sábado, 20 de abril de 2024

João de Sousa Pereira ‘Botafogo’ – o lendário artilheiro do Galeão São João Batista

Brasão da família Botafogo. Semelhante ao formato do escudo do Botafogo FR.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Mundo Botafogo divulgou a origem do nome BOTAFOGO em artigos anteriores, designadamente a partir da história do Galeão São João Batista, o mais poderoso navio de guerra do seu tempo, armado com 366 canhões de bronze e cujo tremendo poder de fogo originou a designação popular de ‘Botafogo’, e da história do personagem João de Sousa Pereira que foi o artilheiro do ‘Botafogo’ e cuja designação agregou ao seu próprio nome – sendo essa a razão pela qual a sesmaria da enseada de Francisco Velho tenha ganho o nome de Enseada de Botafogo, que entretanto se estendeu à Chácara de São Clemente, atual Bairro de Botafogo.

Neste artigo descreve-se mais pormenorizadamente a trajetória de João de Sousa Pereira Botafogo até chegar ao Rio de Janeiro.

João de Sousa Pereira nasceu em 1542, na cidade de Elvas, Portugal, e faleceu a 23 de junho de 1627, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, tendo sido um destemido Capitão-Mor ao serviço da Coroa Portuguesa como artilheiro do Galeão São João Baptista, o ‘Botafogo’, designação que, tal como foi mencionado anteriormente, João de Sousa Pereira juntou ao seu próprio nome e foi a gênese da toponímia do Bairro de Botafogo e, consequentemente, do Botafogo de Futebol e Regatas.

O Galeão foi construído por João Galego, natural de Viana, pai do valente corsário Pedro Galego, que no Mar Mediterrâneo fez grandes presas que navegavam para Constantinopla e outros portos, regressando cheio de ouro e fazenda, cuja história foi publicada em 1855 por Frei Manuel Homem e muitas vezes contada pelo padre mestre Frei João de Valadares, da Ordem dos Pregadores.

João de Sousa Pereira Botafogo, filho de Francisco de Sousa Pereira e de Inês de Brito de Carvalhais, casou-se com Joana Escórcia e Maria da Luz Escórcio Drummond e foi pai de Ana de Sousa e Brito, Maria de Sousa e Brito (n. 1555), Andreza de Sousa (n. 1577), João de Sousa, o ‘Moço’ (n. 1582), Pedro de Souza Pereira Botafogo (1584) e 5 outros.

A sua família foi perseguida na cidade de Elvas, em Portugal, onde seus pais e avós tiveram casa com pátio, em uma rua que ainda hoje chamam pátio e Rua dos Botafogos, patrimônio privado que foi confiscado por ordem régia devido às suas insistências e soberbas resistências à justiça portuguesa. João de Sousa Pereira, enquanto membro da família, foi por isso perseguido e acabou por migrar para o Rio de Janeiro para acabar com a perseguição de que era alvo, precisamente quando aí se travavam combates entre a Coroa Portuguesa e o gentio Tamoio.

Galeão São João Baptista.

Chegou ao Rio de Janeiro quando a Cidade Velha já estava principiada e os seus habitantes guerreavam os índios tamoios. Como João de Sousa Pereira era destemido e de reconhecida nobreza, foi feito Capitão de uma das canoas de guerra e mandado a Cabo Frio para impedir o contrato do pau-brasil em que os franceses estavam comerciando.

Foi tão bem-sucedido nesse empreendimento que, combatendo com valor e ousadia contra os franceses, como Capitão de uma das canoas de guerra, conseguiu vencê-los e aprisionar, entre outros, o Cabo da Armada Tucen Grugel, valoroso francês que foi levado ao Rio de Janeiro e, mais tarde, constituiu o tronco dos Amaraes Gurgeis em solo carioca, e que posteriormente proliferou também em São Paulo.

Do Rio de Janeiro passou a São Vicente (1572), local onde a guerra estava atiçada contra os ‘bárbaros’, e tornou a evidenciar a sua destreza militar, tendo sido tomado por genro pelo Capitão do presídio, Manoel da Luz Escórcia Drummond.

