sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Botafogo 4x0 Cruzeiro – alma lavada com a maior goleada do clássico

Crédito: Vitor Silva | Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A minha expectativa sobre o confronto era muito grande considerando a belíssima campanha do Cruzeiro em 2025 – apesar de atualmente não se mostrar tão letal no campeonato mineiro – e a transformação que está sendo operada no modelo de jogo do Botafogo, enfrentando o seu primeiro grande teste em 2026, além de um frente a frente centrado nos novos treinadores dos dois clubes.

Surpreendentemente, ou não, o Botafogo iniciou a partida tomando as rédeas das operações atacantes com domínio do meio-campo, posse de bola e anulação da saída do Cruzeiro para o ataque devido à postura alta da zaga – o que, aliás, já mencionei em análises anteriores ser uma postura exagerada e perigosa, porque contra adversários muito velozes e transições em profundidade poderemos ser desagradavelmente surpreendidos.

Não obstante, o Botafogo dominou as operações no primeiro quarto de hora, que culminou numa falta cobrada por Alex Telles na ala direita e Newton por pouco não introduziu a bola na baliza cruzeirense, cabeceando rente ao segundo poste.

O Cruzeiro vivia de chutão para a frente em busca de Kaio Jorge, enquanto o Botafogo rodava bem a bola, imprimia velocidade e anulava bem os seus oponentes, especialmente Gérson, que era bem marcado, mas não logrou ser suficientemente efetivo para abrir o placar, o que teoricamente lhe criaria outras oportunidades se o adversário se abrisse mais na sua defesa.

Porém, a partir desse quarto de hora o Cruzeiro arrumou-se melhor, acertou os passes para o meio e paulatinamente virou o jogo em seu favor, especialmente procurando buscar a velocidade de Kaio Jorge para surpreender o trio de zagueiros do Glorioso, fazendo-o especialmente nas costas de Mateo Ponte.

Efetivamente, a zaga posicionava-se demasiado alta e os lances em profundidade geraram calafrios na nossa defesa, tendo a sorte estado do nosso lado, porque como a linha de zaga estava muito alta os impedimentos do Cruzeiro sucederam-se – talvez uns quatro – e foi isso mesmo que aconteceu aos 21’ quando Kaio Jorge recebeu a bola em profundidade pela esquerda, ludibriou o goleiro e rematou para as redes. Mas estava milimetricamente impedido.

Se o Cruzeiro tivesse marcado, a sorte do jogo poderia ter sido outra, tanto mais que continuou atacando e virou a posse de bola em seu favor. Os ataques continuaram e aos 30’ foi a vez de Neto brilhar defendendo um remate cara a cara de Kaio Jorge; aos 38’ o Cruzeiro teve nova oportunidade de gol num lançamento em grande profundidade nas costas da zaga muito subida e Neto realizou uma das melhores defesas da noite.

Aos 40’ conseguimos um bom ataque, mas Allan, em vez de servir o companheiro, chutou para a lua. E após isso o Cruzeiro continuou na sua saga atacante: aos 41’ Gérson atacou pela direita, fez o cruzamento e Wanderson quase marcou de cabeça; aos 43’ há novo ataque salvo por Alexander Barboza no preciso momento do remate do adversário.

A fechar a primeira parte Allan rematou novamente de fora da área, mas muito por cima do travessão.

O Cruzeiro terminou os primeiros 45 minutos com ascendente e poderia pensar-se que os mineiros estavam no bom caminho para reencontrar os seus bons desempenhos de 2025 e mantivessem a ‘trágica’ sucessão de vitórias sobre o Botafogo; ao contrário, da parte do Botafogo esperava-se que Anselmi, pelas suas características pessoais e capacidade de leitura do jogo, industriasse os atletas para uma melhor arrumação posicional de modo a placar os avanços do Cruzeiro e conseguir sair em velocidade para o ataque, abrindo o placar.

Efetivamente foi a visão de Anselmi que venceu. O Botafogo entrou decididamente ao ataque, tocando a bola com mais rapidez – desarticulando a defesa contrária – e criando uma oportunidade dentro da área aos 46’; na jogada seguinte, aos 47’, em deslocação rápida pelo lado esquerdo, Álvaro Montoro enfileirou quatro adversários livrando-se deles com enorme categoria, tocou para Arthur Cabral, que fez o pivô e assistiu Danilo que, à entrada da área, e acossado por dois adversários, rematou implacavelmente junto ao poste do lado direito de Cássio, concluindo uma jogada formidavelmente trabalhada na fonte por Montoro e sequenciada por Cabral: Botafogo 1x0.

Esta entrada fulgurante do Glorioso não desanimou o Cruzeiro, que foi em busca do empate, mas as suas transições já não eram tão surpreendentes porque a zaga recuou ligeiramente, mantendo-se subida mas não tanto como na primeira parte. Não obstante, os ataques continuaram – embora sem a eficácia pretendida – e aos 60’ Neto fez uma grande defesa a remate frontal de Gérson a meia altura.

Anselmi não gostou do que estava vendo e aos 62’ entraram Artur no lugar de Allan e Matheus Martins no lugar de Arthur Cabral, claramente para aumentar a velocidade dos contra-ataques com Martins e melhorar o jogo pelo meio com Artur – mentalmente eu já pedira estas substituições. Não que Allan e Cabral tenham atuado mal, mas nem um nem outro são eficientes na grande área e no último remate. Em minha opinião, Marlon Freitas, saído para o Palmeiras, e Arthur Cabral, não tornavam as jogadas flexíveis, muitas vezes tratadas burocraticamente por um e com mau posicionamento do outro – algo que não cola com o pragmatismo operacional de Anselmi.

