por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
As conclusões principais deste jogo e da
rodada em curso são as seguintes: 3 pontos somados; retorno à liderança isolada
(ou partilhada, caso o Flamengo vença o seu jogo em atraso); evidência de que
não existem equipes que assustem verdadeiramente, porque as melhores também
perdem (Flamengo, tantas derrotas com nós; Palmeiras, Cruzeiro, São Paulo,
Bahia e Athletico, mais duas derrotas; Fortaleza com menos uma derrota, mas
mais empates, e ainda dois jogos em atraso); necessidade de evidente melhoria
do nosso futebol, sobretudo mantendo a identidade habitual e não outra, e exercitando
a confiança de que, em qualquer momento, temos atletas que podem virar um jogo
– como aconteceu contra os goianienses em que o Botafogo evidenciou-se
verdadeiramente a partir da jogada do 2º gol –, sem prejuízo de um entendimento
do jogo numa perspetiva coletiva.
A partida iniciou-se algo lenta, em modo de
estudo, sem jogadas perigosas, até que praticamente na 1ª grande investida do
Botafogo Carlos Alberto (CA) roubou a bola no meio campo do Atlético, rolou-a
lateralmente para Luiz Henrique (LH) na ala direita, que galgou metros
rapidamente, enquanto o próprio CA voava diagonalmente para a grande área.
Então LH cruzou pelo alto à medida da cabeçada de Igor Jesus (IJ), o goleiro
espalmou e no rebote foi o próprio CA, iniciador da jogada, que de pronto
inaugurou o marcador. Botafogo 1x0.
Um amigo comentava, no jogo contra o Bahia,
sobre a minha ‘indicação’ favorável a CA em 2023, e ontem tornou a realçar esse
aspeto aquando do gol inaugural. Efetivamente considero que Carlos Alberto é um
atacante de oportunidade e todos os gols dele 2023-24 foram feitos de remate de
primeira levando o selo de gol. Continuo considerando essa ‘indicação’, porque
se Carlos Alberto for bem orientado por Artur Jorge (AJ) e não se ‘deslumbrar’
consigo mesmo, pode ser muito útil à equipe em momentos específicos para
desenlaçar placares menos bons.
Como vem sendo habitual, o Botafogo recuou
após o gol e o jogo entrou em modo de verão com ambas as equipes produzindo
pouco, mas com o Atlético subindo um puco mais ao ataque do que anteriormente.
Porém, o desajeitado Cuiabano fez um pênalti totalmente desnecessário sobre
Maguinho, que foi involuntário, mas o seu jeito ‘desajeitado’ de jogar, quando
o adversário estava de costas, e já voltando em direção contrária à da baliza,
acabou por calçar claramente o adversário – o que facilmente se observa em
reprise – num pênalti indiscutível e cuja intervenção do VAR devia constituir
exemplo para TODAS as partidas, de modo a anular os VAR que permanecem mudos e
quedos quando o pênalti ocorre a favor do Botafogo. John foi batido
inapelavelmente e o empate decretado: 1x1.
Sobre Cuiabano acreditei nele desde logo
quando em vésperas de ser contratado fiz pesquisas e tudo indicava que o atleta
tinha como características avançar perigosamente ao ataque em velocidade,
efetuar bons cruzamentos para gol e também marcar gols em surgimentos súbitos
próximos da grande área adversária. O que precisa melhorar é o seu jeito
desengonçado de defender, que às vezes provoca-nos calafrios, e recompor-se
mais rapidamente no regresso ao papel defensivo.
Ainda assim, o Botafogo poderia ter ido para
o intervalo vencendo quando CA iniciou um contra-ataque rápido pela ala direita
e poderia ter endossado a bola mais cedo a LH no miolo da área (cujas posições
de ambos se inverteram confundindo o adversário), mas a sua demora de assistir
acabou por encontrar LH já impedido. Seria jogada de cara a cara com o goleiro.
É neste aspeto que CA ainda peca, basicamente por inexperiência, já que ainda
não sabe calcular exatamente o momento de passar a bola, ou quando corria praticamente
isolado para a baliza desde a defesa, mas chegou excessivamente perto do
goleiro, que deu o corpo à bola, em vez de rematar um metro antes e encobrir o
goleiro.
