domingo, 28 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1994: consagração de Romário, doping de Maradona, infortúnio de Baggio e tragédia de Escobar

Cartaz da Copa do Mundo de 1994. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1994, que decorreu na América (Estados Unidos da), teve uma carga simbólica enorme, sobretudo para o Brasil. Foi o torneio do tetracampeonato, da consagração de Romário, da liderança de Dunga, da memória de Ayrton Senna e também de uma final historicamente tensa, decidida pela primeira vez nos pênaltis.

A escolha da América como país organizador foi, por si só, simbólica. O Mundial foi levado para um país onde o futebol não era o principal desporto, numa tentativa clara de internacionalizar ainda mais a modalidade e abrir mercado. Os estádios eram enormes, muitos deles de futebol americano, e as assistências foram muito elevadas.

A imagem da competição misturava espetáculo, marketing, grandes multidões e calor intenso. Muitos jogos foram disputados sob temperaturas difíceis, precisamente para acomodar horários televisivos internacionais, promovendo assim um futebol mais físico, pausado, com muito desgaste.

Entretanto a FIFA introduziu a regra de 3 pontos por vitória para incrementar o futebol de ataque, os árbitros passaram a envergar uniformes coloridos em vez da cor preta obrigatória e as camisas dos jogadores passaram a dispor os seus nomes nas costas.

O Brasil chegava ao Mundial com uma pressão enorme, porque 24 anos após Jairzinho, Pelé, Tostão, Rivelino e companhia não tornara a ser campeão do mundo. O estilo clássico brasileiro ficara para trás e esta nova equipe era mais pragmática, organizada, defensiva e competitiva, gerando muitas críticas.

A grande figura era Romário, porque provavelmente o Brasil não teria chegado à Copa do Mundo sem o seu desempenho decisivo na fase de qualificação, especialmente no jogo contra o Uruguai, no Maracanã, formando uma dupla muito eficaz com Bebeto.

Romário. Crédito: Neal Simpson | Getty Images.

A Seleção vivia um momento emocional muito forte, porque Ayrton Senna tinha falecido em maio desse ano, pouco antes do Mundial, e todo o país estava em comoção.

Senna era uma figura nacional, quase mítica, e a Seleção Brasileira entrou na Copa com essa memória muito presente. Após a conquista, os jogadores exibiram uma faixa com a dedicatória: “Senna… aceleramos juntos. O tetra é nosso.” E o tetra passou a representar, mais do que a vitória futebolística, um momento de catarse coletiva para o Brasil.

Romário, a grande figura brasileira, não era atacante para grande profundidade, mas dispunha de uma capacidade invulgar de decidir jogos em espaços mínimos, sendo determinante contra Rússia, Camarões, Suécia e Países Baixos. Genial e irreverente, criticado por vezes pela sua postura, foi contudo indispensável e terminou eleito o Craque da Copa do Mundo.

Como curiosidade deve-se realçar a famosa imagem de celebração de Bebeto contra os Países Baixos, nas quartas de final, quando fez o gesto de embalar um bebê, em homenagem ao filho que tinha nascido pouco antes. Romário e Mazinho juntaram-se ao gesto e a imagem tornou-se icônica, simbolizando família, alegria, afeto e espontaneidade, contrastando com a dura disputa competitiva.

Acontecimento também relevante ocorreu com Mário Zagallo, Coordenador Técnico da Seleção e consequentemente o único tetracampeão brasileiro com jogador (1958 e 1962), como técnico (1970) e como coordenador técnico (1994).

Mário Zagallo, coordenador técnico. Fonte: www.lance.com.br.

Num dos melhores jogos da Copa, o Brasil venceu os Países Baixos por 3x2 nas quartas de final; Romário e Bebeto fizeram 2x0, o oponente empatou por Dennis Bergkamp e Aron Winter, e depois Branco converteu uma falta com poderoso remate que estabeleceu a vantagem final de 3x2 para o Brasil, num jogo de muita emoção, coragem neerlandesa, tensão e um gol decisivo de um atleta muito criticado.

