por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o Mundo
Botafogo]
AMBULANTES FAMOSOS E AS FIRMAS
TRADICIONAIS
“Nas praias existiam também os vendedores famosos, como o ‘Hora Certa’, o Tavares, o Santos (‘Zé Dedão’), o Rutelino, o Mello (o
famoso ‘De Gaulle’), o Rogério (‘Inflação’), o Gilvanni, o falecido
Aristóteles (‘Ari’) e muitos outros,
que adotavam um sistema de venda especial, ou seja, o sistema do ‘crediário’.” (1)
[Nota do Autor: (1) Todos os vendedores citados
desapareceram das praias. O Ari morreu de ataque cardíaco nas areias de
Ipanema, em 1983, quando vendia refrigerantes em um ponto fixo – o seu sonho –
na altura da Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema, três meses após ter largado o
mate e o limão.]
“Anotavam o nome dos rapazes e das madames, e essas pessoas
poderiam tomar mate e limão à vontade. Dinheiro, no caso, não seria problema.
No fim de semana eles iriam cobrar o devido em suas residências. Esse sistema
de venda deixava o ambulante bastante popular.”
“Há as firmas tradicionais como ‘Da-Matte’, ‘Expresso Mate’,
‘Mate Leão’, ‘Kai-Bem’, ‘Mate ABC’ e
outras que não existem mais, como ‘Xeque-Mate’,
‘Copa Mate’, ‘Limãozinho’, ‘Limão do
Tavares’ e ‘Gra-Limão’.” (2)
[Nota do Autor: (2)
O ‘Expresso Mate’ era de
propriedade do espanhol Jesus,
indivíduo de temperamento difícil, que, segundo Francisco, chegava a bater nos
empregados. O ‘Limão do Tavares’,
cujo depósito ficava na Rua Henrique Dumont (o chamado Bar Vinte), em Ipanema,
pertencia ao próprio vendedor, que obteve grande sucesso no ramo. Depois, o
cantor Carlos José (1934-) adquiriu
a empresa, mantendo o nome ‘Tavares’.]
Posto Seis, 1939
“O ‘Din-Din’ e a ‘Flal’ adotavam o sistema de saco
plástico com nada menos de quatro sabores: laranja, uva, caju e limão. Mas a
passagem desses líquidos em saco plástico foi efêmera, pois não tiveram boa
aceitação por parte dos banhistas. O que aprovou mesmo foi o mate e o limão.” (3)
[Nota do Autor: (3)
Em menor escala, havia também caju e maracujá em bujões, vendidos pelas
mesmas firmas de mate e limão até o início da década de 1980.]
OUTROS PRODUTOS E AS GRANDES MARCAS
“Já fizeram tentativas com outros produtos e não deu certo, como
uva, laranja e mentol, um refresco que tinha sabor de menta. Este, nem chegou a
ser lançado, pois os banhistas, em experiência feita gratuitamente nas praias,
com dois bujões, alegavam que deixava gosto de pasta de dente na boca.”
“Quem tentou lançar esse refresco na praia foi Ricardo Penna Botto – filho do falecido
Almirante Penna Botto (1893-1973) –
que tirou bastante proveito do comércio da orla marítima, junto com o seu irmão
Fernando.”
Posto 6, década de 1940 [Arquivo de Fernando Moura Peixoto]
“Eles lançaram na Praia de Ipanema um dos melhores mates que já existiram no Brasil. Tratava-se do famoso ‘Xeque Mate’, que só perdia mesmo para o ‘Da-Matte’.”
“Foi o ‘Da-Matte’ que
adotou o sistema de venda em bujão a tiracolo, no início dos anos 1960. Seus
donos eram Santoro (pai) e Toninho (filho), ambos já falecidos.”
“Hoje ainda existe o ‘Da-Matte’,
mas já não tem aquela potência toda, naturalmente porque perdeu seus
fundadores. Nem sei mais quem são seus atuais orientadores (4). Mas em Copacabana o nome ‘Da-Matte’ ainda não caiu no esquecimento dos banhistas e é um dos
mais vendidos.”
