavam para um duelo mais equilibrado do
que aquele que a lenda sugere.
No entanto, o
essencial mantém-se: Gentil Cardoso aceitou testar um jovem de aparência física
improvável, avaliou positivamente o teste de enfrentar o grande Nilton Santos e
o Botafogo acabou por contratar um dos maiores jogadores da história do futebol
mundial, que depois de ser reprovado em testes noutros grandes clubes cariocas,
designadamente Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama, mas também no São
Cristóvão, provavelmente nunca teria iniciado a sua fabulosa carreira caso o
Botafogo o tivesse rejeitado.
Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/09/gentil-cardoso-um-estilo-peculiar.html
Após a saída de Gentil
Cardoso em 1955 o Botafogo ainda contratou Zezé Moreira (novamente) e Geninho,
mas estava ‘escrito nas estrelas’ que a interrupção da linhagem técnica do
Botafogo seria retomada em 1957 com a contratação de João Alves Jobim Saldanha
(1957-1959), jornalista desportivo que fora futebolista e dirigente do Botafogo,
além de ser militante político e apelidado de ‘João Sem Medo’ pelo célebre
dramaturgo e jornalista Nélson Rodrigues.
Todavia, João Saldanha
nunca treinara uma equipe de futebol em circunstância alguma, o que leva a
admitir que, tendo conquistado o campeonato carioca de 1957 sem nenhuma
experiência anterior no cargo, o seu sucesso se deva sobretudo à linhagem
técnica que interliga o Capitão Ladanyi, Dori Kürchner, Zezé Moreira e o
próprio João Saldanha, interprete de Kürchner em 1939-1940, bem como a um traço
do historial botafoguense que transforma apostas temerosas em conquistas
improváveis.
Porém, deve-se
considerar, também, um outro lado racional que justifica a contratação em meio
de uma crise com a saída de Geninho e à necessidade de se efetuar uma transição
necessária e desejada por Paulo Azeredo, novamente presidente do Botafogo a
partir de 1954, cuja liderança, visão e ambição havia tornado o Botafogo
campeão por cinco vezes em apenas seis anos (1930-1935).
João Saldanha era
diretor de futebol do Botafogo, cargo que assumira em 1944 e ao qual regressara
em 1956. Foi Saldanha que convenceu Paulo Azeredo a contratar o grande craque
Didi ao Fluminense.
Em meio à crise o nome
de João Saldanha emergiu porque, apesar de nunca ter sido treinador, conhecia profundamente
os bastidores do futebol botafoguense e havia acumulado uma volumosa bagagem de
práticas, quer como jogador e dirigente, quer como intérprete de Dori Kürchner,
além de um forte liderança carismática essencial a momentos de transição.
Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/06/joao-saldanha-o-joao-sem-medo.html
Primeiro foi
solicitado provisoriamente para dirigir o Botafogo em alguns jogos e durante uma
excursão, mas o resultado não se compadeceu do período regulamentado, exigindo
prorrogação.
Foi então que o visionário Paulo Azeredo comprou a aposta e o João Sem Medo passou a comandar a título definitivo uma equipe composta por Garrinha, Didi, Nilton Santos, Quarentinha, Paulinho Valentim e outros grandes jogadores, três dos quais seriam consagrados no ano seguinte, em 1958, campeões do mundo pelo Brasil.
A restante história
todos nós sabemos: o Botafogo chegou à decisão do Campeonato Carioca com o
Fluminense precisando apenas de um empate e o presidente do Fluminense havia dito,
durante a semana, que o tricolor já era campeão e a final era apenas uma
exigência burocrática.
Pois… Porém, nessa
decisão, o Botafogo era liderado no banco por um João ‘Sem Medo’, o homem que
tomou decisões inéditas, tais como flexibilizar o rígido regime de
concentração, preferindo responsabilizar os jogadores, e sobretudo ter compreendido
que um elenco cm Garrincha, Didi, Nilton Santos, Quarentinha e Paulinho
Valentim, entre outros, não necessitava de estar amarrado taticamente nem efetuar
treinos exaustivos, preferindo a simplicidade e a fluidez de jogo.
No entanto, também
exigia rigor sem bola, esforço coletivo na marcação e posicionamento defensivo
inteligente para pressionar as peças principais dos adversários, como no jogo
da decisão em que Telê Santana foi anulado, enquanto Garrincha fazia ‘misérias’,
servindo Paulinho Valentim que marcou cinco gols, um dos quais de bicicleta.
Garrincha marcou outro gol e o Fluminense perdeu o jogo por 6x2 tomando a maior
goleada em uma decisão do Carioca na Era Moderna, que é recorde até hoje
(curiosidade: o Fluminense também tomou do Botafogo uma goleada de 6x1 na
decisão do Carioca de 1910, a maior da história na Era Amadora).
Título: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/02/botafogo-campeao-carioca-de-futebol_21.html
Neste jogo histórico
que constitui uma das peças mais sensacionais de sempre do futebol carioca, Telê
Santana, então jogador do Fluminense, teria pedido a Didi, quando o resultado do
jogo já estava praticamente decidido, que mandasse Garrincha parar de
atormentar os seus marcadores, mas Garrincha continuou e marcou um gol, num show à parte dos números clamorosos do
marcador no Maracanã.
A firmeza de João
Saldanha mostrava-se também na relação com a Diretoria, não se mostrando um
subalterno, mas um par, que efetuava críticas internas e externas sem medo, e
que quebrou preconceitos estruturais quando deu a braçadeira de capitão a
Quarentinha, jogador negro e um dos maiores futebolistas do Clube, bem como
exigiu, contra toda a diretoria, que não desejava aumentar o plantel com mais
negros, a contratação do negro Chicão, defesa central que foi peça-chave na
conquista de 1957.
Homem difícil de lidar
devido às suas convicções – tanto as certas como as erradas –, João Saldanha
sentia-se desgastado em 1959 perante a rotina de treinos exaustivos, calendário
atribulado, concentrações obrigatórias e excesso de excursões internacionais
para a obtenção de retornos financeiros, o que resultou em frequentes
divergências com a diretoria do Clube e pediu a demissão.
Mais tarde, Saldanha
publicou, na qualidade de escritor, os anos passados no Botafogo, na obra ‘Os
subterrâneos do futebol’, narrando acontecimentos com jogadores e dirigentes,
viagens, concentrações, conflitos e histórias de bastidores.
No Botafogo o
improvável acontece, e por isso é um Clube recheadíssimo de histórias e de
estórias, tendo no caso concreto, com João Saldanha, um registro raro de um
homem que tendo sido jogador, dirigente e treinador de futebol do Clube, também
se tornou escritor e jornalista excepcionalmente atento ao que se passava à sua
volta.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; ge.globo.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; https://www.botafogo.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com.


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