sexta-feira, 29 de maio de 2026

Entre o céu e o inferno (VI): o fenômeno Seedorf e a interdição do Engenhão (2013)

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Em 2013 o ano foi, futebolisticamente falando, particularmente favorável ao futebol botafoguense, sob a liderança técnica de Seedorf em campo – e mesmo fora de campo no que respeita a preparação física e cuidado dos atletas também nas suas vidas pessoais.

Fluente em seis idiomas, Seedorf possui mestrado em administração de empresas, é proprietário de um restaurante em Milão e dirige uma empresa de negócios desportivos e uma instituição de caridade.

“Nunca vi uma personalidade tão forte. Ele falava 10% cm jogador, 70% como técnico e 20% como diretor-geral” – comentou Bruno Demichelis, ex-psicólogo do Milan, ao jornal The Guardian.

O Campeonato Estadual foi um verdadeiro passeio botafoguense, que se sagrou campeão da Taça Guanabara e da Taça Rio, sem necessidade da disputa de finais de campeonato para atribuição do título – obtido diretamente com a conquista das duas competições.

Os números são indiscutíveis: Taça Guanabara – 6 vitórias, 2 empates e 1 derrota,18 gols a favor e 5 contra; Taça Rio – 9 vitórias, 26 gols a favor e 3 contra; total d duas competições – 15 vitórias, 2 empates e 1 derrota, 44 gols a favor e 8 contra (média de 2,4 gols marcados por jogo).

Na Taça Guanabara, o Botafogo bateu o Flamengo na semifinal por 2x0, gols de Júlio César, aos 1’, e Vitinho, aos 90+3’. Na final, realizada no dia 10 de março de 2013, o Botafogo derrotou o Vasco da Gama por 1x0, gol de Lucas aos 80’, tendo a equipe, comandada por Oswaldo de Oliveira, formado com Jefferson; Lucas, Bolívar, Dória e Júlio César; Marcelo Mattos (Vitinho), Gabriel, Fellype Gabriel, Seedorf e Lodeiro (André Bahia); Rafael Marques (Bruno Mendes).

Entretanto, nesse mês de março, a Prefeitura do Rio de Janeiro interditou o Engenhão, justificando-se com a existência de problemas estruturais na cobertura, com risco de colapso do teto em ventos acima de ~60-65 km/h, o que significou que o Botafogo ficou sem estádio para jogar e perdeu receitas importantes que acarretaram prejuízos significativos.

Apesar disso, por virtude das decisões desportivas anteriores, o futebol do Botafogo melhorou ainda mais durante o ano de 2013, não obstante sido obrigado a mandar fora os jogos que realizava em casa, embora no final da temporada, como veremos mais adiante, a gravidade dos problemas financeiros teve consequências profundamente dolorosas em 2014.

Fonte: Instagram @clarenceseedorf.

Entretanto, na Taça Rio, o Botafogo derrotou o Resende na semifinal por 5x0, gols de Dória, aos 12’, Lodeiro, aos 17’, Fellype Gabriel, aos 25’, Rafael Marques, aos 54’, e Seedorf, aos 83’. Na final, realizada no dia 5 de abril de 2013, o Botafogo venceu o Fluminense por 1x0, gol de Rafael Marques, aos 40’, tendo a equipe, comandada por Oswaldo de Oliveira, formado com Jefferson; Lucas, Bolívar, Dória e Júlio César (Lima); Marcelo Mattos, Gabriel, Lodeiro, Seedorf (Lucas Zen) e Fellype Gabriel; Rafael Marques (Vitinho).

Nas semifinais e finais das duas competições estaduais o Botafogo venceu Flamengo, Fluminense, Resende e Vasco da Gama com um total de 9 gols sem resposta, evidenciando um forte esquema defensivo, criação no meio e veia goleadora na frente.

Campanhas completas em https://mundobotafogo.blogspot.com/2013/08/2013-botafogo-campeao-carioca-de-futebol.html

No Campeonato Brasileiro o Botafogo realizou a melhor campanha de pontos corridos até aquela data, classificando-se em 4º lugar e acedendo automaticamente à disputa da Copa Libertadores da América do ano seguinte.

O Botafogo desenvolveu um futebol assertivo e superiormente elaborado; Clarence Seedorf foi o grande líder técnico e referência dentro de campo, superando largamente as indicações do treinador Oswaldo de Oliveira; Rafael Marques reencontrou-se finalmente e foi o artilheiro da equipe; Lodeiro foi criativo n meio-campo; e Jefferson, o melhor goleiro do país à época, foi muito seguro no gol e transmitiu essa segurança para toda a linha defensiva.

O equipe chegou a liderar o campeonato da 6ª à 13ª rodada, jogando um futebol consistente e competitivo, no qual se destacava a forte organização tática, a experiência (sobretudo de Seedorf) e uma eficácia ofensiva relevante.

Seedorf criou mais oportunidades de gol do que qualquer outro jogador no Campeonato Brasileiro de 2013, marcando 17 gols em 59 jogos pelo clube que, segundo o próprio, foi crucial para reencontrar a sua paixão pelo futebol.

