por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1994, que
decorreu na América (Estados Unidos da), teve uma carga simbólica enorme,
sobretudo para o Brasil. Foi o torneio do tetracampeonato, da consagração de
Romário, da liderança de Dunga, da memória de Ayrton Senna e também de uma final
historicamente tensa, decidida pela primeira vez nos pênaltis.
A escolha da América como país
organizador foi, por si só, simbólica. O Mundial foi levado para um país onde o
futebol não era o principal desporto, numa tentativa clara de internacionalizar
ainda mais a modalidade e abrir mercado. Os estádios eram enormes, muitos deles
de futebol americano, e as assistências foram muito elevadas.
A imagem da competição misturava
espetáculo, marketing, grandes
multidões e calor intenso. Muitos jogos foram disputados sob temperaturas
difíceis, precisamente para acomodar horários televisivos internacionais,
promovendo assim um futebol mais físico, pausado, com muito desgaste.
Entretanto a FIFA introduziu a
regra de 3 pontos por vitória para incrementar o futebol de ataque, os árbitros
passaram a envergar uniformes coloridos em vez da cor preta obrigatória e as
camisas dos jogadores passaram a dispor os seus nomes nas costas.
O Brasil chegava ao Mundial com
uma pressão enorme, porque 24 anos após Jairzinho, Pelé, Tostão, Rivelino e
companhia não tornara a ser campeão do mundo. O estilo clássico brasileiro
ficara para trás e esta nova equipe era mais pragmática, organizada, defensiva
e competitiva, gerando muitas críticas.
A grande figura era Romário, porque provavelmente o Brasil não teria chegado à Copa do Mundo sem o seu desempenho decisivo na fase de qualificação, especialmente no jogo contra o Uruguai, no Maracanã, formando uma dupla muito eficaz com Bebeto.
A Seleção vivia um momento
emocional muito forte, porque Ayrton Senna tinha falecido em maio desse ano,
pouco antes do Mundial, e todo o país estava em comoção.
Senna era uma figura nacional,
quase mítica, e a Seleção Brasileira entrou na Copa com essa memória muito
presente. Após a conquista, os jogadores exibiram uma faixa com a dedicatória:
“Senna… aceleramos juntos. O tetra é
nosso.” E o tetra passou a representar, mais do que a vitória
futebolística, um momento de catarse coletiva para o Brasil.
Romário, a grande figura
brasileira, não era atacante para grande profundidade, mas dispunha de uma
capacidade invulgar de decidir jogos em espaços mínimos, sendo determinante
contra Rússia, Camarões, Suécia e Países Baixos. Genial e irreverente,
criticado por vezes pela sua postura, foi contudo indispensável e terminou
eleito o Craque da Copa do Mundo.
Como curiosidade deve-se realçar a
famosa imagem de celebração de Bebeto contra os Países Baixos, nas quartas de
final, quando fez o gesto de embalar um bebê, em homenagem ao filho que tinha
nascido pouco antes. Romário e Mazinho juntaram-se ao gesto e a imagem
tornou-se icônica, simbolizando família, alegria, afeto e espontaneidade,
contrastando com a dura disputa competitiva.
Acontecimento também relevante ocorreu com Mário Zagallo, Coordenador Técnico da Seleção e consequentemente o único tetracampeão brasileiro com jogador (1958 e 1962), como técnico (1970) e como coordenador técnico (1994).
Num dos melhores jogos da Copa, o
Brasil venceu os Países Baixos por 3x2 nas quartas de final; Romário e Bebeto
fizeram 2x0, o oponente empatou por Dennis Bergkamp e Aron Winter, e depois
Branco converteu uma falta com poderoso remate que estabeleceu a vantagem final
de 3x2 para o Brasil, num jogo de muita emoção, coragem neerlandesa, tensão e
um gol decisivo de um atleta muito criticado.
Dunga também tinha sido muito
criticado após a Copa de 1990, quando se falou da ‘Era Dunga’ como sinônimo de
um futebol menos criativo e mais físico, mas em 1994 foi o capitão do
tetracampeonato e tornou-se símbolo de liderança, disciplina e superação.
