sábado, 4 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2006: entre a queda e a redenção de seleções e a transição para novos craques no palco mundial

Cartaz da Copa do Mundo de 2006. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, foi um Mundial de grande densidade simbólica e vivido num ambiente muito particular após a reunificação alemã, que se apresentou ao mundo como um país moderno, aberto, festivo e bem organizado, tendo a competição ficado associada à expressão Sommermärchen, isto é, “conto de verão” em alemão.

Para a Alemanha foi mais do que uma competição desportiva, constituindo um momento de afirmação nacional após décadas em que a exibição pública de símbolos nacionais era culturalmente sensível, devido ao peso histórico do século XX. Em 2006, as bandeiras alemãs surgiram massivamente nas ruas, nas praças, nos automóveis e nos estádios, num ambiente mais leve, popular e de celebração.

A Alemanha não venceu a competição, conquistada pela Itália que comemorou o tetracampeonato, mas saiu dele com uma imagem renovada.

O Brasil chegou ao Mundial de 2006 como campeão em título e com enorme expectativa numa seleção que tinha nomes fortíssimos: Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano, Roberto Carlos, Cafu, Dida, Lúcio, Juan e Zé Roberto.

Falava-se muito no chamado ‘quadrado mágico’, com Ronaldinho, Kaká, Ronaldo e Adriano, mas a equipe nunca encontrou um verdadeiro equilíbrio e o rendimento coletivo ficou muito aquém do enorme talento individual.

O Brasil foi eliminado pela França nas quartas de final, com gol de Thierry Henry, após assistência de Zidane, que se traduziu numa das grandes desilusões da Copa e um dos momentos altos de Zidane em 2006.

Zidane dominou o ritmo do jogo, protegeu a bola, distribuiu, desequilibrou e mostrou uma autoridade técnica impressionante. A assistência para o gol de Henry nasceu de uma cobrança de falta na lateral.

Para muitos especialistas foi a última grande exibição ‘perfeita’ de Zidane antes da final e simbolicamente teve um peso enorme nas expectativas criadas porque o francês, que tinha arrasado o Brasil em 1998, tornou a ser decisivo contra o mesmo adversário em 2006.

Apesar da eliminação brasileira, Ronaldo Nazário marcou em 2006 e tornou-se, na altura, o maior artilheiro da história dos Mundiais, ultrapassando o recorde de Gerd Müller. Foi uma marca individual importante, embora ofuscada pela eliminação e pela crítica ao rendimento físico da equipe brasileira.

Cannavaro, único defensor Bola de Ouro. Fonte: BR Football.

No que respeita a Ronaldinho Gaúcho, chegou ao Mundial como melhor jogador do mundo e grande estrela global, esperando-se que fosse, se não o melhor, um dos maiores protagonistas da competição. Porém, o craque teve uma participação discreta, sem o brilho demonstrado no Barcelona, e o seu desempenho ficou marcado pela frustração, evidenciando que o futebol de clubes não se traduz automaticamente no domínio de um Mundial.

A Argentina fez uma Copa muito interessante, contando com jogadores como Riquelme, Crespo, Saviola, Mascherano, Heinze, Ayala, Tevez e o jovem Messi.

Na fase de grupos goleou a Sérvia e o Montenegro por 6x0. O gol de Esteban Cambiasso, após uma longa combinação coletiva, foi um dos melhores do Mundial.

No entanto, a Argentina caiu nos quartas de final contra a Alemanha, nos pênaltis, depois de empatar por 1x1. A substituição de Riquelme e a ausência de Messi nos momentos finais foram muito discutidas.

A Copa de 2006 marcou a estreia de Lionel Messi em Campeonatos do Mundo, ainda muito jovem. Entrou em campo contra a Sérvia e Montenegro, marcou um gol e mostrou sinais do talento que viria a dominar o futebol mundial nos anos seguintes.

A Espanha começou bem o Mundial e havia expectativa em torno de uma equipe jovem e talentosa, com jogadores como Xavi, Xabi Alonso, Iniesta, Fenando Torres, David Villa, Puyol e Casillas, porém foi eliminada pela França nas oitavas de final. Esse jogo teve um simbolismo ‘geracional’: a Espanha jovem e promissora foi vencida por uma França experiente, liderada por Zidane.

