por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1938, realizada em França, de 4 a 19 de junho,
foi a terceira edição do Mundial e a última antes da interrupção causada pela
Segunda Guerra Mundial. A Itália confirmou o título de 1934 ao vencer a Hungria
por 4x2 na final,
tornando-se a primeira seleção a defender com sucesso o título mundial.
A competição começara marcada por
tensão política. A escolha da França como sede provocou irritação na América do
Sul, porque muitos esperavam uma alternância entre Europa e América depois da
Copa de 1934, também europeia. Isso contribuiu para ausências importantes, como
Argentina e Uruguai. A Espanha também não participou
por causa da Guerra Civil Espanhola.
Uma das maiores peripécias aconteceu antes mesmo do pontapé inicial: a Áustria, que se tinha classificado e ainda era associada ao prestígio do antigo Wunderteam, deixou de existir como seleção independente após o Anschluss, a anexação pela Alemanha nazista (*) em março de 1938. Alguns jogadores austríacos foram incorporados à seleção alemã, mas a vaga austríaca ficou vazia; por isso, a Suécia avançou diretamente para as quartas-de-final sem jogar a primeira eliminatória.
O formato voltou a ser de eliminação direta, como em 1934, sem fase de grupos. Se houvesse empate, jogava-se prolongamento; se o empate continuasse, havia jogo de repetição. A edição de 1938 foi a última Copa d Mundo a usar esse sistema inteiramente eliminatório.
O Botafogo Football Club continuou sendo o Clube que mais jogadores cedeu para a Copa do Mundo de 1938: Nariz, Martim, Perácio, Zezé e Patesko (a par do Fluminense também com cinco jogadores).
Logo na primeira fase houve jogos
caóticos. A Alemanha,
reforçada por jogadores austríacos, empatou com a Suíça e precisou de
repetição. No segundo jogo, chegou a estar vencendo por 2x0, mas acabou
derrotada por 4x2,
sendo eliminada logo na estreia. Foi uma das grandes surpresas do torneio.
Outra história curiosa foi a de Cuba, estreante em Copas. Os
cubanos eliminaram a Romênia após um empate e um jogo de repetição, chegando
inesperadamente às quartas-de-final. A aventura acabou de forma pesada: a
Suécia, que estreava só nessa fase devido à ausência austríaca, venceu Cuba por
8x0.
O Brasil teve uma das campanhas
mais memoráveis. Na estreia, venceu a Polônia por 6x5 após prolongamento, num
dos jogos mais espetaculares da história das Copas. Leônidas da Silva, o ‘Diamante
Negro’, foi o grande nome brasileiro do jogo com um hat-trick e terminou como artilheiro do torneio, com 7 gols. A curiosidade é que
Leônidas entrou para a história por ter feito um gol descalço: estava apertando
a chuteira perto da área da Polônia e recebeu um ‘presente’ do goleiro, que
escorregou na marcação de um tiro de meta, ele correu para a bola com a chuteira
na mão e marcou o gol – que atualmente seria obviamente anulado.
Brasil e Tchecoslováquia fizeram outro jogo marcante nas quartas-de-final, conhecido pela violência e pelas lesões. O primeiro confronto terminou empatado após prolongamento e precisou ser repetido. Na repetição, o Brasil venceu por 2x1, enquanto os tchecos ficaram desfalcados por lesões importantes sofridas no jogo anterior.
A semifinal entre Itália e Brasil também entrou para a história. O Brasil não contou com Leônidas, explicando o acontecimento publicamente como uma mistura de lesão e opção de preservá-lo para uma possível final. Sem o seu maior craque, a Seleção Brasileira perdeu por 2x1 para a Itália. Do outro lado, a Hungria goleou a Suécia por 5x1 e avançou com força para a decisão.
A final foi disputada no Stade Olympique de Colombes, em Paris. A Itália abriu o placar cedo, a Hungria empatou rapidamente, mas os italianos retomaram o controle e chegaram ao intervalo vencendo por 3x1. O resultado final foi Itália 4x2 Hungria, com dois gols de Gino Colaussi e dois de Silvio Piola.
Também ficou famosa a história de que Mussolini teria enviado à Seleção Italiana, antes da final, um telegrama com a frase “Vitória ou morte!”. A Itália de Vittorio Pozzo jogava sob enorme carga simbólica e política, representando o regime fascista num ambiente europeu cada vez mais tenso. Mais tarde, o goleiro magiar Antal Szabo declarou: “Sofri quatro gols, mas salvei a vida de 11 homens.”
Em resumo, os acontecimentos e peripécias
mais importantes foram a Copa disputada às vésperas da Segunda Guerra, a
ausência de várias seleções importantes, a retirada da Áustria após o
Anschluss, a eliminação precoce da Alemanha, a surpresa cubana, os jogos
dramáticos do Brasil, o brilho de Leônidas, a polémica ausência dele na
semifinal, e o bicampeonato italiano contra a Hungria.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Itália 4x2 Hungria
» Gols: Gino Colaussi, aos 6’ e 35’, e Silvio Piola, aos
16’ e 82’ (Itália); Pal Titkos, aos 8’, e Gyorgy Sarosi, aos 70’ (Hungria)
» Data: 19.06.1938
» Local: Stade Olympique de Colombes, em Paris (França)
» Itália: Aldo Olivieri, Alfredo Foni, Amedeo Biavati,
Gino Colaussi, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Michele Andreolo, Pietro
Rava, Pietro Serantoni, Silvio Piola e Ugo Locatelli. Técnico: Vittorio Pozzo.
» Hungria: Antal Szabo, Antal Szalay, Ferenc Sas, Gyorgy
Sarosi, Gyorgy Szucs, Gyula Lazar, Gyula Polgar, Gyula Zsengeller, Jeno Vincze,
Pal Titkos e Sandor Biro. Técnico: Karoly Dietz.
(*) A
etimologia da expressão “nazismo” tem origem no alemão ‘nazismus’, que por sua
vez deriva de ‘nazi’, um apelido usado para se referir aos membros do partido
de Adolf Hitler. Nazi era originalmente
abreviação coloquial de nomes alemães, usada às vezes de forma pejorativa para
sugerir alguém simplório ou provinciano. O nazismo era um movimento
ultranacionalista, autoritário e racista. Curiosamente, a suástica,
símbolo adotado pelo partido, é muito mais
antiga que o nazismo. Existe há milhares de anos em várias culturas da
Europa, Ásia, África e Américas, associada a
ideias positivas como sorte, prosperidade, eternidade, movimento ou
espiritualidade. A designação vem do sânscrito
‘svastika’, que significa “bem-estar”, “boa fortuna”
ou “aquilo que traz auspício”.
Fontes principais: maisfutebol.iol.pt;
pt.wikipedia.org;
www.britannica.com;
www.om4ever.com; www.planetworldcup.com;
www.theguardian.com;
www.the-sun.com.



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