por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia entre 8 e 29 de junho,
foi uma das edições mais importantes da história do futebol. Foi o torneio em
que o Brasil conquistou o seu primeiro
título mundial e Pelé apareceu para o
mundo com apenas 17 anos, e em que a seleção brasileira começou
a construir a imagem de potência máxima do futebol.
O Mundial teve 16 seleções, 35 jogos e 126 gols, mantendo uma média
ofensiva alta, embora menor que a de 1954. A Suécia foi a única sede nórdica da
história das Copas masculinas até hoje, e a organização foi considerada estável
e moderna para a época.
Uma das primeiras grandes peripécias
foi a ausência da Itália,
bicampeã mundial em 1934 e 1938, que não conseguiu se classificar. Foi um sinal
de que o futebol europeu do pós-guerra já não obedecia às antigas hierarquias.
A Hungria,
vice-campeã de 1954, também chegou enfraquecida: depois da Revolução Húngara de
1956 (*), vários jogadores
importantes deixaram o país, e aquela equipa mágica dos anos anteriores já não
existia da mesma forma.
Para o Brasil, a Copa de 1958
começou com muita pressão. O trauma de 1950 ainda era recente, e a preparação dispôs
de mais meios científicos e de uma organização superior às que foram adotadas
em torneios anteriores. A delegação levou equipa médica, psicólogo,
observadores e um planejamento cuidadoso. O Brasil queria evitar improvisos e
indisciplina, e isso marcou uma mudança no modo de encarar uma Copa.
Na fase de grupos, o Brasil
venceu a Áustria por 3x0,
empatou 0x0 com a Inglaterra
– o primeiro empate sem gols da história das Copas — e depois derrotou a União Soviética por 2x0. Esse terceiro jogo foi decisivo para
a história brasileira: entraram Pelé
e Garrincha como titulares, e a equipa ganhou
outra dimensão técnica e ofensiva, sob o comando, evidentemente, de Didi,
apelidado internacionalmente como ‘Mr. Football’ e Bola de Ouro da Copa de 1958.
A entrada de Garrincha foi uma das grandes
peripécias futebolísticas do torneio. Contra a União Soviética – que alardeava
a superioridade do seu ‘futebol científico’ –, ele começou o jogo destruindo a
defesa adversária pelo lado direito aos 3’, num início que ficou célebre na
memória do futebol brasileiro. Junto com Didi, Vavá, Zagallo e Pelé, Garrincha
ajudou a transformar o Brasil numa equipa mais solta, imprevisível e
encantadora.
Nas quartas-de-final, o Brasil
enfrentou o País de Gales e
venceu por 1x0, com o
primeiro gol de Pelé em Copas do Mundo. O jogo foi difícil, fechado, e o Brasil
precisou de uma jogada individual do jovem atacante para avançar. A partir
dali, Pelé deixou de ser promessa e começou a tornar-se protagonista.
Na semifinal aconteceu um dos
grandes espetáculos da Copa: Brasil 5x2 França.
A França tinha uma equipa muito forte, liderada por Just Fontaine e Raymond Kopa,
mas o Brasil foi superior. Pelé marcou três gols,
tornando-se o jogador mais jovem a fazer um hat-trick
em uma Copa do Mundo.
Mesmo com a eliminação francesa, Just Fontaine entrou para a
história: terminou a Copa com 13 gols,
recorde absoluto de gols numa única edição do Mundial, marca que permanece até
hoje.
Do outro lado, a Suécia aproveitou muito bem o
fator casa. Com jogadores experientes como Nils Liedholm, Gunnar Gren,
Kurt Hamrin e Lennart Skoglund, os suecos
eliminaram a União Soviética nas quartas-de-final e a Alemanha Ocidental,
campeã de 1954, na semifinal. A vitória sueca por 3x1 sobre os alemães levou os
anfitriões à sua primeira e única final de Copa do Mundo.
A final, em 29 de junho de 1958, no Råsunda Stadium, em Solna,
começou com susto para o Brasil. A Suécia abriu o placar logo aos 4’, com Nils Liedholm, e Didi, com a tranquilidade do
costume, pegou a bola na sua baliza e levou-a até à marca do meio-campo,
assinalando simbolicamente que outro jogo iria começar. Então,
o Brasil reagiu com maturidade: Vavá
virou o jogo ainda no primeiro tempo, com gols aos 9’ e 32’. Depois, Pelé, Zagallo e novamente Pelé completaram a vitória
por 5x2.