Poucos anos depois, essa geração espanhola transformaria o futebol europeu e mundial, vencendo a Eurocopa 2008, o Mundial 2010 e a Eurocopa 2012.

A Ucrânia, liderada por Andriy Shevchenko, chegou às quartas de final na sua primeira participação em Mundiais como país independente. A campanha ucraniana teve peso simbólico nacional por ser uma seleção recente no palco mundial a conseguir uma presença entre as oito melhores. Foi eliminada pela Itália, mas deixou uma marca importante.

O Gana fez uma campanha muito positiva, passando a fase de grupos numa estreia em Mundiais, dispondo de jogadores como Michael Essien, Stephen Appiah, Sulley Muntari e Asamoah Gyan, tendo sido eliminado pelo Brasil nas oitavas de final, mas mostrou força física, organização e qualidade técnica, afirmando-se como uma das seleções africanas mais promissoras daquele ciclo.

Gol de Materazzi na final contra França. Fonte: Réplica IA.

A Argentina eliminou o México nas oitavas de final num jogo muito equilibrado. O momento decisivo foi um grande gol de Maxi Rodríguez na prorrogação: recebeu no peito e rematou de pé esquerdo, de fora da área. Foi um dos gols mais bonitos do Mundial e simbolizou a capacidade argentina de resolver jogos através da qualidade técnica individual.

Uma curiosidade estatística marcante foi a Suíça ter sido eliminada nas oitavas de final sem sofrer qualquer gol no decorrer da competição. Mais curioso ainda foi ter empatado 0x0 com a Ucrânia e perdido nos pênaltis, falhando-os todos nesse desempate.

A Alemanha terminou em terceiro lugar, mas a sua campanha foi celebrada como um ‘conto de verão’ e um renascimento.

A equipe de Jürgen Klinsmann tinha uma imagem mais jovem, ofensiva e emocional do que algumas seleções alemãs anteriores, tendo jogadores como Miroslav Klose, Lukas Podolski, Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger e Michael Ballack.

O jogo inaugural, com vitória por 4x2 frente à Costa Rica, mostrou uma Alemanha mais dinâmica e atacante. O país viveu intensamente a campanha, e mesmo a derrota nas semifinais contra a Itália não apagou o sentimento positivo.

A semifinal entre Alemanha x Itália, em Dortmund, foi um dos grandes jogos do Mundial. O jogo estava empatado em 0x0 na prorrogação e parecia encaminhar-se para os pênaltis, mas a Itália marcou dois gols nos minutos finais da prorrogação, por Fabio Grosso e Alessandro Del Piero.

O gol de Grosso, após passe de Pirlo, foi um momento de grande beleza futebolística, e a celebração emocionada de Grosso, correndo e gritando, tornou-se uma das imagens icônicas do Mundial.

No caso de Portugal a Copa de 2006 foi muito importante porque a Seleção chegou às semifinais, algo que não acontecia exatamente há 40 anos. A equipe de Luiz Felipe Scolari tinha jogadores como Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Deco, Maniche, Ricardo Carvalho, Miguel, Nuno valente, Costinha, Pauleta e Ricardo.

Foi uma campanha de afirmação internacional, na sequência da Eurocopa 2004, e Portugal consolidou-se como uma seleção competitiva ao mais alto nível.

Um dos jogos mais polêmicos da história dos Mundiais foi Portugal x Países Baixos, nas oitavas de final. Os portugueses venceram por 1x0, com gol de Maniche, mas o jogo ficou marcado por enorme agressividade, muitas faltas, confrontos, cartões amarelos e expulsões.

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, rivais ‘extraterrestres’ com maior permanência ininterrupta no topo do futebol mundial estrearam em jogos e artilharia de Copas do Mundo. Crédito: Elaboração IA.

Ficou conhecido como a ‘Batalha de Nuremberga’, tendo sido expulsos Costinha e Deco, por Portugal, e Boulahrouz e Van Bronckhorst, pelos Países Baixos. A imagem de Deco e Van Bronckhorst sentados lado a lado após terem sido expulsos – colegas no Barcelona, adversários naquele jogo – tornou-se uma das imagens curiosas da competição.