Crédito: Arthur Barreto | Botafogo.

Aos 67’ o Cruzeiro ainda equilibrava a partida sem jogadas iminentes de gol, mas daí em diante, em conluio com Álvaro Montoro, Santi Rodríguez e Danilo, Matheus Martins e Artur justificaram inteiramente as mudanças estratégicas de Martín Anselmi.

Aos 69’ o Botafogo fez uma grande jogada em bola corrida e o zagueiro cruzeirense salvou in extremis a ampliação do placar, mas o Botafogo, novamente dono do meio-campo, imprimindo maior velocidade com mudanças mais rápidas de flanco, foi desgastando os adversários.

Aos 73’ novamente uma grande jogada com selo de gol foi salva por Cássio espalmando a bola e no minuto seguinte o Cruzeiro perdeu a última oportunidade de empatar com Kaio Jorge, que foi lento no instante do remate e acabou desfeiteado por Danilo em antecipação in extremis – provando que estava presente em todo o terreno, fosse na defesa, no meio ou no ataque.

E aos 75’ o show final do Botafogo, que havia quebrado e cansado os adversários mediante uma defesa segura, um meio-campo muito ativo e um ataque imprevisível, iniciou de modo impiedoso o ‘esmagamento’ do Cruzeiro e lavou a alma de todos os botafoguenses: os adversários, muito adiantados, perderam a bola a meio do nosso campo para Montoro, que efetuou um lançamento em profundidade para o contra golpe devastador de Matheus Martins, o qual suportou o acossamento do zagueiro, derivou para o lado direito dentro da grande área e rematou cruzado ao segundo poste. Botafogo 2x0.

Totalmente batido e abatido, o adversário entregou os pontos e o Botafogo ensaiou a maior goleada registrada contra o Cruzeiro (que era de 1x4): aos 85’, numa grande jogada, Danilo avançou pelo lado direito, mas subitamente tocou de calcanhar para o meio, Newton recebeu virando de primeira o jogo para o lado esquerdo, Nathan Fernandes agradeceu e sem perder tempo cruzou para o miolo da grande área onde o próprio Danilo, que durante a jogada ia em velocidade para a área, se apresentou livre para cabecear na perfeição para o canto direito de Cássio que nada pôde fazer: Botafogo 3x0.

Porém, era preciso igualar a maior goleada (em 2000) imposta pelo Cruzeiro ao Botafogo: aos 90+1’, num contra-ataque velocíssimo e implacável, Artur recebeu a bola, disparou para a área, superou o zagueiro, driblou Cássio e à moda de Túlio Maravilha tocou suavemente para a baliza totalmente escancarada do destroçado rival: Botafogo 4x0!!!

Fim de tabu, goleada que respondeu à maior goleada do Cruzeiro sobre nós, liderança do campeonato brasileiro pelo saldo de gols e liderança da artilharia com dois gols de Danilo.

Em notas finais há que dizer que Arthur Cabral foi o único que destoou de notas elevadas para todos; que Neto me surpreendeu porque tem sido em toda a carreira um goleiro reserva; e que Álvaro Montoro, Danilo, Sant Rodríguez e Martín Anselmi mereceram nota máxima.

Noite que nos fez recordar certas noites de 2024 e que queremos que se repita, que Anselmi consolide o posicionamento do sistema de três zagueiros para não ser permeável a contra-ataques muito velozes, que Textor resolva as trapalhadas financeiras porque a sua saída poderia ser bem pior do que a sua permanência e que, assim, possamos regularizar os atletas já contratados e eventualmente ampliar esse reforço – porque Anselmi parece realmente ser bom treinador, mas não é ilusionista para tirar coelhos da cartola se os coelhos não existirem.

União, ambição e cabeça no lugar de modo a ousarmos criar, lutar e vencer!

FICHA TÉCNICA

Botafogo 4x0 Cruzeiro

» Gols: Danilo, aos 2’ e 85’, Matheus Martins, aos 75’, e Artur, aos 90+1’

» Competição: Campeonato Brasileiro

» Data: 29.01.2026

» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro (RJ)

» Público: 15.307 pagante; 16.901 espectadores

» Renda: R$ 538.780,00

» Árbitro: Matheus Delgado Candançan (SP); Assistentes: Brigida Cirilo Ferreira (AL) e Schumacher Marques Gomes (PB); Var: Rodrigo Guarizo Ferreira do Amaral (SP)

» Disciplina: cartão amarelo – Allan e Martín Anselmi (Botafogo) e Lucas Silva e Kenji (Cruzeiro)

» Botafogo: Neto; Mateo Ponte, Newton e Alexander Barboza; Vitinho, Allan (Artur), Danilo e Alex Telles (Marçal); Santi Rodríguez (Jordan Barrera), Arthur Cabral (Matheus Martins) e Álvaro Montoro (Nathan Fernandes). Técnico: Martín Anselmi.

» Cruzeiro: Cássio; Fagner, Fabrício Bruno, Jonathan Jesus (João Marcelo) e Kaiki Bruno; Lucas Romero (Matheus Henrique), Lucas Silva (Christian) Gerson (Kenji) e Matheus Pereira; Wanderson (Arroyo) e Kaio Jorge. Técnico: Tite.

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