por LÚCIA SENNA | Escritora e cantora |
Colunista do Mundo Botafogo
Sempre
tive medo de doença. Gosto tanto da vida, que qualquer sinal suspeito no corpo
me parece logo um aviso dramático de que minha permanência no planeta está por
um fio. Mas houve uma época em que a coisa saiu completamente do controle.
Depois de
uma pequena cirurgia para retirar um cisto no ovário, desmaiei durante o café
da manhã. Acordei na casa da vizinha, com mamãe em estado de pânico – suspeito,
aliás, que ela também tivesse certo talento para a hipocondria.
A partir
daquele dia, meu organismo se transformou numa verdadeira fábrica de tragédias
médicas.
Dor nas
costas? Fratura exposta. Dormência nas pernas? Doença raríssima que certamente
levaria à amputação do dedão do pé. Cisco no olho? Cegueira iminente.
Resfriado? Pneumonia dupla. Verruga na mão? Tumor maligno. Dor de cabeça?
Aneurisma.
Resultado:
mãos suadas, coração disparado e a contínua sensação de morte imediata.
Diagnóstico final: síndrome do pânico.
Foi então
que uma prima me ofereceu o telefone de uma psicóloga chamada Sara.
Liguei. E,
naquele instante, fiquei encantada. A voz de Sara era uma coisa extraordinária.
Aveludada, firme, cheia de curvas, de ritmos... uma voz que parecia caminhar de
salto alto. Imediatamente imaginei uma mulher elegante, bonita, segura – dessas
que quando passam, todos percebem.
Marquei a
consulta. Na hora combinada, cheguei à pequena sala de espera de um consultório
dividido por três psicólogas. Ambiente simpático, discreto, aconchegante.
Às dez em
ponto, a porta de um dos consultórios se abriu.
– Lúcia?
Levantei...
e levei um choque. Aquela senhora não tinha absolutamente nada a ver com a voz
que havia conhecido pelo telefone. NADA!
Sara era
enorme. Muito obesa. E, digamos com carinho, bastante distante da figura
elegante que minha imaginação havia criado. Mas a voz... ah, a voz continuava a
mesma. Sexy. Sedutora. Musical.
Entrei.
Sara
acomodou-se numa poltrona gigantesca, cercada de almofadas, como se fosse um
trono. Ao lado, havia uma mesinha com garrafas d’água – exclusivamente pra ela
– e uma generosa coleção de guloseimas: jujubas, amendoins, paçocas, chicletes.
Sentei
numa cadeira bem menos confortável. Comecei, então, a desfiar o meu rosário de
medos. Expliquei cada sintoma, cada doença raríssima que tinha certeza de estar
desenvolvendo dia após dia.
Sara
ouvia... mastigando. De boca cheia, dizia apenas:
– Conta
mais. - e eu contava...
– Mais. -
e eu continuava...
Entre uma
jujuba e uma paçoca, Sara me incentivava:
– Mais
detalhes.
Uma hora
depois, o despertador tocava. Tempo encerrado. Assim foram muitas semanas. Eu
chegava com novas doenças imaginárias. Sara chegava com novas guloseimas.
Até que um
dia, durante uma sessão, aconteceu o impensável. No meio da minha frase mais
dramática – aquela em que relatava uma crise existencial que mereceria, no
mínimo, um franzir de sobrancelhas profissional – percebi um silêncio estranho.
Olhei melhor.
Sara
dormia.
Não, não
era um cochilo discreto. Era um sono convicto, profundo, daqueles que fazem a
cabeça pender levemente para o lado e a boca se abrir num pequeno abandono
terapêutico. Fiquei alguns segundos paralisada, entre a indignação e a
vergonha. Mas a indignação venceu.
– Sara?... – arrisquei, num tom que misturava
delicadeza e revolta.
Ela
despertou num pulo curto, olhos arregalados, um leve vestígio de baba ameaçando
comprometer a autoridade científica da cena.
– Eu não
estava dormindo! – declarou imediatamente, ajeitando-se na poltrona com
dignidade apressada.
– Eu
estava em alfa.
Fez uma
pequena pausa, como quem revela um conceito sofisticadíssimo da neurociência:
– É um
estado em que o inconsciente fica mais ativo.
Fiquei
olhando pra ela alguns segundos. Confesso que, naquele momento, tive a forte
impressão de que o inconsciente dela estava ativo... em outra dimensão.
