por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de
2010, disputada na África do Sul, foi uma das mais simbólicas da história dos
Mundiais, que pela primeira vez se realizou em solo Africano e finalmente
consagrou a Espanha: o palco deste Mundial representou a expansão global do
futebol aos quatro continentes e o vencedor representou o triunfo de uma ideia
coletiva de jogo, paciente, técnica e sustentada.
A África do Sul
recebeu a Copa como um momento de afirmação nacional e continental num país
ainda marcado pela memória do apartheid e
pela enorme figura política de Nelson Mandela, numa competição que teve uma
dimensão que ultrapassou o futebol. Foi uma oportunidade de mostrar ao mundo
uma África do Sul moderna, capaz de organizar um grande evento internacional e
de celebrar a diversidade cultural do país. Toda a Copa ficou muito associado à
ideia de festa popular, cor, música, dança e orgulho africano. Mesmo com
críticas a alguns aspetos organizativos e sociais, o Mundial de 2010 teve um
significado histórico profundo: pela primeira vez, África era palco central do
futebol mundial.
Nelson Mandela foi a
presença simbólica permanente, mesmo sem estar fisicamente muito presente
durante a competição. A sua ligação ao desporto como instrumento de
reconciliação nacional já vinha do Mundial de râguebi de 1995.
No Mundial de futebol
de 2010, Mandela representava a história recente da África do Sul matizada de
sofrimento, resistência, reconciliação e projeção internacional. A sua aparição
antes da final, ainda que breve, teve enorme carga emocional, consolidando o
desporto como linguagem comum num país complexo e desigual.
Porém, do que mais se lembram os espectadores internacionais é do som constante das vuvuzelas, as quais se tornaram a banda sonora da competição, que para muitos constituía um ruído excessivo, repetitivo e perturbador, enquanto para os torcedores sul-africanos as vuvuzelas eram expressão cultural, festa e participação popular, tornando-se símbolo perfeito daquele Mundial e sendo ao mesmo tempo autêntica, local e inesquecível.
A bola oficial, a
Jabulani, também foi uma das grandes protagonistas do Mundial, que vários
jogadores e goleiros criticaram pelo seu comportamento, considerando-a
demasiado imprevisível, sobretudo nos remates de longe e nas trajetórias
aéreas. A designação da bola significa algo próximo de “celebrar”, em idioma
zulu, e tinha intenção festiva, mas acabou associada a polêmica técnica, embora
tenha sido uma das bolas mais famosas da história das Copas.
Não obstante, a África
do Sul tornou-se a primeira seleção anfitriã a ser eliminada na fase de grupos,
embora tenha tido um momento simbólico no jogo inaugural em que Sophiwe
Tshabalala marcou um grande gol contra o México, o qual foi acompanhado por uma
celebração coletiva que ficou como uma das imagens mais bonitas da competição.
No entanto, a
eliminação não diminuiu o orgulho nacional, porque o significado do Mundial
para o país, pacificado por Nelson Mandela, ia muito além do resultado
desportivo.
A França viveu um dos
maiores colapsos internos da história dos Mundiais. A equipe já estava
fragilizada desde a fase de qualificação e na África do Sul tudo se desmoronou,
entre maus resultados, conflito de jogadores com a equipe técnica e até greve
dos jogadores a um treino.
A França foi eliminada
na fase de grupos, num ambiente de ‘escândalo’ nacional de país campeão em 1998
e finalista em 2006, mostrando divisão, indisciplina e perda de autoridade.
A Itália, campeã mundial em 2006, também caiu na fase de grupos: empatou com o Paraguai e a Nova Zelândia e perdeu com a Eslováquia em uma eliminação surpreendente e humilhante para uma seleção historicamente competitiva – e reforçando uma das marcas da Copa de 2010 com vários antigos campeões e favoritos chegando desgastados, envelhecidos ou sem renovação suficiente.