“Jogar no Brasil também foi como voltar à minha juventude” – disse Seedorf ao The Guardian. “Em termos de posição em que joguei, da liberdade e criatividade que senti em campo e da simples apreciação de jogar futebol.”

No segundo turno a equipe decaiu, principalmente devido a possuir um elenco curto, lesões importantes e perda de fôlego na reta final, embora tenha conseguido consolidar a sua presença no G4 apesar das dificuldades mencionadas.

No fim do Brasileirão de 2013 Seedorf pendurou as chuteiras, reformando-se como atleta de elite do futebol mundial.

O ano de 2014, em matéria de futebol, quebrou claramente com a saída de Seedorf, desgastado por o elenco não estar disposto a seguir as suas regras, dentro e fora de General Severiano, que exigia parcimônia de comportamentos no que respeita a dietas e diversões, tendo o próprio goleiro Jefferson, símbolo do Glorioso, evidenciado publicamente a sua discordância quanto às exigências de preparação competitiva que seguiam o exigente padrão do futebol europeu.

Seedorf queria mudar radicalmente o Botafogo, indo ao pormenor de sugerir mudança no hino para suprimir a expressão “perder”. Era pormenorizado em tudo, como conta Dória:

– “Uma vez saí do quarto para pegar um biscoito ou suco e ele me viu. ‘Porque você está indo descalço?’. Respondi: – ‘Eu vou só tomar um suco’. Ele me deu o chinelo dele e fiquei todo sem graça. Quando voltei ele falou: ‘Nunca mais ande descalço. Imagine se você der uma topada ou cortar o pé porque amanhã temos jogo. E você ficar de fora por que está descalço?’ Eu leve isso para a minha vida toda.”

No domínio das demais modalidades a diretoria continuou incentivando-as durante o ano de 2013. Entre muitos títulos de 11 modalidades destacaram-se o Remo (medalhas internacionais, Campeonato Brasileiro Sênior, Campeonato Brasileiro Júnior e Campeonato Estadual); o Futebol de 7 (Campeonato Brasileiro e Campeonato Estadual); o Pólo Aquático (Campeonato Brasileiro de Mar); a Natação (vários Campeonatos Estaduais); Futsal (Taça Brasil e Campeonatos Estaduais de base); e ainda foram lançadas as modalidades de Artes Marciais e Póquer com medalhas internacionais e conquistas nacionais e estaduais.

Conquistas do Botafogo em todas as modalidades em 2013: https://mundobotafogo.blogspot.com/2013/12/conquistas-do-botafogo-em-2013.html

Botafogo 1x0 River Plate, inauguração do ‘Engenhão’ como estádio do Botafogo, setembro de 2007 (com presença do editor do Mundo Botafogo). Fonte: Wikipédia – Estádio Olímpico Nilton Santos.

No entanto, o verdadeiro caso do ano, altamente polêmico e de consequências muito nefastas, foi a interdição do Engenhão. O estádio fechou por cerca de dois anos, realizaram-se obras de reforço estrutural e só reabriu em 2015. Acresce que houve versões contestando a decisão, designadamente o risco de o eventual colapso ter sido sobrestimado ou até mesmo não ter havido perigo real de desabamento.

Uma verdadeira ‘batalha judicial’ envolveu construtora, prefeitura, consórcio e o próprio Clube até hoje, sobretudo devido à discussão de quem errou no projeto ou na execução e à disputa de quem deve pagar os cerca de R$ 200 milhões.

Ademais, quando o estádio foi interditado, o Maracanã estava passando por reforma para a Copa do Mundo FIFA 2014 e por um processo de concessão à iniciativa privada, ou seja, havia dois ativos estratégicos do futebol carioca que estavam no centro de decisões públicas em simultâneo.

Donde, a hipótese: “A interdição do estádio, em termos simples, significa que sem o Engenhão o Maracanã ficava praticamente sem rival como grande estádio da cidade.”

É uma hipótese plausível do ponto de vista político-económico na medida em que a interdição foi repentina e o estádio era de uso recente (apenas 6 anos), tornando-se o Maracanã ainda mais central naquele período e, por outro lado, o futebol do Botafogo em ascensão não era bem visto por determinadas entidades, juntando-se o útil ao agradável com o fecho do estádio.

Como consequências o Glorioso perdeu importantes receitas, viu-se com dificuldade financeiras agravadas e com a necessidade de mandar jogos em outros estádios, acabando a interdição por prejudicar fortemente o Clube em 2013 e, sobretudo, em 2014, quer do ponto de vista desportivo, quer do ponto de vista financeiro em virtude de a principal fonte de receitas do Clube – bilheteria, eventos e publicidade – ter sido anulada.

Fontes principais: mundobotafogo.blogspot.com; odia.ig.com.br; pt.wikipedia.org; thebotafogostar.com; thesefootballtimes.co

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Entre o céu e o inferno (VI): o fenômeno Seedorf e a interdição do Engenhão (2013)

Crédito: https://thebotafogostar.com por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Em 2013 o ano foi, futebolisticamente falando, particular...