quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Salim Simão, botafoguense roxo (II): personagem de Nelson Rodrigues existiu mesmo

Fonte: Jornal do Sports, 12.069 / 1967.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A fechar esta matéria, a título de curiosidade e, de certo modo, em homenagem à amizade de dois homens opostos na maioria das ideias – políticas e outras –, transcreve-se dois excertos da peça rodrigueana “Anti-Nelson Rodrigues”, com a 1ª montagem em 1974, na qual existem 147 diálogos de Salim Simão (fonte: teatroemescala.com):

1º Excerto:

«(a luz passa para a casa de Salim Simão, em Quintino. Ele, pai de Joice, é bonito, velho, com os cabelos de um branco sedoso, bem-vestido, paletó cintado, colarinho e punhos engomados. Salim Simão está com Hele Nice, criada da casa, negra, de ventas triunfais, busto enorme. O dono da casa anda de um lado para outro, em largas e furiosas passadas)

SALIM

— E minha filha que não chega! A que horas ela telefonou, Hele Nice? Uma?

HELE NICE

— Duas.

SALIM

(começa a chorar e para) — São cinco, Hele Nice, são cinco! E ela disse: — “Volto já.” E quedê?

HELE NICE

— Dr. Salim, é a condução, dr. Salim!

SALIM

— Mas quando minha filha sai, meu Deus, penso o diabo. Quando eu era solteiro, tinha uma vizinha que era uma moreninha linda! Estava na calçada, veio um táxi, trepou no meio-fio e achatou a menina contra o muro. Morreu na hora.

HELE NICE

— Não fala assim, dr. Salim, pelo amor de Deus!

SALIM

— É, vamos mudar de assunto. Mas o que é mesmo que eu estava dizendo? Já sei. Me mandaram fazer a nota e eu escrevi. O dono do jornal começou a ler e, de repente, deu um pulo. “Quem é que escreveu entrementes? Quero saber o nome do redator que escreveu entrementes!”

HELE NICE

— Seu patrão era neurastênico!

SALIM

— Me chamaram e eu fui lá. O dono do jornal espumava. “Foi você que escreveu entrementes? No meu jornal não sai entrementes. Tira essa bosta.” Apanhei a matéria e botei lá outra palavra. Leu e picou a matéria e jogou para o alto como confete. “Riscou entrementes e pôs outrossim. No meu jornal, não sai outrossim.” E disse mais: — “Você não pode escrever sobre o brigadeiro.”

HELE NICE

— Por que é que o senhor não passou uma esculhambação no cara?

SALIM

— Hele Nice, não diz isso na casa de Joice. Esculhambação é a palavra mais feia da língua. Eu disse bosta, porque a minha filha não está em casa. Mas o dono do jornal demitia e nomeava ministro pelo telefone. Tinha uma coragem cívica formidável. E, todos os dias, apanhava uma surra da mulher. (entra Joice)»

2º Excerto:

SALIM

«— Agora eu quero saber o seguinte: o que é que teu noivo diz?

JOICE

(sem entender) — Meu noivo?

SALIM

— Que é que ele diz do teu emprego?

JOICE

— Nada.

SALIM

(furioso) — É teu noivo e não diz nada?

JOICE

— Quando conversamos, disse que o problema era meu.

SALIM

— Só teu? Mas ele não é o homem do casal? Ao menos, tem ciúmes de ti?

JOICE

— Confia em mim.

SALIM

(como num comício) — Então, minha filha, escuta. Eu também confiava em tua mãe. Era uma santa. E quantas vezes fui pra esquina espiar se entrava homem na minha ausência? Minha filha, isso é a natureza das coisas

Fontes: Boletim do Botafogo FR, Ano XLI – Maio de 1981 – Nº 240; Castro, Ruy (2017). Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues. Tinta-da-China. Lisboa: editora Tinta-da-China; https://blogdorobertoporto.blogspot.com; https://blogs.oglobo.globo.com; https://teatroemescala.com; https://x.com/brauneoficial; https://www1.folha.uol.com.br.

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Salim Simão, botafoguense roxo (II): personagem de Nelson Rodrigues existiu mesmo

Fonte: Jornal do Sports, 12.069 / 1967. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A fechar esta matéria, a título de curiosidade e, de cert...