Observei que, na mesinha, não havia nem paçocas nem jujubas nem amendoins.
Provavelmente, a secretária tinha esquecido de abastecer o estoque terapêutico.
E Sara, faminta como ela só, acabou por adormecer. Afinal, sono também
alimenta.
Mas o
verdadeiro final dessa história viria pouco tempo depois.
Certo dia,
Sara resolveu ocupar toda a sessão me contando um drama pessoal: a empregada
havia entrado com uma ação contra ela. O motivo? Sara não pagava direitos
trabalhistas – décimo terceiro, férias e outras formalidades que a lei exige.
Enquanto
ouvia aquilo, um detalhe me deixou gelada. Eu trabalhava no INSS. E o processo
havia caído justamente na unidade onde trabalhava.
Foi,
então, que Sara, com sua linda voz aveludada e sedutora, me fez um pedido:
– Será que
você poderia sumir com esse processo?
FIQUEI
HORRORIZADA!!!!
Levantei
daquela cadeira pouco confortável e saí da sala com a sensação de que estava
assistindo a algo verdadeiramente preocupante.
Nunca mais
voltei. Mas devo confessar uma coisa: talvez Sara tenha mesmo me ajudado.
Depois de ouvir uma psicóloga mastigando jujubas, dormindo no meio da consulta
e pedindo fraude no INSS... qualquer fratura exposta passou a parecer um
problema bem menor.
Nota do
Mundo Botafogo: todas as crônicas da autora podem ser lidas na
etiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras lúciasenna [42 dessas
crônicas foram posteriormente publicadas, mas a edição está esgotada].

21 comentários:
Lucia , querida amiga! Essa história é demais pra minha cabeça. Se eu não fosse psicóloga provavelmente iria dar umas boas risadas. Sendo, fico revoltada com tamanho absurdo . Deverias tê-la denunciado ao conselho de psicologia.
Enfim, sempre há tempo.
Beijão da Márcia Mesquita.
Lucia Senna sempre nos trazendo suas hilarias experiências de vida.Mas dessa vez, a psicóloga da voz suave ultrapassou todos os limites da decência.
Credo, fiquei Pasma!
Abraços .
Teodora
Boa tarde, cronista !
Sou seu fã desde que você publicou suas primeiras crônicas. Por vezes, ainda passo em revista, algumas delas e realmente são sensacionais.
Hoje você nos traz A VOZ DE SARA. É inacreditável o que aconteceu. Mas, você soube aproveitar muito bem a história e deixou a psicóloga eternizada na crônica. Como sempre transformou o limão amargo numa deliciosa limonada.
Em todas as profissões, sem excepção, há joio e trigo e é fundamental conseguirmos isolar um do outro relativamente a qualquer profissional, mas o grande realce da crônica é a atitude ética e imediata que a Lúcia teve naquele momento, tal como em toda sua vida. E, assim como escreveu o fã Anônimo, Lúcia mostrou novamente a enorme capacidade que tem em nos contagiar com as suas histórias, independentemente de tratarem assuntos sérios ou mundanos ou simplesmente saber rir de algumas das suas deliciosas 'trapalhadas' reais.
Afinal, a Lúcia Senna é a melhor cronista da vida real que eu alguma vez conheci!
Beijocas hilárias!
Maravilhoso e certeiro o comentário do nosso grande Ruy Moura que administra o melhor blogue do planeta. Sou completamente apaixonado pelo Mundo Botafogo e também por essa cronista espetacular-- para ser cronista do blogue tinha que ser -- que nos presenteia com escritos saborosos que dá gosto de ler . São textos leves mesmo que o final seja pesado como no caso da psicóloga SARA.
Parabéns, Lúcia! Você faz falta!
Alan Silveira
Lúcia, você me faz rir um bocado. Você conta uma história como ninguém..kkkk.
Consigo perceber com clareza a figura da obesa psicóloga sentada numa poltrona que mais parecia um trono, tendo ao lado una mesinha recheada de guloseimas...e a te ouvir mastigando de boca cheia e dizendo apenas: " Conte mais."
É hilariante! Kkkk
Abraços gloriosos
Inácio Coelho
Estimado Alan Silveira, grato pela sua cortesia elogiosa ao Mundo Botafogo - o que constitui mais um estímulo ao nosso trabalho -, um blogue que exige grande intensidade de pesquisa, mas que ao longo de quase 19 anos tem cumprido a sua missão de compilar e divulgar toda a história sobre o passado e o presente do grande Clube da Estrela Solitária brilhando sem fim, e promover reflexões sobre o futuro que se deseja sempre Glorioso. Bem-haja!
