por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1962,
realizada no Chile, ficou marcada sobretudo por uma figura: Manoel Francisco dos
Santos, o ‘Garrincha’, com exibições extraterrestres.
A competição decorreu entre 30 de
maio e 17 de junho de 1962, com 16 seleções, e terminou com a vitória do Brasil
sobre a Tchecoslováquia por 3x1, em Santiago, tendo registrado, além das
atuações de Garrincha, três grandes dimensões: a confirmação do Brasil como
potência mundial, Pelé lesionado substituído por Amarildo, o ‘Possesso’, e uma
competição fisicamente dura, com episódios muito polémicos.
A edição de 1962 foi a última vez
em que estiveram apenas seleções do continente europeu e do continente
americano: 10 europeias, 5 sul-americanas e 1 centro-americana.
O Chile organizou a Copa do Mundo
em contexto difícil, apenas dois anos após o grande terramoto de Valdivia, de
1960, um dos mais devastadores do século XX. A organização da competição teve,
por isso, um valor simbólico muito forte porque significava uma demonstração de
capacidade nacional e de reconstrução. A Copa realizou-se em apenas quatro
cidades, o que também reflete as limitações logísticas da época.
Três dias antes de se iniciar a competição a FIFA reuniu-se em Santiago, capital chilena, e alterou as regras das naturalizações, definindo que um futebolista só poderia jogar por uma Seleção se nunca tivesse representado outro país em jogos oficiais (a regra seria mais tarde alterada, dizendo respeito apenas às seleções nacionais). O objetivo – a concretizar na Copa de 1966 – foi evitar o que aconteceu nesta Copa de 1962 em que dois ídolos dos seus países, Di Stéfano pela Argentina e Puskás pela Hungria, faziam parte da Seleção de Espanha.
O Brasil chegou ao Chile como
campeão mundial em título, depois da vitória em 1958. Pelé começou jogando de
início, marcou contra o México, mas lesionou-se no segundo jogo, frente à
Tchecoslováquia, e não voltou a jogar. Este foi um dos acontecimentos centrais
que poderia implicar a dificuldade de se alcançar o bicampeonato, mas a equipe
superou essa perda através do genial Garrincha e da entrada fulgurante de
Amarildo, ambos jogadores do Botafogo de Futebol e Regatas.
Amarildo teve papel decisivo na conquista da Copa do Mundo pela segunda vez consecutiva. O craque marcou dois golos contra a Espanha, num jogo fundamental para a passagem do Brasil à fase seguinte, e marcou também no jogo da final quando a Tchecoslováquia se adiantara no placar dois minutos antes. O Brasil teve profundidade coletiva, sob o comando de Didi, mas foram Garrincha e Amarildo, todos botafoguenses, que no contexto coletivo fizeram valer a sua genialidade, acompanhados por Vavá, autor de 4 gols.
Efetivamente, com Pelé lesionado, foi Garrincha que assumiu o protagonismo, sendo absolutamente decisivo nos jogos eliminatórios, sobretudo contra a Inglaterra e contra o Chile. No seu portal a FIFA recorda, por exemplo, o gol de Garrincha contra o Chile nas semifinais como um dos grandes momentos da Copa, aos 9' de jogo.
Garrincha terminou como um dos
melhores artilheiro da competição, com 4 gols, juntamente com Vavá, Leonel
Sánchez, Flórián Albert, Valentin Ivanov e Dražan Jerković. O mais interessante
é que não foi sequer a estatística que o tornou memorável, mas sim o modo
brilhante como conseguiu desequilibrar os jogos, com drible inacreditáveis,
imprevisibilidade total e uma capacidade rara de decidir em momentos de
pressão.
Na verdade, Garrincha nunca
sentia pressão e jogava com a alma em campo. Foi tão brilhante que o jornal
chileno El Mercurio titulou: "¿De que planeta viene Garrincha?"
Mas a maior peripécia da Copa – e
talvez o episódio mais infame – foi o jogo Chile x Itália, conhecido como a
“Batalha de Santiago”. A partida foi disputada no dia 2 de junho de 1962 e
terminou com a vitória chilena por 2x0, mas ficou na história pela violência,
designadamente agressões, expulsões, entradas muito duras e até mesmo intervenção
policial em campo.
O árbitro foi Ken Aston, que mais
tarde ficaria ligado à criação dos cartões amarelo e vermelho. A transmissão
britânica também tornou o jogo célebre quando o comentador David Coleman
apresentou-o como uma das exibições mais “estúpidas, chocantes, repugnantes e
vergonhosas” da história do futebol (*).
A seleção chilena, jogando em
casa, chegou às semifinais e terminou em 3º lugar, após vencer a Jugoslávia no
jogo de atribuição do terceiro lugar. Para o Chile foi uma campanha de enorme
significado nacional. A equipa beneficiou do ambiente emocional da competição,
mas também mostrou competitividade real, eliminando a União Soviética nas
quartas-de-final.