Dunga também tinha sido muito criticado após a Copa de 1990, quando se falou da ‘Era Dunga’ como sinônimo de um futebol menos criativo e mais físico, mas em 1994 foi o capitão do tetracampeonato e tornou-se símbolo de liderança, disciplina e superação.

Quando levantou a taça, havia uma carga simbólica muito forte: o Brasil ganhou não com o futebol fantasia do passado, mas com organização, equilíbrio e resistência emocional.

A final entre Brasil e Itália foi disputada no Rose Bowl, em jogo muito truncado, fastidioso e tático, terminando 0x0 após prolongamento, sendo a primeira final de um Mundial decidida no pênaltis.

A imagem mais famosa é de Roberto Baggio, estrela italiana, a falhar o último pênalti ao rematar por cima da baliza. Baggio tinha carregado a Itália até à final, embora menorizado fisicamente, marcando gols fundamentais como contra Nigéria, Espanha e Bulgária e o seu falhanço tornou-se um dos momentos mais dramáticos da história do futebol italiano, simbolizando a beleza e a crueldade do futebol – o gênio que carregou a equipe às costas tornou a imagem da derrota.

Do lado brasileiro a decisão nos penáltis teve uma forte carga emocional, e o título chegou não com goleada ou uma exibição brilhante, mas pela resistência psicológica.

Roberto Baggio desalentado. Fonte: trivela.com.br.

Porém, outros momentos se destacaram pela positiva, designadamente o desempenho da Nigéria, que se apresentou com qualidade física e técnica, dispondo de jogadores como Rashidi Yekini, Jay-Jay Okocha, Finidi George, Daniel Amokachi e Emmanuel Amunike, que desenvolveram um futebol vibrante, estiveram à beira de eliminar a Itália nas oitavas de final e consolidaram o futebol africano no mais importante palco internacional.

A Bulgária, liderada por Hristo Stoichkov, constituiu uma grande surpresa, porque nas suas seis anteriores participações nunca vencera e nesta Copa ficou em 2º lugar à frente da Argentina (vitória por 2x0) na fase de grupos e colocou a Alemanha em estado de choque quando nas quartas de final os búlgaros passaram às semifinais. Stoichkov foi o astro decisivo: competitivo, explosivo, tecnicamente brilhante, e a Bulgária terminou em quarto lugar, o melhor resultado histórico do país em Copas do Mundo.

A Romênia também fez boa campanha jogando futebol ofesivo e espetacular, sob a batuta do talentoo Gheorghe Hagi. A Equipe classificou-se para as oitavas de final  surpreendeu eliminando a Argentina por 3x2. Nas quartas de final perdeu para a Suécia nos pênaltis, após empate por 2x2, e concluiu a Copa em sexto lugar.

A Suécia fez ainda melhor, batendo a Bulgária nas semifinais e terminando num notável terceiro lugar, dispondo de uma equipe muito bem organizada, forte fisicamente e com jogadores como Tomas Brolin, Kennet Andersson e Martin Dahlin.

Esta Copa viu nascer o ‘Maradona do Deserto’, Saeed Al-Owairan, que marcou contra a Bélgica no jogo que levou a Arábia Saudita às oitavas de final na sua estreia em Mundiais: aos 5’ de jogo ganhou a bola a uma distância de 70 metros da baliza adversária, foi por ali afora, driblou três adversários, beneficiou da péssima abordagem do defensor Rudi Smidts, isolou-se frente a Michel Preud’Homme e finalizou com classe para o fundo das redes. Infelizmente para o mundo do futebol cumpriu toda a carreira no seu país, porque a Arábia audita impedia que sauditas representassem clubes estrangeiros.

O camaronês Roger Milla, com 42 anos de idade, teve a sua última participação em Mundiais e foi coroado com recorde histórico. O jogo Rússia 6x1 Camarões ficou na história por duas razões: por um lado, o russo Oleg Salenk marcou 5 gols, sendo até hoje o único atleta a marcar 5 gols numa só partida em Copas do Mundo – o que lhe valeu a artilharia da competição com 6 gols, tantos quantos os que marcou Stoichkov; por outro lado, o solitário gol de Camarões foi marcado por Roger Milla, valendo mais do que um simples gol: permitiu ao atleta estabelecer o recorde mundial de jogador mais velho a marcar em Copas do Mundo.