Na segunda parte, apesar da entrada de Marlon
Freitas e Óscar Romero, as iniciativas do Botafogo esbarravam na dificuldade de
criação, a nossa equipe começou correndo ao jeito do adversário, fazendo-lhe o
favor de partir o jogo, enquanto o ataque procurava bolas longas, sobretudo
lançadas por Romero, que embora eu considere também útil à equipe, procura
criar lançamentos longos e perfeitos, à boa maneira de Gérson Canhotinha de
Ouro, quando concretamente o jogo da 2ª parte não pedia ‘jogo solto’, mas bola
firme pelo chão, enredando o adversário.
E, sem intenção de menosprezar o adversário, o Atlético Goianiense ocupa o último lugar da classificação geral (agora sem vencer há 12 jogos) e um candidato ao título como o Botafogo teria que dominar e vencer a partida com relativa facilidade - o que não ocorreu durante 75% da partida.
O que estava acontecendo é que o Botafogo não
tornava o jogo seu, permitindo um vai-e-vem de jogadas que, a qualquer momento,
poderiam servir para desempatar o jogo a favor tanto da nossa equipe como da
equipe goianiense, sem que qualquer delas atuasse com verdadeiro critério do
ponto de vista coletivo, antes através de jogadas individuais – o que, apesar
de tudo, poderia favorecer tendencialmente o Botafogo devido à qualidade
individual em comparação com a do Atlético. Nessa altura do jogo comentei com
um amigo que a IJ lhe estava faltando um gol para deslanchar o seu futebol
ofensivo e as suas qualidades associadas. Eis senão quando Romero cobrou uma
falta próxima da linha de fundo, a zaga aliviou, mas lá estava novamente
Cuiabano no miolo da grande área para disparar um belo remate ao poste esquerdo
da baliza do Atlético e no rebote IJ ter prontamente emendado de primeira para
o fundo das redes adversárias. Botafogo 2x1.
Então, o Atlético sentiu profundamente o
empate e o Botafogo soltou-se finalmente para dominar totalmente a 2ª metade do
2º tempo, com uma exibição notável de LH, que, aliás, já vinha da primeira parte
como melhor jogador da equipe.
LH sofreu dois pênaltis, extremamente
semelhantes ao pênalti favorável aos goianienses na 1ª parte, verificando-se
que seja pelo árbitro, seja pela correção efetuada pelo VAR, os critérios foram
iguais, tal com devem ser sempre.
Óscar Romero converteu o 1ºpênalti aos 80’e o
próprio LH converteu o 2º pênalti, aos 87’, estabelecendo o placar em goleada:
Botafogo 4x1.
Foi uma vitória clara, conseguida na 2ª
parte, e sobretudo após a vantagem no placar aos 68’. Todavia, devo mencionar
que discordo de AJ quando na Coletiva afirmou que o Botafogo jogou com muita
intensidade e dominou a partida do início ao fim. Creio que este excesso de positivismo
não favorece as nossas cores, porque houve falhas claríssimas de interpretação
tática ao longo da partida e não devem ser omitidas numa Coletiva, mais que não
seja por respeito as torcedores.
Percebo que AJ queira falar o menos possível
nas Coletivas sobre aspetos táticos essenciais, jogadas ensaiadas ou
características especiais de jogadores que podem desequilibrar em momentos
específicos, porque tem evitado claramente em fornecer das aos treinadores
adversários através das suas análises – e por isso as suas Coletivas acabarão
por ser repetitivas devido à utilização dos mesmos jargões. Entendo. O que não
aceito é que se desvirtue a realidade dizendo que o Botafogo foi muito intenso
e dominou totalmente a partida “do início ao fim”.
Pessoalmente aprecio treinadores assertivos e
com grande discernimento relativamente ao que ocorreu durante o jogo,
reconhecendo o que têm que reconhecer, seja a nosso favor ou contra nós. Ora,
concordo com AJ quando afirmou que a equipe procura sempre focar a baliza
contrária, mas não concordo com a tal ‘intensidade permanente’ e o dito
controlo total da partida do início ao fim.