Nas quartas de final, Portugal eliminou a Inglaterra nos pênaltis. O jogo terminou 0x0 e ficou marcado pela expulsão de Wayne Roney, após lance com Ricardo Carvalho.

Nos pênaltis, o goleiro Ricardo foi decisivo, defendendo grandes penalidades e confirmando a sua reputação nesse tipo de momento, já construída na Eurocopa 2004. Portugal tornou a eliminar a Inglaterra numa grande competição por pênaltis, reforçando uma narrativa de frustração inglesa e resistência portuguesa.

A Copa também foi  relevante para Cristiano Ronaldo, tornando-se uma figura central, mas também polêmica. Após a expulsão de Rooney no jogo Portugal x Inglaterra, Cristiano foi acusado por parte da imprensa inglesa de ter pressionado o árbitro. A imagem do seu piscar de olho depois do lance tornou-se muito comentada.

Esse episódio aumentou a tensão em torno da sua relação com o futebol inglês, já que jogava no Manchester United, mas também marcou a sua passagem definitiva para um patamar de grande visibilidade mundial.

A seleção italiana chegou ao Mundial num contexto interno muito complexo, marcado pelo escândalo Calciopoli, que abalava o futebol italiano. Vários clubes estavam sob investigação e o ambiente em torno da Serie A era pesado.

Essa circunstância tornou o título ainda mais simbólico: a seleção italiana apresentou-se como uma equipe unida, defensivamente fortíssima, emocionalmente resistente e capaz de transformar a crise em coesão competitiva.

A Itália de Marcello Lippi não dependia apenas de uma ‘estrela’, porque tinha uma estrutura coletiva muito forte composta por Buffon, Cannavaro, Nesta, Zambrotta, Pirlo, Gattuso, Totti, Del Piero, Inzaghi, Toni e Materazzi, entre outros.

Fabio Cannavaro foi uma das grandes figuras do Mundial. Foi o capitão da Itália e realizou um desempenho extraordinário baseado na sua liderança defensiva, antecipação, leitura de jogo e autoridade.

Num Mundial em que a Itália sofreu muito poucos gols, Cannavaro tornou-se o símbolo máximo da defesa italiana e a sua performance foi tão valorizada que, nesse ano, acabou por conquistar a Bola de Ouro, algo raro para um defensor.

Gianluigi Buffon, um colosso na baliza italiana. Fonte: imortaisdofutebol.com.

O grande goleiro Gianluigi Buffon também teve um Mundial notável, transmitindo enorme segurança e sendo decisivo em momentos críticos.

A Itália construiu o título numa base defensiva muito forte, mas não se tratava apenas de defender em bloco, porque efetivamente havia liderança, experiência e controle emocional, representando Buffon essa serenidade.

Na final, embora a França tenha marcado cedo de pênalti, Buffon manteve a equipe viva e fez uma defesa memorável a um cabeceamento de Zidane na prorrogação.

Não obstante o desempenho italiano, a maior carga simbólica do Mundial de 2006 ocorreu pela negativa e ficou ligada a Zinedine Zidane.

Zidane tinha regressado à seleção francesa e anunciou que terminaria a carreira depois do Mundial. O seu desempenho seguiu em crescendo na Copa depois de uma fase de grupos difícil para a França, e Zidane elevou o nível nas eliminatórias.

Contra a Espanha, marcou no final e confirmou que ainda podia decidir grandes jogos; contra o Brasil, nas quartas de final, fez uma exibição extraordinária; contra Portugal, na semifinal, marcou o pênalti que colocou a França na final.

Parecia desenhada uma despedida perfeita: Zidane, no último jogo da carreira, a conduzir a França a mais um título mundial. Todavia, a final transformou a sua história numa tragédia desportiva.

Efetivamente, o momento que ficou mais famoso da Copa de 2006 foi a cabeçada de Zidane em Marco Materazzi, no prorrogação da final.

