quinta-feira, 25 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1986: a ‘mão de Deus’, o ‘gol do século’ e a desdita de Zico

Cartaz da Copa do Mundo de 1986. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1986, realizada no México, ficou marcada sobretudo por uma figura: Diego Armando Maradona. Foi um Mundial de grande intensidade emocional, com jogos memoráveis, episódios polémicos e uma das campanhas individuais mais influentes da história do futebol.

A Copa decorreu entre 31 de maio e 29 de junho de 1986 e terminou com a vitória da Argentina, que derrotou a Alemanha Ocidental por 3x2 na final, no Estádio Azteca, na Cidade do México.

Inicialmente o Mundial de 1986 estava previsto para ser organizado pela Colômbia, mas o país desistiu por dificuldades económicas e organizativas devido à FIFA alargar a competição de 16 para 24 países. A FIFA convidou então para país organizador a América, depois o Brasil e em seguida o Canadá, mas todos recusaram. Chegou-se, então, a entendimento com o México para assumir a organização, tornando-se o primeiro país a receber duas fases finais da Copa do Mundo, depois de ter organizado a edição de 1970. E nem os terramotos de 1985 que afetaram o país impediram a sua realização.

O torneio ficou muito associado à altitude, ao calor e aos grandes estádios mexicanos, em particular o Estádio Azteca, palco de importantes confrontos futebolísticos.

A Argentina chegou ao México com uma equipa competitiva, mas não era unanimemente vista como a grande favorita, e o que tornou essa Seleção distinta das demais foi a dimensão extraordinária de Maradona, que assumiu um protagonismo quase absoluto através de desempenho estratosféricos.

Maradona foi capitão, organizador de jogo, desequilibrador e líder emocional da equipa, marcou gols decisivos (5), foi o jogador com mais assistências (5), criou o maior número de oportunidades (27) e em matéria de dribles efetuou 53, ficando apenas atrás de Garrincha, que em 1962 efetuou 62 dribles, conduzindo a Argentina ao título. A sua influência foi tão grande que o Mundial de 1986 é frequentemente descrito como “o Mundial de Maradona”, tal como o de 1962 é conhecido como “o Mundial de Garrincha”. Nem antes de Garrincha, nem depois de Maradona, apareceu um craque de tão grande dimensão numa Copa do Mundo.

A ‘mão de Deus’. Crédito: Bob Thomas | Getty Images.

O encontro das quartas de final entre Argentina e Inglaterra, disputado em 22 de junho de 1986, foi um dos jogos mais famosos da história do futebol porque tinha uma carga política e emocional particular devido à Guerra das Malvinas/Falklands (*) ocorrida entre a Argentina e o Reino Unido em 1982. A Argentina venceu por 2x1, com dois gols de Maradona completamente opostos entre si.

O primeiro ficou conhecido como a ‘Mão de Deus’. Maradona disputou a bola com o goleiro inglês Peter Shilton e fez gol com a mão. O árbitro validou o gol, apesar da infração, e o episódio tornou-se uma das maiores polêmicas da história dos Mundiais.

Apenas três minutos depois de ter enganado a equipe de arbitragem, Maradona marcou aquele que muitos consideram ‘o gol do século’: recebeu a bola ainda no meio-campo argentino, correu 68 metros em 10 segundos e após 12 toques na bola, sempre com o pé esquerdo, ultrapassou 6 jogadores ingleses e depois driblou o goleiro Peter Shilton, antes de finalizar. Foi um lance de extraordinária técnica, velocidade, equilíbrio e leitura de jogo.

Maradona reuniu, assim, dois momentos extremos do futebol: a astúcia transgressora e a genialidade pura.

O ‘gol do século’. Crédito: France Press | AFP PHOTO.

Veja aqui o ‘gol do século’: https://www.youtube.com/watch?v=RnAHSO57W_w

Razão teve Diego Maradona quando um dia disse: “Imaginem o que teria ido a minha carreira sem as drogas…”.

A Bélgica realizou uma das melhores campanhas da sua história até então, tendo crescido durante a competição, após uma fase inicial discreta e chegou às semifinais, tendo vencido antes a União Soviética nas oitavas de final num jogo espetacular que venceu por 4x3 após prolongamento e afastado a Espanha nos pênaltis nas quartas de final, afastou a Espanha nos pênaltis. Porém, nas semifinais não foi suficiente para vencer o esquadrão de Maradona, que marcou os dois gols da vitória argentina.

O jogo entre França e Brasil, nas quartas de final, foi outro momento particular da Copa da Mundo de 1986,o qual terminou empatado em 1x1 após prolongamento, e a França venceu nos pênaltis.

O Brasil ainda tinha Sócrates, Zico e Júnior do futebol criativo de 1982,embora sem o fulgor coletivo de outrora, e a França dispunha de uma geração fortíssima, liderada por Michel Platini na companhia de jogadores como Tigana, Giresse e Fernández.

O jogo foi tecnicamente rico, equilibrado e dramático, tendo Zico entrado aos 71’ e pouco depois dispôs de um pênalti a favor do Brasil. Zico teve nos pés a passagem do Brasil às quartas de final, mas o chute saiu fraco, a meia altura, e o goleiro Bats salvou a França. No desempate por pênaltis a França foi melhor e seguiu para as semifinais. Para o Brasil, foi mais uma eliminação dolorosa de uma geração admirada pelo seu futebol técnico, mas que terminou sem conquistar o Mundial.