A enfermeira Sue Carpenter leva Maradona ao controlo antidoping. Montagem | Reprodução.

Porém, outras peripécias foram menos felizes. A Argentina começou bem a competição e Maradona ainda era influente na equipe, mas testou positivo para efedrina, substância estimulante e proibida, sendo suspenso da competição. A imagem de Maradona levado para o controlo antidoping após o jogo contra a Nigéria teve um grande impacto simbólico, marcando o declínio derradeiro de uma das mais icônicas figuras da história do futebol e das Copas do mundo. Todavia, mais tarde, verificou-se que Maradona foi vítima de um gigantesco embuste numa época em que ninguém usava efedrina porque havia estimulantes muito mais eficazes e ‘invisíveis’.

Sobre o assunto ver a matéria https://esportes.r7.com/prisma/silvio-lancellotti/memorias-da-copa-14-nao-diego-maradona-nao-se-dopou-em-1994-09072022/

Se antes da Copa do Mundo ocorrera a tragédia de Ayrton Senna, depois da Copa do Mundo outra tragédia se tornou a página mais sombria da Copa de 1994: a morte do jogador colombiano Andrés Escobar, assassinado depois do Mundial. A Colômbia tinha conseguido grandes resultados na qualificação (p.ex., bateu a Argentina por 5x0) e havia grandes expectativas, pelo que os barões da droga apostaram fortunas numa boa campanha da Colômbia. Porém, a Copa foi um desastre e ficaram furiosos pelas grandes perdas financeiras.

Contra a equipe americana Escobar foi autor de um gol contra e contribuiu para a eliminação da Colômbia, sendo assassinado dias depois em Medellín com ei balas e cada uma levando gravada a palavra ‘gol’. Humberto Muñoz, do cartel Gallón, autor do crime, foi condenado a 43 anos de prisão, cumprindo apenas 11 anos. O caso que chocou o mundo e tornou-se símbolo da violência, da pressão extrema sobre os jogadores e da ligação perigosa entre futebol, crime e expectativas nacionais.

Em resumo, a Copa foi marcada, sobretudo, pelo inédito tetracampeonato brasileiro, não propriamente artístico, mas competitivo e eficiente, mostrando que o Brasil podia vencer tanto pela sua capacidade de improviso e beleza, como pela organização, preparação física, disciplina tática e controlo emocional.

Andrés Escobar. Crédito: AFP.

Porém, também se destacaram a homenagem a Ayrton Senna, a consagração de Romário, a liderança de Dunga, a celebração de Bebeto a embalar o bebê, a final decidida ineditamente nos pênaltis, a surpresa da Bulgária, a afirmação da Nigéria, o drama de Roberto Baggio, o doping de Maradona e a tragédia de Escobar.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 0x0 Itália [pênaltis: 3x2]

» Gols: –

» Pênaltis: Brasil – Márcio Santos, perdeu; Romário, gol; Branco, gol; e Dunga (gol); Itália – Franco Baresi, perdeu; Albertini, gol; Evani, gol; Daniele Massaro, perdeu; e Roberto Baggio, perdeu.

» Data: 17 de julho de 1994

» Local: Rose Bowl, em Pasadena, Los Angeles (América)

» Público: 94.194 espectadores

» Árbitro: Sándor Puhl (Hungria)

» Disciplina: cartão amarelo – Mazinho e Cafu (Brasil) e Luigi Apolloni e Dmetrio Albertini (Itália)

» Brasil: Taffarel; Jorginho (Cafu), Aldair, Márcio Santos e Branco; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho (Viola); Bebeto e Romário. Técnico: Carlos Alberto Parreira.

» Itália: Pagliuca; Mussi (Luigi Apolloni), Franco Baresi, Maldini e Benarrivo; Dino Baggio (Evani), Demetrio Albertini, Berti e Donadoni; Roberto Baggio e Daniele Massaro. Técnico: Arrigo Sacchi.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.sofascore.com; www.theguardian.com.

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