[Nota do Autor: (4)
O ‘Da-Matte’ ficou com a mulher
do Toninho após a morte dele em
1983. O Santoro falecera em 1968.]
“Assim como existiram famosos ambulantes nas praias, que jamais serão esquecidos pelos banhistas e que são reconhecidos nas praias ou na rua, há também aqueles que preparam o produto nos depósitos com bastante perfeição. Ninguém fez melhor do que Ivo e ‘Maca’ do ‘Mate Leão’, e Altair, que foi do ‘Xeque Mate’.”
DESORDEM GENERALIZADA NAS PRAIAS (OS MAFUÁS)
“Com o decorrer dos tempos, as praias se transformaram em
tremendos mafuás. Governantes populistas permitiram aos vendedores total
liberdade para que vendessem suas mercadorias indiscriminadamente, prejudicando
as firmas tradicionais e os ambulantes famosos que tanto souberam cumprir sua
missão, seja no tratamento dispensado ao freguês, seja no zelo com o produto ou
na maneira como trabalhavam.” (5)
[Nota do Autor: (5) Ao final de 1982, Léo Borges Ramos (o saudoso ‘Barão’) já
registrava o fato em sua coluna do jornal ‘IpanemAgora’,
de nº 42: “A intolerância discrimina e divide
a praia em áreas definidas. A liberdade de ser e fazer é tolhida e coibida. E a
miséria se reflete no desespero com que surgem verdadeiras quitandas pela
praia, onde já se veem fogareiros armados, fritando peixe, numa tentativa vã de
sobrevivência”.
Em janeiro de 1984, afirmava Mônica
Cherulli Alves em reportagem sobre o assunto no jornal de bairro ‘Rio Zona Sul’ nº 74, de janeiro de
1984: “A falta de fiscalização nas
praias do Rio tem prejudicado mais de mil vendedores ambulantes que estão
perdendo seu lucro e fregueses para as barraquinhas não licenciadas instaladas
em pontos fixos do Leme até São Conrado”. “(...) Até agora os vendedores que
pagam seus impostos esperam providências das autoridades (...). O ambulante é
obrigado a percorrer a praia carregando nos ombros dois bujões de refresco
(...), enquanto os vendedores não licenciados têm a proteção das barracas, sem
a preocupação de terem que se deslocar à procura de fregueses.”
Na mesma edição do Rio Zona
Sul, lia-se no Editorial: “Na zona
sul do Rio, o mar abraça a metrópole numa explosão de beleza e harmonia. Mas o
que poderia ser um privilégio tornou-se medo e morte, pela explosão da
guerrilha urbana de verão. É assalto, violência, exploração comercial, abuso de
autoridade e tantos outros tipos de agressão aos direitos do homem, que viver
na zona sul é, antes de tudo, um ato de coragem”.]
“Andando nas praias eles não ocupavam espaço nenhum, deixando o
banhista inteiramente à vontade, o que não ocorre hoje, pois o banhista não tem
quase mais lugar para ficar. As barracas e os vendedores fixos e sem licença
estão tomando todos os espaços, isso em falar nos acidentes. Eu mesmo já fui
cortado por uma garrafa quebrada.”
“Muitas outras pessoas
foram também prejudicadas com essas barracas, que são coladas umas nas outras.
Acredito que, com o passar do tempo, todos os espaços da praia serão reservados
apenas para as barracas, a não ser que as autoridades tomem uma medida urgente,
o que acho bastante difícil.” (6)
[Nota do Autor: (6)
Os vendedores fixos de refrigerante começaram a se instalar nas praias
cariocas na segunda metade do decênio 1970.]
DISCRIMINAÇÃO SOCIAL E OS SANDUÍCHES
“Eu, com vinte anos de vendedor, também fiquei muito surpreendido
com a discriminação que existe nas praias da zona sul. A rapaziada local não
faz por menos. Se, num lugar qualquer, os garotões perceberem que há pessoas do
Méier, São Cristóvão, Tijuca e demais bairros pertencentes à zona norte e
subúrbios, eles procuram se afastar ao máximo, pois aquele local não serve para
eles, uma vez que ali se encontram bastante suburbanos. Notem que a
discriminação é grande.”
