domingo, 23 de agosto de 2026

A vida torta de Mané Garrincha – II parte (1972)

Geraldo Mayrink (Facebook Geraldo Mayrink) & Garrincha (@ Dedoc Abril)

A VIDA TORTA DE MANÉ GARRINCHA

por GERALDO MAYRINK, escrito em 1972 na revista Veja.

«Gente boa

Em 1972, porém, já não há grandes negócios para Garrincha. Ele parece não entender: “Hoje em dia é assim, o sujeito só pensa em ganhar dinheiro. Até esses meninos que estão começando já têm um pai para orientar, imagine”. Seu nome não perdeu a magia. Mas ele recusa qualquer outro tipo de negócio – restaurante, posto de gasolina, qualquer coisa – porque “não tenho pensamento nem queda para isso”. Parece encurralado entre o campo do Olaria, onde treina de manhã, e o grande apartamento alugado mobiliado (espelhos, candelabros, móveis velhos) em Copacabana, diante da praia, por 5 mil cruzeiros mensais. De lá só sai praticamente para ir ao clube (não gosta de praia) e de tarde e de noite vê tudo na televisão, “menos anúncio”.

O apartamento, que ele detesta, é a herança de seu último desastre financeiro: a perda de 200 mil cruzeiros, metade do preço de uma casa que estava comprando com Elza e que foram perdidos pela falta de pagamento do restante, na época em que viajaram para a Itália.

De resto, nem gosta mais de beber, como antigamente: “Para quê? Já bebi tudo que podia, só não bebi veneno”. Reclama que quase não é visitado. Quando aparece alguém, o sorriso e a alegria de Garrincha abrem-se em abraços e tapinhas nas costas: “Oi, gente boa, gente boa…”.

“Gente boa”, do melhor ao péssimo, foi tudo o que Garrincha viu na vida, dentro e fora do campo. “Gente boa” já eram os times que no começo da década de 1950 nem queriam vê-lo treinar. “Gente boa” também deviam ser as moças do basquete do Vasco da Gama que riam muito da sua pobreza, com aquelas camisas de algodão barato. “Gente boa”, enfim, foram todos que o ajudaram, bajularam e exploraram, e todos os que hoje em dia sumiram da sua casa. “Os meus amigos de futebol têm a sua vida, são livres, sabe como é, né?”, diz o craque, sem pronunciar jamais uma frase de condenação a quem quer que seja. Ao Botafogo, por exemplo, de onde saiu depois de treze anos, ele gostaria de voltar, “porque o pessoal daquele tempo já morreu todo”. Quando vivo, em 1966, o “pessoal todo” vendeu Garrincha ao Corinthians sem sequer se dar ao trabalho de avisá-lo.

Foi o começo de uma peregrinação que ainda não terminou. Saiu do Corinthians no mesmo ano, esteve na humilde Portuguesa do Rio, excursionou na Bolívia. Jogou no Bangu, andou pelos campos do interior, e em Goiás seu nome era o chamariz, junto com o do craque local Goiano. Treinou no Fluminense e no Vasco. Em 1968, na Colômbia, fez um jogo ruim pelo Junior Barranquilla (deveria ganhar seiscentos dólares por partida), levou uma vaia e voltou sem jogar uma segunda vez. Não teve sorte nos treinos do Nacional, em Montevidéu, nem nos do Boca Juniors, de Buenos Aires. Tentou, sem sucesso, jogar no Flamengo.

Em abril de 1969, finalmente, a andança sem frutos sofreu uma interrupção brutal quando seu carro bateu num caminhão na rodovia Presidente Dutra e sua sogra, Rosália Maria Gomes, morreu. Foi condenado a dois anos de prisão, com direito a sursis, por homicídio culposo, e absolvido em 1971. Elza conta que a morte de sua mãe foi a pior fase na vida de Garrincha. O Brasil, na época, parecia definitivamente fechado para ele.