O Brasil, treinado por
Dunga, chegou ao Mundial com uma equipe mais pragmática do que exuberante
(Kaká, Robinho, Luís Fabian, Maicon, Daniel Alves, Lúcio, Juan, Júlio César e
Felipe Melo).
A equipe parecia forte
e competitiva, mas caiu de virada nas quartas de final contra os Países Baixos.
Felipe Melo foi expulso e tornou-se símbolo da desintegração emocional
brasileira naquele jogo, a qual mostrou a tensão existente entre pragmatismo e
identidade estética no futebol brasileiro.
O Gana foi a grande
esperança africana do torneio depois da eliminação precoce da África do Sul e
de outras seleções africanas, tendo atletas como Asamoah Gyan, Kevin-Prince Boateng,
André Ayew, Sulley Muntari e John Mensah. Chegar às quartas de final já era
histórico, mas o modo como a eliminação aconteceu tornou tudo mais dramático.
No último minuto da prorrogação, com o jogo empatado, Luiz Suárez impediu com a mão, sobre a linha de gol, um remate que daria provavelmente a vitória ao Gana e foi expulso.
O Gana teve a seu
favor a grande penalidade para fazer história e tornar-se a primeira seleção
africana a chegar às semifinais de um Mundial. Porém, Asanoah Gyan acertou na
trave, o jogo foi para pênaltis e o Uruguai venceu.
O episódio da infração
de Suárez é uma das grandes questões morais do futebol: infringiu
deliberadamente a regra, foi punido com expulsão e pênalti, mas a sua ação
salvou a equipe. Para os uruguaios, foi sacrifício competitivo; para muitos
africanos e observadores neutros, foi uma injustiça cruel.
Com isso o Uruguai fez
uma campanha notável, chegando às semifinais pela primeira vez em décadas. A
grande figura foi Diego Forlán, que simbolizou o renascimento do Uruguai no
palco mundial, marcando gols importantes e jogando um futebol de grande
qualidade técnica e de inteligência, tendo sido eleito Bola de Ouro da Copa.
No entanto vale
salientar, ainda, a peripécia da última e decisiva cobrança de pênaltis do
Uruguai, que coube ao botafoguense Loco Abreu, o qual assumia um papel de
veterania na sua equipe e entrou em campo na reta final de partidas
importantes, e foi assim que ficou consagrado no Mundial de 2010 depois de ter conquistado o Campeonato Carioca pelo Botafogo batendo um pênalti de
‘cavadinha’ e decidindo o título.
O mundo não soubera
dessa Gloriosa ‘cavadinha’ e Loco Abreu repetiu-a no lance decisivo para a
classificação do Uruguai às semifinais: ousado e reverente como sempre, Loco
Abreu caminhou tranquilamente até à marca dos 11 metros, bateu a ‘cavadinha’
pelo alto ao centro da baliza, enquanto o goleiro pulou para o lado – e Loco
Abreu alcançou a consagração absoluta!
Lugano, o goleiro
uruguaio, que conhecia bem Loco Abreu, temeu que o craque repetisse a sua famosa
‘cavadinha’ e comentou mais tarde: – “Não queríamos acreditar que ele fosse
jogar todo o prestígio da vida dele, da história, e o nosso, arriscando uma
cavadinha, não é?”
Mas aquele era o verdadeiro Loco Abreu, ousado, corajoso, imprevisível e sabendo com clareza que são os audazes aqueles que forjam as grandes conquistas.
A Alemanha foi uma das
equipes mais entusiasmantes do torneio. Tinha uma geração jovem e dinâmica, como
Müller, Özil, Khedira, Schweinsteiger, Lahm, Neuer, Podolski e Klose.
Nas oitavas de final a
Alemanha goleou a Inglaterra por 4x1, mas o jogo ficou marcado por um erro
clamoroso de arbitragem. Com o resultado favorável aos alemães, Frank Lampard
rematou à trave, a bola entrou claramente na baliza, mas o árbitro não validou
o gol, reacendendo o debate sobre a necessidade de tecnologia na linha de gol.