A final foi histórica por vários
motivos. Foi o primeiro título
mundial do Brasil, a primeira final entre uma seleção europeia
e uma seleção das Américas, e a única vez em que uma Copa disputada na Europa
foi vencida por uma seleção não europeia. Também marcou recordes de idade: Pelé, com 17 anos, tornou-se
o mais jovem goleador numa final, enquanto Liedholm, com 35 anos, tornou-se o mais velho a marcar
numa decisão mundial.
Ademais, por superstição, o
Brasil mudara a cor da camisa após a desdita do ‘Maracanazo’, passando a
envergar a ‘amarelinha’, porém a Seleção da Suécia também usava a cor amarela e
o Brasil viu-se na contingência de mudar a cor da sua camisa, mas estava
absolutamente fora de questão a camisa branca de 1950.
Então, Paulo Machado de Carvalho,
chefe da delegação brasileira, recorreu à fé e, após uma oração, fixou o olhar
numa imagem de Nossa Senhora Aparecida e inspirado no manto da padroeira do
Brasil, decidiu que a nova camisa da Seleção seria azul – e a delegação comprou
camisas azuis comuns em lojas de Estocolmo, costurou nelas os arrancados das
camisas amarelas e na final a goleada brasileira transformou o ‘manto azul’ num
símbolo de fé e de vitória.
Outra imagem simbólica foi o
capitão Bellini erguendo a Taça Jules Rimet
acima da cabeça. O gesto, hoje comum, tornou-se icônico e
passou a ser repetido por capitães campeões em várias competições.
Em resumo, os acontecimentos e
peripécias mais importantes foram a queda da Itália nas eliminatórias, a
Hungria enfraquecida depois de 1956, a preparação mais organizada do Brasil, a
entrada decisiva de Pelé e Garrincha contra a União Soviética, o primeiro gol
de Pelé contra o País de Gales e o hat-trick
contra a França, Didi o ‘Bola de Ouro’ da Copa, o recorde de 13 gols de Just
Fontaine, a campanha forte da anfitriã Suécia, e a consagração brasileira na
final por 5x2. A Copa de
1958 concluiu que o Brasil tinha deixado de ser apenas uma promessa trágica de
1950 para se tornar, finalmente, uma realidade mágica.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Brasil 5x2 Suécia
» Gols: Vavá, aos 9’ e 32’, Pelé,
aos 55’ e 90’, e Zagallo, aos 68’ (Brasil); Liedholm, aos 4’, e Simonsson, aos
80’ (Suécia)
» Data: 29 de junho de 1958
» Local: Estádio Råsunda, em Solna (Suécia)
» Público: 49.737 espectadores
» Árbitro: Maurice Guigue
(França)
» Brasil: Gilmar; Djalma Santos,
Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.
Técnico: Vicente Feola.
» Suécia: Svensson; Bergmark,
Parling, Gustavsson e Axbom; Börjesson, Gren e Liedholm; Hamrin, Simonsson e
Skoglund. Técnico: George Raynor.
(*) A Revolução
Húngara de 1956 foi uma revolta popular na Hungria contra o controlo da União
Soviética e o regime comunista imposto após a Segunda Guerra Mundial. Começou
em outubro com manifestações estudantis em Budapeste e transformou-se numa
insurreição nacional que exigia maior liberdade política, eleições livres,
retirada das tropas soviéticas, liberdade de expressão e reformas económicas. O
líder reformista Imre Nagy tentou implementar mudanças democráticas e anunciou
a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia, o que alarmou Moscovo. Em novembro de
1956, a União Soviética respondeu com uma intervenção militar massiva: tanques
entraram em Budapeste e esmagaram a revolta popular após combates violentos, mantendo
o regime sob a sua dependência.
Fontes principais: imortaisdofutebol.com; maisfutebol.iol.pt;
pt.wikipedia.org;
www.britannica.com;
www.planetworldcup.com;
www.theguardian.com;
www.the-sun.com.



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