por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Eu não podia assistir ao jogo e programei a
gravação, mas perante tal resultado confesso-me indisponível para gastar uma
hora e meia vendo o Botafogo perder para… o Cuiabá e em casa!
Perdemos dois jogos do campeonato com o Cuiabá por
2x0 e novamente contra uma equipe lutando contra o Z4, repetindo tantos outros
passados recentes. É inaceitável, porque o antigo Botafogo levado à beira da
falência pelas suas diretorias já devia ter morrido e um novo Botafogo está
chegando!
Donde, o que estou escrevendo inspira-se numa
leitura rápida da Lancenet e na minha experiência como torcedor.
Ao contrário da maioria esmagadora dos torcedores eu
sempre apreciei mais os goleiros e os técnicos do que os que marcam os gols,
assim como sempre dei muito mais importância a uma defesa bem estruturada do
que a um ataque avassalador.
Em primeiro lugar porque é muito mais difícil
defender do que atacar, já que a iniciativa e o imprevisto partem sempre de
quem ataca e quem defende tem que ‘adivinhar’ o movimento seguinte de quem
ataca.
Em segundo lugar, porque os ´vilões’ ou os ‘bodes
expiatórios’ são sempre os goleiros e os técnicos. Os goleiros porque não podem
falhar, caso contrário são os vilões das derrotas, segundo os torcedores; os
técnicos não podem falhar porque então sendo ‘burros’ e assim se adaptam facilmente, em
última análise, à figura de bode expiatório, na medida em que é muito mais simples despedir um técnico do que meia equipe que, por exemplo, falha gols sucessivos em frente à baliza e o ‘malvado’ técnico não foi lá para chutar por eles.
Parece que ontem Tiquinho, Júnior Santos, Jeffinho,
Tchê Tchê e talvez outros falharam gols inacreditáveis em frente à baliza ainda
no 1º tempo e antes do gol adversário, que por sua vez terá sido fruto de mais
uma desatenção da zaga, que continua se desconcentrando durante a partida, segundo o que pude ler. Ora,
bastaria um gol para o Cuiabá ter que mudar de estratégia e abrir-se mais a
eventuais contra ataques do Botafogo.
Por outro lado, quem é Jacob Montes para entrar no meio campo? E porque razão Patrick de Paula, que fora bem no último jogo, ficou o
tempo todo no banco? Castro dirá que nós torcedores e eles comentaristas não
sabem tudo o que se passa por dentro dos bastidores e consequentemente não têm dados para julgar. Ora, por favor, caro Luís Castro… Você mesmo disse que erra,
o que é normal. O que não é normal é não emendar os erros atempadamente.
Mas, além disso, o ataque teve mais 50 minutos para,
pelo menos, empatar após o gol do Cuiabá, mas o que sucedeu foi o Cuiabá
ampliar logo no início da 2ª parte e praticamente liquidar quaisquer esperanças
do Botafogo, que ainda não descobriu como penetrar em defesas muito fechadas.
Porém, há algo que considero talvez ainda mais
importante do que o que escrevi até aqui: trata-se das expectativas para a pré-Libertadores,
que podem estar gerando muita ansiedade na equipe.
Já vi, em todo o mundo, muitas vitórias e derrotas
resultantes de expectativas excessivamente otimistas ou excessivamente
pessimistas. Umas e outras são más para o futebol, no âmbito não apenas dos
torcedores mas, sobretudo, dos jogadores.
Questiono-me: se não estamos ainda matematicamente
garantidos na Copa Sul-americana, se as previsões de Textor e de Castro eram a
classificação entre o 9º e o 12º lugar do Brasileirão, e consequentemente a
classificação para a Copa Sul-americana, porque razão se queimou essa etapa
ainda não atingida e se passou a objetivar a pré-Libertadores?
Pois bem, em minha opinião esse foi o erro maior:
ter-se começado a focar ansiosamente a Libertadores com uma equipe saída da 2ª
divisão e ainda ‘em construção’, criando um peso acrescido sobre os ombros dos
jogadores.
Se estamos ‘em construção’ é racional que queiramos
já a Libertadores – que não temos condições de ganhar – em vez de nos focarmos
na garantia de classificação para a Sul-americana e podermos, em 2023,
conquistar dois títulos que almejamos há muito tempo, como sejam a Copa do
Brasil e a Copa Sul-americana?