Zidane e Materazzi trocaram palavras azedas; Materazzi provocou Zidane com ofensas familiares, sobretudo à irmã dele. Eis que de repente Zidane voltou-se, deu uma cabeçada no peito do defensor italiano e foi expulso. A imagem de Zidane passando pela Taça do Mundo, no túnel de saída, sem lhe tocar, tornou-se uma das mais simbólicas da história do futebol.

Esse episódio condensou várias dimensões: gênio e fragilidade, honra e impulso, grandeza e queda. Zidane terminou a carreira não com a imagem da consagração, mas com uma expulsão numa final mundial que a França perdeu nos pênaltis. A cabeçada tornou-se mito, peripécia e símbolo ao mesmo tempo.

A final terminou 1x1 após prorrogação. Zidane marcou cedo, de pênalti, com uma ‘cavadinha’ que embateu na trave e deslizou para o fundo das redes italianas. Materazzi empatou de cabeça, após escanteio.

O jogo ficou marcado pela tensão, pela qualidade tática e pelo desgaste físico, e a expulsão de Zidane mudou o ambiente emocional da partida.

A cabeçada de Zidane em Materazzi na despedida amarga do francês. Fonte: www.reddit.com.

David Trezeguet, jogador da Juventus e campeão europeu pela França em 2000 contra a própria Itália, falhou o pênalti decisivo para os franceses, acertando na trave, enquanto a Itália converteu todas as cobranças.

Marco Materazzi tornou-se a figura central da final. Fez o pênalti sobre Malouda que permitiu o gol de Zidane, marcou o gol do empate, esteve envolvido no episódio da cabeçada e converteu o seu pênalti no desempate final – num lapso ínfimo de tempo passou de vilão a protagonista.

Foi uma personagem quase literária: culpado, redimido, provocador, artilheiro e campeão. Talvez nenhum jogador tenha concentrado tantos acontecimentos decisivos numa só final.

Em suma, foi um Mundial de transição em que Messi e Cristiano Ronaldo começaram ganhando centralidade, enquanto Zidane, Figo, Ronaldo, Cafu e outras figuras de uma geração anterior se aproximavam do final dos seus grandes ciclos internacionais.

Foi, enfim, uma Copa do Mundo de grande densidade simbólica: marcou o tetracampeonato da Itália erguendo-se acima da crise, a despedida amarga de Zidane, a consolidação da Alemanha como país reunificado e moderno, a queda do Brasil de Ronaldinho/Ronaldo, o retorno de Portugal entre as grandes seleções e uma final que fica para sempre associada à cabeçada de Zidane em Materazzi.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 1x1 França [5x3 nos pênaltis]

» Gols: Zidane, aos 7’ (pênalti) (França); Materazzi, aos 19’ (Itália)

» Disputa de pênaltis: Andrea Pirlo, Marco Materazzi, Daniele de Rossi, Alessandro del Piero e Fabio Grosso (Itália); Sylvain Wilford, Éric Abidal e Willy Sagnol, enquanto Buffon defendeu a cobrança de David Trezeguet (França)

» Data: 9 de julho de 2006

» Local: Olympiastadion, em Berlim (Alemanha)

» Público: ~69.000 espectadores

» Árbitro: Horacio Elizondo (Argentina)

» Disciplina: cartão amarelo –

» Itália: Gianluigi Buffon; Gianluca Zambrotta, Fabio Cannavaro, Marco Materazzi e Fabio Grosso; Mauro Camoranesi (Alessandro del Piero), Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso e Simone Perrotta (Daniele de Rossi); Francesco Totti (Vincenzo Iaquinta) e Luca Toni. Técnico: Marcello Lippi.

» França: Fabien Barthez; Willy Sagnol, Lilian Thuram, William Gallas e Éric Abidal; Patrick Vieira (Alou Diarra) e Claude Makélélé; Franck Ribéry (David Trezeguet), Zinedine Zidane e Florent Malouda; Thierry Henry (Sylvan Wilford). Técnico: Raymond Domenech.

Fontes principais: en.wikipedia.org; football-italia.net; imortaisdofutebol.com; maisfutebol.iol.pt; www.reddit.com; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.

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