por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Paulo Autuori saiu do Botafogo no final de 1995 em virtude de
receber uma proposta muito boa para regressar a Portugal e dirigir o Benfica,
do qual foi demitido após 7 meses por ter sido goleado pelo FC Porto por 5x0 na
disputa da Supercopa portuguesa.
Em 1996, Marinho Peres, que também fizera carreira de treinador em
Portugal, embora fosse brasileiro, assumiu a ingrata função de suceder ao
treinador campeão brasileiro, fasquia praticamente impossível de igualar, mas era
visto como um técnico com forte preocupação pela organização coletiva.
O início foi bom e o Botafogo conquistou invicto a Taça Cidade
Maravilhosa, que se equiparava ao campeonato carioca em turno único, mas acabou
substituído 102 dias depois, tendo sido René Weber como treinador a passar a
pasta a Ricardo Barreto, que assumiu o Botafogo ainda na Copa Libertadores e
foi eliminado.
No entanto, Barreto marcou a história alvinegra bem à maneira do
Botafogo, não tanto por ter ganho a Copa Nippon Ham, o Torneio Presidente da
Rússia e a Copa Rio-Brasília, mas porque conquistou o prestigiado Troféu Teresa
Herrera, em Espanha, derrotando na final a Juventus nos pênaltis, após um
sensacional empate por 4x4, num contraste tipicamente botafoguense: eliminado
da Libertadores pelo Grêmio, em seguida vence a poderosíssima Juventus num
tradicional torneio europeu.
Porém, 157 dias depois nova substituição, sendo Ronaldo Torres quem
passou a pasta como interino ‘para’ o novo treinador regressado ao Botafogo, e
inaugura uma série circular dos mesmos treinadores demitidos e readmitidos em
curtos espaços de tempo: Jair Pereira. Por posição à sequência da antiga
linhagem técnica em que uns aprendiam com os outros, inicia-se com Jair Pereira
uma determinada circularidade de treinadores no Botafogo com muitos treinadores
alternadamente repetidos.
Jair recebeu uma equipe menos estável do que a de 1995, mas ainda
com qualidade. Jair era um treinador clássico brasileiro: autoridade,
experiência e gestão de grupos. Assumiu o último trimestre de 1996, findo o
qual sucedeu-lhe Joel Santana.
A primeira passagem de Joel é extraordinária, vencendo a Taça Guanabara de 1997 com 12 vitórias em 12 partidas. Na decisão contra o Vasco, diante de 80 mil pagantes no Maracanã, ganhou por 1x0 gol de Renato Sá. E depois conquistou a Taça Rio e o Cariocão.
Joel Santana possuía uma enorme capacidade de fazer o jogador
acreditar em si e na vitória. De conversa simples e direta, simplificava as tarefas
a executar, protegendo os jogadores e estabelecendo uma relação humana essencial
na lida com futebolistas de variadas origens e comportamentos – competência
decisiva na gestão de pessoas.
É desta última competência que nasceu o epíteto de ‘Papai Joel’,
mas ainda no mesmo ano de 1997, após 254 dias no cargo, repetiu-se a cena
ocorrida com Autuori: proposta financeira muito boa levou-o ao Corinthians.
Porém, nada ganhou no clube paulista, em 1998 foi para o Flamengo e nada
ganhou, apenas em 1999 conseguiu vencer o campeonato baiano.
Em 2000 regressou ao Botafogo. Ou porque não se entendia com os
treinadores para o médio prazo, ou porque não conseguia preservar os seus
treinadores vencedores, o Botafogo iniciou uma longa lista de vai-e-vem de
treinadores.
Porém, antes disso, deve-se registrar, na história do Botafogo,
José Claudinei Georgini, conhecido por ‘Valinhos’. Na fase de classificação da
Taça Guanabara o Botafogo vencera todos os jogos e classificou-se
antecipadamente para a decisão. Então, o Clube decidiu preservar os jogadores e
lançar os reservas. Eurico Miranda reagiu porque o Vasco precisava que o
Botafogo vencesse o Flamengo para se classificar à final, e um Botafogo com
reservas era derrota certa e classificação do Flamengo no 2º lugar.
Como pormenor ‘pitoresco’ eis que até Antônio Lopes, treinador do
Vasco, assestou baterias contra o Botafogo. Então, José Luiz Rolim, presidente
do Botafogo, decidiu, em represália, pura e simplesmente demitir Júnior Lopes,
filho do técnico vascaíno que trabalhava nas categorias de base do Glorioso.
Todos sabiam, pois, o resultado antecipado do jogo. Mas não. No dia 26 de março de 1977 o Botafogo fez um jogo incrível, venceu o Flamengo por 1x0 e classificou o Vasco, mas tal como colocou a equipe reserva em campo, também ‘Papai Joel’ ficou em casa, e quem comandou o Botafogo nessa improvável vitória foi o auxiliar técnico Valinhos!
