por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, foi um Mundial de grande
densidade simbólica e vivido num ambiente muito particular após a reunificação
alemã, que se apresentou ao mundo como um país moderno, aberto, festivo e bem
organizado, tendo a competição ficado associada à expressão Sommermärchen, isto é, “conto de verão” em
alemão.
Para a Alemanha foi mais do que uma competição desportiva, constituindo um
momento de afirmação nacional após décadas em que a exibição pública de
símbolos nacionais era culturalmente sensível, devido ao peso histórico do
século XX. Em 2006, as bandeiras alemãs surgiram massivamente nas ruas, nas
praças, nos automóveis e nos estádios, num ambiente mais leve, popular e de
celebração.
A Alemanha não venceu a competição, conquistada pela Itália que comemorou o
tetracampeonato, mas saiu dele com uma imagem renovada.
O Brasil chegou ao Mundial de 2006 como campeão em título e com enorme
expectativa numa seleção que tinha nomes fortíssimos: Ronaldo, Ronaldinho
Gaúcho, Kaká, Adriano, Roberto Carlos, Cafu, Dida, Lúcio, Juan e Zé Roberto.
Falava-se muito no chamado ‘quadrado mágico’, com Ronaldinho, Kaká, Ronaldo
e Adriano, mas a equipe nunca encontrou um verdadeiro equilíbrio e o rendimento
coletivo ficou muito aquém do enorme talento individual.
O Brasil foi eliminado pela França nas quartas de final, com gol de Thierry
Henry, após assistência de Zidane, que se traduziu numa das grandes desilusões
da Copa e um dos momentos altos de Zidane em 2006.
Zidane dominou o ritmo do jogo, protegeu a bola, distribuiu, desequilibrou
e mostrou uma autoridade técnica impressionante. A assistência para o gol de
Henry nasceu de uma cobrança de falta na lateral.
Para muitos especialistas foi a última grande exibição ‘perfeita’ de Zidane
antes da final e simbolicamente teve um peso enorme nas expectativas criadas
porque o francês, que tinha arrasado o Brasil em 1998, tornou a ser decisivo
contra o mesmo adversário em 2006.
Apesar da eliminação brasileira, Ronaldo Nazário marcou em 2006 e tornou-se, na altura, o maior artilheiro da história dos Mundiais, ultrapassando o recorde de Gerd Müller. Foi uma marca individual importante, embora ofuscada pela eliminação e pela crítica ao rendimento físico da equipe brasileira.
No que respeita a Ronaldinho Gaúcho, chegou ao Mundial como melhor jogador
do mundo e grande estrela global, esperando-se que fosse, se não o melhor, um
dos maiores protagonistas da competição. Porém, o craque teve uma participação
discreta, sem o brilho demonstrado no Barcelona, e o seu desempenho ficou
marcado pela frustração, evidenciando que o futebol de clubes não se traduz
automaticamente no domínio de um Mundial.
A Argentina fez uma Copa muito interessante, contando com jogadores como
Riquelme, Crespo, Saviola, Mascherano, Heinze, Ayala, Tevez e o jovem Messi.
Na fase de grupos goleou a Sérvia e o Montenegro por 6x0. O gol de Esteban
Cambiasso, após uma longa combinação coletiva, foi um dos melhores do Mundial.
No entanto, a Argentina caiu nos quartas de final contra a Alemanha, nos
pênaltis, depois de empatar por 1x1. A substituição de Riquelme e a ausência de
Messi nos momentos finais foram muito discutidas.
A Copa de 2006 marcou a estreia de Lionel Messi em Campeonatos do Mundo,
ainda muito jovem. Entrou em campo contra a Sérvia e Montenegro, marcou um gol
e mostrou sinais do talento que viria a dominar o futebol mundial nos anos
seguintes.
A Espanha começou bem o Mundial e havia expectativa em torno de uma equipe
jovem e talentosa, com jogadores como Xavi, Xabi Alonso, Iniesta, Fenando Torres,
David Villa, Puyol e Casillas, porém foi eliminada pela França nas oitavas de
final. Esse jogo teve um simbolismo ‘geracional’: a Espanha jovem e promissora foi
vencida por uma França experiente, liderada por Zidane.