A semifinal contra o Brasil foi intensa e terminou 4x2 para os brasileiros. Garrincha marcou dois golos, Vavá também marcou dois e o Chile resistiu como pôde perante uma seleção brasileira avassaladora.
O genial Garrincha foi expulso e
desse modo não poderia disputar a final, desfalcando a seleção campeã do mundo
do seu grande motor atacante. Porém, Garrincha acabou por disputar a final
porque o árbitro Arturo Yamasaki, convocado pela FIFA para depor, afirmou que
não viu a agressão e a expulsão ocorreu por indicação do árbitro assistente.
A FIFA convocou-o, mas o árbitro
assistente não apareceu e noticiou-se que teria regressado ao Uruguai, mas no
seu país também não sabiam dele e a agressão não ficou provada, permitindo que
Garrincha jogasse. Alvitrou-se que teria recebido uma grande quantia para
desaparecer e, coincidência, ou não, alguns meses depois foi convidado a apitar
jogos no Brasil pela Federação Paulista de Futebol.
Na verdade, seria um grande
desperdício futebolístico Garrincha não ter disputado a final…
Veja porquê: https://www.youtube.com/watch?v=mWlpba4i5Mw
Por seu turno, a Tchecoslováquia,
segunda Seleção finalista, realizou um percurso muito sólido. A sua equipa
estava bem organizada, com destaque para Josef Masopust, meio-campista de
grande qualidade, que marcaria o primeiro gol da final. O jogo afigurava-se
bastante difícil, quiçá competitivamente equilibrado, porque brasileiros e
tchecoslovacos já se haviam defrontado na fase de grupos e empatado em 0x0 – e
a final teria sabor a tira-teimas de quem era melhor.
No jogo derradeiro da Copa,
Masopust colocou a Tchecoslováquia em vantagem logo aos 15 minutos de jogo, mas
dois minutos depois, Amarildo, o ‘Possesso’, empatou. Na segunda parte Zito e
Vavá completaram a reviravolta brasileira e o resultado final favoreceu com
justiça o Brasil pela vitória de 3x1.
A Copa de 1962 também foi
lembrada como uma competição mais física e menos aberta do que a de 1958. Houve
89 gols em 32 jogos, uma média inferior à de algumas edições anteriores, e
vários relatos destacam a dureza do jogo.
Esse contexto ajuda a perceber
por que razão o talento de Garrincha se tornou tão marcante: numa competição
fechada, agressiva e taticamente mais cautelosa, Garrincha manteve a capacidade
de desequilibrar individualmente e conduzir o Brasil ao bicampeonato.
Em resumo, a Copa do Mundo de 1962 foi muito importante para o Brasil consolidar o seu futebol como bicampeão mundial, transformou Garrincha na grande figura da competição, revelou a enorme capacidade de Amarildo para substituir Pelé, proporcionou ao Chile a sua melhor campanha de sempre e deixou para a história um dos jogos mais violentos dos Mundiais, a “Batalha de Santiago”.
Foi uma competição menos
romântica do que em 1958, mas decisiva para a afirmação do Brasil como
referência máxima do futebol internacional.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Brasil 3x1 Tchecoslováquia
» Gols: Amarildo, aos 17’, Zito,
aos 69’, e Vavá, ao 78’ (Brasil); Josef Masopust, aos 15’ (Tchecoslováquia)
» Data: 17.06.1962
» Local: Estádio Nacional, em Santiago
(Chile)
» Público: 68.679 espectadores
» Árbitro: Nikolay Latyshev
(União Soviética)
» Brasil: Gilmar; Djalma Santos,
Mauro Ramos, Zózimo, Nílton Santos; Zito, Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo,
Zagallo. Técnico: Aymoré Moreira.
» Tchecoslováquia: Viliam
Schrojf; Jiří Tichý, Svatopluk Pluskal, Ján Popluhár, Ladislav Novák; Andrej
Kvašňák, Josef Masopust; Tomáš Pospíchal, Adolf Scherer, Josef Kadraba, Josef
Jelínek. Técnico: Rudolf Vytlačil.
(*) Não sabia David Coleman que 12 anos depois, em 29 de maio de 1958, numa final da Liga do Campeões Europeus, os torcedores do Liverpool iniciaram uma violentíssima briga
na arquibancada, as grades que separavam os torcedores ingleses dos italianos
cederam e dezenas de espectadores italianos foram espezinhados por hooligans, que usaram barras de ferro
para bater nos rivais. Com a pressão humana o muro caiu e arrastou na queda
mais algumas dezenas de pessoas, saldando-se o acontecimento por 39 mortos e um
número indefinido de feridos, no episódio que ficou conhecido pela “Tragédia do
Estádio Heysel”, o qual levou a que a própria rainha Isabel II condenasse
publicamente o comportamento do hooligans
e apoiasse a suspensão das equipes inglesas nas competições europeias por
cinco anos. O acontecimento bárbaro mudou o futebol mundial.
Fontes principais: Arquivo Nacional; en.wikipedia.org; www.britannica.com;
www.fifa.com; www.reddit.com




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