Simbolicamente foi a
inversão histórica do gol de Geoff Hurst na final de 1966 entre Inglaterra e
Alemanha, que bateu na trave, não entrou na baliza e foi validado.
Embora a Alemanha
tenha perdido depois com a Espanha nas semifinais, o seu futebol de transições
rápidas, organização e eficácia ofensiva prenunciava a vitória que obteve na
final do Mundial seguinte, em 2014.
A Argentina, que tinha
jogadores como Messi, Tévez, Higuaín, Di María, Mascherando e Verón, começou
bem a Copa, com entusiasmo e carisma, treinada por Diego Maradona, o que por si
só constituía uma carga simbólica enorme.
Porém, a equipe foi
goleada pela Alemanha por 4x0 nas quartas de final, evidenciando a fragilidade
tática da equipe. Maradona, figura mítica como jogador, não conseguiu
transformar o talento argentino num projeto coletivo suficientemente
equilibrado.
Mesmo Lionel Messi,
que já era uma grande figura do mundo do futebol, terminou a competição sem um
único gol marcado, não tendo influência decisiva e não reproduzindo na Seleção
argentina o poder que tinha no Barcelona.
A equipe espanhola conquistou o seu primeiro título mundial, vinda da conquista da Eurocopa em 2008, com uma geração fantástica composta por Casillas, Puyol, Piqué, Sergio Ramos, Xabi Alonso Busquets, Xavi, Iniesta, David Villa, Fernando Torres, e Fàbregas, entre outros.
A sua identidade
assentava na posse de bola, circulação curta, paciência, pressão após perda e
capacidade de desgastar o adversário. Esse estilo ficou associado ao ‘tiki-taka’,
através do qual a Espanha usava a posse como modo de controlar riscos,
organizar a equipe e limitar o adversário.
Curiosamente, na fase
de grupo, a Espanha foi derrotada pela Suíça por 1x0, constituindo um choque
para os espanhóis cuja Seleção era considerada uma das favoritas. Porém, a
equipe ajustou-se emocionalmente e competitivamente acabando por conquistar o
título.
Nas oitavas de final a Espanha eliminou Portugal por 1x0, com gol de David Villa. Portugal tinha uma
equipe defensivamente sólida, mas com dificuldades ofensivas. Cristiano Ronaldo
ainda estufou as redes, mas, tal como Messi, não foi decisivo para superar as
dificuldades da equipe.
Nas quartas de final a Espanha esteve perto de cair, mas venceu o Paraguai por 1x0, sofrendo muito.
O jogo teve uma sequência dramática de pênaltis: o Paraguai falhou, depois a
Espanha também teve um pênalti defendido. Mais tarde, David Villa marcou o gol
decisivo.
David Villa marcou
gols decisivos contra Honduras, Chile, Portugal e Paraguai, numa competição em
que a Espanha venceu vários jogos por margem mínima e Villa foi essencial.
Na semifinal a Espanha venceu a Alemanha por 1x0, com gol de cabeça de Puyol, após escanteio. Conhecida pelo jogo curto e técnico, a Espanha decidiu a semifinal com um gol de zagueiro num lance de bola parada. Puyol representava liderança, agressividade competitiva e compromisso coletivo e o seu gol abriu a porta à primeira final mundial da Espanha.
Na final contra os
Países Baixos, um dos momentos decisivos foi a defesa de Iker Casillas a Arjen
Robben. Robben apareceu isolado, com uma oportunidade clara para marcar, mas
Casillas conseguiu desviar a bola com o pé e manteve o jogo empatado. Essa
imagem ficou como uma das grandes fotografias invisíveis do título: antes do
gol de Iniesta, houve a intervenção decisiva de Casillas.
Os Países Baixos
chegavam à sua terceira final mundial, depois das derrotas de 1974 e 1978.
Procuravam finalmente conquistar o título que escapara à geração do ‘futebol
total’. Porém, a final foi tensa, dura e muito física. A entrada de Nigel de
Jong sobre Xabi Alonso, com o pé no peito, tornou-se uma das imagens mais
fortes do jogo e os Países Baixos foram muito criticados pela agressividade.
