por LÚCIA
SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo
Descobri, há tempos, que o meu coração não
bate – ele toca. É um verdadeiro rádio comunitário que funciona sem patrocínio,
com programação caótica, vinhetas improvisadas e uma apresentadora dramática:
eu mesma.
Sou dessas que escuta uma música romântica e
já começa a chorar antes mesmo do refrão. Basta ouvir um “eu sei que vou te
amar” pra me transformar numa heroína de novela mexicana, enxugando os olhos
com o guardanapo e suspirando como se o amor estivesse atrasado no trânsito.
De manhã, ele começa suave, com uma MPB
otimista do tipo “hoje vai dar tudo certo”. Mas basta eu abrir o aplicativo do
banco e ver o saldo, pra trilha sonora mudar automaticamente para um tango
sofrido, daqueles que já vêm com cheiro de lágrima e café requentado.
E foi numa dessas fases de “quero colocar
drama na vida” que resolvi fazer aulas de tango na Lapa. Ah, o tango... meu
coração, confesso, tem alma portenha. A escola funcionava numa casa tão antiga
que as escadas gemiam, como se tivessem artrite. O chão rangia em compasso 2x4,
e as janelas se abriam sozinhas, como num filme de Almodóvar com orçamento
baixo.
Foi aí que conheci ele – o inesquecível, o
inclassificável, o irresistivelmente desajeitado galã de subúrbio: Don Carlito
Bandoneón.
Ah, Don Carlito... um homem que parecia ter
nascido de sapato de verniz. Magro, elegante, com um bigodinho que fazia curvas
como o compasso de uma milonga. Usava sempre perfume forte o bastante pra ser
sentido em outra encarnação. E dançava com uma seriedade quase religiosa, como se o destino da humanidade dependesse da
firmeza do seu quadril.
“Querida”, dizia ele, ajeitando o paletó, “no
tango não se dança, se confessa pecados com os pés.”
E lá ia eu, toda compenetrada, tentando
seguir seus passos e disfarçar o medo de virar penitente. O problema é que Don
Carlito tinha o pé leve – leve pra dançar e pra pisar no dos outros. Cada aula
era uma mistura de sensualidade e ortopedia. E quando eu reclamava, ele me
fitava com olhos de telenovela e dizia:
“Foi o destino, querida... o destino me fez
pisar em você. E como brigar com o destino, não é mesmo?” Ou ainda:
“No tango, querida, não se dança; se sofre
com elegância.” E foi assim que, aos poucos, fui descobrindo que o sofrimento
não era apenas metafórico.
Depois da aula, ele se sentava na varanda,
tirava um lenço do bolso e secava o suor como quem limpava lembranças. Dizia
ter dançado em Buenos Aires, Paris e até em Bonsucesso – sempre com o mesmo
coração partido e a mesmíssima calça justa.
Mas o tango é só uma das estações do meu
coração. Porque esse rádio toca de tudo – brega, samba, bolero, funk e até
aquele sertanejo que a gente canta chorando, fingindo que é ironia. Sim,
confesso: sou brega. Ouço Reginaldo Rossi e já fico derretida.
“Um beijo no seu coração”, que frase linda!
Brega? Com toda certeza. Mas quem precisa de licença poética quando se tem um
refrão desses? O brega é honesto, é emocional sem medo, é o coração falando
alto – e desafinado.
E quando tocam Lupicínio Rodrigues, então...
Ah, Lupicínio! Aquele homem sabia sofrer com
categoria, como ninguém. Outro dia, coloquei “Nervos de Aço” pra tocar, e no
primeiro verso:
“Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas
veias e sem coração”, já senti o colapso emocional se aproximando. Que exagero,
maravilhoso! Eu ali, deitada no tapete da sala, pensando: “É isso, Lupi, eu
também sou dessas, mas com trilha sonora em estéreo!”
E quando chega na parte: “Eu não sei se o que
trago no peito, é ciúme, despeito, amizade ou horror... Eu só sei que quando a
vejo, me dá um desejo de morte ou de dor...”, me entrego de vez e viro
figurante da minha própria fossa.
Descobri que o zumbido no ouvido, tem
diagnóstico simples: excesso de trilha sonora interna, uma overdose de ritmos,
lembranças, dramas e paixões. O DJ que mora no meu peito é completamente descontrolado.
Mistura tango com funk, samba com bolero e ainda bota um Lupicínio no meio só
pra ver se eu aguento.
Mas, sinceramente, eu gosto disso. Gosto
dessa bagunça sonora que me faz rir, chorar, rebolar e tudo ao mesmo tempo.
Porque, no fundo, ter um coração barulhento é a maior prova de que ele ainda
está bem vivo.
E se um dia, você me vir andando pelas ruas,
sorrindo pro nada, pode apostar: é o Don Carlito Bandoneón que voltou a me
chamar pra dançar – lá de dentro da memória, com o bigodinho torto, o olhar de
novela e aquele sotaque inconfundível.
E como boa radialista do amor, deixo o recado
final, com voz de apresentadora brega da madrugada:
“Um beijo no seu coração, ouvinte querido”.

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