por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Emil Pinheiro já era presidente do Botafogo (1991-1992) quando Valdir
Espinosa saiu do Botafogo em circunstâncias também inéditas após vencer o
Grêmio por 3x1 na última rodada do campeonato brasileiro de 1991, rebaixando o
clube gaúcho, justamente para ir treinar o próprio Grêmio, onde era ídolo por
ter conquistado a Copa Libertadores e a Taça Toyota Intercontinental.
Porém, durou pouco tempo porque os maus resultados na Série B levaram à
sua demissão em fevereiro de 1992. Foi como se tivesse sido alvo de uma praga
botafoguense, porque após o título de 1989, Espinosa só conseguiu vencer mais
duas competições: o campeonato paranaense em 2002 e brasiliense em 2005. Por
ironia do destino faleceu em 2020 após regressar ao Botafogo como gerente de
futebol.
Após a saída de Espinosa chegou a Botafogo Ernesto Paulo, cuja principal
missão seria o tricampeonato. A equipe não estava propriamente em desagregação
na medida em que ainda contava com Carlos Alberto Dias, Carlos Alberto Santos,
Ricardo Cruz, Valdeir, entre outros atletas. No Carioca de 1991 o Botafogo
ficou em 1º lugar empatado com o Flamengo na Taça Rio, mas perdeu a decisão do
turno por 1x0 e ficou afastado da final. Tratou-se de uma temporada frustrante
para o Botafogo porque esteve mais perto do objetivo do que do desastre
desportivo.
No entanto, após uma temporada sem grandes emoções, Ernesto Paulo foi
substituído, em janeiro de 1992, por Gil Alves, mais conhecido por ‘Búfalo
Gil’, que jogara no Botafogo entre 1977 e 1980, e treinara o Avaí em 1990.
Gil é provavelmente o mas injusto esquecimento no período de influência
de Emil Pinheiro (desde 1986). Assumiu o Botafogo para o campeonato brasileiro
de 1992 e realizou uma excelente campanha, chegando à final e em vantagem pelo
regulamento devido a possuir a melhor campanha. A equipe dispunha de Carlos
Alberto Dias, Carlos Alberto Santos, Márcio Santos, Odemilson, Pingo, Renato
Gaúcho, Renê, Ricardo Cruz, Válber, Valdeir, entre outros, e afigurava-se
favorito a título.
Porém, todo o entusiasmo mudou naquele jogo: o Botafogo foi derrotado por
3x0, placar difícil de reverter no jogo de volta, entregando praticamente o
título. O turbilhão foi estrondoso: a defesa entregara o jogo em falhas
difíceis de aceitação e alguns atletas foram acusados de se terem vendido ao
Flamengo.
No dia seguinte, para cúmulo do ‘desastre’, Renato Gaúcho foi a casa de
Gaúcho, do Flamengo, durante um churrasco comemorativo da vitória rubro-negra,
a fim de pagar a aposta que fizera com ele sobre o resultado do jogo. Todavia,
apareceram inúmeros flamenguistas e uma equipe de televisão que cobriu o
acontecimento, ficando a imagem pública de uma confraternização com o
adversário num momento traumático para a torcida botafoguense.
Ainda hoje se pode conferir, no Youtube, Renato Gaúcho risonho a dar
churrasquinho na boca de Gaúcho. Um escândalo para a eternidade!
A reação de Emil Pinheiro foi explosiva. Alguns jogadores do Botafogo foram suspensos por suspeição e depois saíram do Clube, Renato Gaúcho foi afastado do jogo de volta e ‘excomungado’ – esperemos! – para sempre (ainda recentemente teve a cara de pau de admitir que poderia treinar o Botafogo antes da contratação de Tite) e o jogo de volta resultou num empate por 2x2 que deu o título ao Flamengo.
Gil ainda permaneceu algumas semanas, mas a 14 de agosto deixou o Clube
com muitas críticas a Emil Pinheiro, evidenciando a ruptura entre treinador e
presidente. Em seu lugar – de agosto a dezembro – foi contratado Edinho Nazareth
já numa fase de instabilidade que antecederia o desmantelamento da equipe,
porque Emil afastara-se e uma grande parte de jogadores não pertenciam a Clube,
mas ao próprio Emil Pinheiro, que os vendeu.
No dia 16 de dezembro de 1992 foi contratado o treinador Paulo Emílio
para a temporada de 1993; Jorge Aurélio Ribeiro Domingues assumiu
provisoriamente a presidência interina com a renúncia de Emil Pinheiro, até à
eleição do novo presidente Mauro Ney Palmeiro.
Paulo Emílio dispôs de uma equipe muito mais barata após a saída de
jogadores como Carlos Alberto Santos, Renato Gaúcho, Válber, Valdeir, entre
outros, recorrendo-se, então, a jogadores mais jovens, alguns pouco conhecidos
e atletas emprestados. Apesar de alguns bons resultados registraram-se muitos
empates e a fragilidade da equipe perante os maiores rivais era notória, num
grupo em que faltava dinheiro até para aquisição de material básico de treino.
O insuficiente rendimento levou à saída do treinador em abril, dando
lugar ao ‘velho’ conhecido Othon Valentim, que foi uma das maiores revelações
do Botafogo no início da década de 1960, ponta-esquerda da lendária equipe
tetracampeã de juvenis em 1961-1964 (atualmente juniores), que chegou a jogar
com Garrincha, Nilton Santos e Zagallo e que pendurou as chuteiras precocemente
aos 27 anos devido a sucessivas lesões nos joelhos.
Porém, tratava-se de uma solução interna provisória de 28 dias que
precedeu a chegada de Carlos Alberto Torres, jogador campeão do mundo em 1970 e
que jogou no Botafogo em 1971 ao lado de Jairzinho, também campeão do mundo em
1970.
Carlos Alberto Torres sucedeu a uma história recente de altos e baixos:
Ernesto Paulo recebeu o Botafogo bicampeão e ficou à beira do tri; Gil quase
conseguiu o título brasileiro, mas ficou apenas como vice-campeão; Edinho
apanhou o início da transição; Paulo Emílio e Othon receberam um Botafogo em
pleno desmantelamento financeiro e técnico. Torres pegou nesse Botafogo
quebrado e realizou uma das maiores improbabilidades da história do Clube,
mundo o contexto e levando à conquista da América do Sul.
O período com Carlos Alberto Torres no comando da equipe começou e
terminou de forma absolutamente inédita, tal como é costume suceder ao
Botafogo.
Efetivamente a diretoria quis contratá-lo, mas explicou-lhe que não havia
dinheiro para lhe pagar. Então, segundo André Silva, pegou no telefone, arrumou
dois amistosos nas Caraíbas (Martinica e Guadalupe) e combinou com a diretoria
que parte das receitas caberia ao Clube e outra parte seria destinada à
remuneração do treinador. Isto é, Carlos Alberto Torres criou o seu próprio
salário em 1993!
O próximo capítulo desenvolve as extraordinárias ocorrências desse ano
histórico.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br


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