domingo, 14 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1958: Didi, o ‘Senhor Futebol’, e a eclosão da maior dupla de atacantes em Copas do Mundo

Cartaz da Copa do Mundo de 1958. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia entre 8 e 29 de junho, foi uma das edições mais importantes da história do futebol. Foi o torneio em que o Brasil conquistou o seu primeiro título mundial e Pelé apareceu para o mundo com apenas 17 anos, e em que a seleção brasileira começou a construir a imagem de potência máxima do futebol.

O Mundial teve 16 seleções, 35 jogos e 126 gols, mantendo uma média ofensiva alta, embora menor que a de 1954. A Suécia foi a única sede nórdica da história das Copas masculinas até hoje, e a organização foi considerada estável e moderna para a época.

Uma das primeiras grandes peripécias foi a ausência da Itália, bicampeã mundial em 1934 e 1938, que não conseguiu se classificar. Foi um sinal de que o futebol europeu do pós-guerra já não obedecia às antigas hierarquias. A Hungria, vice-campeã de 1954, também chegou enfraquecida: depois da Revolução Húngara de 1956 (*), vários jogadores importantes deixaram o país, e aquela equipa mágica dos anos anteriores já não existia da mesma forma.

Para o Brasil, a Copa de 1958 começou com muita pressão. O trauma de 1950 ainda era recente, e a preparação dispôs de mais meios científicos e de uma organização superior às que foram adotadas em torneios anteriores. A delegação levou equipa médica, psicólogo, observadores e um planejamento cuidadoso. O Brasil queria evitar improvisos e indisciplina, e isso marcou uma mudança no modo de encarar uma Copa.

Na fase de grupos, o Brasil venceu a Áustria por 3x0, empatou 0x0 com a Inglaterra – o primeiro empate sem gols da história das Copas — e depois derrotou a União Soviética por 2x0. Esse terceiro jogo foi decisivo para a história brasileira: entraram Pelé e Garrincha como titulares, e a equipa ganhou outra dimensão técnica e ofensiva, sob o comando, evidentemente, de Didi, apelidado internacionalmente como ‘Mr. Football’ e Bola de Ouro da Copa de 1958.

A entrada de Garrincha foi uma das grandes peripécias futebolísticas do torneio. Contra a União Soviética – que alardeava a superioridade do seu ‘futebol científico’ –, ele começou o jogo destruindo a defesa adversária pelo lado direito aos 3’, num início que ficou célebre na memória do futebol brasileiro. Junto com Didi, Vavá, Zagallo e Pelé, Garrincha ajudou a transformar o Brasil numa equipa mais solta, imprevisível e encantadora.

Nas quartas-de-final, o Brasil enfrentou o País de Gales e venceu por 1x0, com o primeiro gol de Pelé em Copas do Mundo. O jogo foi difícil, fechado, e o Brasil precisou de uma jogada individual do jovem atacante para avançar. A partir dali, Pelé deixou de ser promessa e começou a tornar-se protagonista.

Didi, ‘Bola de Ouro’ da Copa do Mundo. Reprodução | Montagem MB.

Na semifinal aconteceu um dos grandes espetáculos da Copa: Brasil 5x2 França. A França tinha uma equipa muito forte, liderada por Just Fontaine e Raymond Kopa, mas o Brasil foi superior. Pelé marcou três gols, tornando-se o jogador mais jovem a fazer um hat-trick em uma Copa do Mundo.

Mesmo com a eliminação francesa, Just Fontaine entrou para a história: terminou a Copa com 13 gols, recorde absoluto de gols numa única edição do Mundial, marca que permanece até hoje.

Do outro lado, a Suécia aproveitou muito bem o fator casa. Com jogadores experientes como Nils Liedholm, Gunnar Gren, Kurt Hamrin e Lennart Skoglund, os suecos eliminaram a União Soviética nas quartas-de-final e a Alemanha Ocidental, campeã de 1954, na semifinal. A vitória sueca por 3x1 sobre os alemães levou os anfitriões à sua primeira e única final de Copa do Mundo.

