quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (VII): dos quase-títulos de Ernesto Paulo e Búfalo Gil ao desmantelamento técnico e financeiro pré Carlos Alberto Torres

Ernesto Paulo (á esquerda). Acervo: Bangu Atlético Clube.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Emil Pinheiro já era presidente do Botafogo (1991-1992) quando Valdir Espinosa saiu do Botafogo em circunstâncias também inéditas após vencer o Grêmio por 3x1 na última rodada do campeonato brasileiro de 1991, rebaixando o clube gaúcho, justamente para ir treinar o próprio Grêmio, onde era ídolo por ter conquistado a Copa Libertadores e a Taça Toyota Intercontinental.

Porém, durou pouco tempo porque os maus resultados na Série B levaram à sua demissão em fevereiro de 1992. Foi como se tivesse sido alvo de uma praga botafoguense, porque após o título de 1989, Espinosa só conseguiu vencer mais duas competições: o campeonato paranaense em 2002 e brasiliense em 2005. Por ironia do destino faleceu em 2020 após regressar ao Botafogo como gerente de futebol.

Após a saída de Espinosa chegou a Botafogo Ernesto Paulo, cuja principal missão seria o tricampeonato. A equipe não estava propriamente em desagregação na medida em que ainda contava com Carlos Alberto Dias, Carlos Alberto Santos, Ricardo Cruz, Valdeir, entre outros atletas. No Carioca de 1991 o Botafogo ficou em 1º lugar empatado com o Flamengo na Taça Rio, mas perdeu a decisão do turno por 1x0 e ficou afastado da final. Tratou-se de uma temporada frustrante para o Botafogo porque esteve mais perto do objetivo do que do desastre desportivo.

No entanto, após uma temporada sem grandes emoções, Ernesto Paulo foi substituído, em janeiro de 1992, por Gil Alves, mais conhecido por ‘Búfalo Gil’, que jogara no Botafogo entre 1977 e 1980, e treinara o Avaí em 1990.

Gil é provavelmente o mas injusto esquecimento no período de influência de Emil Pinheiro (desde 1986). Assumiu o Botafogo para o campeonato brasileiro de 1992 e realizou uma excelente campanha, chegando à final e em vantagem pelo regulamento devido a possuir a melhor campanha. A equipe dispunha de Carlos Alberto Dias, Carlos Alberto Santos, Márcio Santos, Odemilson, Pingo, Renato Gaúcho, Renê, Ricardo Cruz, Válber, Valdeir, entre outros, e afigurava-se favorito a título.

Porém, todo o entusiasmo mudou naquele jogo: o Botafogo foi derrotado por 3x0, placar difícil de reverter no jogo de volta, entregando praticamente o título. O turbilhão foi estrondoso: a defesa entregara o jogo em falhas difíceis de aceitação e alguns atletas foram acusados de se terem vendido ao Flamengo.

No dia seguinte, para cúmulo do ‘desastre’, Renato Gaúcho foi a casa de Gaúcho, do Flamengo, durante um churrasco comemorativo da vitória rubro-negra, a fim de pagar a aposta que fizera com ele sobre o resultado do jogo. Todavia, apareceram inúmeros flamenguistas e uma equipe de televisão que cobriu o acontecimento, ficando a imagem pública de uma confraternização com o adversário num momento traumático para a torcida botafoguense.

Ainda hoje se pode conferir, no Youtube, Renato Gaúcho risonho a dar churrasquinho na boca de Gaúcho. Um escândalo para a eternidade!

A reação de Emil Pinheiro foi explosiva. Alguns jogadores do Botafogo foram suspensos por suspeição e depois saíram do Clube, Renato Gaúcho foi afastado do jogo de volta e ‘excomungado’ – esperemos! – para sempre (ainda recentemente teve a cara de pau de admitir que poderia treinar o Botafogo antes da contratação de Tite) e o jogo de volta resultou num empate por 2x2 que deu o título ao Flamengo.

Búfalo Gil (à direita) quando comandava o Operário Várzea-grandense, ao lado do massagista Geraldo Malaquias. Fonte: Instagram @craquesdoradio.

Gil ainda permaneceu algumas semanas, mas a 14 de agosto deixou o Clube com muitas críticas a Emil Pinheiro, evidenciando a ruptura entre treinador e presidente. Em seu lugar – de agosto a dezembro – foi contratado Edinho Nazareth já numa fase de instabilidade que antecederia o desmantelamento da equipe, porque Emil afastara-se e uma grande parte de jogadores não pertenciam a Clube, mas ao próprio Emil Pinheiro, que os vendeu.

No dia 16 de dezembro de 1992 foi contratado o treinador Paulo Emílio para a temporada de 1993; Jorge Aurélio Ribeiro Domingues assumiu provisoriamente a presidência interina com a renúncia de Emil Pinheiro, até à eleição do novo presidente Mauro Ney Palmeiro.

Paulo Emílio dispôs de uma equipe muito mais barata após a saída de jogadores como Carlos Alberto Santos, Renato Gaúcho, Válber, Valdeir, entre outros, recorrendo-se, então, a jogadores mais jovens, alguns pouco conhecidos e atletas emprestados. Apesar de alguns bons resultados registraram-se muitos empates e a fragilidade da equipe perante os maiores rivais era notória, num grupo em que faltava dinheiro até para aquisição de material básico de treino.

O insuficiente rendimento levou à saída do treinador em abril, dando lugar ao ‘velho’ conhecido Othon Valentim, que foi uma das maiores revelações do Botafogo no início da década de 1960, ponta-esquerda da lendária equipe tetracampeã de juvenis em 1961-1964 (atualmente juniores), que chegou a jogar com Garrincha, Nilton Santos e Zagallo e que pendurou as chuteiras precocemente aos 27 anos devido a sucessivas lesões nos joelhos.

Porém, tratava-se de uma solução interna provisória de 28 dias que precedeu a chegada de Carlos Alberto Torres, jogador campeão do mundo em 1970 e que jogou no Botafogo em 1971 ao lado de Jairzinho, também campeão do mundo em 1970.

Carlos Alberto Torres sucedeu a uma história recente de altos e baixos: Ernesto Paulo recebeu o Botafogo bicampeão e ficou à beira do tri; Gil quase conseguiu o título brasileiro, mas ficou apenas como vice-campeão; Edinho apanhou o início da transição; Paulo Emílio e Othon receberam um Botafogo em pleno desmantelamento financeiro e técnico. Torres pegou nesse Botafogo quebrado e realizou uma das maiores improbabilidades da história do Clube, mundo o contexto e levando à conquista da América do Sul.

O período com Carlos Alberto Torres no comando da equipe começou e terminou de forma absolutamente inédita, tal como é costume suceder ao Botafogo.

Efetivamente a diretoria quis contratá-lo, mas explicou-lhe que não havia dinheiro para lhe pagar. Então, segundo André Silva, pegou no telefone, arrumou dois amistosos nas Caraíbas (Martinica e Guadalupe) e combinou com a diretoria que parte das receitas caberia ao Clube e outra parte seria destinada à remuneração do treinador. Isto é, Carlos Alberto Torres criou o seu próprio salário em 1993!

O próximo capítulo desenvolve as extraordinárias ocorrências desse ano histórico.

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br

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