Por seu lado, a Alemanha Ocidental tornou a evidenciar uma grande capacidade competitiva, mostrando-se muito eficaz nas fases decisivas, tendo eliminado Marrocos nos oitavos de final, México nas quartas de final, nos pênaltis, e a França nas semifinais, por 2x0 – e tal como em 1982 chegou à final cm o seu futebol físico, organizado e competitivo, contrastando com a inspiração de Maradona e a criatividade da Argentina.

A grande surpresa da competição foi Marrocos, que venceu o seu grupo deixando atrás de si Inglaterra, Polónia e Portugal e tornou-se a primeira seleção africana a passar a fase de grupos numa Copa do Mundo. Todavia, soçobrou perante a Alemanha Ocidental nos oitavos de final, por 1x0, com um gol tardio de Lothar Matthäus.

Inversamente, Portugal foi a grande desilusão no regresso a uma Copa do Mundo depois de vinte anos. A equipe qualificara-se ‘milagrosamente’ para a Copa do Mundo ao vencer a Alemanha por 1x0 e começou bem vencendo a Inglaterra por 1x0, mas o chamado ‘caso Saltillo’, designação associada à cidade mexicana onde os portugueses se concentravam, destruiu completamente a campanha em meio a conflitos entre jogadores, dirigentes e equipa técnica, relacionados com prêmios, condições de preparação, organização interna e disciplina – e Portugal terminou em último lugar no grupo após perder para a Polônia e Marrocos.

Futebol de ‘encher o olho’ foi o da Dinamarca, que entusiasmou a arquibancada com jogadores como Michael Laudrup, Preben Elkjær e Jesper Olen, vencendo os três jogos do grupo, incluindo uma expressiva vitória sobre o Uruguai por 6x1. Esperava-se, então, que a Dinamarca fosse uma Seleção seriamente candidata a prosseguir, mas nas oitavas-de-final caiu estrondosamente perante a Espanha por 5x1, com 4 gols de Emilio Butragueño – uma das maiores figuras da competição.

Outra figura importante, apesar da eliminação frente à Argentina, foi o inglês Gary Lineker, artilheiro da competição com 6 gols, tendo feito um hat-trick frente à Polónia, assim como o gol inglês na derrota com a Argentina e quase chegando a empate nos minutos finais.

Gol do artilheiro Gary Lineker contra a Argentina. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1lAO0uq6gps

A final foi disputada no dia 29 de junho de 1986, no Estádio Azteca, e a Argentina arrancou com dois gols de José Luis Brown e Jorge Valdano. Porém, a Alemanha Ocidental reagiu e empatou com gols de Karl-Heinz Rummenigge e Rudi Völler, fazendo acreditar os espectadores que a virada estaria chegando.

Ledo engano quando, pouco depois, Maradona encontrou espaço para o passe decisivo dirigido a Jorge Burruchaga que estufou as redes alemãs e decretou o segundo título mundial da Argentina.

Em resumo, foi a Copa do Mundo que consagrou Diego Maradona ao mais alto nível, com a sua ‘Mão de Deus’ e o seu ‘gol do século’; conheceu a afirmação de Marrocos e a queda de Portugal com o ‘caso Saltillo’; viu desfilar o futebol atrativo da Dinamarca e a grande surpresa da Bélgica chegada às semifinais; e ainda a ‘zica’ de Zico frente à França e a resiliente Seleção Alemã disputando a segunda final seguida.

Talento e polémica, beleza e pragmatismo, foram ingredientes de uma das mais históricas Copas do Mundo de futebol.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Argentina 3x2 Alemanha Ocidental

» Gols: José Luis Brown, aos 23’, Jorge Valdano, aos 56’, e Jorge Burruchaga, aos 84’ (Argentina); Karl-Heinz Rummenigge, aos 74’, e Rudi Völler, aos 81’ (Alemanha Ocidental)

» Data: 29 de junho de 1986

» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)

» Público: 114.600 espectadores

» Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil)

» Disciplina: cartão amarelo – Diego Maradona, Julio Olarticoechea, Héctor Enrique e Nery Pumpido (Argentina) e Lothar Matthäus e Hans-Peter Briegel (Alemanha Ocidental)

» Argentina: Nery Pumpido; José Luis Brown, Oscar Ruggeri e José Cuciuffo; Ricardo Giusti, Sergio Batista, Héctor Henrique, Diego Maradona e Julio Olarticoechea; Jorge Burruchaga (Marcelo Trobianni) e Jorge Valdano. Técnico: Carlos Bilardo.

» Alemanha Ocidental: Harald Schumacher; Thomas Berthold; Norbert Eder, Ditmar Jakobs, Karl-Heinz Förster e Hans-Peter Briegel; Lothar Matthäus, Andreas Brehme e Felix Magath (Dieter Hoeness); Karl-Heinz Rummenigge e Klaus Allofs (Rudi Völler). Técnico: Franz Beckenbauer.

(*) A Guerra das Malvinas/Falklands foi um conflito armado de 74 dias que opôs a Argentina e o Reino Unido, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, tendo começado quando a ditadura militar argentina invadiu as ilhas. O arquipélago é alvo de reivindicações históricas, considerado pela Argentina extensão do seu território herdado da colonização espanhola, enquanto os britânicos possuem a administração efetiva desde 1883. À época a junta militar argentina, liderada por Leopoldo Galtieri, enfrentava uma forte rejeição interna associada a uma grave crise econômica e usou a invasão, respaldada pela disputa histórica, como estratégia nacionalista para desviar a atenção dos problemas do país e unir a população. Porém, Margaret Tatcher enviou uma poderosa força naval, aérea e terrestre ao Atlântico Sul e as tropas britânicas retomaram a capital Port Stanley levando à rendição argentina ao 74º dia do conflito e mantiveram o território sob sua administração.

Fontes principais: businessreport.co.za; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.youtube.com.

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