Não aprecio jogos ditos ‘eletrizantes’,
porque em geral – na minha perspetiva – são mal jogados na medida em que os
atletas funcionam mais pelo seu voluntarismo do que pelo esquema tático e
coletivo, e isso leva-os a manter o jogo permanentemente num vai-e-vém
tu-cá-tu-lá, que pode ter momentos emocionantes, mas que é perigoso para quem,
como o Botafogo, gosta de intensidade, mas do nosso lado, isto é, controlar o
jogo e imprimir intensidade apenas quando e como nos for favorável. É por isso
que os jogos devem ser mais calculados do que voluntariosos, o que não
significa que não ganhemos jogos ‘na raça’ quando necessário, mas o que não devemos
é deixar partir o jogo de tal modo que o gol possa surgir tanto de um lado como
do outro – e que felizmente ocorreu do nosso lado em virtude de os valores
individuais terem feito a diferença. Porém, se o Atlético fizesse 2x1 não sei
como seria daí em diante, e claramente o placar foi enganador porque
coletivamente não se justificava uma goleada se o Atlético não tivesse quebrado
com o 2º gol botafoguense – e os pênaltis subsequentes foram demolidores para
os goianienses.
Efetivamente, contra o Atlético, como nos
jogos anteriores pós-lesão de Júnior Santos, a equipe jogou menos bem, acusando
a falta do ‘abridor de latas’ da zaga adversária, surgindo então Luiz Henrique
como o homem que tomou as rédeas do ataque e, embora diferentemente de JS,
também fez a diferença – mal comparado, evidentemente, dadas as diferenças de
níveis, ontem lembrei-me de quando Pelé se lesionou no 2º jogo da Copa do Mundo
de 1958 e o Brasil inteiro levou desesperadamente as mãos à cabeça com perda
tão crucial do ‘chefe’ da linha avançada brasileira, e então ficou aberto
espaço para Garrincha assumir a liderança, levar a equipe às costas e tornar-se
o elemento chave do bicampeonato.
AJ tem razão quando diz que ao ataque do
Botafogo está pesando a falta de Júnior Santos, Savarino, Jeffinho ou Eduardo –
e, já agora, Thiago Almada e Matheus Martins chegando – e que é necessário
encontrar alternativas com a matéria-prima disponível. Obviamente que concordo,
e é essa uma das razões de a função de treinador ser tão fundamental a qualquer
equipe de futebol ou a qualquer outra modalidade coletiva. No entanto, os ajustes
devem, tanto quanto possível, não se afastarem da identidade coletiva da
equipe, isto é, manter um padrão para quando os restantes jogadores em falta
entrarem em campo fazerem-no harmoniosamente – isto é, manter posse de bola
para esfriar ímpetos ‘eletrizantes’ adversários, imprimir contra-ataques de
grande intensidade, jogar na vertical, mas em cima de uma teia engendrada
coletivamente, não recuar após a 1ª vantagem no placar, cansar o adversário com
variações de jogadas, aprimorar-se nas bolas paradas, trocar posições
individuais em campo baralhando os adversários e dificultando a marcação,
enfim, manter-se na rota traçada sem descurar a defesa, seja por permitir a tal
intensidade adversária, seja por dificuldades de recomposição em virtude do
avanço dos nossos laterais ou dos nossos zagueiros sem a devida proteção do meio
campo.
