por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
A fechar esta matéria, a título de
curiosidade e, de certo modo, em homenagem à amizade de dois homens opostos na
maioria das ideias – políticas e outras –, transcreve-se dois excertos da peça
rodrigueana “Anti-Nelson Rodrigues”, com a 1ª montagem em 1974, na qual existem
147 diálogos de Salim Simão (fonte: teatroemescala.com):
1º Excerto:
«(a
luz passa para a casa de Salim Simão, em Quintino. Ele, pai de Joice, é bonito,
velho, com os cabelos de um branco sedoso, bem-vestido, paletó cintado,
colarinho e punhos engomados. Salim Simão está com Hele Nice, criada da casa,
negra, de ventas triunfais, busto enorme. O dono da casa anda de um lado para
outro, em largas e furiosas passadas)
SALIM
— E minha filha que não chega! A que horas ela telefonou,
Hele Nice? Uma?
HELE NICE
— Duas.
SALIM
(começa a chorar e para) — São
cinco, Hele Nice, são cinco! E ela disse: — “Volto já.” E quedê?
HELE NICE
— Dr. Salim, é a condução, dr. Salim!
SALIM
— Mas quando minha filha sai, meu Deus, penso o diabo.
Quando eu era solteiro, tinha uma vizinha que era uma moreninha linda! Estava
na calçada, veio um táxi, trepou no meio-fio e achatou a menina contra o muro.
Morreu na hora.
HELE NICE
— Não fala assim, dr. Salim, pelo amor de Deus!
SALIM
— É, vamos mudar de assunto. Mas o que é mesmo que eu
estava dizendo? Já sei. Me mandaram fazer a nota e eu escrevi. O dono do jornal
começou a ler e, de repente, deu um pulo. “Quem é que escreveu entrementes? Quero saber o nome do
redator que escreveu entrementes!”
HELE NICE
— Seu patrão era neurastênico!
SALIM
— Me chamaram e eu fui lá. O dono do jornal espumava.
“Foi você que escreveu entrementes?
No meu jornal não sai entrementes.
Tira essa bosta.” Apanhei a matéria e botei lá outra palavra. Leu e picou a
matéria e jogou para o alto como confete. “Riscou entrementes e pôs outrossim.
No meu jornal, não sai outrossim.”
E disse mais: — “Você não pode escrever sobre o brigadeiro.”
HELE NICE
— Por que é que o senhor não passou uma esculhambação no
cara?
SALIM
— Hele Nice, não diz isso na casa de Joice. Esculhambação
é a palavra mais feia da língua. Eu disse bosta, porque a minha filha não está em casa. Mas o dono do
jornal demitia e nomeava ministro pelo telefone. Tinha uma coragem cívica
formidável. E, todos os dias, apanhava uma surra da mulher. (entra Joice)»
2º Excerto:
SALIM
«— Agora eu quero saber o seguinte: o que é que teu noivo diz?
JOICE
(sem entender) — Meu noivo?
SALIM
— Que é que ele diz do teu emprego?
JOICE
— Nada.
SALIM
(furioso) — É teu noivo e não diz nada?
JOICE
— Quando conversamos, disse que o problema era meu.
SALIM
— Só teu? Mas ele não é o homem do casal? Ao menos, tem
ciúmes de ti?
JOICE
— Confia em mim.
SALIM
(como num comício) — Então, minha filha, escuta. Eu
também confiava em tua mãe. Era uma santa. E quantas vezes fui pra esquina
espiar se entrava homem na minha ausência? Minha filha, isso é a natureza das
coisas.»
Fontes: Boletim
do Botafogo FR, Ano XLI – Maio de 1981 – Nº 240; Castro, Ruy (2017). Anjo
Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues. Tinta-da-China. Lisboa: editora
Tinta-da-China; https://blogdorobertoporto.blogspot.com; https://blogs.oglobo.globo.com;
https://teatroemescala.com; https://x.com/brauneoficial; https://www1.folha.uol.com.br.

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