terça-feira, 9 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1938: Itália, a primeira seleção bicampeã

Cartaz da Copa do Mundo de 1938. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1938, realizada em França, de 4 a 19 de junho, foi a terceira edição do Mundial e a última antes da interrupção causada pela Segunda Guerra Mundial. A Itália confirmou o título de 1934 ao vencer a Hungria por 4x2 na final, tornando-se a primeira seleção a defender com sucesso o título mundial.

A competição começara marcada por tensão política. A escolha da França como sede provocou irritação na América do Sul, porque muitos esperavam uma alternância entre Europa e América depois da Copa de 1934, também europeia. Isso contribuiu para ausências importantes, como Argentina e Uruguai. A Espanha também não participou por causa da Guerra Civil Espanhola.

Uma das maiores peripécias aconteceu antes mesmo do pontapé inicial: a Áustria, que se tinha classificado e ainda era associada ao prestígio do antigo Wunderteam, deixou de existir como seleção independente após o Anschluss, a anexação pela Alemanha nazista (*) em março de 1938. Alguns jogadores austríacos foram incorporados à seleção alemã, mas a vaga austríaca ficou vazia; por isso, a Suécia avançou diretamente para as quartas-de-final sem jogar a primeira eliminatória.

O formato voltou a ser de eliminação direta, como em 1934, sem fase de grupos. Se houvesse empate, jogava-se prolongamento; se o empate continuasse, havia jogo de repetição. A edição de 1938 foi a última Copa d Mundo a usar esse sistema inteiramente eliminatório.

O Botafogo Football Club continuou sendo o Clube que mais jogadores cedeu para a Copa do Mundo de 1938: Nariz, Martim, Perácio, Zezé e Patesko (a par do Fluminense também com cinco jogadores).

Equipe do Botafogo em 1948 (colorizada): da esquerda para a direita, em cima, Zezé, Martim, Canali, Aymoré, Nariz e Lino; em baixo, Álvaro, Carvalho Leite, Paschoal, Perácio e Patesko. Foto original: Castro, Alceu Mendes de Oliveira (1951).O Futebol no Botafogo (1904-1950). Rio de Janeiro: Gráfica Milone, Ltda.

Logo na primeira fase houve jogos caóticos. A Alemanha, reforçada por jogadores austríacos, empatou com a Suíça e precisou de repetição. No segundo jogo, chegou a estar vencendo por 2x0, mas acabou derrotada por 4x2, sendo eliminada logo na estreia. Foi uma das grandes surpresas do torneio.

Outra história curiosa foi a de Cuba, estreante em Copas. Os cubanos eliminaram a Romênia após um empate e um jogo de repetição, chegando inesperadamente às quartas-de-final. A aventura acabou de forma pesada: a Suécia, que estreava só nessa fase devido à ausência austríaca, venceu Cuba por 8x0.

O Brasil teve uma das campanhas mais memoráveis. Na estreia, venceu a Polônia por 6x5 após prolongamento, num dos jogos mais espetaculares da história das Copas. Leônidas da Silva, o ‘Diamante Negro’, foi o grande nome brasileiro do jogo com um hat-trick e terminou como artilheiro do torneio, com 7 gols. A curiosidade é que Leônidas entrou para a história por ter feito um gol descalço: estava apertando a chuteira perto da área da Polônia e recebeu um ‘presente’ do goleiro, que escorregou na marcação de um tiro de meta, ele correu para a bola com a chuteira na mão e marcou o gol – que atualmente seria obviamente anulado.

Brasil e Tchecoslováquia fizeram outro jogo marcante nas quartas-de-final, conhecido pela violência e pelas lesões. O primeiro confronto terminou empatado após prolongamento e precisou ser repetido. Na repetição, o Brasil venceu por 2x1, enquanto os tchecos ficaram desfalcados por lesões importantes sofridas no jogo anterior.

A semifinal entre Itália e Brasil também entrou para a história. O Brasil não contou com Leônidas, explicando o acontecimento publicamente como uma mistura de lesão e opção de preservá-lo para uma possível final. Sem o seu maior craque, a Seleção Brasileira perdeu por 2x1 para a Itália. Do outro lado, a Hungria goleou a Suécia por 5x1 e avançou com força para a decisão.

A final foi disputada no Stade Olympique de Colombes, em Paris. A Itália abriu o placar cedo, a Hungria empatou rapidamente, mas os italianos retomaram o controle e chegaram ao intervalo vencendo por 3x1. O resultado final foi Itália 4x2 Hungria, com dois gols de Gino Colaussi e dois de Silvio Piola.

Brasil 6x5 Polônia. Pilkars – http://www.om4ever.com.

Também ficou famosa a história de que Mussolini teria enviado à Seleção Italiana, antes da final, um telegrama com a frase “Vitória ou morte!”. A Itália de Vittorio Pozzo jogava sob enorme carga simbólica e política, representando o regime fascista num ambiente europeu cada vez mais tenso. Mais tarde, o goleiro magiar Antal Szabo declarou: “Sofri quatro gols, mas salvei a vida de 11 homens.”

Em resumo, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a Copa disputada às vésperas da Segunda Guerra, a ausência de várias seleções importantes, a retirada da Áustria após o Anschluss, a eliminação precoce da Alemanha, a surpresa cubana, os jogos dramáticos do Brasil, o brilho de Leônidas, a polémica ausência dele na semifinal, e o bicampeonato italiano contra a Hungria.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 4x2 Hungria

» Gols: Gino Colaussi, aos 6’ e 35’, e Silvio Piola, aos 16’ e 82’ (Itália); Pal Titkos, aos 8’, e Gyorgy Sarosi, aos 70’ (Hungria)

» Data: 19.06.1938

» Local: Stade Olympique de Colombes, em Paris (França)

» Itália: Aldo Olivieri, Alfredo Foni, Amedeo Biavati, Gino Colaussi, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Michele Andreolo, Pietro Rava, Pietro Serantoni, Silvio Piola e Ugo Locatelli. Técnico: Vittorio Pozzo.

» Hungria: Antal Szabo, Antal Szalay, Ferenc Sas, Gyorgy Sarosi, Gyorgy Szucs, Gyula Lazar, Gyula Polgar, Gyula Zsengeller, Jeno Vincze, Pal Titkos e Sandor Biro. Técnico: Karoly Dietz.

(*) A etimologia da expressão “nazismo” tem origem no alemão ‘nazismus’, que por sua vez deriva de ‘nazi’, um apelido usado para se referir aos membros do partido de Adolf Hitler. Nazi era originalmente abreviação coloquial de nomes alemães, usada às vezes de forma pejorativa para sugerir alguém simplório ou provinciano. O nazismo era um movimento ultranacionalista, autoritário e racista. Curiosamente, a suástica, símbolo adotado pelo partido, é muito mais antiga que o nazismo. Existe há milhares de anos em várias culturas da Europa, Ásia, África e Américas, associada a ideias positivas como sorte, prosperidade, eternidade, movimento ou espiritualidade. A designação vem do sânscrito ‘svastika’, que significa “bem-estar”, “boa fortuna” ou “aquilo que traz auspício”.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.om4ever.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

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