Porém, enquanto isso, importa usufruir o momento
presente de liderança do Brasileirão e – mais importante ainda no futuro
imediato – torcer afincadamente para vencermos o boa equipe do Bahia na Copa do
Brasil, sem oferecer aos adversários as facilidades dos últimos jogos – porque não
há terceiros jogos em cada mata-mata da Copa do Brasil.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 4x1 Atlético Goianiense
» Gols: Carlos Alberto, aos
20’, Igor Jesus, aos 68’, Óscar Romero, aos 80’ (pen.), e Luiz Henrique, aos 87’
(pen.) (Botafogo); Campbell, aos 42’ (pen.) (Atlético Goianiense)
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 03.08.2024
» Local: Estádio Antônio Accioly, em Goiânia (G)
» Público: 7.216 pagantes; 8.618 espectadores
» Renda: R$ 388.790,00
» Árbitro: Felipe Fernandes de Lima (MG); Assistentes: Fernanda Nandrea Gomes Antunes
(MG) e Leonardo Henrique Pereira (MG); VAR: Igor Junio Benevenuto de
Oliveira (MG)
» Disciplina: cartão amarelo – Igor Jesus e Luiz Henrique (Botafogo) e Guilherme
Romão, Adriano Martins, Campbell e Artur Jorge (Atlético Goianiense); cartão
vermelho – Tchê Tchê (Botafogo) e Janderson (Atlético Goianiense)
» Botafogo: John; Mateo Ponte, Bastos, Alexander Barboza e Cuiabano (Marçal); Danilo
Barbosa (Marlon Freitas), Allan (Tchê Tchê) e Kauê (Óscar Romero); Luiz
Henrique, Igor Jesus e Carlos Alberto (Matheus Martins). Técnico: Artur Jorge.
» Atlético Goianiense: Pedro Rangel; Maguinho, Adriano Martins, Luiz Felipe e Guilherme Romão;
Gonzalo Freitas, Baralhas (Alejo Cruz) e Shaylon (Janderson); Campbell,
Emiliano Rodríguez (Hurtado) e Luiz Fernando. Técnico: Vagner Mancini.
2 comentários:
Gostei do time do Botafogo. Se não foi uma atuação brilhante, foi uma partida pragmática, controlou bem o jogo e soube explorar as limitações do adversário. Destaque para Luís Henrique, que no 1 contra 1 quase sempre leva perigo. De um modo geral achei boa a atuação individual dos jogadores do Botafogo, e acho que com o que tem nas mãos, apesar de ter perdido o Junior Santos, o Artur Jorge começa a ter mais opções para montar a equipe, e com o entrosamento a intensidade do time pode melhorar
Se realmente chegar bons reforços para a defesa, o Botafogo tem grandes chances de fazer bonito.
Sobre atuações individuais, acho que o Carlos Alberto um bom jogador, tem muito potencial, mas o AJ vai ter que orienta-lo para melhorar a performance, talvez possa crescer a medida em que ganhar experiência.bE acho que o Matheus Martins vai nos dar muitas alegrias, pois pelo pouco tempo que ficou em campo mostrou qualidades. Igor Jesus e Allan bons reforços e o Mateo Ponte começa a melhorar o rendimento. Abs e SB!
Confesso que não gostei do que vi. Contra o último classificado disparado foi um 1º tempo atípico, mal jogado de parte a parte e os gols tanto podiam ter saído para o Botafogo como para o Atlético. A nossa defesa já não funciona como antes. Tivemos 4 jogos seguidos sem a defesa vazada, e de repente nos 4 jogos seguintes tomamos 7 gols. Em minha opinião, o entendimento coletivo também não é mesmo, e a minha esperança é que a chegada de reforços e o regresso de alguns jogadores nos coloque no caminho certo.
Porém, não é nada desesperante, porque, afinal, somos líderes, os melhores também têm perdido jogos, especialmente o Palmeiras que em 6 jogos julgo que só venceu 1 e acumula derrotas. Portanto, se Botafogo ainda conseguir as duas contratações que pretende - e se forem boas - poderemos ter plantel para enfrentar a dureza de 3 cmpetições cm tantos jogos em tão pouco espaço de tempo.
PS: No ataque Luiz Henrique é um caso à parte. Assumiu a dinâmica que falta com a ausência do Júnior Santos. Mas gostei bastante do Igor Jesus e do Carlos Alberto, a quem peço que não se deslumbre. Tenho muito receio disso. Nos últimos anos tivemos potenciais jogadores que deram em nada com os seus deslumbramentos (Jobson, Sassá, Luís Henrique, Matheus Nascimento, entre outros).
Abraços Gloriosos.
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