Grande Abraço!
Que bom que a Sara se comportou mal. Se tivesse sido uma psicóloga " normal" a Lucia Senna não teria feito essa crônica.
Sei que devem estar me criticando. Aceito a crítica. Mas vocês hão de concordar comigo : essa crônica não existiria, o que seria uma pena.
Cleide
Apenas uma palavra: Adorei! NEY
Lúcia, sua vida é mesmo cheia de "causos" que vc transforma em crônicas saborosas e divertidas. Não bastasse Dom Carlito, agora vc nos apresenta Sara!
Fico imaginando o que aconteceria se essas duas figuras se encontrassem!! Já pensou o Carlito Tangueiro tentando deslizar pelo salão de uma gafieira qualquer com a Sara Aveludada? Fico pensando nas frases que ele soltaria ... Enquanto Sara, talvez respondesse: Conte mais!
Quem sabe vc não nos brindará com a história desse momento improvável e nos dará mais motivos para deliciosas gargalhadas? 😂😂
Parabéns, querida!
Sol de Anlarec
Pois é, Márcia! O certo teria sido denunciá- la.No entanto, não fiz. A crônica foi uma saída que encontrei, já que o nosso blogue é visto pelo mundo todo. Beijão !
Ah, Teodora... Podes imaginar como me senti ao tomar conhecimento do fato de estar entregando meus problemas pra tão detestável criatura? Minha cabeça ficou em estado de choque. Tens razão, Sara foi além de todos os limites. Beijocas e obrigada pelo retorno.
Foi a forma que encontrei , pois SARA deixou-me atordoada. Ainda bem que existe o nosso blogue, pois como já comentei acima, é visto por meio mundo. Compartilhando esse fato com vocês, o peso dividido fica mais fácil de digerir. E pra digestão se fazer mais rapidamente, nada melhor que uma boa e gostosa limonada kkkkk Grande abraço !
Ruy, meu querido ! Receber um elogio teu é algo tão especial, mas tão especial ... que as palavras me faltam. És uma pessoa admirável e um comentário teu deixa meu coração batendo descompassadamente. Leio mil vezes, bebo um copo d agua gelado, respiro fundo e fico feliz o resto do dia, da semana , quiça do mês. E, quando dizes que sou a melhor cronista da vida real que alguma vez conheceste....meus olhos ficam úmidos da mais doce emoção. E não venhas me dizer que sou exagerada, pois é a mais pura verdade. Abraço apertado e prolongaaaaado!!!!
Ruy, o Alan Silveira acaba sendo tão-somente um porta voz do que todos nós achamos de ti. Eu, por exemplo, sou completamente apaixonada pelo blogue e pelo administrador também. Beijocas mil para o meu GLORIOSO gajo!!!!
Oi, Inácio... Esse teu comentário é muito legal, pois a minha intenção é essa : quando escrevo , o meu desejo é a de que o leitor consiga visualizar a situação. Que bom! Fico realmente muito feliz. Grande abraço!
Agora foi você, Cleide, que me fez dar boas risadas. Adorei essa sua maneira de encarar o fato. Sem críticas e com aplausos, te envio um abraço grandão.
Ney, meu primo ! Sei que és um homem de poucas palavras. Mas pra mim , o teu ADOREI, é ouro em pó. Beijão da prima!
A Lucia merece a Academia Brasileira de Letras...!
Oi, SOL ... você sempre iluminada e trazendo sugestões geniais. Já estou imaginando esse encontro : Don Carlito encontra com Sara na gafieira. Aproxima-se de tão distinta dama e a convida a dançar. Ela não titubeia e com voz musical, aceita prontamente. Don Carlito percebe que a obesidade de sua dama poderá trazer dificuldades no desenrolar da dança. No entanto....
Bem, agora é aguardar até que a crônica sobre tão promissor encontro aconteça. kkk Valeu, minha amiga. Seu comentário é o máximo!
Que delícia de comentário, José Vanilson. Fique sorrindo e confesso que já me vi batendo à porta da Academia Brasileira de Letras. Muito brigada pela generosidade.Saber que "A VOZ de SARA" foi tão bem acolhida pelos leitores do nosso blogue, aquece imensamente o meu coração. Grande Abraço!
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