sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Primeira Fila (5)


Primeira Fila, coluna de Mário Filho publicada n’ O Globo de 12.08.1942, no 38º aniversário do Botafogo Football Club.

O “Ideal”, de Eurico Viveiros de Castro, morreu antes de nascer por causa do Botafogo.

8. À noite Emanuel Sodré e Flávio Ramos encontraram-se com Octávio Werneck. “Você sabe? Vamos fundar um clube. E contamos com você”. Octávio Werneck não hesitou um só momento. “Pois não”. Então convide o Álvaro também”. O Álvaro? Talvez fosse difícil. “O Álvaro falou-me de outro clube, o Ideal. O Viveiros de Castro teve a ideia”. “Mas o Ideal já está fundado?” – perguntaram, alarmados, Flávio Ramos e Emanuel Sodré. Não. O Ideal não fora fundado ainda. Apenas o Eurico Viveiros de Castro achava que a travessa Honorina devia ter um clube. “Pois vamos falar com ele. Já”. E lá foram eles. Eurico Viveiros de Castro ouviu Flávio Ramos. Ouviu Emanuel Sodré. Ouviu Octávio Werneck. E acabou desistindo de fundar o Ideal. “Eu também quero entrar para o clube de vocês”. Flávio Ramos e Emanuel Sodré olharam-se triunfantes. “Agora é só marcar a data da fundação. Vamos ver. Que tal o dia 12 de agosto?”. “Ótimo. Quanto mais depressa, melhor”.

D. Chiquitota, a primeira patrona do Botafogo, cedeu uma casa velha, em ruínas, para a sede do clube.

9. Flávio Ramos convenceu a avó de que devia ceder, para a sede do clube, a casa da esquina de Voluntários da Pátria. D. Chiquitota, a princípio, não queria. A casa estava em ruínas. Condenada pela Saúde Pública. “Mas vovó, a sede vai ser no quintal, em cima do tanque de lavar roupa, naquele puxado para os empregados”. “Ali fica melhor, Flávio. Mas você tem que arrumar aquilo”. “E você sabe como vou arrumar aquilo? Com os cartazes que titio Bolonha mandou do Pará. São cartazes grandes, vovó, de metro e meio. Com uns poucos deles eu enfeitarei todas as paredes”. “Os cartazes, porém, são do Bolonha. Veja o que vai fazer.”. “Ora, vovó, Vovô sabe que titio Bolonha não precisa mais dos cartazes. Ele escreveu dizendo que não vai mais trazer a montanha russa.”. E Flávio Ramos começou a rir. Lembrando-se do efeito que deviam fazer nas paredes do “puxado” os cartazes da montanha russa. “E você – D. Chiquitota balançou com o dedo, enquanto sorria – tome cuidado com a casa do conselheiro Saraiva. Eu apenas estou tomando conta dele”. “Não tenho receio, vovó”. “E como vai ser o nome do clube?”. “Electro Clube, vovó”. D. Chiquitota franziu o nariz. “Eu não gosto nada do nome”.

Fonte: Blogue Arquiba Botafogo, de Paulo Marcelo Sampaio.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Voz de J. Rodrigues


“Perdemos espaço no futebol, não somos mais a potência que colocava respeito. Só futebol show não ganha jogo. O futebol aplicado lá fora é de respeito ao adversário, ou seja, mais profissional, não visa desmoralizar o adversário como este que praticamos aqui.” J. Rodrigues, leitor comentando no blogue Pombo Sem Asa (globoesporte.com).

Atletas que chupam no dedo, que ‘param na esquina’ ou que fingem ‘chororô’, torcedores que insistem sempre nas repetidas e monótonas imbecilidades do Botafogo ‘chororô’, do Vasco da Gama ‘vice’ ou do Fluminense ‘gay’, mídia que faz gozações escandalosas e anti-profissionais, árbitros que intencionalmente provocam jogadores em campo e tomam decisões escabrosas, são conjuntos de gente que visam desmoralizar os adversários e que destroem o futebol brasileiro como algo que era alegria, generosidade e sublimação.