Estrangeiro

Mané Garrincha, o “passarinho” desligado, o homem bom e sem ressentimentos, devia mesmo estar sendo vítima do destino. Ele se lembrou de que fora do Brasil deveria haver muito mais “gente boa”. Em 1963, por exemplo, os dois times mais famosos da Itália, ambos de Milão, a Internazionale e o Milan, disputavam o ponta-direita brasileiro já considerado legendário. Chegaram a oferecer meio bilhão de liras (montante inédito até então na Itália) pelo seu passe, mas o Botafogo queria muito mais e os entendimentos foram suspensos. Em princípios de 1970, lembrado disso e da carreira feliz de brasileiros como Angelo Sormani, campeão italiano, Amarildo e Mazola, entre outros, Garrincha foi viver na Itália. Era um ídolo, mas infelizmente chegara tarde demais: os times estavam proibidos de comprar jogadores estrangeiros desde 1965, a menos que fossem descendentes de italianos.

Manuel dos Santos conformou-se em ser companheiro de Elza Soares, que ganhava bem como cantora, e em fazer propaganda de café para o IBC, por mil dólares mensais. Alguns o reconheciam como vendedor de café e se entristeciam, outros pensavam que ele era um vendedor qualquer e tratavam-no com grosseria. O Brindisi, um time de terceira classe, tentou contratá-lo como consultor técnico, mas de novo a sua origem impediu a transação.

Para piorar tudo recebia telefonemas anônimos e ameaçadores, em italiano, acusando-o de ter “traído o Brasil” e que ele, Elza e seus filhos seriam castigados. A polícia nada conseguiu apurar. Mudaram-se para Torvaianica, um balneário, e a vida continuou correndo devagar, com as raras alegrias de algum jogo beneficente entre velhos jogadores famosos, como o que fez em Milão no ano passado, ou então entre times improvisados com jogadores que vinham de todos os cantos do mundo.

Sem paralelos

Foi portanto com alguma tristeza, mas sem nenhuma surpresa, que correu pela Itália e depois pelo Brasil a notícia de que o maior ponta-direita do mundo estava jogando, de camiseta vermelha e calção branco, com um time de amadores formado de açougueiros de Torvaianica, num campeonato reunindo trabalhadores de bar, mecânicos e operários do lugar. “Eu faço isso”, dizia Garrincha na época, “para me divertir e me manter em forma.” Mas no principal jogo do campeonato o time dos açougueiros perdeu para o dos mecânicos por 5 a 4 (quatro passes de Garrincha), e sua carreira como amador terminou nessa derrota. Ele se defendeu de novo: “Aqui não posso nem correr que quebro o pé. O campo é cheio de pedras e buracos”.

Parecia realmente o fim da linha. Mas ainda não. Saldanha, referindo-se à inconsciência de Garrincha em relação às pessoas e aos negócios, diz que ela também impede que ele sinta que o verdadeiro craque tem vergonha de fazer certas coisas, como jogar entre açougueiros. Prefere sair e se esconder num sofrimento íntimo a exibi-lo num campo. Foge da realidade.

Garrincha, que mal vê a realidade, não finge nem tenta esconder coisa alguma. Pensa, em 1972, que é o mesmo de 1962, e por motivos bem simples: hoje, como ontem, sente um prazer de menino brincando com a bola, de mexer com os companheiros de time, de achar graça nos próprios dribles. Paradoxalmente, essa falta de percepção lhe dá força. Sua situação, agora, é mais triste para os outros do que para ele mesmo: no campo, Garrincha não tenta o impossível, corre o que pode correr, dribla o que sabe, e tudo acaba dando certo. A ilusão é soberana. Ninguém o ataca seriamente. Ninguém quer machucá-lo e nenhum jogador teria nervos para aguentar a culpa de ter sido o responsável por uma contusão de Mané. Uma jogada de corpo é o quanto basta para que o estádio o aplauda e comece a rir. Em todos esses anos, e em todas as suas derrotas, não apareceu realmente um candidato sério ao seu lugar.

Zequinha, Rogério e Cafuringa, por exemplo, fazem hoje um pouco de cada coisa que Mané fazia, mas não sintetizam, como ele, a capacidade múltipla de pique, drible, cruzamento e chute. Jairzinho – que Garrincha considera o maior ponta-direita do Brasil – lembrou na última Copa um pouco desse estilo único, desconcertante e inexplicável. Mas não existe outro Garrincha. Como jamais existiu alguém, que, como ele, no final de um campeonato do mundo (o de 1958), se surpreendeu com a vitória do Brasil: “Mas não vai haver returno?”.