“Nesses últimos anos, surgiu nas praias cariocas um produto que
foi muito bem aceito pelos banhistas. Trata-se do famoso sanduíche natural,
cuja origem vem dando o que falar.” (7)
[Nota do Autor: (7) A
introdução do sanduíche natural nas praias do Rio de Janeiro deve-se a Kleber Mendes (1951-), estudante,
maratonista e frescobolista, conhecido por ‘Índio’. No verão de 1976, nas areias de Ipanema, vendia sanduíches
em pão integral: ricota com cenoura, beterraba com abacaxi, banana com ricota,
canela e mel, frango com abacaxi cru, salada de atum, salada de ovo e outros. Pouco
depois surgia a ‘Pureza’, uma
pequena empresa radicada em Botafogo, de propriedade do arquiteto Joaquim Barata e um sócio, oferecendo
pãezinhos de centeio recheados com pastas diversas chegadas à macrobiótica – o Restaurante Natural já existia desde
1974, também em Botafogo. A moda pegou, tomando conta das praias cariocas. E
brasileiros e estrangeiros, das mais variadas profissões, passaram a disputar e
inflacionar o mercado.]
“Um fato curioso que existe nesse tipo de venda é que os ambulantes são uma espécie de vendedores especiais, pois se tratam de garotões charmosos, daqueles que costumam ser chamados de ‘filhinhos de papai’, termo utilizado para distinguir os filhos de pais ricos dos filhos dos pobres. Há também lindas garotas que enfrentam a venda do sanduíche natural, ignorando assim aquele tabu de que os ambulantes, em realidade, são pessoas mais necessitadas.”
“Antes do aparecimento do sanduíche natural havia nas praias, na década de 1960, uns sanduíches comuns, de queijo, presunto, misto e maionese de presunto, que tinham o nome de ‘Panduíche’ e ‘Big Sands’. Em pão de forma cortado em dois pedaços, eram embalados em papel celofane numa caixinha de papelão, e vendidos por ambulantes de uniforme amarelo (‘Big Sands’) e branco e azul (‘Panduíche’), que os carregavam em um tabuleiro de madeira com três andares, de corte lateral e pendurado ao pescoço por uma alça.”
“E tinha também cachorro-quente da marca ‘Geneal’, na areia e em carrocinhas fixas na calçada, de cores azul,
vermelha e branca, onde se faziam ainda pizzas brotinhos, na hora, à vista do
freguês.”
[Continua na III e última parte]
Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO







2 comentários:
Uaaaaaaaaaaau!! Outra pequena obra-prima esse acervo de fotos mais o texto do Fernando Moura Peixoto! Para quem morou anos na Figureiredo Magalhães como eu, as recordações dos sanduíches naturais, do mate-me lembro que eu sempre ficava 'meio em dúvida' se pedia mate limão ou mate sabor natural-, assim como lembrei-me do pastel de camarão não recordo quem vendia; das garotas cujos namoros começaram nas areias...e eu, minha querida e saudossíssima mãe, sentada naquela cadeira de paraia, como um poema perdido...Ainda hoje parece que ela está lá, estendida e queimando ao sol...Numa espécie de mosaico ou dança das cadeiras de praia coloridas. Caramba, que saudades!!!
As fotos são esplêndidas não só pela óbvia clareza de imagens, expressividade das fisionomias etc., como também pela cronologia desde o ínico do século XX até datas mais atuais.
E fiquei stranhamente satisfeito, já que sempre quis saber onde ficavam as famosas Dunas da Gal e vi a foto, não imaginava que fosse ali de forma alguma, pensei que ficavam bem longe do mar. Os surfistas da época chamavam o Pier de 'point of Pines' pelo menos certa vez escutei isso nas areias, algo tipo um apelido ou gíria entre eles...
...Como fui esquecer??? Os biscoitos de polvilho da marca Globo, gente!! Outro dia desses, no Grajaú, entrei na Casa do Biscoito e lá estavam eles, todos arrumados na gôndola, mas sem a sensação daqueles dias tépidos na areia de Copa. Eles estavam ali, desanimados, sem a vida que tinham quando o vendedor passava com aquele sacolão e a mamãe, ou eu, fazíamos sinal para que ele parasse e comprávamos, salgado, doce, o que vinha na hora. Como pude esquecer? Mas não esquecerei. Nunca. Momentos felizes são eternos.
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