Que sejamos nós torcedores a embarcar nas nossas
próprias emoções desfocando-nos do alvo acessível e com possibilidades de
vitória, em vez de nos focarmos numa prova que não deve ser o nosso objetivo
para 2023, eu compreendo, mas que seja o próprio treinador a subir a fasquia e
a tornar os ombros dos atletas mais pesados, então já não compreendo.
Sendo Castro imensamente racional, porque razão não
se centrou naquilo que seria a sua grande conquista em 2022 classificando-se
com tranquilidade e aplausos para a Copa Sul-americana, na qual tem fortes
possibilidades de fazer a equipe brilhar, e passou a focar-se no enorme risco
de uma Libertadores cujos resultados são totalmente incertos? E seguindo esse
caminho talvez até chegasse à pré-Libertadores com naturalidade, sem obrigação…
Já acompanhei os comportamentos de muitos técnicos e
tenho a certeza que quando se sai de uma situação de diminuição (no caso, saída
da Série B e acesso à Série A) a prudência deve ser um grande trunfo para uma
trajetória consistente e bem-sucedida. Castro e uma boa parte de comentaristas
e torcedores lançaram peso excessivo na equipe ao subirem a fasquia, e parece
que ontem Castro voltou a mencionar que essa fasquia está ao alcance.
Meus amigos, em casos como o nosso, os treinadores
mais bem-sucedidos focam-se no jogo seguinte, na vitória seguinte e nada mais.
Não distraem os jogadores com conjeturas abstratas: concentram-se na conquista
dos 3 pontos do jogo seguinte e nada mais.
Ocorre até que se a fasquia não fosse subida antes
de tempo, talvez nos classificassemos mesmo para a pré-Libertadores, mas
nesse caso sem ansiedade nem pesos excessivos. Subindo as expectativas antes de
tempo e gerando-se ansiedade excessiva, o mais provável mesmo é não chegarmos a
esse patamar. Talvez seja a nossa sorte…
E é claro que, concentrando-nos nos 3 pontos jogo a
jogo e nada mais, galgaríamos os patamares de objetivos e chegaríamos realmente
à Libertadores, mas então com muito mais consistência psicológica para a disputar
sem esse peso em cima dos ombros de jogadores de uma equipe ‘em construção’ e
que sequer ainda garantiu matematicamente a classificação à Copa Sul-americana.
Parece-me, por isso, um erro de palmatória.
Sejamos positivos, sempre, crentes do regresso à Glória,
mas sem esquecer que há 27 anos não conquistamos grandes títulos em futebol e
que o caminho certo está agora próximo e tem que ser bem pavimentado, sob pena
de algum temporal inesperado ser suficiente para quebrar o que está em construção.
Os sonhos constroem-se e crescem em tempos próprios.
Como diz o provérbio original, “Rome ne fu pas fait toute en un
jour” (Roma não se fez em um dia).
Certamente uns estarão em acordo comigo e outros em
desacordo, mas este foi o meu contributo reflexivo para que possamos agir mais
racionalmente nas nossas expectativas e não amassarmos a nossa alma desnecessariamente.
Precisamos dela serena e generosa para as conquistas no futuro próximo!
FICHA TÉCNICA
Botafogo
0x2 Cuiabá
» Gols: André Luís, aos 40’, e Deyverson, aos 51’
» Data: 01.11.2022
» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro (RJ)
» Público: 14.892 pagantes; 16.365 espectadores
» Renda: R$ 425.478,00
» Árbitro: Jean Pierre Goncalves Lima (RS); Assistentes: Marcelo Carvalho
Van Gasse (SP) e Leirson Peng Martins (RS); VAR: Rodrigo
Guarizo Ferreira do Amaral (SP)
» Disciplina: cartão amarelo – Luís Henrique (Botafogo) e Joaquim (Cuiabá)
» Botafogo: Gatito Fernández; Daniel Borges (Rafael), Adryelson,
Victor Cuesta e Marçal; Tchê Tchê, Gabriel Pires (Jacob Montes) e Victor Sá
(Lucas Fernandes); Júnior Santos (Matheus Nascimento), Jeffinho (Luís Henrique)
e Tiquinho Soares. Técnico: Lúcio
Castro.
» Cuiabá: Walter; Joaquim, Marllon e Alan Empereur; Marcão Silva,
Rafael Gava (Camilo), Pepê (Denilson) e Igor Cariús; Jonathan Cafu (João
Lucas), Deyverson (Rodriguinho) e André Luís (Felipe Marques). Técnico: António Oliveira.