Quando levantou a taça, havia uma
carga simbólica muito forte: o Brasil ganhou não com o futebol fantasia do
passado, mas com organização, equilíbrio e resistência emocional.
A final entre Brasil e Itália foi
disputada no Rose Bowl, em jogo muito truncado, fastidioso e tático, terminando
0x0 após prolongamento, sendo a primeira final de um Mundial decidida no
pênaltis.
A imagem mais famosa é de Roberto
Baggio, estrela italiana, a falhar o último pênalti ao rematar por cima da
baliza. Baggio tinha carregado a Itália até à final, embora menorizado
fisicamente, marcando gols fundamentais como contra Nigéria, Espanha e Bulgária
e o seu falhanço tornou-se um dos momentos mais dramáticos da história do
futebol italiano, simbolizando a beleza e a crueldade do futebol – o gênio que
carregou a equipe às costas tornou a imagem da derrota.
Do lado brasileiro a decisão nos penáltis teve uma forte carga emocional, e o título chegou não com goleada ou uma exibição brilhante, mas pela resistência psicológica.
Porém, outros momentos se
destacaram pela positiva, designadamente o desempenho da Nigéria, que se
apresentou com qualidade física e técnica, dispondo de jogadores como Rashidi
Yekini, Jay-Jay Okocha, Finidi George, Daniel Amokachi e Emmanuel Amunike, que desenvolveram
um futebol vibrante, estiveram à beira de eliminar a Itália nas oitavas de
final e consolidaram o futebol africano no mais importante palco internacional.
A Bulgária, liderada por Hristo
Stoichkov, constituiu uma grande surpresa, porque nas suas seis anteriores
participações nunca vencera e nesta Copa ficou em 2º lugar à frente da
Argentina (vitória por 2x0) na fase de grupos e colocou a Alemanha em estado de
choque quando nas quartas de final os búlgaros passaram às semifinais.
Stoichkov foi o astro decisivo: competitivo, explosivo, tecnicamente brilhante,
e a Bulgária terminou em quarto lugar, o melhor resultado histórico do país em
Copas do Mundo.
A Romênia também fez boa campanha
jogando futebol ofesivo e espetacular, sob a batuta do talentoo Gheorghe Hagi.
A Equipe classificou-se para as oitavas de final surpreendeu eliminando a Argentina por 3x2.
Nas quartas de final perdeu para a Suécia nos pênaltis, após empate por 2x2, e
concluiu a Copa em sexto lugar.
A Suécia fez ainda melhor,
batendo a Bulgária nas semifinais e terminando num notável terceiro lugar,
dispondo de uma equipe muito bem organizada, forte fisicamente e com jogadores
como Tomas Brolin, Kennet Andersson e Martin Dahlin.
Esta Copa viu nascer o ‘Maradona
do Deserto’, Saeed Al-Owairan, que marcou contra a Bélgica no jogo que levou a
Arábia Saudita às oitavas de final na sua estreia em Mundiais: aos 5’ de jogo
ganhou a bola a uma distância de 70 metros da baliza adversária, foi por ali afora,
driblou três adversários, beneficiou da péssima abordagem do defensor Rudi
Smidts, isolou-se frente a Michel Preud’Homme e finalizou com classe para o
fundo das redes. Infelizmente para o mundo do futebol cumpriu toda a carreira
no seu país, porque a Arábia audita impedia que sauditas representassem clubes
estrangeiros.
O camaronês Roger Milla, com 42 anos de idade, teve a sua última participação em Mundiais e foi coroado com recorde histórico. O jogo Rússia 6x1 Camarões ficou na história por duas razões: por um lado, o russo Oleg Salenk marcou 5 gols, sendo até hoje o único atleta a marcar 5 gols numa só partida em Copas do Mundo – o que lhe valeu a artilharia da competição com 6 gols, tantos quantos os que marcou Stoichkov; por outro lado, o solitário gol de Camarões foi marcado por Roger Milla, valendo mais do que um simples gol: permitiu ao atleta estabelecer o recorde mundial de jogador mais velho a marcar em Copas do Mundo.
