por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de
1986, realizada no México, ficou marcada sobretudo por uma figura: Diego
Armando Maradona. Foi um Mundial de grande intensidade emocional, com jogos
memoráveis, episódios polémicos e uma das campanhas individuais mais influentes
da história do futebol.
A Copa decorreu entre
31 de maio e 29 de junho de 1986 e terminou com a vitória da Argentina, que
derrotou a Alemanha Ocidental por 3x2 na final, no Estádio Azteca, na Cidade do
México.
Inicialmente o Mundial
de 1986 estava previsto para ser organizado pela Colômbia, mas o país desistiu
por dificuldades económicas e organizativas devido à FIFA alargar a competição
de 16 para 24 países. A FIFA convidou então para país organizador a América,
depois o Brasil e em seguida o Canadá, mas todos recusaram. Chegou-se, então, a
entendimento com o México para assumir a organização, tornando-se o primeiro
país a receber duas fases finais da Copa do Mundo, depois de ter organizado a
edição de 1970. E nem os terramotos de 1985 que afetaram o país impediram a sua
realização.
O torneio ficou muito
associado à altitude, ao calor e aos grandes estádios mexicanos, em particular
o Estádio Azteca, palco de importantes confrontos futebolísticos.
A Argentina chegou ao
México com uma equipa competitiva, mas não era unanimemente vista como a grande
favorita, e o que tornou essa Seleção distinta das demais foi a dimensão
extraordinária de Maradona, que assumiu um protagonismo quase absoluto através
de desempenho estratosféricos.
Maradona foi capitão, organizador de jogo, desequilibrador e líder emocional da equipa, marcou gols decisivos (5), foi o jogador com mais assistências (5), criou o maior número de oportunidades (27) e em matéria de dribles efetuou 53, ficando apenas atrás de Garrincha, que em 1962 efetuou 62 dribles, conduzindo a Argentina ao título. A sua influência foi tão grande que o Mundial de 1986 é frequentemente descrito como “o Mundial de Maradona”, tal como o de 1962 é conhecido como “o Mundial de Garrincha”. Nem antes de Garrincha, nem depois de Maradona, apareceu um craque de tão grande dimensão numa Copa do Mundo.
O encontro das quartas
de final entre Argentina e Inglaterra, disputado em 22 de junho de 1986, foi um
dos jogos mais famosos da história do futebol porque tinha uma carga política e
emocional particular devido à Guerra das Malvinas/Falklands (*) ocorrida entre
a Argentina e o Reino Unido em 1982. A Argentina venceu por 2x1, com dois gols
de Maradona completamente opostos entre si.
O primeiro ficou
conhecido como a ‘Mão de Deus’. Maradona disputou a bola com o goleiro inglês
Peter Shilton e fez gol com a mão. O árbitro validou o gol, apesar da infração,
e o episódio tornou-se uma das maiores polêmicas da história dos Mundiais.
Apenas três minutos
depois de ter enganado a equipe de arbitragem, Maradona marcou aquele que
muitos consideram ‘o gol do século’: recebeu a bola ainda no meio-campo
argentino, correu 68 metros em 10 segundos e após 12 toques na bola, sempre com
o pé esquerdo, ultrapassou 6 jogadores ingleses e depois driblou o goleiro
Peter Shilton, antes de finalizar. Foi um lance de extraordinária técnica,
velocidade, equilíbrio e leitura de jogo.
Maradona reuniu, assim, dois momentos extremos do futebol: a astúcia transgressora e a genialidade pura.
Veja aqui o ‘gol do
século’: https://www.youtube.com/watch?v=RnAHSO57W_w
Razão teve Diego
Maradona quando um dia disse: “Imaginem o que teria ido a minha carreira sem as
drogas…”.
A Bélgica realizou uma
das melhores campanhas da sua história até então, tendo crescido durante a
competição, após uma fase inicial discreta e chegou às semifinais, tendo
vencido antes a União Soviética nas oitavas de final num jogo espetacular que
venceu por 4x3 após prolongamento e afastado a Espanha nos pênaltis nas quartas
de final, afastou a Espanha nos pênaltis. Porém, nas semifinais não foi suficiente
para vencer o esquadrão de Maradona, que marcou os dois gols da vitória
argentina.
O jogo entre França e
Brasil, nas quartas de final, foi outro momento particular da Copa da Mundo de
1986,o qual terminou empatado em 1x1 após prolongamento, e a França venceu nos
pênaltis.
O Brasil ainda tinha
Sócrates, Zico e Júnior do futebol criativo de 1982,embora sem o fulgor
coletivo de outrora, e a França dispunha de uma geração fortíssima, liderada
por Michel Platini na companhia de jogadores como Tigana, Giresse e Fernández.
O jogo foi tecnicamente rico, equilibrado e dramático, tendo Zico entrado aos 71’ e pouco depois dispôs de um pênalti a favor do Brasil. Zico teve nos pés a passagem do Brasil às quartas de final, mas o chute saiu fraco, a meia altura, e o goleiro Bats salvou a França. No desempate por pênaltis a França foi melhor e seguiu para as semifinais. Para o Brasil, foi mais uma eliminação dolorosa de uma geração admirada pelo seu futebol técnico, mas que terminou sem conquistar o Mundial.
Por seu lado, a
Alemanha Ocidental tornou a evidenciar uma grande capacidade competitiva,
mostrando-se muito eficaz nas fases decisivas, tendo eliminado Marrocos nos
oitavos de final, México nas quartas de final, nos pênaltis, e a França nas
semifinais, por 2x0 – e tal como em 1982 chegou à final cm o seu futebol
físico, organizado e competitivo, contrastando com a inspiração de Maradona e a
criatividade da Argentina.