Poucos anos depois, essa geração espanhola transformaria o futebol europeu
e mundial, vencendo a Eurocopa 2008, o Mundial 2010 e a Eurocopa 2012.
A Ucrânia, liderada por Andriy Shevchenko, chegou às quartas de final na
sua primeira participação em Mundiais como país independente. A campanha
ucraniana teve peso simbólico nacional por ser uma seleção recente no palco
mundial a conseguir uma presença entre as oito melhores. Foi eliminada pela
Itália, mas deixou uma marca importante.
O Gana fez uma campanha muito positiva, passando a fase de grupos numa estreia em Mundiais, dispondo de jogadores como Michael Essien, Stephen Appiah, Sulley Muntari e Asamoah Gyan, tendo sido eliminado pelo Brasil nas oitavas de final, mas mostrou força física, organização e qualidade técnica, afirmando-se como uma das seleções africanas mais promissoras daquele ciclo.
A Argentina eliminou o México nas oitavas de final num jogo muito
equilibrado. O momento decisivo foi um grande gol de Maxi Rodríguez na
prorrogação: recebeu no peito e rematou de pé esquerdo, de fora da área. Foi um
dos gols mais bonitos do Mundial e simbolizou a capacidade argentina de
resolver jogos através da qualidade técnica individual.
Uma curiosidade estatística marcante foi a Suíça ter sido eliminada nas
oitavas de final sem sofrer qualquer gol no decorrer da competição. Mais
curioso ainda foi ter empatado 0x0 com a Ucrânia e perdido nos pênaltis,
falhando-os todos nesse desempate.
A Alemanha terminou em terceiro lugar, mas a sua campanha foi celebrada
como um ‘conto de verão’ e um renascimento.
A equipe de Jürgen Klinsmann tinha uma imagem mais jovem, ofensiva e
emocional do que algumas seleções alemãs anteriores, tendo jogadores como
Miroslav Klose, Lukas Podolski, Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger e Michael
Ballack.
O jogo inaugural, com vitória por 4x2 frente à Costa Rica, mostrou uma
Alemanha mais dinâmica e atacante. O país viveu intensamente a campanha, e
mesmo a derrota nas semifinais contra a Itália não apagou o sentimento
positivo.
A semifinal entre Alemanha x Itália, em Dortmund, foi um dos grandes jogos
do Mundial. O jogo estava empatado em 0x0 na prorrogação e parecia
encaminhar-se para os pênaltis, mas a Itália marcou dois gols nos minutos
finais da prorrogação, por Fabio Grosso e Alessandro Del Piero.
O gol de Grosso, após passe de Pirlo, foi um momento de grande beleza
futebolística, e a celebração emocionada de Grosso, correndo e gritando,
tornou-se uma das imagens icônicas do Mundial.
No caso de Portugal a Copa de 2006 foi muito importante porque a Seleção
chegou às semifinais, algo que não acontecia exatamente há 40 anos. A equipe de
Luiz Felipe Scolari tinha jogadores como Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Deco,
Maniche, Ricardo Carvalho, Miguel, Nuno valente, Costinha, Pauleta e Ricardo.
Foi uma campanha de afirmação internacional, na sequência da Eurocopa 2004,
e Portugal consolidou-se como uma seleção competitiva ao mais alto nível.
Um dos jogos mais polêmicos da história dos Mundiais foi Portugal x Países Baixos, nas oitavas de final. Os portugueses venceram por 1x0, com gol de Maniche, mas o jogo ficou marcado por enorme agressividade, muitas faltas, confrontos, cartões amarelos e expulsões.
Ficou conhecido como a ‘Batalha de Nuremberga’, tendo sido expulsos
Costinha e Deco, por Portugal, e Boulahrouz e Van Bronckhorst, pelos Países
Baixos. A imagem de Deco e Van Bronckhorst sentados lado a lado após terem sido
expulsos – colegas no Barcelona, adversários naquele jogo – tornou-se uma das
imagens curiosas da competição.