Porém, outras peripécias foram
menos felizes. A Argentina começou bem a competição e Maradona ainda era
influente na equipe, mas testou positivo para efedrina, substância estimulante
e proibida, sendo suspenso da competição. A imagem de Maradona levado para o
controlo antidoping após o jogo
contra a Nigéria teve um grande impacto simbólico, marcando o declínio
derradeiro de uma das mais icônicas figuras da história do futebol e das Copas
do mundo. Todavia, mais tarde, verificou-se que Maradona foi vítima de um
gigantesco embuste numa época em que ninguém usava efedrina porque havia
estimulantes muito mais eficazes e ‘invisíveis’.
Sobre o assunto ver a matéria https://esportes.r7.com/prisma/silvio-lancellotti/memorias-da-copa-14-nao-diego-maradona-nao-se-dopou-em-1994-09072022/
Se antes da Copa do Mundo
ocorrera a tragédia de Ayrton Senna, depois da Copa do Mundo outra tragédia se
tornou a página mais sombria da Copa de 1994: a morte do jogador colombiano
Andrés Escobar, assassinado depois do Mundial. A Colômbia tinha conseguido
grandes resultados na qualificação (p.ex., bateu a Argentina por 5x0) e havia grandes
expectativas, pelo que os barões da droga apostaram fortunas numa boa campanha
da Colômbia. Porém, a Copa foi um desastre e ficaram furiosos pelas grandes
perdas financeiras.
Contra a equipe americana Escobar
foi autor de um gol contra e contribuiu para a eliminação da Colômbia, sendo
assassinado dias depois em Medellín com ei balas e cada uma levando gravada a
palavra ‘gol’. Humberto Muñoz, do cartel Gallón, autor do crime, foi condenado
a 43 anos de prisão, cumprindo apenas 11 anos. O caso que chocou o mundo e
tornou-se símbolo da violência, da pressão extrema sobre os jogadores e da
ligação perigosa entre futebol, crime e expectativas nacionais.
Em resumo, a Copa foi marcada, sobretudo, pelo inédito tetracampeonato brasileiro, não propriamente artístico, mas competitivo e eficiente, mostrando que o Brasil podia vencer tanto pela sua capacidade de improviso e beleza, como pela organização, preparação física, disciplina tática e controlo emocional.
Porém, também se destacaram a
homenagem a Ayrton Senna, a consagração de Romário, a liderança de Dunga, a
celebração de Bebeto a embalar o bebê, a final decidida ineditamente nos
pênaltis, a surpresa da Bulgária, a afirmação da Nigéria, o drama de Roberto
Baggio, o doping de Maradona e a
tragédia de Escobar.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Brasil 0x0 Itália [pênaltis: 3x2]
» Gols: –
» Pênaltis: Brasil – Márcio
Santos, perdeu; Romário, gol; Branco, gol; e Dunga (gol); Itália – Franco
Baresi, perdeu; Albertini, gol; Evani, gol; Daniele Massaro, perdeu; e Roberto
Baggio, perdeu.
» Data: 17 de julho de 1994
» Local: Rose Bowl, em Pasadena,
Los Angeles (América)
» Público: 94.194 espectadores
» Árbitro: Sándor Puhl (Hungria)
» Disciplina: cartão amarelo – Mazinho
e Cafu (Brasil) e Luigi Apolloni e Dmetrio Albertini (Itália)
» Brasil: Taffarel; Jorginho
(Cafu), Aldair, Márcio Santos e Branco; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho
(Viola); Bebeto e Romário. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
» Itália: Pagliuca; Mussi (Luigi
Apolloni), Franco Baresi, Maldini e Benarrivo; Dino Baggio (Evani), Demetrio
Albertini, Berti e Donadoni; Roberto Baggio e Daniele Massaro. Técnico: Arrigo
Sacchi.
Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.sofascore.com; www.theguardian.com.






Sem comentários:
Enviar um comentário