A grande surpresa da
competição foi Marrocos, que venceu o seu grupo deixando atrás de si Inglaterra,
Polónia e Portugal e tornou-se a primeira seleção africana a passar a fase de
grupos numa Copa do Mundo. Todavia, soçobrou perante a Alemanha Ocidental nos
oitavos de final, por 1x0, com um gol tardio de Lothar Matthäus.
Inversamente, Portugal
foi a grande desilusão no regresso a uma Copa do Mundo depois de vinte anos. A
equipe qualificara-se ‘milagrosamente’ para a Copa do Mundo ao vencer a
Alemanha por 1x0 e começou bem vencendo a Inglaterra por 1x0, mas o chamado
‘caso Saltillo’, designação associada à cidade mexicana onde os portugueses se
concentravam, destruiu completamente a campanha em meio a conflitos entre
jogadores, dirigentes e equipa técnica, relacionados com prêmios, condições de
preparação, organização interna e disciplina – e Portugal terminou em último
lugar no grupo após perder para a Polônia e Marrocos.
Futebol de ‘encher o
olho’ foi o da Dinamarca, que entusiasmou a arquibancada com jogadores como
Michael Laudrup, Preben Elkjær e Jesper Olen, vencendo os três jogos do grupo,
incluindo uma expressiva vitória sobre o Uruguai por 6x1. Esperava-se, então,
que a Dinamarca fosse uma Seleção seriamente candidata a prosseguir, mas nas
oitavas-de-final caiu estrondosamente perante a Espanha por 5x1, com 4 gols de
Emilio Butragueño – uma das maiores figuras da competição.
Outra figura importante, apesar da eliminação frente à Argentina, foi o inglês Gary Lineker, artilheiro da competição com 6 gols, tendo feito um hat-trick frente à Polónia, assim como o gol inglês na derrota com a Argentina e quase chegando a empate nos minutos finais.
A final foi disputada
no dia 29 de junho de 1986, no Estádio Azteca, e a Argentina arrancou com dois
gols de José Luis Brown e Jorge Valdano. Porém, a Alemanha Ocidental reagiu e
empatou com gols de Karl-Heinz Rummenigge e Rudi Völler, fazendo acreditar os
espectadores que a virada estaria chegando.
Ledo engano quando,
pouco depois, Maradona encontrou espaço para o passe decisivo dirigido a Jorge
Burruchaga que estufou as redes alemãs e decretou o segundo título mundial da
Argentina.
Em resumo, foi a Copa
do Mundo que consagrou Diego Maradona ao mais alto nível, com a sua ‘Mão de
Deus’ e o seu ‘gol do século’; conheceu a afirmação de Marrocos e a queda de
Portugal com o ‘caso Saltillo’; viu desfilar o futebol atrativo da Dinamarca e
a grande surpresa da Bélgica chegada às semifinais; e ainda a ‘zica’ de Zico
frente à França e a resiliente Seleção Alemã disputando a segunda final
seguida.
Talento e polémica,
beleza e pragmatismo, foram ingredientes de uma das mais históricas Copas do Mundo de futebol.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Argentina 3x2 Alemanha Ocidental
» Gols: José Luis Brown, aos 23’, Jorge Valdano, aos 56’, e Jorge
Burruchaga, aos 84’ (Argentina); Karl-Heinz Rummenigge, aos 74’, e Rudi Völler,
aos 81’ (Alemanha Ocidental)
» Data: 29 de junho de 1986
» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)
» Público: 114.600 espectadores
» Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil)
» Disciplina: cartão amarelo – Diego Maradona, Julio Olarticoechea, Héctor
Enrique e Nery Pumpido (Argentina) e Lothar Matthäus e Hans-Peter Briegel
(Alemanha Ocidental)
» Argentina: Nery Pumpido; José Luis Brown, Oscar Ruggeri e José Cuciuffo;
Ricardo Giusti, Sergio Batista, Héctor Henrique, Diego Maradona e Julio
Olarticoechea; Jorge Burruchaga (Marcelo Trobianni) e Jorge Valdano. Técnico:
Carlos Bilardo.
» Alemanha Ocidental: Harald Schumacher; Thomas Berthold; Norbert Eder,
Ditmar Jakobs, Karl-Heinz Förster e Hans-Peter Briegel; Lothar Matthäus,
Andreas Brehme e Felix Magath (Dieter Hoeness); Karl-Heinz Rummenigge e Klaus
Allofs (Rudi Völler). Técnico: Franz Beckenbauer.
(*) A Guerra das
Malvinas/Falklands foi um conflito armado de 74 dias que opôs a Argentina e o
Reino Unido, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, tendo começado quando a
ditadura militar argentina invadiu as ilhas. O arquipélago é alvo de
reivindicações históricas, considerado pela Argentina extensão do seu
território herdado da colonização espanhola, enquanto os britânicos possuem a
administração efetiva desde 1883. À época a junta militar argentina, liderada
por Leopoldo Galtieri, enfrentava uma forte rejeição interna associada a uma
grave crise econômica e usou a invasão, respaldada pela disputa histórica, como
estratégia nacionalista para desviar a atenção dos problemas do país e unir a
população. Porém, Margaret Tatcher enviou uma poderosa força naval, aérea e
terrestre ao Atlântico Sul e as tropas britânicas retomaram a capital Port
Stanley levando à rendição argentina ao 74º dia do conflito e mantiveram o
território sob sua administração.
Fontes principais: businessreport.co.za; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt;
www.britannica.com;
www.fifa.com;
www.rsssf.org; www.youtube.com.





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