No último mundial de clubes o Barcelona podia ter feito um enorme olé! humilhante ao Santos, mas até ao último minuto procurou apenas o gol e jamais desmoralizar o adversário. Se o resultado fosse inverso, duvido que Neymar e companhia resistissem a um olé! desrespeitador do adversário. Essas são algumas das razões para que o futebol inglês e espanhol dêem gosto de acompanhar e o futebol brasileiro seja cada vez mais tristeza, egoísmo e mutilação de um passado glorioso.

Eu insisto em querer o meu Botafogo de volta, mas ele não regressará enquanto o futebol brasileiro não retomar a senda da alegria, da generosidade e da sublimação.

Primeira Fila (4)


Primeira Fila, coluna de Mário Filho publicada n’ O Globo de 12.08.1942, no 38º aniversário do Botafogo Football Club.

O campo das Palmeiras - Quando a bola caía na rua os jogadores torciam para que um burro desse um shoot.

6. Não se escolhera à toa o campo das três filas de palmeiras. A palmeira do centro servia de baliza. E como o espaço entre a palmeira do centro e a da calçada, junto da rua, parecia exageradamente largo para os keepers, botava-se uma pedra de paralelepípedo a sete passos do tronco. Só se sabia ao certo que um pulo sem fazer a defesa para que gritasse logo: “Foi alto! Não valeu!” Agora o velho Hime podia assistir tranquilamente as partidas de football. Achando graça nas correrias atrás de uma bola. O velho Hime ficava sério toda vez que se quebrava uma vidraça. Voltando a sorrir depois por dois motivos. Um deles sendo as pedras espalhadas bem defronte. E o outro o cuidado de Flávio Ramos em avisar a quem primeiro aparecia para protestar que “eles” pagariam tudo. O que o velho Hime não podia suportar era a cena que se seguia a toda bola na rua. Lá vinha um bonde de burros. Desenfreado. “Um dia pode suceder um desastre” – pensava o velho Hime. Ele não sabia qual era o mais louco: o condutor do bonde com aquela mania de velocidade ou o rapaz que atravessava a rua “feito um louco” para pegar a bola. Os que ficavam na beira da calçada torciam para que um burro da parelha shootasse a bola. “Shoote, burro, shoota”. Se o burro metesse a pata a bola (… parte inelegível…). Não teria sido preciso outra subscrição.

Em uma conversa de bonde entre Flávio Ramos e Emanuel nasceu a idéia do Botafogo.

7. Flávio Ramos e Emanuel Sodré tomaram o bonde no poste da rua Conde de Irajá. Era e manhã cedo e eles iam para o colégio. Flávio Ramos passou o braço por cima do espaldar do banco e curvou-se um pouco. “Você não acha - perguntou ele a Emanuel Sodré – que a gente devia pensar em fundar um clube?”. Emanuel Sodré ficou quieto um instante. Depois respondeu: “Com que sócios?” “Ora, temos eu, você, o Lauro, o Tutú (Tutu era Arthur César), os irmãos Werneck, Octávio e Álvaro, o Jacques Raymundo, o Vicente, o Zingo. (Augusto Fontenelle), o Lourival Costa…”. “E aí você para”. “O resto se arranja com o tempo”. E novamente se abriu uma pausa. Parecia que Emanuel Sodré tinha que tomar uma decisão séria. Ele assumira um ar grave. E foi com a voz grossa – a mais grossa que quinze anos de idade podiam comportar – que ele disse: “Então, vamos”. Emanuel Sodré cruzou as pernas. Recostou-se no banco. Flávio Ramos também. Eles se sentiam mais homens. Iam fundar um clube. Alberto Vieira, professor de Aritmética do Colégio Alfredo Gomes, estranhou a atitude dos dois. “Quê é que vocês têm, meninos?” Flávio Ramos corou. Como se tivesse sido apanhado em flagrante. Durante toda a aula ele estivera um plano para o clube. Quando Alberto Vieira prosseguiu a lição ele, rápido, passou o maço de papel, todo garatujado, por baixo do banco, e fez um sinal para Emanuel Sodré. Emanuel Sodré recebeu o “projeto de um clube”e entregou outro “projeto de um clube” a Flávio Ramos.