Nas quartas de final, Portugal eliminou a Inglaterra nos pênaltis. O jogo
terminou 0x0 e ficou marcado pela expulsão de Wayne Roney, após lance com
Ricardo Carvalho.
Nos pênaltis, o goleiro Ricardo foi decisivo, defendendo grandes
penalidades e confirmando a sua reputação nesse tipo de momento, já construída
na Eurocopa 2004. Portugal tornou a eliminar a Inglaterra numa grande
competição por pênaltis, reforçando uma narrativa de frustração inglesa e
resistência portuguesa.
A Copa também foi relevante para
Cristiano Ronaldo, tornando-se uma figura central, mas também polêmica. Após a
expulsão de Rooney no jogo Portugal x Inglaterra, Cristiano foi acusado por
parte da imprensa inglesa de ter pressionado o árbitro. A imagem do seu piscar
de olho depois do lance tornou-se muito comentada.
Esse episódio aumentou a tensão em torno da sua relação com o futebol
inglês, já que jogava no Manchester United, mas também marcou a sua passagem
definitiva para um patamar de grande visibilidade mundial.
A seleção italiana chegou ao Mundial num contexto interno muito complexo,
marcado pelo escândalo Calciopoli, que abalava o futebol italiano. Vários
clubes estavam sob investigação e o ambiente em torno da Serie A era pesado.
Essa circunstância tornou o título ainda mais simbólico: a seleção italiana
apresentou-se como uma equipe unida, defensivamente fortíssima, emocionalmente
resistente e capaz de transformar a crise em coesão competitiva.
A Itália de Marcello Lippi não dependia apenas de uma ‘estrela’, porque
tinha uma estrutura coletiva muito forte composta por Buffon, Cannavaro, Nesta,
Zambrotta, Pirlo, Gattuso, Totti, Del Piero, Inzaghi, Toni e Materazzi, entre
outros.
Fabio Cannavaro foi uma das grandes figuras do Mundial. Foi o capitão da
Itália e realizou um desempenho extraordinário baseado na sua liderança
defensiva, antecipação, leitura de jogo e autoridade.
Num Mundial em que a Itália sofreu muito poucos gols, Cannavaro tornou-se o símbolo máximo da defesa italiana e a sua performance foi tão valorizada que, nesse ano, acabou por conquistar a Bola de Ouro, algo raro para um defensor.
O grande goleiro Gianluigi Buffon também teve um Mundial notável,
transmitindo enorme segurança e sendo decisivo em momentos críticos.
A Itália construiu o título numa base defensiva muito forte, mas não se
tratava apenas de defender em bloco, porque efetivamente havia liderança,
experiência e controle emocional, representando Buffon essa serenidade.
Na final, embora a França tenha marcado cedo de pênalti, Buffon manteve a
equipe viva e fez uma defesa memorável a um cabeceamento de Zidane na
prorrogação.
Não obstante o desempenho italiano, a maior carga simbólica do Mundial de
2006 ocorreu pela negativa e ficou ligada a Zinedine Zidane.
Zidane tinha regressado à seleção francesa e anunciou que terminaria a
carreira depois do Mundial. O seu desempenho seguiu em crescendo na Copa depois
de uma fase de grupos difícil para a França, e Zidane elevou o nível nas
eliminatórias.
Contra a Espanha, marcou no final e confirmou que ainda podia decidir
grandes jogos; contra o Brasil, nas quartas de final, fez uma exibição
extraordinária; contra Portugal, na semifinal, marcou o pênalti que colocou a
França na final.
Parecia desenhada uma despedida perfeita: Zidane, no último jogo da
carreira, a conduzir a França a mais um título mundial. Todavia, a final
transformou a sua história numa tragédia desportiva.
Efetivamente, o momento que ficou mais famoso da Copa de 2006 foi a
cabeçada de Zidane em Marco Materazzi, no prorrogação da final.
