por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
A minha expectativa sobre o confronto era muito grande
considerando a belíssima campanha do Cruzeiro em 2025 – apesar de atualmente
não se mostrar tão letal no campeonato mineiro – e a transformação que está
sendo operada no modelo de jogo do Botafogo, enfrentando o seu primeiro grande
teste em 2026, além de um frente a frente centrado nos novos treinadores dos
dois clubes.
Surpreendentemente, ou não, o Botafogo iniciou a partida
tomando as rédeas das operações atacantes com domínio do meio-campo, posse de
bola e anulação da saída do Cruzeiro para o ataque devido à postura alta da
zaga – o que, aliás, já mencionei em análises anteriores ser uma postura
exagerada e perigosa, porque contra adversários muito velozes e transições em
profundidade poderemos ser desagradavelmente surpreendidos.
Não obstante, o Botafogo dominou as operações no
primeiro quarto de hora, que culminou numa falta cobrada por Alex Telles na ala
direita e Newton por pouco não introduziu a bola na baliza cruzeirense,
cabeceando rente ao segundo poste.
O Cruzeiro vivia de chutão para a frente em busca de
Kaio Jorge, enquanto o Botafogo rodava bem a bola, imprimia velocidade e
anulava bem os seus oponentes, especialmente Gérson, que era bem marcado, mas
não logrou ser suficientemente efetivo para abrir o placar, o que teoricamente
lhe criaria outras oportunidades se o adversário se abrisse mais na sua defesa.
Porém, a partir desse quarto de hora o Cruzeiro
arrumou-se melhor, acertou os passes para o meio e paulatinamente virou o jogo
em seu favor, especialmente procurando buscar a velocidade de Kaio Jorge para
surpreender o trio de zagueiros do Glorioso, fazendo-o especialmente nas costas
de Mateo Ponte.
Efetivamente, a zaga posicionava-se demasiado alta e
os lances em profundidade geraram calafrios na nossa defesa, tendo a sorte estado
do nosso lado, porque como a linha de zaga estava muito alta os impedimentos do
Cruzeiro sucederam-se – talvez uns quatro – e foi isso mesmo que aconteceu aos
21’ quando Kaio Jorge recebeu a bola em profundidade pela esquerda, ludibriou o
goleiro e rematou para as redes. Mas estava milimetricamente impedido.
Se o Cruzeiro tivesse marcado, a sorte do jogo poderia
ter sido outra, tanto mais que continuou atacando e virou a posse de bola em
seu favor. Os ataques continuaram e aos 30’ foi a vez de Neto brilhar
defendendo um remate cara a cara de Kaio Jorge; aos 38’ o Cruzeiro teve nova
oportunidade de gol num lançamento em grande profundidade nas costas da zaga
muito subida e Neto realizou uma das melhores defesas da noite.
Aos 40’ conseguimos um bom ataque, mas Allan, em vez
de servir o companheiro, chutou para a lua. E após isso o Cruzeiro continuou na
sua saga atacante: aos 41’ Gérson atacou pela direita, fez o cruzamento e
Wanderson quase marcou de cabeça; aos 43’ há novo ataque salvo por Alexander
Barboza no preciso momento do remate do adversário.
A fechar a primeira parte Allan rematou novamente de
fora da área, mas muito por cima do travessão.
O Cruzeiro terminou os primeiros 45 minutos com
ascendente e poderia pensar-se que os mineiros estavam no bom caminho para
reencontrar os seus bons desempenhos de 2025 e mantivessem a ‘trágica’ sucessão
de vitórias sobre o Botafogo; ao contrário, da parte do Botafogo esperava-se
que Anselmi, pelas suas características pessoais e capacidade de leitura do
jogo, industriasse os atletas para uma melhor arrumação posicional de modo a
placar os avanços do Cruzeiro e conseguir sair em velocidade para o ataque,
abrindo o placar.
Efetivamente foi a visão de Anselmi que venceu. O
Botafogo entrou decididamente ao ataque, tocando a bola com mais rapidez – desarticulando
a defesa contrária – e criando uma oportunidade dentro da área aos 46’; na
jogada seguinte, aos 47’, em deslocação rápida pelo lado esquerdo, Álvaro
Montoro enfileirou quatro adversários livrando-se deles com enorme categoria,
tocou para Arthur Cabral, que fez o pivô e assistiu Danilo que, à entrada da
área, e acossado por dois adversários, rematou implacavelmente junto ao poste
do lado direito de Cássio, concluindo uma jogada formidavelmente trabalhada na
fonte por Montoro e sequenciada por Cabral: Botafogo 1x0.
Esta entrada fulgurante do Glorioso não desanimou o
Cruzeiro, que foi em busca do empate, mas as suas transições já não eram tão
surpreendentes porque a zaga recuou ligeiramente, mantendo-se subida mas não
tanto como na primeira parte. Não obstante, os ataques continuaram – embora sem
a eficácia pretendida – e aos 60’ Neto fez uma grande defesa a remate frontal
de Gérson a meia altura.
Anselmi não gostou do que estava vendo e aos 62’ entraram
Artur no lugar de Allan e Matheus Martins no lugar de Arthur Cabral, claramente
para aumentar a velocidade dos contra-ataques com Martins e melhorar o jogo pelo
meio com Artur – mentalmente eu já pedira estas substituições. Não que Allan e
Cabral tenham atuado mal, mas nem um nem outro são eficientes na grande área e
no último remate. Em minha opinião, Marlon Freitas, saído para o Palmeiras, e
Arthur Cabral, não tornavam as jogadas flexíveis, muitas vezes tratadas
burocraticamente por um e com mau posicionamento do outro – algo que não cola
com o pragmatismo operacional de Anselmi.