A Espanha resistiu,
manteve a sua identidade e acabou por vencer na prorrogação, com gol de Andrés
Iniesta aos 116 minutos, constituindo o momento clímax da Copa: Iniesta despiu
a camisa e mostrou uma mensagem em homenagem a Dani Jarque, antigo capitão do
Espanyol, falecido em 2009.
Esse gesto deu ao gol
uma dimensão humana e emocional. Não foi apenas o gol do título mundial
espanhol; foi também um momento de memória, amizade e respeito. Iniesta,
discreto, técnico e elegante, tornou-se o símbolo perfeito daquela Espanha:
talento sem exuberância excessiva, inteligência, serenidade e decisão no
momento crítico.
Os Países Baixos fizeram uma campanha forte, vencendo todos os jogos até à final, tendo jogadores como Sneijder, Robben, Van Persie, Kuyt, Van Bommel, De Jong e Stekelenburg. Porém, a imagem final foi ambígua, contrariando o futebol criativo historicamente associado ao país e ficando na memória uma equipe mais física, pragmática e, em alguns momentos, demasiado dura.
A derrota reforçou uma
das maiores simbologias que perduram até hoje no futebol mundial: é o país de
grandes equipes como a ‘Laranja Mecânica’, de magníficos jogadores como Cruyjff
e Sneijder e de finais perdidas.
Uma das peripécias
mais curiosas da Copa de 2010 foi o polvo Paul, o qual ficou famoso por
‘prever’ corretamente vários resultados, sobretudo os jogos da Alemanha. Antes
dos jogos eram colocadas duas caixas com comida e bandeiras das seleções. O
polvo escolhia uma delas, e essa escolha era interpretada como previsão. Embora
evidentemente sem valor científico, o polvo Paul simbolizou o lado lúdico,
supersticioso e pop da Copa do Mundo.
Em suma, foi o primeiro
Mundial realizado em África, marcou o primeiro título da Espanha na competição,
consagrou a geração do ‘tiki-taka’, ficou associada ao som das vuvuzelas, à
bola Jabulani, ao polvo Paul, ao drama do Gana contra o Uruguai, à queda
precoce de várias potências e à imagem inesquecível de Iniesta a marcar o gol
do título na final contra os Países Baixos.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Espanha 1x0
Países Baixos
» Gols: Iniesta, aos
116’
» Data: 11 de julho de
2010
» Local: Estádio
Soccer City, Joanesburgo (África do Sul)
» Público: 84.490
» Árbitro: Howard Webb
(Inglaterra)
» Disciplina: cartão
amarelo – Puyol, Sergio Ramos, Capdevila, Iniesta e Xavi (Espanha) e van
Persie, van Bommel, de Jong, van Bronckhorst, Heitinga, Robben, van der Wiel e
Mathijsen (Países Baixos); cartão vermelho – Heitinga (Países Baixos)
» Espanha: Iker
Casillas; Sergio Ramos, Gerard Piqué, Carles Puyol e Joan Capdevila; Sergio
Busquets, Xabi Alonso (Fàbregas), Xavi e Iniesta; Pedro (Jesús Navas) e David
Villa (Fernando Torres). Técnico: Vicente del Bosque.
» Países Baixos:
Maarten Stekelenburg; Gregory van der Wiel, John Heitinga, Joris Mathijsen e
Giovanni van Bronckhorst (Braafheid); Mark van Bommel, Nigel de Jong (Van der
Vaart) e Wesley Sneijder; Arjen Tobben, Dirk Kuyt (Elia) e Robin van Persie.
Técnico: Bert van Marwijk.
Fontes
principais: en.wikipedia.org; football-italia.net; maisfutebol.iol.pt;
www.britannica.com;
www.espn.com.br; www.fifa.com;
www.rsssf.org; www.theguardian.com.





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