Zidane e Materazzi trocaram palavras azedas; Materazzi provocou Zidane com
ofensas familiares, sobretudo à irmã dele. Eis que de repente Zidane voltou-se,
deu uma cabeçada no peito do defensor italiano e foi expulso. A imagem de
Zidane passando pela Taça do Mundo, no túnel de saída, sem lhe tocar, tornou-se
uma das mais simbólicas da história do futebol.
Esse episódio condensou várias dimensões: gênio e fragilidade, honra e
impulso, grandeza e queda. Zidane terminou a carreira não com a imagem da
consagração, mas com uma expulsão numa final mundial que a França perdeu nos
pênaltis. A cabeçada tornou-se mito, peripécia e símbolo ao mesmo tempo.
A final terminou 1x1 após prorrogação. Zidane marcou cedo, de pênalti, com
uma ‘cavadinha’ que embateu na trave e deslizou para o fundo das redes
italianas. Materazzi empatou de cabeça, após escanteio.
O jogo ficou marcado pela tensão, pela qualidade tática e pelo desgaste físico, e a expulsão de Zidane mudou o ambiente emocional da partida.
David Trezeguet, jogador da Juventus e campeão europeu pela França em 2000
contra a própria Itália, falhou o pênalti decisivo para os franceses, acertando
na trave, enquanto a Itália converteu todas as cobranças.
Marco Materazzi tornou-se a figura central da final. Fez o pênalti sobre
Malouda que permitiu o gol de Zidane, marcou o gol do empate, esteve envolvido
no episódio da cabeçada e converteu o seu pênalti no desempate final – num
lapso ínfimo de tempo passou de vilão a protagonista.
Foi uma personagem quase literária: culpado, redimido, provocador,
artilheiro e campeão. Talvez nenhum jogador tenha concentrado tantos
acontecimentos decisivos numa só final.
Em suma, foi um Mundial de transição em que Messi e Cristiano Ronaldo
começaram ganhando centralidade, enquanto Zidane, Figo, Ronaldo, Cafu e outras
figuras de uma geração anterior se aproximavam do final dos seus grandes ciclos
internacionais.
Foi, enfim, uma Copa do Mundo de grande densidade simbólica: marcou o
tetracampeonato da Itália erguendo-se acima da crise, a despedida amarga de
Zidane, a consolidação da Alemanha como país reunificado e moderno, a queda do
Brasil de Ronaldinho/Ronaldo, o retorno de Portugal entre as grandes seleções e
uma final que fica para sempre associada à cabeçada de Zidane em Materazzi.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Itália 1x1 França [5x3 nos pênaltis]
» Gols: Zidane, aos 7’ (pênalti) (França); Materazzi, aos
19’ (Itália)
» Disputa de pênaltis: Andrea Pirlo, Marco Materazzi,
Daniele de Rossi, Alessandro del Piero e Fabio Grosso (Itália); Sylvain
Wilford, Éric Abidal e Willy Sagnol, enquanto Buffon defendeu a cobrança de
David Trezeguet (França)
» Data: 9 de julho de 2006
» Local: Olympiastadion, em Berlim (Alemanha)
» Público: ~69.000 espectadores
» Árbitro: Horacio Elizondo (Argentina)
» Disciplina: cartão amarelo –
» Itália: Gianluigi Buffon; Gianluca Zambrotta, Fabio
Cannavaro, Marco Materazzi e Fabio Grosso; Mauro Camoranesi (Alessandro del
Piero), Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso e Simone Perrotta (Daniele de Rossi);
Francesco Totti (Vincenzo Iaquinta) e Luca Toni. Técnico: Marcello Lippi.
» França: Fabien Barthez; Willy Sagnol, Lilian Thuram,
William Gallas e Éric Abidal; Patrick Vieira (Alou Diarra) e Claude Makélélé;
Franck Ribéry (David Trezeguet), Zinedine Zidane e Florent Malouda; Thierry
Henry (Sylvan Wilford). Técnico: Raymond Domenech.
Fontes principais: en.wikipedia.org; football-italia.net; imortaisdofutebol.com; maisfutebol.iol.pt; www.reddit.com; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.






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