Fonte: Blogue Arquiba Botafogo, de Paulo Marcelo Sampaio.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Zé Fini


Zé Fogareiro recebeu, segundo o próprio, uma mensagem irreversível de Globoesporte.com anunciando, por telefone, o seu desligamento do blogue pelo qual era responsável: “Vamos mudar porque estamos em busca de um novo blogueiro e também por conta das suas frequentes críticas à diretoria”.

Zé Fini, perdão, Zé Fogareiro, queixa-se, mas… de quê?... A Globoesporte apenas tratou de civicamente defender a democracia desportiva, o direito às diretorias não serem alvo das inverdades dos torcedores, que não passam de moleques sem jeito que bradam contra uns e clamam contra outros, que forçaram injustamente a diretoria a tomar medidas de dispensa de Lúcio Flávio no passado e de Alessandro no presente. Inaceitável! Dois verdadeiros craques que deram inúmeras glórias ao Botafogo e títulos de toda a espécie, e cujas pequenas falhas – um passava jogos decisivos sem tocar na bola e outro deixava a bola entrar nas suas costas – eram irrelevantes face aos golaços feitos, aos centros milimétricos e às roubadas de bola frequentes.

Zé Fini, perdão, Zé Fogareiro, bradou contra André Silva e clamou contra Anderson Barros: o cúmulo da injustiça, já que um tem sido incansável na direção rigorosa do departamento de futebol e o outro tem sido um verdadeiro ‘achador’ de craques. Do entendimento extraordinário destes dois homens foram contratados Jean Coral (por onde anda?), Tony (seleção canarinho), Somália (um Pinóquio acima de qualquer suspeita) e mais umas duas dezenas de craques do mesmo nível.

Zé Fini, perdão, Zé Fogareiro, criticou gratuitamente o presidente do clube supostamente em defesa do Botafogo, como se o presidente não fosse o primeiro grande defensor do clube, o homem que nunca mentiu, que jamais prometeu sem cumprir, que nos trouxe verdadeiros atletas de ‘fechar aeroporto’, que saneou as finanças do clube, que resgatou a nossa honra sempre acima das politiquices de circunstância.

Zé Fini, perdão, Zé Fogareiro, não respeitou quem devia, não prestou vassalagem a quem de direito, rejeitou a confortável figura de Zé Omissão. Zé Fogareiro não entende nada ‘deste’ Botafogo…

Portanto, Zé Fini, perdão, Zé Fogareiro, vai fazer-se à vida porque no espaço que ele ocupava toparam-lhe o perfil, um perfil cada vez mais desfocado das necessidades hodiernas de dizer ‘sim’, ‘yes’, ‘oui’ ou qualquer outra forma de auto-censura, submissão e denúncia, um perfil contrário às necessidades modernaças do lambe-tudo e lambe-todos – a mais recente e consistente figura social emergente no século XXI.

Evidentemente que eu poderia dizer que ainda na década de 1980 previ que à medida que a democracia política crescesse o controlo institucional aumentaria. Evidentemente que eu poderia reiterar hoje que a democratização das sociedades traz inevitavelmente os esbirros da censura para repor a auto-censura que os homens passaram a rejeitar com as mudanças sociais ocorridas. Evidentemente que este ‘claro-escuro’ da nossa época desenvolve-se à medida que a liberdade cresce e o controlo aumenta.

Mas não digo nada disso, porque o Zé Fini, perdão, o Zé Fogareiro, tornou-se um embaraço e eu ainda posso ficar embaraçado também, quiçá preterido do ‘meu’ Botafogo com os novos ‘cachorros’ de dente aguçado atrás de mim. Além disso, o rapaz não entende nada ‘deste’ Botafogo modernaço e ainda acredita no Papai Noel…

Mas perante a rápida indiferença que certamente vai imperar sobre o acontecimento resguardo-me intelectualmente na citação do incontornável Bertolt Brecht:

“Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afetou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.”

O blogue Mundo Botafogo estará sempre à tua disposição, amigo João Roberto.

Tolito: da ‘esquina do Botafogo’ às torcidas organizadas e aos sambas-enredo, eis uma vida repleta e criativa – I Parte

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