Foi Capitão-Mor Governador da Capitania de São Vicente, em 1595, efetuou incursões pelo sertão como Bandeirante e foi testemunha no processo do Padre Anchieta, em 1620 e 1627. Por todos os seus feitos, João de Sousa Pereira Botafogo foi presenteado pelo Rei com uma extensa sesmaria primitivamente designada por Enseada Francisco Velho, que se passou a designar Enseada de Botafogo devido ao nome que o seu proprietário adotara.

O nome da enseada estendeu-se à antiga Chácara de São Clemente, atual Bairro de Botafogo, mas somente se desenvolveu definitivamente com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, fugindo das tropas napoleônicas que invadiram Portugal, tendo sido Carlota Joaquina, mulher de Dom João VI, que imprimiu uma nova dinâmica à região ao erguer um palacete no final da atual Marquês de Abrantes, e Botafogo foi gradativamente ocupado por casas elegantes até ao início do séc. XX – algumas das quais ainda existentes.

E nesse Bairro de Botafogo foram fundados o Club de Regatas Botafogo (1894) e o Botafogo Football Club (1904) que originaram o Glorioso Clube da Estrela Solitária – o Botafogo de Futebol e Regatas.

Nota do Editor: Existe um João Pereira de Souza, assassinado em 1606, cuja trajetória não se deve confundir com a de João de Sousa Pereira Botafogo.

Artigos afins no MB (clique): Galeão São João Batista - o 'Botafogo'; O Galeão Botafogo; Rua do Botafôgo; Parabéns, Fogão! De Salomé a General Severiano – a origem do nome Botafogo

Fontes principais: blogdojuca.uol.com.br; Coelho, Jorge. Memória do celebrado galeão São João chamado vulgarmente o Bota Fogo. Opúsculo editado por António da Costa Valle. Lisboa: meados do séc. XVI; martin.romano.org; mundobotafogo.blogspot.com; Pedrosa, Fernando Gomes. “A Pesca e o Corso nos Antecedentes da Expansão Marítima”. Ceuta e a Expansão Portuguesa. Lisboa: Academia da Marinha, 2016. ISBN: 978-972-781-130-4; www.genealogiabrasileira.com; www.geni.com

2 comentários:

Irapuan Ramos disse...

Bom dia! Em tempos de mídia e rede social acho difícil o sr. ou alguém responder. Porém, quero aqui registrar minha alegria de ver na internet, em épocas sombrias de informações e desinformações, um artigo tão bacana, histórico e cultural que só enche meu coração de alegria por saber que ainda há pessoas que se importam com nossas origens e construção histórica e cultural; obrigado.

Ruy Moura disse...

Boa tarde, Irapuan! Partilho da sua opinião. A mídia e as redes sociais tomaram o mundo de assalto com um perfil muito afastado do que era o jornalismo sério e de pesquisa, e nunca se sabe o que é verdade, o que é mentira, o que é fogo ou apenas fumo.

Felizmente, no caso de botafoguenses, há quem se preocupe em ser rigoroso e se interesse por TODA A HISTÓRIA DO GLORIOSO. É esse serviço que o Mundo Botafogo tem prestado diariamente há quase 17 anos, em mais de 18.000 publicações, segundo princípios editoriais que forjaram a aproximação de gente boa e o afastamento daqueles que ofendem, perseguem, insultam, mentem ou são mal-educados - e que, em geral, nem são botafoguenes.

Este meio de comunicação mantém a sua linha original de seriedade e pesquisa, respeitando a diversidade e opiniões diferentes, mas não aceitando atitudes difamatórias nem permitindo que, com o argumento da diversidade, haja ações que diminuem os valores universais que devem pautar a relação entre os humanos.

Talvez por termos essa linha o Mundo Botafogo se mantenha, desde a sua criação, como o meio privado e independente sem ligação à mídia que, entre os blogues botafoguenses, foi sempre o mais acessado, e ainda neste mês de maio atinjirá 7,5 milhões de acessos desde a contagem instituída pelo Blogger em 1º de julho de 2010.

Amanhã vou publicar mais sobre história. De uma Instituição que vai levar a história do Botafogo às ruas em 2025.

Apareça sempre!
Abraços Gloriosos.

Garrincha, biografia aos quadradinhos em noventa páginas

Fonte: comix.com.br Compilado de COMIX.COM.BR & VIGILIANERD.COM.BR Escrito por  Fabiano Santos  e ilustrado por  Samuel Bono , a  HQ...