quinta-feira, 11 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1950: Ghiggia, ‘herói’ do Maracanazo

Cartaz da Copa do Mundo de 1950. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, foi uma das mais dramáticas da história. Foi a primeira Copa depois de 12 anos de interrupção, já que os Mundiais de 1942 e 1946 não aconteceram devido à Segunda Guerra Mundial. O torneio marcou a retomada da competição e terminou com o episódio mais famoso e trágico do futebol brasileiro: o ‘Maracanazo’, a vitória do Uruguai sobre o Brasil por 2x1 no Maracanã.

O primeiro grande acontecimento foi o próprio contexto da competição. O Brasil queria mostrar modernidade, entusiasmo popular e capacidade de organizar um grande evento. Para isso, foi construído o Maracanã, no Rio de Janeiro, concebido como um estádio gigantesco: na época, podia receber perto de 200 mil espectadores em pé, embora a assistência oficial do jogo decisivo tenha sido de 173.850 espectadores.

A Copa também teve muitas ausências e desistências. A Alemanha e o Japão ainda estavam afastados do cenário internacional após a guerra porque pertenciam ao ‘Eixo’, derrotado pelos ‘Aliados’, e a Índia, embora classificada, acabou não participando sob o pretexto de que a FIFA não permitia que os atletas jogassem descalços, mas o verdadeiro problema foram as dificuldades financeiras de uma longa viagem de navio. Turquia e Escócia também desistiram e em seu lugar foram convidadas as seleções de Portugal, França e Irlanda, que declinaram o convite; os franceses desistiram porque teriam que percorrer três mil quilómetros para realizarem os seus jogos.

Feitas as contas, o Mundial ficou com 13 seleções apenas, como em 1930.

A II Grande Guerra interrompeu as Copas do Mundo e a sequência do Botafogo como maior fornecedor de jogadores para cada Copa, alguns dos quais, com Heleno de Freitas pontificando, seriam indiscutivelmente titulares nas suprimidas Copas de 1942 e 1946. Em 1950 apenas o então jovem Nilton Santos foi convocado, mas permaneceu na reserva durante a competição em que Barbosa foi injustamente excomungado, visto que a haver um responsável principal pela derrota na final só poderia ser o técnico Flávio Costa que cometeu o erro fatal de não saber gerir a dimensão mental da equipe brasileira.

Uma peripécia importante foi o formato incomum. Ao contrário da ideia tradicional de uma final única, a Copa de 1950 teve uma fase inicial por grupos e depois um quadrangular final com Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia. O campeão seria decidido por pontos. Por isso, tecnicamente, Brasil x Uruguai não era uma final oficial, mas na prática tornou-se uma verdadeira final porque chegou-se à última rodada com o Brasil precisando apenas empatar e o Uruguai obrigado a vencer.

O Brasil chegou ao quadrangular final em clima de euforia. Na fase decisiva, goleou a Suécia por 7x1 e a Espanha por 6x1, exibindo um futebol ofensivo que encantou a torcida. A confiança era tão grande que parte da imprensa e da população já tratava o título como praticamente conquistado antes do jogo contra o Uruguai.

O Uruguai, por outro lado, teve uma campanha menos vistosa, mas muito resiliente. A seleção uruguaia trazia a memória de sua tradição olímpica e mundial – campeã olímpica em 1924 e 1928 e campeã da Copa de 1930 – e entrou no jogo decisivo como azarão, mas não como equipe sem história. O capitão Obdulio Varela tornou-se uma figura central pela liderança emocional e pela capacidade de esfriar o jogo quando o Brasil abriu o placar.

Estádio do Maracanã, o Colosso de 1950. Reprodução.

O momento mais famoso veio em 16 de julho de 1950, no Maracanã. O Brasil saiu na frente no início do segundo tempo, com gol de Friaça. O estádio parecia caminhar para a festa esperada, porém o Uruguai empatou com Juan Alberto Schiaffino e aos 79’ Alcides Ghiggia marcou o gol da virada. O placar final, Uruguai 2x1 Brasil, produziu um silêncio histórico no Maracanã e entrou para a memória do futebol como o ‘Maracanazo’.

Uma das peripécias mais lembradas é que já havia clima de celebração brasileira antes da partida. Segundo relatos históricos, jornais e autoridades preparavam homenagens ao Brasil campeão. A derrota transformou a festa em trauma nacional. O goleiro brasileiro Barbosa acabou injustamente marcado por décadas como símbolo da derrota, embora o resultado tenha sido coletivo e o Uruguai tenha vencido por mérito.

Aliás, toda a comitiva brasileira, no auge da euforia, parece ter esquecido que no dia 6 de maio de 1950 o Uruguai tinha vencido o Brasil por 4x3 na Copa Rio Branco, e que apesar de o Brasil lhe ter ganho os dois jogos seguintes dessa Copa, por 3x2 e 1x0, era uma Seleção com muitas tradições e difícil de superar.

A Inglaterra participou pela primeira vez de uma Copa do Mundo e sofreu uma das maiores zebras da história: perdeu em Belo Horizonte por 1x0 para os amadores da América (E.U. da), que entre outras profissões eram carteiros e empregados de mesa – e o caso até poderia ter sido designado por ‘Belorizontazo’. O resultado foi tão inesperado que quando chegou a Londres o telegrama dando conta do placar (0x1), vária agências de informação consideraram que havia sido lapso do número 1 a menos antes do zero e anunciaram a vitória inglesa por 10x1, tornando-se uma das grandes histórias do Mundial e evidenciando que a Copa já não era apenas uma competição entre potências tradicionais.

No fim, o Uruguai conquistou o seu segundo título mundial, depois de ter vencido a primeira edição da Copa em 1930. A vitória teve dimensão quase mítica: uma Seleção pequena, enfrentando o país anfitrião, diante de uma multidão imensa, num jogo em que quase todos esperavam a consagração brasileira. Para o Brasil, a derrota teve impacto profundo e influenciou até debates posteriores sobre identidade, pressão emocional e a própria camisa da seleção.

Em suma, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a volta da Copa após a guerra, a construção do Maracanã, o formato estranho com quadrangular final, as desistências e ausências, a estreia frustrante da Inglaterra com derrota para os americanos, as goleadas brasileiras contra Suécia e Espanha, a confiança exagerada antes do último jogo, a liderança uruguaia de Obdulio Varela, os gols de Schiaffino e Ghiggia, e o trauma histórico do Maracanazo.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Uruguai 2x1 Brasil

» Gols: Friaça, aos 47’ (Brasil); Schiaffino, aos 66’, e Ghiggia, aos 79’ (Uruguai)

» Data: 16.07.1950

» Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (Brasil)

» Brasil: Barba; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Técnico: Flávio Costa.

» Uruguai: Roque Máspoli; Matías González e Eusébio Tejera; Schubert Gambetta, Obdulio Varela e Victor Rodríguez Andrade; Alcides Ghiggia, Júlio Pérez, Óscar Míguez, Juan Alberto Schiaffino e Rúben Morán. Técnico: Juan López Fontana.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

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