[Nota
preliminar: Na época da entrevista
que se segue, Manga vivia em Miami com a esposa Cecília, onde trabalhava à
frente de uma empresa que instalava pisos de madeira. Antes ensinara futebol em
escolinhas da cidade, sobretudo para a colônia hispânica.]
Entrevista por
ROGÉRIO DAFLON | O Globo – Esportes
O
GLOBO: Era um
prazer especial derrotar o Flamengo?
MANGA:
Era uma grande alegria. O Flamengo já tinha a maior torcida, e a lotação do
Maracanã era de 150 mil pessoas, os ingressos sempre terminavam rapidamente. A
torcida do Botafogo ficava em menor número. Apesar disso, ganhávamos a maioria
dos jogos. O time do Flamengo, com Dida, Henrique, Jordan, era muito badalado,
mas o Botafogo… Imagina um time com Garrincha, Nilton Santos, Zagallo,
Amarildo, Quarentinha, Didi, Jadir, Paulistinha. O Botafogo tem de voltar a
investir. Os dirigentes têm de contratar grandes jogadores. Sei que o time tem
um goleiro uruguaio (Castillo), que me elogiou. Pelo menos ele sabe da grandeza
do clube.
·
O
senhor dizia que, quando jogava contra o Flamengo, era semana de fazer a feira
porque o bicho estava garantido…
MANGA:
Dizia. O bicho era certo, sim. Com aquele time era fácil dizer isso. Mas com o
maior respeito, não queria ofender ninguém… Naquela época, a torcida que saía
frustrada do Maracanã era a do Flamengo. Foi assim nos Campeonatos Cariocas de
1961 e 1962.
·
O
senhor acabou fazendo parte dos grandes momentos do Botafogo, pois foi campeão
também em 1967 e 1968 (nesse ano, em que deixou o clube, participou de nove dos
18 jogos do Carioca).
MANGA:
Se em 61 e 62 a equipe tinha craques como
Garrincha e Didi, entre outros, em 67 e 68, havia Jairzinho, Gérson, Roberto,
um verdadeiro timaço. Naquele tempo, eu não falava mais que o bicho estava
garantido contra o Flamengo, mas assim mesmo o Botafogo vencia quase sempre o
time rubro-negro.
·
E
quanto ao episódio em que João Saldanha atirou no senhor, acusando-o de fazer
corpo mole na final contra o Bangu, em 1967, no Campeonato Carioca?
MANGA:
Fiquei muito chateado, porque sempre atuei em campo com a maior seriedade, e o
Botafogo venceu aquela decisão por 2 a 1. Quando vi o Saldanha armado no
Mourisco, atirando em mim, resolvi correr. Daquela forma, não havia como
enfrentá-lo. Um mês depois fizemos as pazes e ficou tudo bem.
·
O
senhor acompanha as notícias sobre o Campeonato Carioca?
MANGA:
Não muito, mas sei que é diferente. Na década de 60, os grandes jogadores não iam
para o exterior. Era como se o Kaká estivesse jogando no Brasil. No Carioca,
times com Bangu, Olaria e São Cristóvão davam muito mais trabalho do que hoje
em dia, ainda mais quando jogavam em seus estádios. Agora, soube que os times
pequenos só jogam nos campos dos times grandes.
·
O
senhor brilhou em outros times. Tem uma recordação marcante?
MANGA:
Fui campeão mundial Interclubes pelo Nacional do Uruguai (1971), mas um time
que me marcou também foi o Internacional de Porto Alegre. Joguei com
excepcionais jogadores, como Figueroa, Falcão, Batista, e fui bicampeão
brasileiro (1975 e 1976). Em 75, na final contra o Cruzeiro, tive atuação
importante contendo os tiros de Nelinho.
·
Mas
torce pelo Botafogo?
MANGA:
Em 1959, o João Saldanha foi ao Recife, onde eu jogava pelo Sport, e me levou
para o Botafogo, quando eu tinha 21 anos. Lá joguei dez anos, participando de
conquistas históricas. Serei Botafogo até morrer.
Fonte: O Globo –
Esportes, 16.03.2008.

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