O sucessor de ‘Papai Joel’ foi Sebastião Rocha, que teve que competir
tanto com os adversários como também com a memória do seu predecessor, e os
torcedores em geral não perdoaram sequer os empates. Rocha partiu do Botafogo
37 dias depois.
Sucedeu-lhe neste novo ciclo de circularidade de treinadores
repetidos – imagine-se quem? – Carlos Alberto Torres! Porém, nada foi como em
1993 e após maus resultados Capita durou escassos 46 dias ao comando do
Botafogo, tendo sido substituído por Gílson Nunes, que encontrou uma equipe experiente.
Wagner, Gonçalves, Sérgio Manoel, Bebeto e Túlio foram a arma da
experiência que Gílson soube utilizar, conquistando, em 1998, o quarto título
do Torneio Rio-São Paulo.
No primeiro jogo da final no Maracanã o Botafogo adiantou-se no
marcador, o São Paulo virou o resultado para 2x1 e o jogo parecia ganho pelos
paulistas, mas a maturidade coletiva falou mais e o Botafogo revirou o
resultado vencendo por 3x2.
A equipe estava envelhecida e não jogava na base da velocidade nem
na base da transição súbita como nos dias de hoje, mas da sua experiência, do
toque cadenciado e sobretudo percebendo o que o jogo pedia a cada momento.
No segundo jogo em São Paulo o Botafogo empatou por 1x1 e
conquistou o título, mas nem isso foi suficiente para segurar o treinador.
O Botafogo acabou por conquistar o título após empate no segundo jogo, mas a campanha do Carioca – que ainda tinha muito prestígio – foi péssima e Gílson desentendeu-se com a diretoria de José Luiz Rolim, a qual disse que nunca mais queria o retorno do treinador. Gílson saiu ao fim de escassos 79 dias.
Os três últimos treinadores do Botafogo duraram um total de 162
dias, mas ao contrário do que disse a diretoria do mesmo Rolim, exatamente um
ano depois Gílson Nunes estava de regresso. Porém, antes desse regresso, o seu sucessor
reforçou a circularidade por o Botafogo recontratar, nada mais, nada menos, do
que… Autuori!
A ilusão de que um treinador vitorioso no passado do Clube será sempre
vitorioso não passa de uma antiga armadilha, principalmente porque entre o
Botafogo de 1998 e o de 1995 há diferenças de contexto de plantel, de finanças
e de ambiente interno.
A chegada de Autuori uniu os torcedores e trouxe paz temporária
aos bastidores, já que era uma figura respeitada e consensual, mas aa equipe
foi eliminada da Copa do Brasil, frustrando a esperança de se qualificar para a
Libertadores, e não conseguiu ser regular, apresentando falhas defensivas e
muita oscilação nos jogos fora de casa.
Em vias de candidatura à despromoção do Brasileirão, a diretoria
demitiu Autuori após 183 dias e tornou a apostar na mesma armadilha: o sucessor
foi… Valdir Espinosa!
Ronaldo Torres, que ao longo dos anos sempre foi figura de
confiança do Clube, integrando as equipes técnicas de Jair Ventura, Lúcio
Flávio, Caçapa, Fábio Matias, Bellão e atualmente Tite, fez novamente a ponte
entre quem saiu e quem chegou.
O (antigo) novo treinador assumiu a equipe em setembro, livrou o
Botafogo da despromoção, mas não alcançou resultados para chegar à parte de
cima da tabela. A instabilidade defensiva manteve-se e Espinosa entrou em
conflito com o diretor de futebol José Luiz Magalhães, recusando-se a integrar
certos atletas no plantel – situação que agravou a vulnerabilidade existente
pela falta de resultados desportivos.
A pretexto de uma derrota para a Friburguense no campeonato
carioca, em março de 1999, a diretoria presidida por José Luiz Rolim demitiu
Espinosa por telefone, na pessoa do mencionado diretor de futebol, o qual
acrescentou que Espinosa nem precisava já de ir ao treino no dia seguinte,
evidenciando assim o nível cívico da diretoria do Botafogo. Após os 167
escassos dias de Espinosa, Dé Aranha voltou à cena comandando dois jogos como
interino, e entregou a pasta, nada mais, nada menos, do que a… Gílson Nunes,
que prolongou novamente a circularidade de treinadores, contrariando a
‘promessa’ da diretoria que não queria vê-lo nunca mais no Clube!
Porém, a sucessão da circularidade de treinadores cavalgou a
partir da 3ª chegada de Espinosa (09.1998 a 03.1999): o retornado Gílson Nunes
durou apenas 98 dias após perder a Copa do Brasil no final para o Juventude,
num Maracanã com 100.000 botafoguenses; Mauro Fernandes, sem história, durou 45
dias; o retornado Carlos Alberto Torres, boia de salvação para a diretoria e o
Clube, ambos em deterioração, nem o seu prestígio valeu, durando ridículos 29
dias; e para fechar o ciclo chegou Antônio Clemente para os últimos 98 dias do
ano antes da viragem do século XX para o século XXI, no qual aprofundaria a
circularidade de treinadores até à derrocada final.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br