Aos 67’ o Cruzeiro ainda equilibrava a partida sem
jogadas iminentes de gol, mas daí em diante, em conluio com Álvaro Montoro, Santi
Rodríguez e Danilo, Matheus Martins e Artur justificaram inteiramente as mudanças
estratégicas de Martín Anselmi.
Aos 69’ o Botafogo fez uma grande jogada em bola
corrida e o zagueiro cruzeirense salvou in
extremis a ampliação do placar, mas o Botafogo, novamente dono do
meio-campo, imprimindo maior velocidade com mudanças mais rápidas de flanco,
foi desgastando os adversários.
Aos 73’ novamente uma grande jogada com selo de gol
foi salva por Cássio espalmando a bola e no minuto seguinte o Cruzeiro perdeu a
última oportunidade de empatar com Kaio Jorge, que foi lento no instante do
remate e acabou desfeiteado por Danilo em antecipação in extremis – provando que estava presente em todo o terreno, fosse
na defesa, no meio ou no ataque.
E aos 75’ o show
final do Botafogo, que havia quebrado e cansado os adversários mediante uma
defesa segura, um meio-campo muito ativo e um ataque imprevisível, iniciou de modo impiedoso o ‘esmagamento’ do Cruzeiro e lavou a alma
de todos os botafoguenses: os adversários, muito adiantados, perderam a bola a
meio do nosso campo para Montoro, que efetuou um lançamento em profundidade para
o contra golpe devastador de Matheus Martins, o qual suportou o acossamento do
zagueiro, derivou para o lado direito dentro da grande área e rematou cruzado ao
segundo poste. Botafogo 2x0.
Totalmente batido e abatido, o adversário entregou os
pontos e o Botafogo ensaiou a maior goleada registrada contra o Cruzeiro (que
era de 1x4): aos 85’, numa grande jogada, Danilo avançou pelo lado direito, mas
subitamente tocou de calcanhar para o meio, Newton recebeu virando de primeira
o jogo para o lado esquerdo, Nathan Fernandes agradeceu e sem perder tempo
cruzou para o miolo da grande área onde o próprio Danilo, que durante a jogada
ia em velocidade para a área, se apresentou livre para cabecear na perfeição
para o canto direito de Cássio que nada pôde fazer: Botafogo 3x0.
Porém, era preciso igualar a maior goleada (em 2000) imposta
pelo Cruzeiro ao Botafogo: aos 90+1’, num contra-ataque velocíssimo e
implacável, Artur recebeu a bola, disparou para a área, superou o zagueiro,
driblou Cássio e à moda de Túlio Maravilha tocou suavemente para a baliza
totalmente escancarada do destroçado rival: Botafogo 4x0!!!
Fim de tabu, goleada que respondeu à maior goleada do
Cruzeiro sobre nós, liderança do campeonato brasileiro pelo saldo de gols e
liderança da artilharia com dois gols de Danilo.
Em notas finais há que dizer que Arthur Cabral foi o
único que destoou de notas elevadas para todos; que Neto me surpreendeu porque
tem sido em toda a carreira um goleiro reserva; e que Álvaro Montoro, Danilo,
Sant Rodríguez e Martín Anselmi mereceram nota máxima.
Noite que nos fez recordar certas noites de 2024 e que
queremos que se repita, que Anselmi consolide o posicionamento do sistema de
três zagueiros para não ser permeável a contra-ataques muito velozes, que
Textor resolva as trapalhadas financeiras porque a sua saída poderia ser bem
pior do que a sua permanência e que, assim, possamos regularizar os atletas já
contratados e eventualmente ampliar esse reforço – porque Anselmi parece
realmente ser bom treinador, mas não é ilusionista para tirar coelhos da
cartola se os coelhos não existirem.
União, ambição e
cabeça no lugar de modo a ousarmos criar, lutar e vencer!
FICHA TÉCNICA
Botafogo 4x0 Cruzeiro
» Gols: Danilo, aos 2’ e 85’, Matheus Martins, aos
75’, e Artur, aos 90+1’
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 29.01.2026
» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro
(RJ)
» Público: 15.307 pagante; 16.901 espectadores
» Renda: R$ 538.780,00
» Árbitro: Matheus Delgado Candançan (SP);
Assistentes: Brigida Cirilo Ferreira (AL) e Schumacher Marques Gomes (PB); Var:
Rodrigo Guarizo Ferreira do Amaral (SP)
» Disciplina: cartão amarelo – Allan e Martín Anselmi
(Botafogo) e Lucas Silva e Kenji (Cruzeiro)
» Botafogo: Neto; Mateo Ponte, Newton e Alexander Barboza;
Vitinho, Allan (Artur), Danilo e Alex Telles (Marçal); Santi Rodríguez (Jordan
Barrera), Arthur Cabral (Matheus Martins) e Álvaro Montoro (Nathan Fernandes).
Técnico: Martín Anselmi.
» Cruzeiro: Cássio; Fagner, Fabrício Bruno, Jonathan
Jesus (João Marcelo) e Kaiki Bruno; Lucas Romero (Matheus Henrique), Lucas
Silva (Christian) Gerson (Kenji) e Matheus Pereira; Wanderson (Arroyo) e Kaio
Jorge. Técnico: Tite.


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