O anti-Pelé

Todos, enfim, querem ajudar Garrincha. Saldanha, “que se esqueceu dele” em 1969, elogiou no seu programa de rádio a volta do craque, principalmente porque “50 mil pessoas significam um carinho que ele merece”. Sandro Moreyra, seu amigo, não foi ao jogo, e o “tal de Nílton Santos”, o bicampeão de 46 anos e bem-sucedido homem de negócios, também não foi, pelo mesmo motivo. Diz Santos: “Quero guardar a imagem do homem que jogou ao meu lado durante dez anos e que foi o maior jogador de futebol do mundo”.

É irônico que o maior jogador de futebol do Brasil, junto com Pelé e às vezes maior que ele, fosse justamente o anti-Pelé, em tudo. Em casa ou no campo, por exemplo, Garrincha escuta histórias e gritos que o bom senso de Pelé jamais levaria em conta. Há a aritmética doméstica de sua mulher e musa, Elza Soares: “Com oitenta minutos de partida, Mané ainda pode decidir um jogo. Quarenta por cento de Mané é melhor que 100% de muita gente”.

Há o incentivo de Roberto Pinto, treinador do Olaria, que durante os momentos menos brilhantes de Mané durante o jogo com o Rio Branco, em Vitória, na semana passada (o Olaria perdeu de 2 a 1), gritava: “Não tem importância. Tá ótimo. O jogo é amistoso. Sábado, contra o América, é que é para valer”. Há o coro de seus poucos amigos, repleto de adjetivos e acusações a tudo e todos, no passado, e há quem hoje afirme que Garrincha não tem mais saúde para jogar futebol. Há os torcedores, que o amam e lhe pedem autógrafos na rua, como aconteceu em Vitória na semana passada, pessoas que querem que ele dê “uma ajudazinha” na primeira comunhão da escola, às seis horas da manhã, ou o velho torcedor que exige de Garrincha que volte a ser o maior porque sempre acreditou que “esse tal de Pelé não vale nada”.

E há, sempre, a sua crença cega na “gente boa”. Foi para Vitória na véspera e não sabia bem por quê. “Sei não. Acho que se eu não for antes as pessoas de lá não acreditam. Devo ser um chamarisco”. O estádio Engenheiro Araripe, na noite seguinte, estava lotado (renda de 40 mil cruzeiros, muito acima da média local) para ver o “chamarisco”. Com algum orgulho, fontes do Olaria anunciam que ainda este mês Mané fará outra proeza: dará o pontapé inicial num jogo em Juazeiro, Bahia.

Portas abertas

Levando gente ao Maracanã, parando o trânsito nas ruas de Vitória, ganhando mais palmas em Juazeiro e outras cidades em que o Olaria fizer excursões, Garrincha, a não ser pelo seu futebol e pela idade, continua o mesmo. A Carlinhos, 19 anos, ponta-direita do Rio Branco, ele dizia na semana passada, com ar de pai preocupado: “Você tem que se cuidar. Treinar, jogar bola, saber com quem anda. Ganhe dinheiro. Se você perde um jogo, ninguém mais vai querer saber de você. Você deve ser pobre, né? Jogador de futebol é sempre pobre”.

Garrincha é sempre assim. Será recebido, em todos os lugares, principalmente em Pau Grande, onde dona Noir continua esperando a sua volta, porque “as portas estão abertas”. Psicologicamente dizem que Garrincha jamais cresceu além da fronteira de Pau Grande. Talvez jamais volte para ficar, mas ainda este mês estará lá para assinar os papéis de autorização do casamento de Edenir, sua filha de 17 anos. Noir tem pressa nesse casamento. Ainda este ano, Mané Garrincha, a alegria do povo, vai ser avô.»

Fonte: https://geraldomayrink.com.br/perfil/a-vida-torta-de-mane-garrincha/

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