A final, em 29 de junho de 1958, no Råsunda Stadium, em Solna, começou com susto para o Brasil. A Suécia abriu o placar logo aos 4’, com Nils Liedholm, e Didi, com a tranquilidade do costume, pegou a bola na sua baliza e levou-a até à marca do meio-campo, assinalando simbolicamente que outro jogo iria começar. Então, o Brasil reagiu com maturidade: Vavá virou o jogo ainda no primeiro tempo, com gols aos 9’ e 32’. Depois, Pelé, Zagallo e novamente Pelé completaram a vitória por 5x2.

A final foi histórica por vários motivos. Foi o primeiro título mundial do Brasil, a primeira final entre uma seleção europeia e uma seleção das Américas, e a única vez em que uma Copa disputada na Europa foi vencida por uma seleção não europeia. Também marcou recordes de idade: Pelé, com 17 anos, tornou-se o mais jovem goleador numa final, enquanto Liedholm, com 35 anos, tornou-se o mais velho a marcar numa decisão mundial.

Ademais, por superstição, o Brasil mudara a cor da camisa após a desdita do ‘Maracanazo’, passando a envergar a ‘amarelinha’, porém a Seleção da Suécia também usava a cor amarela e o Brasil viu-se na contingência de mudar a cor da sua camisa, mas estava absolutamente fora de questão a camisa branca de 1950.

Então, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, recorreu à fé e, após uma oração, fixou o olhar numa imagem de Nossa Senhora Aparecida e inspirado no manto da padroeira do Brasil, decidiu que a nova camisa da Seleção seria azul – e a delegação comprou camisas azuis comuns em lojas de Estocolmo, costurou nelas os arrancados das camisas amarelas e na final a goleada brasileira transformou o ‘manto azul’ num símbolo de fé e de vitória.

Estreia em Copas do Mundo da maior dupla atacante de todos os tempos: Garrincha apoia Pelé em comoção após a conquista da Copa do Mundo sobre a Suécia (colorizada). Divulgação.

Outra imagem simbólica foi o capitão Bellini erguendo a Taça Jules Rimet acima da cabeça. O gesto, hoje comum, tornou-se icônico e passou a ser repetido por capitães campeões em várias competições.

Em resumo, os acontecimentos e peripécias mais importantes foram a queda da Itália nas eliminatórias, a Hungria enfraquecida depois de 1956, a preparação mais organizada do Brasil, a entrada decisiva de Pelé e Garrincha contra a União Soviética, o primeiro gol de Pelé contra o País de Gales e o hat-trick contra a França, Didi o ‘Bola de Ouro’ da Copa, o recorde de 13 gols de Just Fontaine, a campanha forte da anfitriã Suécia, e a consagração brasileira na final por 5x2. A Copa de 1958 concluiu que o Brasil tinha deixado de ser apenas uma promessa trágica de 1950 para se tornar, finalmente, uma realidade mágica.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 5x2 Suécia

» Gols: Vavá, aos 9’ e 32’, Pelé, aos 55’ e 90’, e Zagallo, aos 68’ (Brasil); Liedholm, aos 4’, e Simonsson, aos 80’ (Suécia)

» Data: 29 de junho de 1958

» Local: Estádio Råsunda, em Solna (Suécia)

» Público: 49.737 espectadores

» Árbitro: Maurice Guigue (França)

» Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola.

» Suécia: Svensson; Bergmark, Parling, Gustavsson e Axbom; Börjesson, Gren e Liedholm; Hamrin, Simonsson e Skoglund. Técnico: George Raynor.

(*) A Revolução Húngara de 1956 foi uma revolta popular na Hungria contra o controlo da União Soviética e o regime comunista imposto após a Segunda Guerra Mundial. Começou em outubro com manifestações estudantis em Budapeste e transformou-se numa insurreição nacional que exigia maior liberdade política, eleições livres, retirada das tropas soviéticas, liberdade de expressão e reformas económicas. O líder reformista Imre Nagy tentou implementar mudanças democráticas e anunciou a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia, o que alarmou Moscovo. Em novembro de 1956, a União Soviética respondeu com uma intervenção militar massiva: tanques entraram em Budapeste e esmagaram a revolta popular após combates violentos, mantendo o regime sob a sua dependência.

Fontes principais: imortaisdofutebol.com; maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.

Sem comentários:

Copa do Mundo de 1958: Didi, o ‘Senhor Futebol’, e a eclosão da maior dupla de atacantes em Copas do Mundo

Cartaz da Copa do Mundo de 1958. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo de 1958 , disputada na Suécia...